{"id":10041,"date":"2023-04-17T13:38:09","date_gmt":"2023-04-17T11:38:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=10041"},"modified":"2023-04-17T13:38:09","modified_gmt":"2023-04-17T11:38:09","slug":"a-familia-escrava-em-bourbon","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/condicao-e-vida-quotidiana-do-escravo\/a-familia-escrava-em-bourbon\/","title":{"rendered":"A fam\u00edlia escrava em Bourbon"},"content":{"rendered":"<h2>O per\u00edodo hist\u00f3rico desde o in\u00edcio do povoamento at\u00e9 \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1848 na Ilha Bourbon foi permanentemente marcado pela problem\u00e1tica da forma\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias escravas, bem como pelos respetivos funcionamento e papel desempenhado.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-10041-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Poster_Gerard.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/G\u00e9rard_PT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/G\u00e9rard_PT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/G\u00e9rard_PT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Esse facto tornou-se evidente a partir do final do s\u00e9culo XVII, atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o do nome original do escravo trazido para a ilha, ao qual se atribuiu um novo nome por meio do batismo. Esta nega\u00e7\u00e3o da identidade dos escravos e da sua inscri\u00e7\u00e3o na ancestralidade e na parentalidade caracterizava as pr\u00e1ticas dos poderes coloniais e seria sistem\u00e1tica durante o tr\u00e1fico de escravos, inicialmente legal e, mais tarde, ilegal.<\/p>\n<p>S\u00f3 em 1848, aquando da sua inser\u00e7\u00e3o nos registos de alforrias, com men\u00e7\u00e3o feita \u00e0 filia\u00e7\u00e3o e ascend\u00eancia, \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o familiar dos escravos foi reconhecida atrav\u00e9s da sua humanidade.<br \/>\nEm qualquer sociedade \u00e9 a estrutura familiar que est\u00e1 na base da organiza\u00e7\u00e3o social, assegurando a sua continuidade, e constituindo o vetor lingu\u00edstico e cultural permanente.<br \/>\nPor conseguinte, longe de minimizar o papel da fam\u00edlia escrava, \u00e9 importante compreender a sua forma\u00e7\u00e3o e o papel essencial que desempenhou como forma de oposi\u00e7\u00e3o, de resist\u00eancia, aos v\u00e1rios poderes pol\u00edticos, econ\u00f3micos e religiosos que a negaram, denegriram, desprezaram e muitas vezes ignoraram<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.19666539231960245\" aria-label=\"G\u00e9rard, Gilles. Famiy maron ou la famille esclave \u00e0 Bourbon (Famiy maron ou a fam\u00edlia escrava em Bourbon). L'Harmattan, Paris, 2012.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h4>Esse papel preponderante \u00e9 vis\u00edvel na criouliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao longo dos anos.<\/h4>\n<p>De facto, a popula\u00e7\u00e3o escrava crioula passou de apenas algumas unidades por volta de 1670 para quase 40 000 em 1848. Este fen\u00f3meno significa simplesmente que os escravos introduzidos na ilha tiveram descendentes e que, por sua vez, esses descendentes tamb\u00e9m os tiveram ao longo de quase 150 anos. Tal indica que durante a totalidade desse per\u00edodo existiu uma estrutura familiar que \u00e9 necess\u00e1rio definir.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do aborto, como em todas as sociedades humanas, foi oficialmente proibida; os ch\u00e1s de plantas medicinais e outras tisanas foram sem d\u00favida utilizados como meio de regula\u00e7\u00e3o, tanto por brancos como por escravos. Todavia, a pr\u00e1tica comum era assegurar a descend\u00eancia, caso contr\u00e1rio, como seria poss\u00edvel tornar-se um \u201cantepassado\u201d?