{"id":11201,"date":"2023-09-26T06:50:07","date_gmt":"2023-09-26T04:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=11201"},"modified":"2023-09-26T06:50:07","modified_gmt":"2023-09-26T04:50:07","slug":"igreja-estado-e-escravatura-as-familias-vendidas-como-bens-nacionais-na-ilha-da-reuniao-durante-a-revolucao-francesa","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/a-igreja-e-a-escravatura\/igreja-estado-e-escravatura-as-familias-vendidas-como-bens-nacionais-na-ilha-da-reuniao-durante-a-revolucao-francesa\/","title":{"rendered":"Igreja, Estado e Escravatura: as fam\u00edlias vendidas como \u00abbens nacionais\u00bb na ilha da Reuni\u00e3o durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa"},"content":{"rendered":"<h2>Em 1789, a Assembleia nacional em Paris tomou posse dos dom\u00ednios e bens da igreja cat\u00f3lica em Fran\u00e7a, declarando-os \u00abbens nacionais\u00bb e vendendo-os para resolver a crise financeira que estalara com a Revolu\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n<p>Na Fran\u00e7a metropolitana, os diversos organismos religiosos possu\u00edam uma quantidade enorme de terras, edif\u00edcios, gado e n\u00e3o s\u00f3. Nas col\u00f3nias, tamb\u00e9m detinham, entre os seus bens, milhares de homens, mulheres e crian\u00e7as escravizados.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.967346317117499\" aria-label=\"No s\u00e9culo XVIII, o clero possu\u00eda escravos em quase todos os espa\u00e7os coloniais europeus do mundo. Os seus escravos eram, na maioria, trabalhadores agr\u00edcolas em propriedades criadas para financiar as obras das miss\u00f5es, mas tamb\u00e9m eram trabalhadores dom\u00e9sticos, artes\u00e3os, sacrist\u00e3os ou assistentes de missa, int\u00e9rpretes etc. Ver Christopher Kellerman, All Oppression Shall Cease: A History of Slavery, Abolitionism, and the Catholic Church (Maryknoll: Orbis Books, 2022); Pier M. Larson, Ocean of Letters: Language and Creolization in an Indian Ocean Diaspora (Cambridge: Cambridge University Press, 2009); Margaret M. Olsen, Slavery and Salvation in Colonial Cartagena de Indias (Gainesville: University Press of Florida, 2004). Segundo o que apurei nas minhas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es, na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, os organismos religiosos detinham pelo menos 3000 escravos nas col\u00f3nias francesas. Para ver um mapa de dados com refer\u00eancias, consultar \u00abSlaveholding Clergy in the Long Eighteenth Century: A Reference Map\u00bb (https:\/\/arcg.is\/1eyiz).\">&nbsp;<\/span> Em 1793, quando foram vendidos, os bens do clero da Reuni\u00e3o abrangiam uma lista de 358 nomes de seres humanos registados como \u00abbens nacionais\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44144998692904625\" aria-label=\"Entre as col\u00f3nias francesas, s\u00f3 na Reuni\u00e3o \u00e9 que se venderam sistematicamente os bens do clero durante a Revolu\u00e7\u00e3o. Noutras col\u00f3nias francesas, os bens foram apenas esporadicamente apreendidos, sequestrados, arrendados ou vendidos. Em Saint-Domingue em maio de 1793, os comiss\u00e1rios civis Sonthonax e Polverel emitiram uma proclama\u00e7\u00e3o que visava reprimir as for\u00e7as rebeldes do Sul e do Oeste da col\u00f3nia. As suas ordens em Port-au-Prince declaravam que todas as propriedades pertencentes \u00e0s institui\u00e7\u00f5es religiosas ou por elas geridas passariam a fazer parte do \u00abdom\u00ednio da Rep\u00fablica\u00bb. Exigiam os invent\u00e1rios desses bens, incluindo listas de escravos que a\u00ed vivessem. Entretanto, pouco depois, os dois comiss\u00e1rios civis aboliram totalmente a escravatura em Saint-Domingue (Sonthonax tomou essa medida em agosto de 1793 no Norte, e Polverel, em outubro de 1793 no Sul e no Oeste). Na Martinica, a 24 de setembro de 1793, a Assembleia Republicana votou o confisco dos \u00abbens do clero\u00bb, que n\u00e3o foram vendidos, mas sim arrendados. A famosa propriedade dos dominicanos em Fonds Saint Jacques (e os seus 500 escravos) permanecia nas m\u00e3os dos padres. Na Maur\u00edcia e em Guadalupe, algumas propriedades da Igreja passaram para gest\u00e3o estatal e foram vendidas lote a lote, mas isso s\u00f3 aconteceu na \u00e9poca do Consulado de Napole\u00e3o. Ver Jacques Ad\u00e9la\u00efde-Merlande, La Cara\u00efbe et la Guyane au temps de la R\u00e9volution et de l\u2019Empire, 1789-1804 (Paris: Karthala Editions, 1992), 207; P. A. Cabon, Notes sur l\u2019histoire religieuse d\u2019Ha\u00efti\u202f: de la R\u00e9volution au Concordat (1789-1860) (Port-au-Prince: Petit S\u00e9minaire Coll\u00e8ge Saint-Martial, 1933); Liliane Chauleau, \u00abLa R\u00e9volution Fran\u00e7aise \u00e0 La Martinique\u00bb, Proceedings of the Meeting of the French Colonial Historical Society 22 (1998): 49\u201363; William Cormack, Patriots, Royalists, and Terrorists in the West Indies: The French Revolution in Martinique and Guadeloupe, 1789-1802 (Toronto: University of Toronto Press, 2019), 170; Louis Guilbaud, Les \u00c9tapes de la Guadeloupe religieuse (Basse-Terre, Guadalupe: Imprimerie Catholique, 1935), 162\u201363; Alfred Martineau e Louis Philippe May, Trois si\u00e8cles d\u2019histoire antillaise. Martinique et Guadeloupe de 1635 \u00e0 nos jours (Paris, 1935); Henri Prentout, L\u2019Ile de France sous Decaen, 1803-1810: essai sur la politique coloniale du premier empire, et la rivalit\u00e9 de la France et de l\u2019Angleterre dans les Indes Orientales (Paris: Hachette, 1901), 172. Ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer estudos mais aprofundados para perceber se, na Guiana, os escravos foram vendidos como \u00abbens nacionais\u00bb, por exemplo, os da Congrega\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, que a\u00ed geriam v\u00e1rios estabelecimentos.