{"id":10060,"date":"2023-05-03T07:52:17","date_gmt":"2023-05-03T05:52:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=10060"},"modified":"2023-05-03T08:49:24","modified_gmt":"2023-05-03T06:49:24","slug":"transmissao-intergeracional-da-violencia-nas-relacoes-filiais-perspetivas-psicodinamicas-e-antropologicas-do-trauma-historico-da-escravatura-na-ilha-da-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/memorias\/transmissao-intergeracional-da-violencia-nas-relacoes-filiais-perspetivas-psicodinamicas-e-antropologicas-do-trauma-historico-da-escravatura-na-ilha-da-reuniao\/","title":{"rendered":"Transmiss\u00e3o intergeracional da viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es filiais. <br\/>Perspetivas psicodin\u00e2micas e antropol\u00f3gicas  do trauma hist\u00f3rico da escravatura na Ilha da Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h3><\/h3>\n<h2>Esta reflex\u00e3o e projeto de investiga\u00e7\u00e3o baseia-se nas observa\u00e7\u00f5es realizadas no terreno durante a nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica no \u00e2mbito de uma associa\u00e7\u00e3o, ao abrigo da lei de 1901, sedeada na ilha da Reuni\u00e3o e especializada na avalia\u00e7\u00e3o e no acompanhamento global de fam\u00edlias marcadas pela viol\u00eancia. Tendo em conta o problema de sa\u00fade p\u00fablica que esta popula\u00e7\u00e3o poder\u00e1 representar, vis\u00e1mos uma amostra de estudo composta por v\u00edtimas e perpetradores. A viol\u00eancia intrafamiliar \u00e9 uma prioridade de sa\u00fade, uma vez que acarreta graves consequ\u00eancias sanit\u00e1rias, psicol\u00f3gicas e socioecon\u00f3micas.<\/h2>\n<p>O problema da viol\u00eancia intrafamiliar suscitou-nos o interesse pela hist\u00f3ria da sociedade da Reuni\u00e3o desenvolvida ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos e meio e, mais especificamente, pelo trabalho de mem\u00f3ria em torno da escravatura; mem\u00f3ria essa que, do ponto de vista geneal\u00f3gico, parece truncada, perfurada, e baseada na viol\u00eancia, porventura, levando \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o dos traumas. Esta tese foi, portanto, justificada pela escassez de estudos realizados sobre o tema, em compara\u00e7\u00e3o com os estudos realizados nos Estados Unidos (Fohlen, 2007; DeGruy, 2004; Eyerman, 2001), nas Antilhas (Charles-Nicolas, 2018; Mulot, 2007; Ganem, 2012; Fanon, 1952) ou ainda na Am\u00e9rica Latina (Andrews, 2014). Na Reuni\u00e3o, alguns acad\u00e9micos (historiadores, antrop\u00f3logos, soci\u00f3logos etc.) que realizaram estudos sobre o tema da escravatura s\u00e3o da opini\u00e3o de que a mem\u00f3ria da escravatura continua a cingir-se a uma esp\u00e9cie de tradi\u00e7\u00e3o oral (Eve, 2015; Fuma, 2005; Ghasarian, 2002, Benoist, 2001; Honor\u00e9, 1994), mas sob o jugo de uma lei do sil\u00eancio e do peso da nega\u00e7\u00e3o (Eve, 2010; Hoarau, 2010; Reverzy, 2008; Verg\u00e8s, 2006; Gerbeau, 2005). A hist\u00f3ria oficial \u00e9 assim pontuada por in\u00fameras zonas cinzentas em consequ\u00eancia das pol\u00edticas departamentais do p\u00f3s-guerra que ter\u00e3o refor\u00e7ado a nega\u00e7\u00e3o de traumas potenciais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9481\" aria-describedby=\"caption-attachment-9481\" style=\"width: 1181px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1993-40-Pieta.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9481 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1993-40-Pieta.jpg\" alt=\"\" width=\"1181\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1993-40-Pieta.jpg 1181w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1993-40-Pieta-300x127.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1993-40-Pieta-768x325.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1993-40-Pieta-1024x434.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9481\" class=\"wp-caption-text\">Piet\u00e0. Wilhiam Zitte; Antoine Du Vignaux. 1992. Tinta acr\u00edlica, goni. <br \/>Col. Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"color: #333333;\">Al\u00e9m disso, a abordagem de investiga\u00e7\u00e3o que adot\u00e1mos \u00e9 original por incluir dois campos te\u00f3ricos distintos mas complementares, nomeadamente, a antropologia e a psicopatologia cl\u00ednica. Recordemos que a antropologia psicanal\u00edtica<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5133523002260467\" aria-label=\"A antropologia psicanal\u00edtica aplica a psican\u00e1lise ao estudo de factos etnogr\u00e1ficos e\/ou etnol\u00f3gicos, caracter\u00edsticos de um povo ou de uma cultura.