<\/p>\n<p>Esta elevada propor\u00e7\u00e3o de escravos crioulos, pese embora o recurso ao tr\u00e1fico de escravos, oficialmente at\u00e9 1817, mas efetivamente at\u00e9 aos anos 1830, \u00e9 a prova do apego dos escravos \u00e0 no\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Excetuando os primeiros anos da Companhia das \u00cdndias, os senhores desconheciam a ascend\u00eancia dos escravos v\u00edtimas do tr\u00e1fico porque esse fator n\u00e3o lhes interessava. No entanto, at\u00e9 \u00e0 sua chegada a Bourbon, todos eles possu\u00edam antepassados, bem como um nome que muitas vezes os situava na parentalidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8117\" aria-describedby=\"caption-attachment-8117\" style=\"width: 932px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/ME-2012-78_18b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8117 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/ME-2012-78_18b.jpg\" alt=\"\" width=\"932\" height=\"585\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/ME-2012-78_18b.jpg 932w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/ME-2012-78_18b-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/ME-2012-78_18b-768x482.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8117\" class=\"wp-caption-text\">Grupo de cativos na aldeia de Mbane. Emile Bayard, desenhador; segundo o Dr. Livingstone. 1866. Estampa. <br \/>In <em>Explorations du Zamb\u00e8se et de ses affluents et d\u00e9couverte des lacs Chiroua et Nyassa: 1858-1864<\/em> (Explora\u00e7\u00f5es do Zambeze e respetivos afluentes e descoberta dos lagos Chiroua e Nyassa: 1858-1864) \/ por David e Charles Livingstone. Paris: L. Hachette et Cie, 1866.<br \/>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk<\/figcaption><\/figure>\n<p>A escravatura \u00e9 geralmente definida como a ant\u00edtese da parentalidade. O sistema e a ideologia esclavagistas baseiam-se na n\u00e3o parentalidade dos escravos, bem m\u00f3veis que carecem de uma identidade social e familiar. De acordo com C. Meillassoux<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8745861209678725\" aria-label=\" Meillassoux, Claude. Anthropologie de l\u2019esclavage (Antropologia da escravatura). Paris: PUF. 1986.\">&nbsp;<\/span>: \u201cAtrav\u00e9s da captura, ele foi arrancado da sua sociedade de origem e dessocializado. Devido \u00e0 forma como foi integrado na sociedade de acolhimento e aos la\u00e7os que tinha com os seus senhores, foi ent\u00e3o descivilizado e despersonalizado, at\u00e9 mesmo dessexualizado\u201d.<br \/>\nPara H. Gerbeau<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2219226162193646\" aria-label=\"Gerbeau, Hubert. Les esclaves noirs (Os escravos negros), 1970.\">&nbsp;<\/span>, a perda de identidade e de inscri\u00e7\u00e3o num grupo de filia\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente: \u201cAs m\u00e3es que s\u00e3o desenraizadas dos seus filhos perdem frequentemente o gosto pelos alimentos. O desenraizamento da aldeia nativa escava um po\u00e7o de solid\u00e3o no ventre onde os antepassados e os descendentes se afogam\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_561\" aria-describedby=\"caption-attachment-561\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/bandeau_devoir_de_memoire.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-561 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/bandeau_devoir_de_memoire.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1065\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/bandeau_devoir_de_memoire.jpg 1500w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/bandeau_devoir_de_memoire-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/bandeau_devoir_de_memoire-768x545.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/bandeau_devoir_de_memoire-1024x727.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-561\" class=\"wp-caption-text\">Tr\u00e1fico de escravos. John Raphael Smith, Gravador; segundo George Morland, Pintor. 1791. Gravura a cinzel. <br \/>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<h4>A nega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia escrava \u00e9 o resultado de textos, c\u00f3digos, leis e decretos que organizam o sistema no qual \u201co escravo n\u00e3o pode ser progenitor\u201d<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.00010258949920061156\" aria-label=\"G\u00e9rard, Gilles. La famille esclave \u00e0 Bourbon (A fam\u00edlia escrava em Bourbon). Tese em Hist\u00f3ria; Universidade da Reuni\u00e3o, 2011; volume 1, p.16.\">&nbsp;<\/span>.