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Como decorreu esse processo? V\u00e1rios documentos dos Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o e dos Arquivos Nacionais do Ultramar esclarecem tudo, fornecendo igualmente ind\u00edcios preciosos das experi\u00eancias das v\u00edtimas, que nos permitem compreender como viveram este drama e lhe resistiram.<\/p>\n<h3>As \u00abpropriedades paroquiais\u00bb<\/h3>\n<p>Nas ilhas Mascarenhas do s\u00e9culo XVIII, o clero compunha-se principalmente de membros da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, os mais vulgarmente chamados Lazaristas, que come\u00e7aram a praticar a escravatura j\u00e1 na d\u00e9cada de 1710, atrav\u00e9s de contratos celebrados com a Companhia das \u00cdndias. A Companhia oferecia-lhes terreno para a sua subsist\u00eancia e escravos para os explorar.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3977299467230626\" aria-label=\"De acordo com o primeiro contrato celebrado entre a Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o e a Companhia das \u00cdndias Orientais (22 de outubro de 1712), os mission\u00e1rios serviam as par\u00f3quias da ilha e evangelizavam os escravos que a\u00ed chegavam da \u00cdndia, da \u00c1frica e de Madag\u00e1scar. Em troca, a Companhia oferecia-lhes (em usufruto) terras e um escravo por padre para sua subsist\u00eancia. \u00abTrait\u00e9 fait entre la Compagnie et Messieurs de Saint-Lazare \u00bb, 22 de outubro de 1712, Arquivos Nacionais do Ultramar, COL F3\/206. Um segundo contrato de mar\u00e7o de 1721 abriu uma miss\u00e3o lazarista na ilha de Fran\u00e7a, que a Companhia adquirira recentemente. Esse contrato cedia mais quatro escravos por padre para ajudar a proteger as culturas contra os macacos. \u00abManuscrit de G. Perboyre (M\u00e9moires de la Mission)\u00bb, Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, Registo 1506, Volume I, 210-213. Entre 1736 e 1739, a Congrega\u00e7\u00e3o renegoceia estes termos v\u00e1rias vezes, obtendo um aumento do n\u00famero de escravos fornecidos pela Companhia (de 16 a 20 por padre). Assim, beneficiavam n\u00e3o s\u00f3 de uma subida das \u00abpens\u00f5es\u00bb, mas tamb\u00e9m de uma isen\u00e7\u00e3o dos encargos impostos aos outros habitantes, a saber, a capita\u00e7\u00e3o sobre o n\u00famero de escravos e a corveia, ou seja, o trabalho dos escravos para os projetos p\u00fablicos. \u00abConcordat entre la Compagnie des Indes et la Congr\u00e9gation de la Mission pour le service\u2026\u00bb (Paris, 27 de julho de 1736. ADR, C\u00b01.070); \u00ab Annexe au concordat ci-dessus\u00bb (Paris, 3 de mar\u00e7o de 1739. ADR C\u00b01.072). Depois de os administradores da coroa francesa tomarem posse das ilhas Mascarenhas em 1767, o estatuto das propriedades paroquiais permaneceu amb\u00edguo at\u00e9 \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o. Um decreto do rei datado de 15 de setembro de 1766 estipulava simplesmente que se respeitaria uma \u00abdistin\u00e7\u00e3o\u00bb entre os bens pertencentes \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o e os que pertenciam \u00e0s par\u00f3quias ou \u00e0 antiga Companhia das \u00cdndias. Jean-Baptiste Etienne Delaleu, ed., Code des Iles de France et de Bourbon, Deuxi\u00e8me \u00c9dition, vol. I (Port-Louis: Tristan Mallac &amp; Cie., 1826), 9.\">&nbsp;<\/span>\u00a0Uma vez que dependiam das par\u00f3quias e n\u00e3o diretamente da Congrega\u00e7\u00e3o, esses terrenos eram oficialmente designados como \u00abpropriedades paroquiais\u00bb e destinavam-se a prover as necessidades dos p\u00e1rocos. Apesar disso, como \u00fanicos respons\u00e1veis pela sua gest\u00e3o, os lazaristas referiam-se a esses terrenos como \u00abas nossas propriedades\u00bb e aos escravos que a\u00ed trabalhavam como \u00abos nossos negros\u00bb.\u00a0<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.46580921286116195\" aria-label=\"Uma carta escrita por um frade lazarista por volta de 1740 utiliza esta linguagem, demonstrando tamb\u00e9m o \u00eaxito do plano concebido entre a Companhia e a Congrega\u00e7\u00e3o: \u00abAs nossas casas s\u00e3o quase todas aprovisionadas de negros para fazer valer as nossas propriedades e nos fazer viver, assim s\u00e3o feitas as grandes despesas.\u00bb Carta do frade Etienne Lecocq, circa 1740. O original est\u00e1 conservado nos Arquivos Nacionais, M\/214, dossier 9, pe\u00e7a 4, na forma de manuscrito an\u00f3nimo. Existe uma reprodu\u00e7\u00e3o paginada desse documento intitulada \u00abLettre \u00e9crite par un missionnaire\u00bb, nos Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o (Paris), Registo 1504. Jean Barassin atribui a carta ao frade lazarista, Etienne Lecocq; outros tinham-na atribu\u00eddo a um frade Lebel. Ver Jean Barassin, Histoire des \u00e9tablissements religieux de Bourbon au temps de la Compagnie des Indes, 1664-1767 (Saint-Denis : Fondation pour la recherche et le d\u00e9veloppement de l'oc\u00e9an Indien, 1983), 194 n16.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Ao longo do tempo, e a pedido dos mission\u00e1rios, a Companhia forneceu mais escravos para as propriedades ditas \u00abparoquiais\u00bb, que proliferaram e at\u00e9 se tornaram rent\u00e1veis, gra\u00e7as \u00e0 cultura do caf\u00e9. Um recenseamento realizado em 1787 enumera 426 escravos na ilha de Bourbon (Reuni\u00e3o) cujos padres s\u00e3o indicados como seus senhores.