\">&nbsp;<\/span> aborda o aspeto transgeracional pela transmiss\u00e3o de tra\u00e7os filogen\u00e9ticos, isto \u00e9, relativamente \u00e0 hist\u00f3ria evolutiva de uma esp\u00e9cie, que caracterizam a humanidade desde a sua origem e pesam sobre a fam\u00edlia atual. Dizem respeito \u00e0 lei, \u00e0s proibi\u00e7\u00f5es e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o unificadora da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da cultura na fam\u00edlia. Sob esta perspetiva, a minha orientadora de tese, Yolande Govindama, j\u00e1 colocava a hip\u00f3tese de \u00aba abordagem antropol\u00f3gica e hist\u00f3rica do sujeito e da fam\u00edlia permitir restaurar uma genealogia simb\u00f3lica que garante os tabus fundamentais da humanidade, evitando a rutura da transmiss\u00e3o\u00bb (Govindama, 2011).<\/span><\/p>\n<h3>Problem\u00e1tica<\/h3>\n<p>Poder\u00e1 a viol\u00eancia que hoje se manifesta em determinadas fam\u00edlias da Reuni\u00e3o ser uma caracter\u00edstica identificadora de uma filia\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica que se repete pelas gera\u00e7\u00f5es? Esta \u00e9 uma das hip\u00f3teses te\u00f3ricas colocadas neste trabalho de investiga\u00e7\u00e3o. A primeira pessoa a levantar a quest\u00e3o foi Franz Fanon (1952), na Martinica, no \u00e2mbito de uma abordagem associada \u00e0 sa\u00fade mental e retomada por autores como Aim\u00e9 Charles Nicolas (2018), que puseram em causa esta no\u00e7\u00e3o de trauma hist\u00f3rico e cujo trabalho deve atualmente ser desenvolvido tanto na rela\u00e7\u00e3o interpessoal como na psicopatologia que dela pode resultar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9461\" aria-describedby=\"caption-attachment-9461\" style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ce_qui_sert_a_vos_plaisirs_est_mouille_de_nos_larmes-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-9461 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ce_qui_sert_a_vos_plaisirs_est_mouille_de_nos_larmes-1-e1670306659194.jpg\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9461\" class=\"wp-caption-text\">Aquilo que serve os vossos prazeres \u00e9 molhado com as nossas l\u00e1grimas. <br \/>Jean Michel Moreau le Jeune, desenhador; Fran\u00e7ois Denis N\u00e9e, gravador. 1772. Estampa. <br \/>Em <em>Voyage \u00e0 l&#8217;Isle de France.<\/em>.., Bernardin de Saint-Pierre. Merlin, 1773, p. 199, pl. 4. <br \/>Col. Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante a fase explorat\u00f3ria deste trabalho de investiga\u00e7\u00e3o, tent\u00e1mos analisar o primeiro n\u00edvel de discurso dos sujeitos entrevistados, o que nos permitiu identificar os fatores que surgem, em grande medida, no contexto da viol\u00eancia dom\u00e9stica: antecedentes familiares fr\u00e1geis bem como um ambiente sens\u00edvel, pautado por perturba\u00e7\u00f5es de ansiedade e depress\u00e3o, de personalidade, psicossom\u00e1ticos, de apego, de toxicodepend\u00eancia e de stresse p\u00f3s-traum\u00e1tico que, em certos casos, degeneram em atos de agress\u00e3o contra o pr\u00f3prio ou contra outrem (suic\u00eddio, agress\u00e3o, crimes de sangue etc.).<\/p>\n<p>Como se poder\u00e1 ter em considera\u00e7\u00e3o esses fatores conhecidos e encontrar justifica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica para a repeti\u00e7\u00e3o que eles geram: como se poder\u00e1 compreender a aus\u00eancia de simboliza\u00e7\u00e3o manifesta? Este apelo constante do que, at\u00e9 agora, ficou por ouvir continua a cair no vazio, numa transmiss\u00e3o filial potencialmente traumatizada. Antes disso, por\u00e9m, h\u00e1 que definir o contexto sociocultural da Ilha da Reuni\u00e3o no per\u00edodo de 1663 a 1848 para ilustrar a sua base hist\u00f3rica e antropol\u00f3gica.<\/p>\n<h3>Mem\u00f3ria, cultura e transmiss\u00e3o<\/h3>\n<p>A sociedade da Reuni\u00e3o contempor\u00e2nea erigiu-se em torno de duas realidades opostas: a expans\u00e3o demogr\u00e1fica, econ\u00f3mica e tur\u00edstica que teve lugar desde a departamentaliza\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 1946 e o seu passado colonial, que inclui o per\u00edodo da escravatura do com\u00e9rcio triangular na origem do povoamento deste territ\u00f3rio ultramarino.