<\/h4>\n<p>Assim, nas Cartas Patentes de 1723, \u201c<em>Code Noir de Bourbon<\/em>\u201d (C\u00f3digo Negro de Bourbon), muitos artigos referem-se \u00e0 vida privada dos escravos, particularmente na sua dimens\u00e3o familiar. A raz\u00e3o para haver no C\u00f3digo tantos artigos relativos \u00e0 quest\u00e3o deve-se ao facto de os poderes da \u00e9poca estarem preocupados em controlar tudo o que pudesse permitir aos escravos passar do estado de \u201cpropriedade m\u00f3vel\u201d ao de \u201cpessoa humana\u201d. O artigo IV exclui os escravos da parentalidade: eles n\u00e3o s\u00e3o filhos ou filhas de algu\u00e9m. A autoridade dos pais naturais \u00e9 negada mesmo que, como no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, eles formem um casal reconhecido pelas autoridades religiosas. O Artigo VIII refere os filhos de escravos que pertencem ao senhor e sobre os quais os progenitores n\u00e3o t\u00eam qualquer legitimidade. Embora a m\u00e3e seja mencionada como estando vinculada \u00e0 crian\u00e7a at\u00e9 aos sete anos da mesma, n\u00e3o h\u00e1 qualquer refer\u00eancia ao pai. Durante mais de um s\u00e9culo, este regime foi aplicado aos escravos de Bourbon. O C\u00f3digo Decaen, em 1803, um avatar local do C\u00f3digo Civil de Napole\u00e3o, deu continuidade a esta abordagem<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_8148\" aria-describedby=\"caption-attachment-8148\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRM1069_1977.06.56b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-8148 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRM1069_1977.06.56b.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRM1069_1977.06.56b.jpg 500w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRM1069_1977.06.56b-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8148\" class=\"wp-caption-text\">[Mulatas e Negras crioulas]. Etienne Adolphe d&#8217;Hastrel de Rivedoux. 1847. Litografia. <br \/>Col. Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure><br \/>\nA separa\u00e7\u00e3o dos membros da fam\u00edlia escrava era a regra, por vezes por ocasi\u00e3o de vendas, mas sobretudo aquando de eventos ocorridos na fam\u00edlia do senhor (mortes, casamentos, heran\u00e7as e partilhas). Os documentos notariais relacionados com esses acontecimentos s\u00e3o uma das fontes que nos permitem afirmar que apesar da nega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia escrava, muitos senhores estavam conscientes da sua realidade e por vezes organizavam a sua sucess\u00e3o tendo em conta os la\u00e7os familiares dos escravos.<br \/>\nEntre as nega\u00e7\u00f5es da humanidade dos escravos, M. P\u00e9rina<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9468475679457409\" aria-label=\"P\u00e9rina, Micka\u00eblla. \u201cTerres d'esclavages, soci\u00e9t\u00e9 de plantation, de la race comme marqueur social\u201d in D\u00e9raison, esclavage et droit, les fondements id\u00e9ologiques et juridiques de la Traite n\u00e9gri\u00e8re et de l'esclavage (Terras de escravaturas, sociedade de planta\u00e7\u00e3o, a ra\u00e7a como marcador social em Contrassenso, escravatura e direito, os fundamentos ideol\u00f3gicos e jur\u00eddicos do Tr\u00e1fico negreiro e da escravatura), UNESCO, 2002.\">&nbsp;<\/span> assinala o direito de fundar uma fam\u00edlia:<\/p>\n<blockquote><p>n\u00e3o existe para os escravos nem nascimento, nem casamento, nem morte [\u2026] Para ser exato, tudo decorre como se n\u00e3o houvesse, ou devesse haver, nascimento, casamento ou morte do escravo. Pois isto \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do que claramente existe, apesar de tudo, no universo esclavagista.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 1735, 30% dos escravos haviam nascido na ilha sendo, na maioria dos casos, poss\u00edvel identificar ambos os progenitores. A planta\u00e7\u00e3o especulativa de caf\u00e9 nessa altura, e consequente recurso maci\u00e7o ao tr\u00e1fico de escravos, resultou na perda total da identidade dos mesmos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8135\" aria-describedby=\"caption-attachment-8135\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/tobesoldV.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-8135 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/tobesoldV-e1648794213570.