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8809243404567069\" aria-label=\"\u00abRecensement de l\u2019\u00eele Bourbon, 1787\u00bb, Arquivos Nacionais do Ultramar, G1480. Cento e oitenta e sete escravos na ilha de Fran\u00e7a (Maur\u00edcia) tamb\u00e9m em 1789. \u00abRecensement G\u00e9n\u00e9ral de l\u2019Isle de France\u00bb 1780, Arquivos Nacionais do Ultramar, G1474. Nas ilhas Mascarenhas tamb\u00e9m havia uma comunidade de religiosas, as irm\u00e3s cinzentas de Saint-Maurice, ditas de S\u00e3o Paulo de Chartres. Essas freiras foram recrutadas para trabalhar nos hospitais das duas ilhas com o aux\u00edlio de escravos fornecidos pela Companhia ou a coroa.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_11050\" aria-describedby=\"caption-attachment-11050\" style=\"width: 842px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/40P1.CEV_.62.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11050 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/40P1.CEV_.62.jpg\" alt=\"\" width=\"842\" height=\"718\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/40P1.CEV_.62.jpg 842w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/40P1.CEV_.62-300x256.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/40P1.CEV_.62-768x655.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11050\" class=\"wp-caption-text\">Colheita de caf\u00e9 na ilha da Reuni\u00e3o. E. Th.. 1855. Estampa. <br \/>Col. Museu Stella Matutina, inv. 40P1.CEV.62. Direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os lazaristas parecem ter seguido escrupulosamente as regras do Code noir des \u00eeles<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8708271084616597\" aria-label=\"C\u00f3digo Negro das ilhas. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>(Cartas Patentes de 1723) no que respeita \u00e0 indument\u00e1ria e \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o dos seus escravos.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5700368585176925\" aria-label=\"A correspond\u00eancia dos mission\u00e1rios indica que a alimenta\u00e7\u00e3o, a indument\u00e1ria e os cuidados de sa\u00fade s\u00e3o prioridades ativamente tidas em conta. Carta do padre Philippe Caulier ao arcebispo de Paris, Paris, 20 de julho de 1772, Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, fol. 216 (p. 12).\">&nbsp;<\/span> Al\u00e9m disso, demonstravam para com eles um paternalismo opressivo assente na vigil\u00e2ncia e na disciplina.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0349137595494009\" aria-label=\"Isso corresponde ao que os historiadores observam em rela\u00e7\u00e3o a outras comunidades religiosas propriet\u00e1rias de escravos. Ver Emily Clark, Masterless Mistresses: The New Orleans Ursulines and the Development of a New World Society, 1727-1834 (Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2007); Travis Glasson, Mastering Christianity: Missionary Anglicanism and Slavery in the Atlantic World (Nova Iorque: Oxford University Press, 2012); Stephan Lenik, \u00abMission Plantations, Space, and Social Control: Jesuits as Planters in French Caribbean Colonies and Frontiers\u00bb, Journal of Social Archaeology 12, n.\u00ba 1 (1 de fevereiro de 2012): 51\u201371 ; Jon F. Sensbach, \u00abBrothers in Bondage: The Moravians\u2019 Struggle with the Institution of Slavery\u00bb, Tar Heel Junior Historian 51, n.\u00ba 2 (primavera de 2012).\">&nbsp;<\/span> Os mission\u00e1rios procuravam limitar o contacto entre os seus escravos e o mundo exterior, pois, segundo afirmavam, temiam a corrup\u00e7\u00e3o \u00abdos bons costumes\u00bb, mantendo-os sempre \u00abdebaixo de olho\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8718364183326044\" aria-label=\"Carta do padre Philippe Caulier, 6 de maio de 1785, Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, Registo 1504, fol. 242v.\">&nbsp;<\/span> Obrigavam-nos a assistir regularmente ao catecismo ministrado pelos frades lazaristas, cujo conte\u00fado em si visava j\u00e1 instaurar a obedi\u00eancia no sistema esclavagista. A t\u00edtulo de exemplo, ao compor um dec\u00e1logo em l\u00edngua crioula datado de cerca de 1760, o padre Philippe Caulier traduziu o mandamento \u00abHonra teu pai e tua m\u00e3e\u00bb como se segue: \u00abRespeita e obedece ao pai e \u00e0 m\u00e3e, ao senhor e \u00e0 senhora, a tudo em que t\u00eam o direito de mandar em n\u00f3s. N\u00e3o sejas insubordinado para com eles\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1175795541374356\" aria-label=\"Philippe Caulier, \u00abPetit Cat\u00e9chisme de l'\u00cele de Bourbon tourn\u00e9 au style des esclaves n\u00e8gres\u00bb, circa 1760. Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, Registo 1502 (sem f\u00f3lio).\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Os lazaristas diziam-se obrigados a recorrer \u00e0 puni\u00e7\u00e3o f\u00edsica para impor essa obedi\u00eancia. Alguns mission\u00e1rios demonstravam um certo mal-estar relativamente a esse aspeto da sua vida quotidiana. Como observou o padre Caulier: \u00abO Salvador deixou-nos o cajado do pastor e n\u00e3o o chicote do carroceiro.\u00bb No entanto, n\u00e3o se poderia dizer que, ao fazer tal afirma\u00e7\u00e3o, o padre estivesse a posicionar-se contra a pr\u00e1tica da escravatura, mas apenas constatava que carecia de recursos para responder \u00e0s necessidades seculares da sua par\u00f3quia, em geral, nas m\u00e3os dos frades lazaristas. \u00abUm frade s\u00e1bio e atento em cada fam\u00edlia\u00bb, explicou ele, \u00abinstituiria a harmonia entre todos, com cada um no devido lugar\u00bb. <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.36496729975446707\" aria-label=\"Carta do padre Caulier a Antoine Jacquier (Superior-geral dos Lazaristas) circa 1764, Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, Registo 1504, f. 61v.