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9379\" aria-describedby=\"caption-attachment-9379\" style=\"width: 796px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/SNR3-SENEFELDER-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9379 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/SNR3-SENEFELDER-1.jpg\" alt=\"\" width=\"796\" height=\"496\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/SNR3-SENEFELDER-1.jpg 796w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/SNR3-SENEFELDER-1-300x187.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/SNR3-SENEFELDER-1-768x479.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9379\" class=\"wp-caption-text\">Venda de Negros nas col\u00f3nias. Aloys Senefelder. S\u00e9culo XIX. Litografia. <br \/>Col. Biblioteca Nacional de Fran\u00e7a, Departamento de Estampas e Fotografia.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A sociedade reunionense \u00e9 hoje marcada por uma s\u00e9rie de mesti\u00e7agens. De facto, desde a sua constitui\u00e7\u00e3o, esta popula\u00e7\u00e3o viveu v\u00e1rias din\u00e2micas culturais inter-relacionadas. As suas v\u00e1rias componentes t\u00eam sido sujeitas, em diferentes medidas, a processos justapostos de assimila\u00e7\u00e3o, mesti\u00e7agem e reformula\u00e7\u00e3o cultural (Ghasarian, 2003). Tamb\u00e9m \u00e9 preciso ter em conta o sistema esclavagista arcaico ao servi\u00e7o do sistema capitalista europeu da \u00e9poca para compreender as origens totalmente importadas da popula\u00e7\u00e3o reunionense. Alguns historiadores descrevem a popula\u00e7\u00e3o escrava local como um h\u00edbrido da que existia noutras partes do mundo, nomeadamente, em compara\u00e7\u00e3o com as Antilhas francesas (derivante de uma popula\u00e7\u00e3o africana, mais pr\u00f3xima do modelo americano), assente na conflu\u00eancia de povos de v\u00e1rias origens (\u00c1frica, \u00cdndia, Madag\u00e1scar), todas associadas ao cultivo do algod\u00e3o e, mais tarde, do caf\u00e9, antes do da cana-de-a\u00e7\u00facar, que s\u00f3 foi ali introduzida em 1815 (Eve, 1992).<\/p>\n<p>Centrada na dicotomia senhor-escravo, a quest\u00e3o racial tornou-se arma de submiss\u00e3o no seio da col\u00f3nia: desterrados e afastados das suas fam\u00edlias, os Negros formaram assim uma massa servil, sem nomes nem pontos de refer\u00eancia. A instaura\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Negro em 1685 viria reger a rela\u00e7\u00e3o entre senhores e escravos cujo estatuto descrevia como homens, mulheres e crian\u00e7as se tornavam propriedade do colono propriet\u00e1rio, equiparados a um \u00ab<em>bem m\u00f3vel<\/em>\u00bb, sem direito a qualquer posse ou sal\u00e1rio nem \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o familiar, mas que recebiam alimenta\u00e7\u00e3o, alojamento e cuidados de sa\u00fade em troca do seu trabalho. A autoridade do senhor substitui assim a do homem, que \u00e9 desprovido de qualquer responsabilidade e do direito \u00e0 filia\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m daqui que surge, em parte, a viol\u00eancia e a interioriza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9371\" aria-describedby=\"caption-attachment-9371\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1974-001-DJ-_le_chatiment_des_4_piquets.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9371 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1974-001-DJ-_le_chatiment_des_4_piquets.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1974-001-DJ-_le_chatiment_des_4_piquets.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1974-001-DJ-_le_chatiment_des_4_piquets-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1974-001-DJ-_le_chatiment_des_4_piquets-768x540.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9371\" class=\"wp-caption-text\">Puni\u00e7\u00e3o das quatro estacas nas col\u00f3nias. Marcel Antoine Verdier. 