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8135\" class=\"wp-caption-text\">\u201cAn\u00fancio de venda de africanos rec\u00e9m-chegados, Charleston, 24 de julho de 1769\u201d,<br \/>Slavery Images: A Visual Record of the African Slave Trade and Slave Life in the Early African Diaspora<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante as primeiras d\u00e9cadas de coloniza\u00e7\u00e3o, as uni\u00f5es religiosas eram numerosas e os certificados de batismo mencionavam regularmente a m\u00e3e e, muitas vezes, o pai. Na mesma \u00e9poca, a desumaniza\u00e7\u00e3o dos escravos caracterizava-se pela obriga\u00e7\u00e3o de os \u201cdesbatizar\u201d e rebatizar de acordo com os crit\u00e9rios da religi\u00e3o cat\u00f3lica.<br \/>\nEmbora reconhecidas, estas uni\u00f5es n\u00e3o davam azo ao reconhecimento da autoridade dos pais sobre as crian\u00e7as, que permaneciam propriedade dos senhores, e a proibi\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as pubescentes dos seus progenitores foi geralmente respeitada at\u00e9 \u00e0 idade de 7-8 anos.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo entre a Revolu\u00e7\u00e3o e a Restaura\u00e7\u00e3o, as fontes de registos de nascimentos, casamentos e mortes da popula\u00e7\u00e3o escrava ou eram inexistentes ou muito incompletas, pelo que se torna mais dif\u00edcil precisar a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias escravas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8120\" aria-describedby=\"caption-attachment-8120\" style=\"width: 983px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/mariageesclaves1843.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8120 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/mariageesclaves1843.jpg\" alt=\"\" width=\"983\" height=\"277\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/mariageesclaves1843.jpg 983w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/mariageesclaves1843-300x85.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/mariageesclaves1843-768x216.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8120\" class=\"wp-caption-text\">Um dos poucos casamentos de escravos com reconhecimento de crian\u00e7as 1843. Manuscrito.<br \/>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, 2 GG 102<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 portanto mais f\u00e1cil compreender a situa\u00e7\u00e3o dos antigos escravos, os que haviam sido alforriados pelos seus senhores e que eram conhecidos como Livres de Cor, observando-se o mesmo fen\u00f3meno de estrutura\u00e7\u00e3o familiar anterior \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o, bem como a mesma quantidade consider\u00e1vel de filhos. Um estudo dos autos de alforria deste per\u00edodo revela o grande n\u00famero de ex-escravos que emanciparam os filhos, o pai, a m\u00e3e, os av\u00f3s, os tios ou os sobrinhos e at\u00e9 membros da fam\u00edlia espiritual, afilhados ou madrinhas.<\/p>\n<h4>A partir de 1848, a realidade incontorn\u00e1vel destas fam\u00edlias \u201cMaron\u201d veio \u00e0 tona atrav\u00e9s das uni\u00f5es que tiveram lugar ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e consequente reconhecimento dos filhos.<\/h4>\n<p>A obten\u00e7\u00e3o da cidadania pelos rec\u00e9m-libertados resultou principalmente na legaliza\u00e7\u00e3o de uni\u00f5es antigas e, por vezes, na perfilha\u00e7\u00e3o pelo pai de filhos cuja m\u00e3e havia falecido antes de 1848.<br \/>\nPor exemplo, em St Leu, em 1849, dois crioulos nos seus setenta anos, mencionando os seus antepassados, casaram-se e perfilharam cinco filhos com idades compreendidas entre os 25 e os 40 anos. Uma hora ap\u00f3s a uni\u00e3o do casal, um dos filhos casou-se, reconhecendo pela mesma ocasi\u00e3o tr\u00eas filhos com idades compreendidas entre os 3 e os 15 anos, nascidos sob a escravatura. Quatro gera\u00e7\u00f5es de escravos surgem, assim, nestes autos.<br \/>\nEntre 1849 e 1860, foram registados milhares de casamentos, resultando no reconhecimento de milhares de filhos, todos eles testemunhos de que havia uma vida familiar antes de 1848 que, naturalmente, assumia diversas formas. A coabita\u00e7\u00e3o estava longe de ser a regra e a prova reside nos in\u00fameros reagrupamentos familiares cujo lugar de resid\u00eancia declarado era o do contratador, quer do pai quer da m\u00e3e.