\">&nbsp;<\/span> Um desses frades, por\u00e9m, n\u00e3o se mostrava convencido de que essa tarefa fosse ao encontro da sua voca\u00e7\u00e3o, tendo escrito a um confrade em Fran\u00e7a o seguinte: \u00abSeria preciso um Doutor [te\u00f3logo] famoso para me convencer de que este of\u00edcio nos garante o c\u00e9u\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5234123394140153\" aria-label=\"Lecocq, op. cit.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_3061\" aria-describedby=\"caption-attachment-3061\" style=\"width: 476px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/R03445.315_1-negre-frappe-par-le-fouet-3-e1597661085450.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3061 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/R03445.315_1-negre-frappe-par-le-fouet-3-e1597661085450.jpg\" alt=\"\" width=\"476\" height=\"600\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3061\" class=\"wp-caption-text\">Negro a\u00e7oitado. [N\u00e3o identificado]. [1878]. Estampa. In Le journal de Marguerite ou les Deux ann\u00e9es <br \/>pr\u00e9paratoires \u00e0 la premi\u00e8re communion, pour Melle V. Monniot, P\u00e9risse Fr\u00e8res, [1878], vol. 2, p. 315. <br \/>Col. Biblioteca departamental da Reuni\u00e3o, inv. R03445.315_1<\/figcaption><\/figure>Os mission\u00e1rios procuravam tamb\u00e9m regular a vida sexual dos escravos, separando os celibat\u00e1rios por sexo e fechando-os em \u00abarmaz\u00e9ns\u00bb durante a noite. <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9124278458230606\" aria-label=\"Lecocq, op. cit.\">&nbsp;<\/span> Encorajavam o casamento <em>intramuros<\/em> como o meio mais seguro para limitar as rela\u00e7\u00f5es sexuais fora das propriedades e tamb\u00e9m para preparar os escravos rec\u00e9m-chegados para o sacramento do batismo. \u00abO estatuto do casamento ret\u00e9m-nos e fixa-os\u00bb, escreveu um mission\u00e1rio.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6009865189086059\" aria-label=\"Carta de Pierre-Joseph Teste (prefeito-apost\u00f3lico, 1746-1772) ao arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, de 1 de mar\u00e7o de 1764. Arquivos da Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o, Registo 1504, f. 189v. Os arquivos revelam claramente as consequ\u00eancias das escolhas dos mission\u00e1rios: Em 1768, dos 45 escravos adultos que viviam nas duas propriedades de Saint-Andr\u00e9 e de Sainte-Suzanne, 35 eram casados, a maioria, com filhos. De entre os 74 escravos recenseados nas duas par\u00f3quias, apenas tr\u00eas n\u00e3o partilhavam la\u00e7os de sangue com outro indiv\u00edduo pertencente a uma das duas propriedades. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, 57H: \u00abEtat des biens de la cure du dit lieu de Saint-Suzanne et de Ceux appartenants a la Congregation des pretres de Saint Lazare\u00bb, 30 de janeiro de 1768.\">&nbsp;<\/span> Note-se que esta pol\u00edtica pr\u00f3-casamento e natalista no seio daquilo a que os lazaristas chamavam as suas \u00abfam\u00edlias\u00bb assentava tanto em motiva\u00e7\u00f5es religiosas como econ\u00f3micas, uma vez que os contratos celebrados com a Companhia das \u00cdndias os proibiam de participar ativamente no tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n<h3>A \u00abvenda dos homens\u00bb<\/h3>\n<p>Desde os primeiros meses da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa que a escravatura colonial passara a ser alvo de debates acesos entre os membros da Assembleia Nacional.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2101571883585729\" aria-label=\"Lauren R Clay, \u00abLiberty, Equality, Slavery: Debating the Slave Trade in Revolutionary France\u00bb, The American Historical Review 128, n.\u00ba 1 (1 de mar\u00e7o de 2023): 89\u2013119; Miranda Frances Spieler, \u00abThe Legal Structure of Colonial Rule during the French Revolution\u00bb, The William and Mary Quarterly, Terceira s\u00e9rie, 66, n.\u00ba 2 (1 de abril de 2009): 365\u2013408.\">&nbsp;<\/span> N\u00e3o sem controv\u00e9rsias, essa legislatura decidira que, para bem do com\u00e9rcio franc\u00eas, a escravatura seria tolerada nas col\u00f3nias francesas. O decreto de 8 de maio de 1790 permitiu que as assembleias coloniais redigissem as suas pr\u00f3prias constitui\u00e7\u00f5es para reger os seus assuntos internos. Um segundo decreto, datado de 28 de mar\u00e7o desse mesmo ano, transferiu para as col\u00f3nias a responsabilidade sobre as suas pr\u00f3prias despesas governamentais.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.27612220250236397\" aria-label=\"Assembleia Nacional, \u00abD\u00e9cret du 28 mars 1790 concernant les colonies, suivi d\u2019une instruction pour les \u00eeles de Saint-Domingue, la Tortue, la Gonave et l\u2019\u00eele \u00e0 Vaches, en annexe de la s\u00e9ance du 30 septembre 1791\u00bb, Archives Parlementaires de la R\u00e9volution Fran\u00e7aise 31, n.\u00ba 1 (1888): 728\u201334.\">&nbsp;<\/span> Considerando-se representante n\u00e3o oficial de Bourbon em Paris, o coronel de infantaria Pierre Riel de Beurnonville, que tinha propriedades na ilha e era casado com uma mulher crioula bourbonesa, publicou e fez circular por l\u00e1 um projeto de constitui\u00e7\u00e3o propondo a liquida\u00e7\u00e3o dos bens eclesi\u00e1sticos ali existentes para cobrir as despesas do culto e da administra\u00e7\u00e3o. Os seres humanos n\u00e3o seriam exce\u00e7\u00e3o: \u00abNa venda dos bens do clero compreender-se-\u00e3o terras, edif\u00edcios, escravos, equipamento e utens\u00edlios, salvo seis cabe\u00e7as de escravos por par\u00f3quia, reservadas ao servi\u00e7o de cada prior\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7040685151564605\" aria-label=\"Pierre Riel de Beurnonville, Projet de constitution coloniale pour l\u2019Isle de Bourbon; par le colonel P. R. Beurnonville, d\u00e9put\u00e9 extraordinaire des villes de Brou et la Fert\u00e9-sur-Aube, \u00e0 l\u2019Assembl\u00e9e Nationale (Paris: l\u2019Imprimerie du Patriote Fran\u00e7ois, 1790), 42.