1843. \u00d3leo sobre tela. <br \/>The Menil Foundation Collection, Houston (Texas, EUA)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao autorizar o terror, a tortura, os crimes de sangue e o sacrif\u00edcio, o C\u00f3digo Napole\u00f3nico de 1804 permitiu instaurar uma forma de terrorismo que visava fazer abortar qualquer tentativa de revolta e manter a ordem na col\u00f3nia. A autoridade do senhor era absoluta e desprovia o escravo da sua humanidade, tornando-se o C\u00f3digo Negro o s\u00edmbolo da nega\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. As puni\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m passariam a ser p\u00fablicas, \u00e0 vista de todos, e acompanhadas de uma inscri\u00e7\u00e3o na carne e no corpo dos punidos como forma de transmiss\u00e3o e para cultivar a vergonha (Eve, 2010). Nos seus trabalhos, os historiadores descrevem a emerg\u00eancia de dois conflitos internos no indiv\u00edduo escravizado que transparecem nos testemunhos relatados (Eve, 2010; Fuma, 1992; Gerbeau, 2005, CIHOI-CRESOI, 2018): um \u00abeu escravo\u00bb confrontado com a submiss\u00e3o ao senhor e um \u00abeu senhor\u00bb (de si pr\u00f3prio) com a capacidade de imitar a domina\u00e7\u00e3o exercida sobre si que gerava comportamentos de revolta, <em>marronage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2597585354785028\" aria-label=\"Fuga de um escravo\">&nbsp;<\/span>, e, por vezes, at\u00e9, o suic\u00eddio como ato libertador.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9391\" aria-describedby=\"caption-attachment-9391\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CFAc248.9.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9391 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CFAc248.9.jpg\" alt=\"\" width=\"710\" height=\"494\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CFAc248.9.jpg 710w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CFAc248.9-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 710px) 100vw, 710px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9391\" class=\"wp-caption-text\">Sal\u00e3o de 1861: A Ca\u00e7a aos Escravos Fugitivos. Biard. S\u00e9culo XIX. Imprimir. <br \/>Col. Museu Franco-Americano do Ch\u00e2teau de Bl\u00e9rancourt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Desde a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, o trabalho contratado<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4203867576734974\" aria-label=\"A aboli\u00e7\u00e3o gradual do com\u00e9rcio de escravos e da escravatura nas col\u00f3nias europeias levou as autoridades a contratar trabalhadores estrangeiros na \u00c1sia e em \u00c1frica para satisfazer as necessidades de m\u00e3o de obra das col\u00f3nias. Muitas vezes comparado com o tr\u00e1fico de escravos, este sistema cujos abusos eram vis\u00edveis esmoreceu gradualmente na v\u00e9spera da Primeira Guerra Mundial.\">&nbsp;<\/span>e, depois, a vontade de moderniza\u00e7\u00e3o iniciada pelo projeto de departamentaliza\u00e7\u00e3o de 1946 (uma forma original de descoloniza\u00e7\u00e3o), a estrutura da sociedade reunionense pouco evoluiu. As teorias hist\u00f3ricas sobre a mem\u00f3ria da escravatura fornecem algumas pistas para compreender a sociedade atual e os comportamentos, atitudes ou experi\u00eancias di\u00e1rias dos respetivos indiv\u00edduos, esclarecendo a forma como o processo se foi gradualmente arraigando. Existiria, assim, uma certa l\u00f3gica interna na reprodu\u00e7\u00e3o do modelo. Al\u00e9m disso, esta aus\u00eancia da narrativa das origens necess\u00e1ria para a formaliza\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de simboliza\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e o social, o privado e o \u00edntimo, o coletivo e o p\u00fablico (Anne Muxel, 1995, 1996) desempenharia um papel fundamental na mem\u00f3ria familiar, impedindo uma articula\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o conjunta entre a identidade individual e a do grupo pela transmiss\u00e3o, regenera\u00e7\u00e3o do passado e consciencializa\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3ria e tempo percorridos.<\/p>\n<h3>An\u00e1lise e perspetiva\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Como podemos perceber e abordar estas din\u00e2micas familiares complexas em que a viol\u00eancia parece ser transmitida transversalmente de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o? De onde parte essa viol\u00eancia? O que nos diz sobre o passado? Ou, pelo contr\u00e1rio, o que n\u00e3o foi suficientemente dito ou foi negado?