<br \/>\nGlobalmente, o n\u00famero de pessoas que viviam em fam\u00edlias unidas religiosamente antes de 1848 ascende a 50 000, ou seja, mais de 75% dos escravos.<br \/>\nEste valor, embora corresponda aproximadamente ao dos escravos crioulos, inclui tamb\u00e9m muitos n\u00e3o-nativos: cafres, malgaxes, indianos e malaios encontram-se entre os progenitores que viveram em estrutura familiar.<br \/>\nNeste sentido, as mulheres malaias, africanas e malgaxes estavam, na sua maioria, integradas numa estrutura familiar. No caso dos homens, devido ao desequil\u00edbrio na propor\u00e7\u00e3o entre os sexos (60% dos homens para 40% das mulheres em 1848), o n\u00famero de escravos n\u00e3o-nativos na mesma situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante inferior.<\/p>\n<p>A reconstitui\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias escravas permite compreender as formas de organiza\u00e7\u00e3o familiar presentes na \u00e9poca da escravatura. Conclui-se que as estruturas existentes nos pa\u00edses de origem n\u00e3o puderam ser mantidas, por um lado, devido \u00e0s alian\u00e7as predominantemente ex\u00f3genas a n\u00edvel \u00e9tnico, mas tamb\u00e9m devido \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social inerente \u00e0 escravatura.<br \/>\nAl\u00e9m disso, havia v\u00e1rios tipos de fam\u00edlias, consoante a propriedade, o n\u00famero de escravos e as estrat\u00e9gias econ\u00f3micas dos senhores. Por vezes, as fam\u00edlias residiam na mesma propriedade e agrupavam tr\u00eas ou quatro gera\u00e7\u00f5es. Os pais eram frequentemente identific\u00e1veis. Noutros casos, a dispers\u00e3o dos membros da fam\u00edlia era a noma. Frequentemente, o homem, o pai ou o c\u00f4njuge, residia noutra propriedade pertencente \u00e0 mesma fam\u00edlia de senhores.<\/p>\n<p>Os movimentos de escravos, ainda que regidos por uma codifica\u00e7\u00e3o rigorosa, eram frequentes entre essas propriedades. Testemunhos de padres ou representantes do poder civil e econ\u00f3mico indicam a toler\u00e2ncia dos senhores para com as atividades noturnas dos seus escravos que, uma vez terminado o dia de trabalho, n\u00e3o hesitavam em percorrer longas dist\u00e2ncias para encontrar uma pessoa que lhes era pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Nos grandes latif\u00fandios, as alian\u00e7as efetuavam-se ami\u00fade entre escravos do mesmo senhor. Por exemplo, na propriedade dos Desbassayns, em Saint-Paul, ou na de Sicre de Fontbrune, em Sainte-Suzanne, \u00e9 poss\u00edvel reconstituir \u201cdinastias\u201d de escravos durante quase todo o per\u00edodo da escravatura.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8123\" aria-describedby=\"caption-attachment-8123\" style=\"width: 827px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/SicreFontbruneStesuzanne.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8123 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/SicreFontbruneStesuzanne.jpg\" alt=\"\" width=\"827\" height=\"655\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/SicreFontbruneStesuzanne.jpg 827w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/SicreFontbruneStesuzanne-300x238.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/SicreFontbruneStesuzanne-768x608.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8123\" class=\"wp-caption-text\">Censo de 1848, Sicre de Fontbrune, Sainte-Suzanne. Manuscrito. <br \/>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, 6 M<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nas propriedades desses senhores, a popula\u00e7\u00e3o crioula era dominante, gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a significativa de crian\u00e7as. Importa salientar que n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios em Bourbon de uma \u201cquinta de cria\u00e7\u00e3o\u201d de escravos, como foi o caso nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A demografia dos escravos caracteriza-se por uma fertilidade elevada e precoce entre as mulheres. A maternidade antes dos 10 anos de idade era excecional, por\u00e9m a idade da m\u00e3e aquando do nascimento do primeiro filho situava-se frequentemente entre os 12 e os 15 anos. A elevada taxa de mortalidade infantil, que afetava principalmente a popula\u00e7\u00e3o escrava, mas tamb\u00e9m, em menor grau, a popula\u00e7\u00e3o livre, resultava numa baixa taxa de crescimento natural, ainda que estes termos n\u00e3o sejam realmente relevantes numa ilha permanentemente povoada pela chegada de novos escravos. Uma vez que a esperan\u00e7a de vida era limitada, as configura\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias de escravos assumiam formas particulares.