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Em dezembro de 1790, tendo recebido o projeto de constitui\u00e7\u00e3o de Beurnonville, a Assembleia Colonial de Bourbon preparou-se para p\u00f4r esse plano em marcha, exigindo que os p\u00e1rocos inventariassem todos os seus bens.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5549022539568096\" aria-label=\"Claude Wanquet, Histoire d\u2019une R\u00e9volution. La R\u00e9union, 1789-1803, vol. I (Marselha: \u00c9ditions Jeanne Laffitte, 1980), 401.\">&nbsp;<\/span> Como seria de esperar, os sacerdotes manifestaram uma viva oposi\u00e7\u00e3o, nomeadamente, o padre Jean Lafosse da par\u00f3quia de Saint-Louis, partid\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o, eleito presidente da c\u00e2mara pelos seus paroquianos. Lafosse enviou uma missiva ao procurador da sua municipalidade pondo em quest\u00e3o a legalidade da venda dos escravos em particular, pois, escrevia, \u00aba Constitui\u00e7\u00e3o Francesa considera todos os homens essencialmente livres, pelo que a Assembleia nacional nunca poder\u00e1 decretar a venda dos homens para liquidar uma parte das d\u00edvidas do Estado&#8230;\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.832950941781061\" aria-label=\"C\u00f3pia de uma carta do padre Lafosse a Legrand, sem data, Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, L319\/1.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_11054\" aria-describedby=\"caption-attachment-11054\" style=\"width: 1400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Illustrations_de_Voyage_\u00e0_Surinam_...Lauters_P_btv1b23001443_45.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11054 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Illustrations_de_Voyage_\u00e0_Surinam_...Lauters_P_btv1b23001443_45.jpg\" alt=\"\" width=\"1400\" height=\"1019\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Illustrations_de_Voyage_\u00e0_Surinam_...Lauters_P_btv1b23001443_45.jpg 1400w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Illustrations_de_Voyage_\u00e0_Surinam_...Lauters_P_btv1b23001443_45-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Illustrations_de_Voyage_\u00e0_Surinam_...Lauters_P_btv1b23001443_45-768x559.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Illustrations_de_Voyage_\u00e0_Surinam_...Lauters_P_btv1b23001443_45-1024x745.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11054\" class=\"wp-caption-text\">Venda de uma escrav. Madou, sc. ; Pierre Jacques Beno\u00eet, del. 1931. Litografia. <br \/>In <em>Voyage \u00e0 Surinam. Description des possessions n\u00e9erlandaises dans la Guyane<\/em>, Pierre Jacques Benoit. Bruxelas, Sociedade das Belas-Artes, 1839, pl. XLIII. <br \/>Col. Mediateca do Museu du Quai Branly &#8211; Jacques Chirac<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os vizinhos brancos do padre Lafosse acusaram-no publicamente de semear o caos entre os escravos do distrito, alertando-os para o plano que visava a sua venda como bens nacionais, e at\u00e9 de alforriar a maioria dos trabalhadores da sua par\u00f3quia logo ap\u00f3s ter conhecimento dessa venda. Com efeito, o padre Lafosse declarara 73 escravos em Saint-Louis em 1787, mas, em 1793, por altura das vendas p\u00fablicas na ilha, o comiss\u00e1rio s\u00f3 identificou 47.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6893663470780003\" aria-label=\"\u00abRecensement de l\u2019\u00eele Bourbon, 1787\u00bb, Arquivos Nacionais do Ultramar, G1480; \u00abR\u00e9capitulation g\u00e9n\u00e9rale du produit de la vente des Biens nationaux autrefois Biens curiaux\u00bb, Saint-Denis, Ilha de Bourbon, 31 de dezembro de 1793. Arquivos Nacionais do Ultramar, C3\/22, Pe\u00e7a 238.\">&nbsp;<\/span> O que lhes ter\u00e1 acontecido?<\/p>\n<p>Alguns escravos estavam, eles pr\u00f3prios, determinados a subverter o status quo colonial. Em janeiro de 1791, durante uma missa dominical, ao recusar ceder o seu lugar a um not\u00e1vel branco, Amant foi brutalmente agredido pela pol\u00edcia e preso. O padre Lafosse apressou-se a exigir a sua liberta\u00e7\u00e3o, redigindo uma carta onde denunciava a viol\u00eancia das autoridades sobre Amant. No seguimento dessas interven\u00e7\u00f5es, os relat\u00f3rios da pol\u00edcia descreveram uma turba de escravos reunida na pra\u00e7a da cidade, prontos a revoltar-se. Numa carta aos seus superiores em Fran\u00e7a, o Sr. Pierre Duverg\u00e9, comiss\u00e1rio or\u00e7amental de Bourbon de 1789 a 1794, escreveu que \u00abo senhor padre Lafosse \u00e9 acusado de pregar a liberdade aos negros. O senhor saber\u00e1 o perigo que correr\u00edamos se [um escravo] determinado [&#8230;] pudesse juntar-se a este novo ap\u00f3stolo\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6337950833808217\" aria-label=\"Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, L85. Carta de Duverg\u00e9, St. Denis, 23 de janeiro de 1791.\">&nbsp;<\/span>. Essas a\u00e7\u00f5es levaram a que Lafosse fosse obrigado a demitir-se do seu cargo como presidente da c\u00e2mara.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1935707497030308\" aria-label=\"Relativamente ao padre Lafosse e d\u2019Amant, ver Albert Jauze, \u00abJean Lafosse, cur\u00e9 de Saint-Louis de la R\u00e9volution \u00e0 la Restauration. Pistes de recherches sur le personnage\u00bb, Revue Historique de l\u2019oc\u00e9an Indien, n.\u00ba 15 (2018): 491; Prosper Eve, La religion populaire \u00e0 la R\u00e9union (Sainte-Clotilde, Reuni\u00e3o: Universidade da Reuni\u00e3o, Instituto de lingu\u00edstica e de antropologia, 1985).