<\/p>\n<p>A abordagem antropol\u00f3gica psicanal\u00edtica pretende centrar-se na fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da cultura na estrutura\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social intrafamiliar e intergeracional, tal como a entendem Mauss (1923) e L\u00e9vi-Strauss (1950) na sua introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Mauss. N\u00e3o ter\u00e1 a viol\u00eancia ocupado o lugar da acultura\u00e7\u00e3o negativa, ou mesmo da descultura\u00e7\u00e3o, para se associar a um traumatismo que estaria ligado ao trauma hist\u00f3rico? Como pode esta rutura na transmiss\u00e3o intergeracional por via geneal\u00f3gica e cultural atualizar-se na problem\u00e1tica da singularidade intraps\u00edquica e interpessoal do sujeito e contribuir para uma psicopatologia espec\u00edfica que a psiquiatria contempor\u00e2nea ainda n\u00e3o admite? H\u00e1 que questionar tamb\u00e9m a passagem para os atos violentos, que v\u00e3o totalmente de encontro \u00e0 capacidade de elabora\u00e7\u00e3o pelo discurso, e identificar os efeitos das \u00abfalhas de transmiss\u00e3o\u00bb na genealogia (Govindama, 2001).<\/p>\n<p>De facto, a aus\u00eancia desta fun\u00e7\u00e3o estruturante e simb\u00f3lica da cultura d\u00e1 lugar a um grande desequil\u00edbrio nas formas de parentesco, nos mitos, nos costumes e na lei comum a todos os homens, evocando o contexto da coloniza\u00e7\u00e3o e a no\u00e7\u00e3o de acultura\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e e organiza a assimila\u00e7\u00e3o da cultura de uma sociedade sobre a outra. Na sua obra not\u00e1vel <em>L&#8217;\u00eele \u00e0 peur<\/em> (\u00abA ilha dos medos\u00bb) publicada em 1992, Prosper Eve diz que, n\u00e3o obstante as v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es que nos separam do per\u00edodo da escravatura, o trauma da servid\u00e3o ainda explica a transmiss\u00e3o de comportamentos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes em que o medo afeta a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo. Segundo o autor, a cultura da Reuni\u00e3o foi constru\u00edda sobre um certo fatalismo acompanhado por uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas m\u00e1gico-religiosas que permitem quebrar o feiti\u00e7o. O outro, diferente de si, torna-se assim um suspeito ou inimigo perseguidor. A estranheza inquietante no sentido que lhe d\u00e1 Freud (1917) \u00e9 cultivada pelo contexto da escravatura e coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9465\" aria-describedby=\"caption-attachment-9465\" style=\"width: 419px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/jacquot2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-9465 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/jacquot2-e1670306601451.jpg\" alt=\"\" width=\"419\" height=\"700\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9465\" class=\"wp-caption-text\">\u201cJacquot Malbar\u201d em Saint-Joseph. Jean Legros. Por volta de 1950-1960. Fotografia. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o privada.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Cambefort (2008), a escravatura levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias culturais e prejudicou a filia\u00e7\u00e3o, por exemplo, devido \u00e0 supress\u00e3o e substitui\u00e7\u00e3o de patron\u00edmicos. Este ataque \u00e0 filia\u00e7\u00e3o provocou tamb\u00e9m um profundo desequil\u00edbrio nas imagens parentais e representa\u00e7\u00f5es do homem e da mulher. Acima de tudo, minou gravemente a fun\u00e7\u00e3o paterna, a imagem do pai e o que ele representa relativamente \u00e0 m\u00e3e nas suas rela\u00e7\u00f5es educativas com os filhos.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 da fun\u00e7\u00e3o organizadora da Lei, se at\u00e9 os seus garantes forem corrompidos, se reinar a injusti\u00e7a, a impunidade e a ilegitimidade, se os pontos de refer\u00eancia que asseguram a ordem simb\u00f3lica forem deficientes e se a alteridade n\u00e3o for reconhecida? Que lugar ocupa a mulher em rela\u00e7\u00e3o ao homem? Sabemos, nomeadamente, que no C\u00f3digo Negro ela tinha direitos (sobre a crian\u00e7a, portanto sobre a filia\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o, o dinheiro que era recebido por crian\u00e7a, e da\u00ed o sistema que, desde a sua g\u00e9nese, assenta no princ\u00edpio matrifocal). Leloutre (1968) descreve a chamada estrutura familiar matrifocal sem a presen\u00e7a do pai como caracter\u00edstica das unidades familiares p\u00f3s-coloniais. A rela\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres n\u00e3o pode deixar de ser afetada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9469\" aria-describedby=\"caption-attachment-9469\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRM1069_1977.06.56.