<br \/>\nA frequente morte de um dos membros do casal dava azo por vezes ao reconhecimento de filhos n\u00e3o-biol\u00f3gicos ou nascidos de novas uni\u00f5es , de modo semelhante \u00e0quilo a que hoje chamamos fam\u00edlias mistas. Isto \u00e9 v\u00e1lido tanto para o per\u00edodo da escravatura como para os anos ap\u00f3s 1848.<\/p>\n<p>S\u00e3o raras as fontes fi\u00e1veis sobre a vida quotidiana das fam\u00edlias escravas. H\u00e1 muitas varia\u00e7\u00f5es: vivendo juntos ou separadamente, hor\u00e1rios das refei\u00e7\u00f5es de acordo com as exig\u00eancias do trabalho e das tarefas dom\u00e9sticas, cuidados a crian\u00e7as com menos de 7 anos de idade, quer a cargo da m\u00e3e em pequenas ou m\u00e9dias propriedades, quer de uma pessoa idosa em grandes propriedades.<\/p>\n<figure id=\"attachment_403\" aria-describedby=\"caption-attachment-403\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bandeau-frad974-21fi4-retour-de-travail-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-403 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bandeau-frad974-21fi4-retour-de-travail-web.jpg\" alt=\"Retour de travail. Pot\u00e9mont, Adolphe Martial. 1848. Archives D\u00e9partementales de La R\u00e9union\" width=\"840\" height=\"551\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bandeau-frad974-21fi4-retour-de-travail-web.jpg 840w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bandeau-frad974-21fi4-retour-de-travail-web-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bandeau-frad974-21fi4-retour-de-travail-web-768x504.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-403\" class=\"wp-caption-text\">Regresso do trabalho. Adolphe Martial Pot\u00e9mont. 1848. Litografia. <br \/>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por outro lado, a doen\u00e7a, a fome e a morte faziam parte da vida quotidiana das fam\u00edlias escravas. V\u00e1rios testemunhos atestam la\u00e7os familiares muito fortes no seio da popula\u00e7\u00e3o escrava.<br \/>\nNeste contexto, em 1844, o abade Liberman<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.49819251389021346\" aria-label=\"ANOM G. C456, d 5129. Cartas do Abade Lidermann ao Ministro. Bourbon, 22 de mar\u00e7o de 1844.\">&nbsp;<\/span>, declarou:\u201c\u00c9 muito raro que os negros n\u00e3o sejam fi\u00e9is \u00e0s suas mulheres; est\u00e3o muito atentos \u00e0 moralidade dos filhos e s\u00e3o respeitados e estimados.\u201d<br \/>\nDo mesmo modo, E. Vidal salienta que: \u201cO negro, mesmo na sua rudeza primitiva, tem muito respeito pelos pais e familiares; apega-se fielmente \u00e0 sua companheira, sem no entanto ser constrangido pelo jugo do casamento; ama os filhos com ternura encantadora.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.18771657249344864\" aria-label=\"Vidal E. Bourbon et l\u2019esclavage (Bourbon e a escravatura). Paris; Louis Hachette. 1847.\">&nbsp;<\/span> \u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_8126\" aria-describedby=\"caption-attachment-8126\" style=\"width: 912px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8126 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b.jpg\" alt=\"\" width=\"912\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b.jpg 912w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b-768x546.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8126\" class=\"wp-caption-text\">S\u00edtio nas proximidades de Rivi\u00e8re d&#8217;Abord. Jean-Baptiste Genevi\u00e8ve Marcellin Bory de Saint-Vincent, desenhador; segundo Jean-Joseph Patu de Rosemont, pintor; Fortier, gravador; Adam, gravador. 