\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>O padre Lafosse, contudo, revelar-se-ia enganado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Assembleia Nacional que, a 18 de agosto de 1791, decretou o envio de comiss\u00e1rios civis para as Mascarenhas para a\u00ed tratar da venda dos bens \u00abm\u00f3veis e im\u00f3veis pertencentes \u00e0 na\u00e7\u00e3o\u00bb. O decreto n\u00e3o mencionava, em lado algum, a presen\u00e7a de seres humanos entre esses bens, e \u00e9 bem poss\u00edvel que os membros do Comit\u00e9 das Col\u00f3nias que o propuseram tenham deliberadamente ocultado esse pormenor.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7644155400290205\" aria-label=\"Os membros do Comit\u00e9 das Col\u00f3nias, consultores que propunham leis sobre as col\u00f3nias em colabora\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio da Marinha, eram cada vez mais influenciados pelos interesses coloniais. Eles temiam que muitos deputados considerassem a aprova\u00e7\u00e3o da escravatura uma trai\u00e7\u00e3o dos valores. Por essa raz\u00e3o, parece plaus\u00edvel que tenham deliberadamente ocultado que uma parte importante do valor das propriedades eclesi\u00e1sticas e dominiais a vender \u00e0s col\u00f3nias consistia em seres humanos. No que respeita \u00e0s opera\u00e7\u00f5es \u00absecretas\u00bb do Comit\u00e9 das Col\u00f3nias, ver Manuel Covo, \u00abLe Comit\u00e9 des Colonies\u00bb, La R\u00e9volution fran\u00e7aise. Cahiers de l\u2019Institut d\u2019histoire de la R\u00e9volution fran\u00e7aise, n.\u00ba 3 (20 de dezembro de 2012). Efetivamente, existem exemplos concretos dessa dissimula\u00e7\u00e3o. Quando o Comit\u00e9 das Col\u00f3nias publicou um relat\u00f3rio e um projeto de decreto nesse sentido para a Assembleia Legislativa, da autoria de Levavasseur, que, ele pr\u00f3prio, estava ligado a Bourbon, reproduziu quase, palavra a palavra, o artigo da Peti\u00e7\u00e3o da Assembleia Colonial pedindo autoriza\u00e7\u00e3o para vender os bens do clero. No entanto, omitiu deliberadamente duas men\u00e7\u00f5es \u00e0 escravatura no texto destinado aos colegas da Assembleia Legislativa. L\u00e9on Levavasseur, Rapport et projet de d\u00e9cret, concernant la colonie de l\u2019isle de Bourbon, Pr\u00e9sent\u00e9s, au nom du Comit\u00e9 Colonial, par L\u00e9on Levavasseur, D\u00e9put\u00e9 du D\u00e9partement de la Seine-Inf\u00e9rieure, imprim\u00e9s par d\u00e9lib\u00e9ration du Comit\u00e9, en vertu du d\u00e9cret de l\u2019Assembl\u00e9e Nationale (Paris: Imprensa da Assembleia Nacional, 1792). De facto, tudo indica que este relat\u00f3rio nunca foi lido em voz alta e que o projeto-lei nunca foi debatido na Assembleia. J\u00e9r\u00f4me Mavidal e \u00c9mile Laurent, eds., Archives parlementaires de 1787 \u00e0 1860 : recueil complet des d\u00e9bats l\u00e9gislatifs et politiques des Chambres fran\u00e7aises, vol. L (Paris: Paul Dupont, 1896), 592, nota de rodap\u00e9 na p\u00e1gina 1.\">&nbsp;<\/span> Em outubro de 1792, o comiss\u00e1rio civil Marc Antoine Pierre Tirol chegou a Bourbon. Antiesclavagista moderado, tal como o padre Lafosse, n\u00e3o acreditava que a Constitui\u00e7\u00e3o Francesa permitisse a manuten\u00e7\u00e3o da escravatura, procedendo a reformas n\u00e3o s\u00f3 para melhorar o tratamento dos escravos, mas tamb\u00e9m para simplificar as regras relativas \u00e0 alforria. N\u00e3o obstante, a 6 de junho de 1793, Tirol lan\u00e7ou a venda em hasta p\u00fablica de todos os bens eclesi\u00e1sticos inventariados, explicando, numa carta dirigida ao Ministro da Marinha, o seguinte: \u00abUma vez que a Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite, de modo algum, a escravatura, que s\u00f3 pode ser tolerada nas col\u00f3nias enquanto ainda for autorizada, a Rep\u00fablica n\u00e3o pode a\u00ed ter escravos e muito menos manifestar as suas inten\u00e7\u00f5es pelo exemplo\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7253613072551008\" aria-label=\"Tirol au Ministre de la Marine, 30 de julho de 1793. Arquivos Nacionais do Ultramar, C3\/22, Pe\u00e7a 104.\">&nbsp;<\/span> De que \u00abexemplo\u00bb falaria ele? Num relat\u00f3rio referente \u00e0s vendas em hasta p\u00fablica, Tirol explicou que \u00abna venda dos bens nacionais outrora pertencentes \u00e0 Igreja [\u2026] tomo todas as precau\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para evitar a separa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias negras \u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.813371078118575\" aria-label=\"Tirol au Ministre de la Marine, Saint-Andr\u00e9, 19 de junho de 1793. Arquivos Nacionais do Ultramar, Pe\u00e7a 82.\">&nbsp;<\/span> O que acontecia na realidade era totalmente diferente.<\/p>\n<h3>Atores das suas pr\u00f3prias resist\u00eancias<\/h3>\n<p>Entre 10 de junho e 22 de julho, dos 358 indiv\u00edduos repertoriados como \u00abbens nacionais\u00bb, os padres escolheram 28 para ficarem ao seu servi\u00e7o como trabalhadores dom\u00e9sticos (conforme um regulamento adotado pela Assembleia Nacional, tinham o direito de reter quatro escravos \u00e0 sua escolha para seu servi\u00e7o pessoal, desde que n\u00e3o fossem qualificados \u00abde talentos\u00bb). Por exemplo, o padre Lafosse selecionou Amant, ostensivamente, para ficar do seu lado. Al\u00e9m disso, outros 28\u00a0foram comprados pelos padres e mais alguns, deixados nas propriedades devido \u00e0 sua idade avan\u00e7ada ou por invalidez. No total, 266 pessoas foram vendidas a particulares.<\/p>\n<p>Apesar das promessas escritas de Tirol, muitas fam\u00edlias s\u00f3 puderam permanecer juntas devido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos padres e dos pr\u00f3prios escravos.