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-9469 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRM1069_1977.06.56-e1670306754374.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9469\" class=\"wp-caption-text\">[Crioulo Mulato e Negress]. Etienne Adolphe d&#8217;Hastrel de Rivedoux. 1847. Litografia. <br \/>Col. Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>Dada a reestrutura\u00e7\u00e3o familiar imposta na sociedade da Reuni\u00e3o, atualmente, os descendentes destas popula\u00e7\u00f5es escravas veem-se face \u00e0 seguinte quest\u00e3o: como reivindicar uma origem ancestral se lhes foi, desde logo, proibida a filia\u00e7\u00e3o? Como modo de filia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o restar\u00e1 apenas o ideal colonial para uns e as formas n\u00e3o simbolizadas de viol\u00eancia para outros? Relativamente \u00e0 viol\u00eancia intrafamiliar, Pierre Benghozi (2010) fala de genoc\u00eddio baseado na identidade, postulando que o paradigma da viol\u00eancia seria a vergonha e a humilha\u00e7\u00e3o. De um ponto de vista intraps\u00edquico, a viol\u00eancia seria uma viol\u00eancia primitiva, no sentido de Bergeret (1984), ou seja, n\u00e3o reprimida, devido \u00e0 inefici\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9477\" aria-describedby=\"caption-attachment-9477\" style=\"width: 1225px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRAD974_6_M_601_01-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-9477 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRAD974_6_M_601_01-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1225\" height=\"2000\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRAD974_6_M_601_01-1.jpg 1225w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRAD974_6_M_601_01-1-184x300.jpg 184w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRAD974_6_M_601_01-1-768x1254.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FRAD974_6_M_601_01-1-627x1024.jpg 627w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9477\" class=\"wp-caption-text\">Extrato do formul\u00e1rio dos censos da propriedade Desbassayns. Ano 1824. <br \/>Col. Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nas fam\u00edlias em que h\u00e1 transgress\u00e3o da lei, validamos a hip\u00f3tese de estas manifesta\u00e7\u00f5es estarem ligadas \u00e0s falhas na transmiss\u00e3o intergeracional relativamente a viola\u00e7\u00f5es da lei na ordem da filia\u00e7\u00e3o, evocando assim a no\u00e7\u00e3o de filia\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica de Marty (2001), que resulta dos problemas de transmiss\u00e3o intergera\u00e7\u00f5es sem, no entanto, ser simbolizada. Esta infla\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio em detrimento do simb\u00f3lico provoca uma \u00abpermeabilidade ps\u00edquica anormal entre indiv\u00edduos e gera\u00e7\u00f5es\u00bb que, por sua vez, conduz \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o dos acontecimentos traum\u00e1ticos (J. Guyotat, 1980).<\/p>\n<p>O objeto da investiga\u00e7\u00e3o sobre o trauma hist\u00f3rico da escravatura d\u00e1 aso a v\u00e1rias quest\u00f5es. A hist\u00f3ria do povoamento da ilha levou \u00e0 desestrutura\u00e7\u00e3o da unidade familiar da Reuni\u00e3o, tendo como mito fundador o trauma que ainda hoje se expressa nos resqu\u00edcios em bruto transmitidos no processo transgeracional de forma inconsciente e patol\u00f3gica. Os casamentos entre pessoas de meios diferentes, associados \u00e0 mesti\u00e7agem e que ent\u00e3o eram proibidos resultam agora em representa\u00e7\u00f5es reprodutoras do modelo colonial. A viol\u00eancia fundamental expressa-se quando n\u00e3o h\u00e1 lugar \u00e0 transmiss\u00e3o da viol\u00eancia simb\u00f3lica, traduzindo quer a busca identit\u00e1ria e geracional, quer a aboli\u00e7\u00e3o dos tabus fundamentais. A hist\u00f3ria permanece encriptada.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5045,"parent":5044,"menu_order":40,"template":"","class_list":["post-10060","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/10060","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5045"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}