1804. Gravura a \u00e1gua-forte. In <em>Voyage dans les quatre principales \u00eeles des mers d&#8217;Afrique, fait par ordre du gouvernement, pendant les ann\u00e9es neuf et dix de la r\u00e9publique (1801 et 1802), avec l&#8217;Histoire de la travers\u00e9e du capitaine Baudin jusqu&#8217;au Port-Louis de l&#8217;\u00eele Maurice <\/em>(Viagem \u00e0s quatro ilhas principais dos mares de \u00c1frica, efetuado por ordem governo, durante os nono e d\u00e9cimo anos da rep\u00fablica (1801 e 1802), com a Hist\u00f3ria da travessia do capit\u00e3o Baudin at\u00e9 Port-Louis na Ilha Maur\u00edcia) \/ J.B.G.M. Bory de Saint-Vincent. Paris: F. Buisson, 1804, Volume 4. <br \/>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por outro lado, o conceito de fam\u00edlia escrava foi tamb\u00e9m alvo de in\u00fameras cr\u00edticas.<br \/>\nA t\u00edtulo de exemplo, a seguinte afirma\u00e7\u00e3o proferida por V. Schoelcher <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8376973392237865\" aria-label=\"Schoelcher Victor. Des colonies fran\u00e7aises. Abolition imm\u00e9diate de l\u2019esclavage (Col\u00f3nias francesas. Aboli\u00e7\u00e3o imediata da escravatura). 1842.\">&nbsp;<\/span>: \u201cA crian\u00e7a, uma esp\u00e9cie de cabe\u00e7a de gado dotado de fala, pode ser separada da fam\u00edlia a uma determinada idade, tal como o potro ou o bezerro.\u201d<br \/>\nEm 1841, durante os debates sobre a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, o procurador Barbaroux declarou que n\u00e3o havia qualquer problema:<br \/>\n\u201c em quebrar la\u00e7os familiares que, ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00e3o bem compreendidos pelos escravos.\u201d<br \/>\nUma das raz\u00f5es avan\u00e7adas pelos v\u00e1rios poderes para denegrir as formas de organiza\u00e7\u00e3o familiar dos escravos era a confus\u00e3o, etnoc\u00eantrica, entre casamento religioso e fam\u00edlia. Eles apontavam repetidamente para a avers\u00e3o dos escravos \u00e0s uni\u00f5es controladas pela Igreja e organizadas pelos senhores. Na sua opini\u00e3o, o concubinato era um crime contra o qual tinham o dever de lutar.<\/p>\n<p>Em 1842, Schoelcher declarou:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se deve concluir [&#8230;] que os negros das col\u00f3nias vivem em absoluta promiscuidade, sem leis nem ordem. Eles n\u00e3o contraem matrim\u00f3nio como os seus senhores, mas t\u00eam relacionamentos caracterizados pela fixidez das rela\u00e7\u00f5es conjugais, \u00e0s quais acrescem na maioria das vezes as obriga\u00e7\u00f5es do casamento.<\/p><\/blockquote>\n<p>As fontes relativas \u00e0 vis\u00e3o dos pr\u00f3prios escravos, no tocante \u00e0s rela\u00e7\u00f5es no seio da fam\u00edlia escrava, s\u00e3o muito raras. Os arquivos judici\u00e1rios fornecem alguns testemunhos, contudo apresentam uma natureza espec\u00edfica. Por conseguinte, \u00e9 dif\u00edcil estabelecer suposi\u00e7\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es entre casais ou entre pais e filhos. Os casos de viol\u00eancia contra as mulheres parecem ser raros. Assim, o ci\u00fame conduzia mais ao suic\u00eddio do que ao homic\u00eddio. As fugas de escravos, para encontrar um companheiro ou uma companheira eram frequentes. O furto de alimentos, a maioria das vezes para alimentar a fam\u00edlia do escravo, era tamb\u00e9m uma ocorr\u00eancia regular, refletindo a responsabilidade dos homens. A autoridade dos pais sobre os filhos era naturalmente oposta \u00e0 autoridade do senhor sobre todos os seus escravos. As situa\u00e7\u00f5es eram, indubitavelmente, diversas.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos ignorar aqueles que permaneceram sempre \u00e0 margem da fam\u00edlia escrava. Os exclu\u00eddos da parentalidade eram essencialmente homens, ami\u00fade africanos. H\u00e1 muitas raz\u00f5es para esta exclus\u00e3o. Em primeiro lugar, um desequil\u00edbrio na propor\u00e7\u00e3o entre os sexos, a escolha de mulheres n\u00e3o-nativas que eram em grande parte ex\u00f3genas em termos \u00e9tnicos e davam claramente prefer\u00eancia aos escravos crioulos. As v\u00edtimas do tr\u00e1fico de escravos eram as que mostravam mais dificuldades em ultrapassar a prova\u00e7\u00e3o da escravatura. A sua \u201cinvisibilidade\u201d reflete-se tamb\u00e9m no facto de terem sido identificadas na morte por um nome, sendo mesmo irrelevante o patron\u00edmico atribu\u00eddo.