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2651843030098153\" aria-label=\"Estes documentos s\u00e3o metodicamente organizados e seguem as vendas aos inqu\u00e9ritos p\u00fablicos sob a \u00e9gide de Tirol, de cant\u00e3o em cant\u00e3o, a come\u00e7ar por Sainte-Marie, por toda a ilha, at\u00e9 Saint-Denis. D\u00e3o pormenores sobre a idade, o sexo e a \u00abcasta\u00bb dos indiv\u00edduos (por exemplo, \u00abcrioulo\u00bb para os nascidos na ilha, \u00abcafre\u00bb para os origin\u00e1rios da \u00c1frica, malgaxe ou indianos), mas indicam tamb\u00e9m os respetivos pre\u00e7os, expressos em libras tornesas para os diferentes grupos de pessoas, apresentadas como \u00ablotes\u00bb. \u00abR\u00e9capitulation g\u00e9n\u00e9rale du produit de la vente des Biens nationaux autrefois Biens curiaux\u00bb, Saint-Denis, Ilha de Bourbon, 31 de dezembro de 1793. Arquivos Nacionais do Ultramar, C3\/22, Pe\u00e7a 238.\">&nbsp;<\/span> Em v\u00e1rios casos, parece que os escravos foram recrutados pelos seus antigos senhores, os mission\u00e1rios, que estavam, como j\u00e1 mencion\u00e1mos, empenhados em manter a integridade dos casamentos sacramentais e em garantir a uni\u00e3o das fam\u00edlias.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8126\" aria-describedby=\"caption-attachment-8126\" style=\"width: 912px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8126 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b.jpg\" alt=\"\" width=\"912\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b.jpg 912w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/1990-96-4-42b-768x546.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8126\" class=\"wp-caption-text\">Local perto do rio de Abord. Jean-Baptiste Genevi\u00e8ve Marcellin Bory de Saint-Vincent, del.; Fortier, sc. ; Adam, sc. \u00c1gua-forte. In Voyage dans les quatre principales \u00eeles des mers d&#8217;Afrique, realizad por ordem do governo, durante os anos nove e dez da Rep\u00fablica (1801 e 1802), \u2026 : cole\u00e7\u00e3o de estampas. Jean-Baptiste Genevi\u00e8ve Marcellin Bory de Saint-Vincent. Entre 1801 e 1802. F. Buisson, 1804, pl. 40. <br \/>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, inv. 1989.540<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em Sainte-Suzanne, por exemplo, a fam\u00edlia do casal de septuagen\u00e1rios Vincent e Louise foi dividida em tr\u00eas lotes diferentes para ser vendida em separado. Ap\u00f3s adquirir o casal e a filha Ad\u00e9la\u00efde, o padre Rollin comprou o filho Honor\u00e9 de 30 anos, por uma soma tr\u00eas vezes superior ao valor estimado pelos agentes da Assembleia Colonial no invent\u00e1rio dos bens da par\u00f3quia em 1791 (a 2000 libras), uma vez que este tinha \u00abo bra\u00e7o direito estropiado\u00bb. J\u00e1 o padre Gadenel fez uma oferta superior ao valor estimado pelo pequeno Jean-Louis-Vincent, de 12 anos, que tentavam vender \u00e0 parte. Todas estas transa\u00e7\u00f5es permitiram evitar a separa\u00e7\u00e3o dos membros da fam\u00edlia de Vincent e Louise.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9169802729702254\" aria-label=\"\u00ab\u00c9tat des biens de la Cure Sainte Suzanne\u00bb, 23 de fevereiro de 1791, ADR, L388.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Outros casos nos arquivos demonstram que os padres agiram explicitamente em nome dos seus escravos. Numa carta datada de 19 de mar\u00e7o de 1795, o padre Rollin diz que Justine, separada do marido, Louis, por ocasi\u00e3o das vendas de bens em Saint-Andr\u00e9, \u00abdeseja ardentemente\u00bb reunir-se com ele, recentemente \u00abposto no col\u00e9gio\u00bb. O padre Rollin espera tamb\u00e9m reunir Marguerite, empregada do col\u00e9gio, com os pais, que se mantiveram com ele no presbit\u00e9rio, propondo uma troca, \u00abse a Rep\u00fablica aceitar\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6883885442069453\" aria-label=\"Carta do P. Rollin datada de 19 de mar\u00e7o de 1795. ADR L300.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Outros casos atestam a interven\u00e7\u00e3o direta dos escravos, com ou sem o apoio dos padres, que, com o objetivo de melhorar o destino das suas fam\u00edlias, agiam, na medida do poss\u00edvel como atores da sua pr\u00f3pria resist\u00eancia. Em Sainte-Marie, por exemplo, as atas das vendas de 1793 mencionavam Fran\u00e7ois, qualificado de \u00abCapataz, crioulo, epil\u00e9tico\u00bb, ao lado da mulher, Henriette, igualmente crioula, e dos cinco filhos, todos juntos. Mas isso n\u00e3o estava previsto. De acordo com uma diretiva da Assembleia Colonial em 1791, apenas os casais casados \u00abdiante do altar\u00bb e os seus filhos com menos de sete anos deveriam ser agrupados no mesmo \u00ablote\u00bb. Pierre-Louis, de onze anos, fora registado num lote separado, mas, exatamente quando um agente municipal elaborava o invent\u00e1rio dos bens de Sainte-Marie em 1791, os pais dele intercederam, pedindo que o reunissem com eles. O agente, contudo, poder\u00e1 muito bem s\u00f3 lhes ter feito a vontade porque o pequeno Pierre-Louis estava marcado como \u00abestropiado\u00bb, tendo, por isso, um valor potencialmente inferior ao de outras crian\u00e7as da sua idade.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6136694883978158\" aria-label=\"Gontran Wellement e Augustin Robert, \u00abInventaire des biens curiaux du Canton Sainte-Marie. 21 f\u00e9vrier 1793\u00bb, in Morts violentes, peines infamantes, condamnations et faits insolites concernant les esclaves et affranchis de Bourbon: (XVIIIe-XIXe si\u00e8cles), ed. Albert Jauze, Les in\u00e9dits de l\u2019histoire 3 (Reuni\u00e3o: Les \u00c9ditions de Vill\u00e8le, 2014), 45\u201350.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Um outro caso diz respeito a Amand, de 90 anos, que passara toda a sua vida na propriedade paroquial de Sainte-Suzanne e devia a\u00ed \u00abreformar-se\u00bb, em conformidade com as regras que o comiss\u00e1rio civil Tirol institu\u00edra para as pessoas idosas. No momento da venda dos seus filhos adultos, Denis e Pauline, \u00abfoi anunciado como condi\u00e7\u00e3o expressa que o nomeado Amand, o pai deles de 90 anos, n\u00e3o querendo afastar-se dos filhos, e os filhos n\u00e3o querendo separar-se do pai\u00bb, iria viver na propriedade do comprador. A sua alimenta\u00e7\u00e3o em milho seria fornecida pela \u00abRep\u00fablica\u00bb e ele n\u00e3o seria, \u00abde modo algum, sujeito ao trabalho\u00bb. Foi o pr\u00f3prio Tirol quem prop\u00f4s estas \u00faltimas condi\u00e7\u00f5es.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44715277820755817\" aria-label=\"Atos da venda dos Negros do cant\u00e3o de Sainte-Suzanne, 14 de junho de 1793. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, L388.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h3>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia hist\u00f3rica?<\/h3>\n<p>O produto final das vendas dos bens (terras, escravos e m\u00f3veis) ultrapassou as expectativas de Tirol, atingindo os cerca de 5,6 milh\u00f5es de libras tornesas. Perto de metade dessa soma provinha da venda de seres humanos, que se tornaram uma raridade naquele contexto de guerra e, portanto, de interrup\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos. Numa carta endere\u00e7ada ao marido para lhe anunciar o encerramento das vendas (e, por conseguinte, a concretiza\u00e7\u00e3o do seu plano inicial), a senhora Beurnonville comentou que \u00abos negros em particular foram vendidos a pre\u00e7os exorbitantes\u00bb. <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.059828862637781866\" aria-label=\"Carta de Madame de Beurnonville, Saint-Denis, 10 de agosto de 1793. AN, D\/XXV\/130.\">&nbsp;<\/span> O \u00eaxito financeiro das vendas permitiu a Tirol criar o primeiro sistema fiscal em Bourbon capaz de atribuir subven\u00e7\u00f5es metropolitanas.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4824615747980934\" aria-label=\"Wanquet, Histoire d\u2019une R\u00e9volution. La R\u00e9union, 1789-1803, I:627.\">&nbsp;<\/span> Com efeito, na Reuni\u00e3o, os compradores dos bens eram obrigados a pagar ao tesouro da Col\u00f3nia, em v\u00e1rias presta\u00e7\u00f5es, por um per\u00edodo que poderia chegar aos tr\u00eas anos, ou seja, at\u00e9 1796, bem depois do decreto de aboli\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o Nacional de 1794, aboli\u00e7\u00e3o essa que a elite das ilhas se esfor\u00e7ava por travar completamente com toda a impunidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_11058\" aria-describedby=\"caption-attachment-11058\" style=\"width: 534px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/csm_image_src_abbe_72b80612d7.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-11058 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/csm_image_src_abbe_72b80612d7.jpg\" alt=\"\" width=\"534\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/csm_image_src_abbe_72b80612d7.jpg 534w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/csm_image_src_abbe_72b80612d7-223x300.jpg 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 534px) 100vw, 534px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11058\" class=\"wp-caption-text\">Retrato do abade Gr\u00e9goire. Pierre-Joseph-C\u00e9lestin Fran\u00e7ois (1759-1851). 1800. \u00d3leo sobre tela. <br \/>Col. Museu Lorrain, Reserva do Museu de Belas-artes de Nancy, inv. D.III.711<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como foi a rea\u00e7\u00e3o em Paris? Em 1797, o abade Henri Gr\u00e9goire, ent\u00e3o membro do Conselho dos Quinhentos e famoso pelas suas a\u00e7\u00f5es contra a escravatura, acolheu com entusiasmo a not\u00edcia de que as propriedades eclesi\u00e1sticas da ilha da Reuni\u00e3o tinham sido vendidas por milh\u00f5es de francos. Para ele, essa venda representava uma etapa crucial no caminho para a \u00abregenera\u00e7\u00e3o\u00bb do clero colonial franc\u00eas, que ele considerava ter-se tornado \u00e1vido e ineficaz, devido ao seu envolvimento na escravatura. Num relat\u00f3rio dirigido aos seus confrades da igreja constitucional, todavia, o abade Gr\u00e9goire admitiu com consterna\u00e7\u00e3o que alguns \u00abinfelizes africanos\u00bb tinham sido vendidos com as terras, uma vez que os colonos das Mascarenhas nunca tinham \u00abpublicado o decreto que lhes concedia a liberdade\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5373244685472991\" aria-label=\"Gr\u00e9goire, \u00abDe l\u2019\u00e9tat de la Religion dans les Isles de France et de la R\u00e9union\u00bb, Annales de la Religion, N.\u00ba 14, 5 de agosto de 1797, p. 325-6. Como a historiadora Alyssa Sepinwall salienta, para Gr\u00e9goire, ap\u00f3s o Terror, a Fran\u00e7a n\u00e3o podia renovar-se se n\u00e3o fizesse reformas no dom\u00ednio da religi\u00e3o e do imp\u00e9rio. Alyssa Goldstein Sepinwall, The Abb\u00e9 Gr\u00e9goire and the French Revolution: The Making of Modern Universalism (Berkeley: University of California Press, 2005), 145.\">&nbsp;<\/span> Tais coment\u00e1rios sugerem que o abade Gr\u00e9goire, e talvez outros legisladores opositores da escravatura, faziam vista grossa \u00e0 pr\u00e1tica continuada da Rep\u00fablica de auferir rendimentos da \u00abvenda de homens\u00bb, apesar da interdi\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":11073,"parent":11093,"menu_order":10,"template":"","class_list":["post-11201","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/11201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/11093"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11073"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}