<\/p>\n<p>Um n\u00famero t\u00e3o elevado de fam\u00edlias escravas deve levantar quest\u00f5es sobre o significado destas estruturas.<br \/>\nA terminologia tradicional de fam\u00edlia nuclear ou alargada n\u00e3o se aplica. A fam\u00edlia completa tornar-se-ia nuclear ou polinuclear a partir de 1848, por\u00e9m a gest\u00e3o do patrim\u00f3nio subjacente ao conceito de fam\u00edlia nuclear ou alargada \u00e9, na Reuni\u00e3o, desprovida de sentido durante muito tempo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8152\" aria-describedby=\"caption-attachment-8152\" style=\"width: 847px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRAD974_21FI6-Le-barreau.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8152 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRAD974_21FI6-Le-barreau.jpg\" alt=\"\" width=\"847\" height=\"573\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRAD974_21FI6-Le-barreau.jpg 847w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRAD974_21FI6-Le-barreau-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FRAD974_21FI6-Le-barreau-768x520.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8152\" class=\"wp-caption-text\">A noite: a grade. Adolphe Martial Pot\u00e9mont. 1848. Litografia. <br \/>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O substrato sobre o qual foi constru\u00edda a sociedade da Reuni\u00e3o \u00e9 altamente complexo. A diversidade de formas de organiza\u00e7\u00e3o familiar, de escolha de alian\u00e7as, de fertilidade das mulheres e do n\u00famero de filhos que tiveram, mas tamb\u00e9m as diferentes vari\u00e1veis de organiza\u00e7\u00e3o das propriedades de acordo com a sua import\u00e2ncia ou as escolhas morais dos senhores, \u00e9 \u00f3bvia. N\u00e3o obstante estas vari\u00e1veis, a fam\u00edlia escrava \u00e9 real e incontorn\u00e1vel. N\u00e3o havia uma, mas v\u00e1rias fam\u00edlias escravas. Est\u00e9reis ou prol\u00edficas, monoparentais ou completas, agrupando duas, tr\u00eas ou quatro gera\u00e7\u00f5es, reunidas ou dispersas, reconhecidas ou escondidas, esta pluralidade de pr\u00e1ticas confirma a exist\u00eancia singular da fam\u00edlia escrava num sistema que, no entanto, a negava.<br \/>\nH\u00e1 quem tenha visto nestas formas de organiza\u00e7\u00e3o familiar um sinal de submiss\u00e3o aos senhores ao serem reconhecidas pela Igreja. Isto n\u00e3o pode ser exclu\u00eddo para um certo n\u00famero de escravos, por\u00e9m o perfilhamento de crian\u00e7as nascidas antes da uni\u00e3o religiosa, aprovado pelo senhor anteriormente a 1848 mas muitas vezes validado somente ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, mostra que, na maioria dos casos, se tratava apenas de um reconhecimento oficial, sem qualquer influ\u00eancia na constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Devemos, portanto, considerar outro significado. Tomando como exemplo a fam\u00edlia de Emilie, m\u00e3e de seis filhos em 1811, quatro dos quais foram decapitados, nomeadamente Elie, \u00e9 de notar que ela esteve presa durante v\u00e1rios meses, sendo por isso apresentada como um s\u00edmbolo de resist\u00eancia \u00e0 escravatura.<br \/>\nEstas dezenas de milhares de escravos que viveram dentro de estruturas familiares levam-nos a analisar o seu papel como uma das formas de resist\u00eancia \u00e0 escravatura, que foi certamente mais discreta do que o <em>marronnage<\/em> (fen\u00f3meno de fuga de escravos) ou a revolta, mas que permitiu aos escravos sobreviverem \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o e lan\u00e7arem os alicerces da sociedade crioula na Reuni\u00e3o. Se sobreviveram e deixaram descendentes, \u00e9 gra\u00e7as ao facto desses milhares de escravos terem resistido a fim de afirmarem a sua humanidade.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8113,"parent":5036,"menu_order":60,"template":"","class_list":["post-10041","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/10041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8113"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}