{"id":11483,"date":"2023-11-27T08:40:07","date_gmt":"2023-11-27T04:40:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=11483"},"modified":"2025-06-03T08:10:16","modified_gmt":"2025-06-03T04:10:16","slug":"os-efeitos-da-escravatura-colonialista-na-funcao-paterna-na-ilha-da-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/memorias\/os-efeitos-da-escravatura-colonialista-na-funcao-paterna-na-ilha-da-reuniao\/","title":{"rendered":"Os efeitos da escravatura colonialista na fun\u00e7\u00e3o paterna na Ilha da Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>Os estudos sobre a fam\u00edlia suscitam grande interesse na nossa \u00e9poca de decomposi\u00e7\u00e3o-recomposi\u00e7\u00e3o familiar, tal como foi exposto mais amplamente por Berton (2022).<br \/>\nO facto de \u00abser pai\u00bb foi muitas vezes questionado na Fran\u00e7a continental por\u00e9m, foi gra\u00e7as \u00e0 europeiza\u00e7\u00e3o que o tema come\u00e7a a ganhar relevo na Reuni\u00e3o: um papel partilhado no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a estaria a emergir, sobretudo na faixa et\u00e1ria dos vinte aos trinta anos. Todavia, a m\u00e3e continua a ser a principal respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o em muitas fam\u00edlias da Reuni\u00e3o, consequ\u00eancia direta da escravatura, o que tem implica\u00e7\u00f5es no papel que o pai pode desempenhar.<\/h2>\n<h3>Um passado doloroso; um presente complicado<\/h3>\n<p>Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura (20 de dezembro de 1848), a Col\u00f3nia recorreu, atrav\u00e9s do chamado <em>engagisme<\/em>, a m\u00e3o de obra proveniente de \u00c1frica e respetivos territ\u00f3rios \u00absat\u00e9lite\u00bb (Madag\u00e1scar, Comores), da \u00cdndia e da \u00c1sia. Uma vez cumpridas as suas obriga\u00e7\u00f5es contratuais, a instala\u00e7\u00e3o na col\u00f3nia permitia-lhes o acesso \u00e0 propriedade, de acordo com as suas possibilidades, a entrada no mercado de trabalho e constituir, conjuntamente com a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 instalada (brancos e descendentes de escravos), a base da popula\u00e7\u00e3o reunionense atual. Esta popula\u00e7\u00e3o enfrenta atualmente uma taxa de desemprego elevada de 18,43%, contra 7,1% na metr\u00f3pole (INSEE, 2023).<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_10581\" aria-describedby=\"caption-attachment-10581\" style=\"width: 425px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/18P1.7_PHO.2012.2274.07a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-10581 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/18P1.7_PHO.2012.2274.07a-e1687852411166.jpg\" alt=\"\" width=\"425\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10581\" class=\"wp-caption-text\">GrGrupo [tipos \u00e9tnicos da Ilha da Reuni\u00e3o]. Constant Az\u00e9ma. 1871-1877. Fotografia. <br \/>Museu das Artes Decorativas do Oceano \u00cdndico, inv. 18P1.7_PHO.2012.2274.07a<\/figcaption><\/figure>Para muitos dos habitantes da ilha o sentimento de ser reunionense prima sobre o de ser franc\u00eas. Devido \u00e0 insularidade, t\u00eam a sensa\u00e7\u00e3o de serem esquecidos pela p\u00e1tria. O facto de n\u00e3o se incluir a hist\u00f3ria e geografia locais nos programas escolares nacionais contribuiu, muito provavelmente, para originar e fazer perdurar este sentimento ao longo do tempo.<br \/>\nTal facto perturbou certamente a rela\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o local com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e cultura, grande parte da qual foi transmitida oralmente, alterando a sua rela\u00e7\u00e3o com a sua ancestralidade e levando-os a questionar cada vez mais a sua identidade.<\/p>\n<h3>Uma busca de identidade<\/h3>\n<p>A alteridade deve ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s do reconhecimento de si pelo outro. No entanto, num contexto p\u00f3s-colonial, pode ser complicado n\u00e3o funcionar de outra forma que n\u00e3o seja recolhendo-se na pr\u00f3pria identidade, expressando assim uma falha na constru\u00e7\u00e3o dessa identidade.<br \/>\nMuitos dos autores aqui citados consideram que esta constru\u00e7\u00e3o parte da nega\u00e7\u00e3o do outro, gerando uma sociedade em busca das suas origens: \u00abassistimos a uma valoriza\u00e7\u00e3o da africanidade, a um padr\u00e3o identit\u00e1rio de <em>malgaxitude<\/em> que, no caso de alguns reunionenses de origem indiana, vem de par com a rejei\u00e7\u00e3o do termo <em>malbar<\/em>, ao qual preferem tamil ou hindu, este \u00faltimo remetendo, aos seus olhos, para uma civiliza\u00e7\u00e3o mais prestigiosa [&#8230;]. Esta reivindica\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia ou de uma sociedade puras, n\u00e3o polu\u00eddas por contribui\u00e7\u00f5es exteriores [&#8230;] apresenta ind\u00edcios de algum etnocentrismo\u00bb (Pourchez, 2005, p. 11).<br \/>\nNo decurso da hist\u00f3ria local, os migrantes e os deportados foram por vezes obrigados a praticar clandestinamente os seus cultos originais em prol da religi\u00e3o crist\u00e3 dominante. Atualmente, as pessoas praticam v\u00e1rias religi\u00f5es nas suas casas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10597\" aria-describedby=\"caption-attachment-10597\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/villele_grenier04-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10597 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/villele_grenier04-1.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/villele_grenier04-1.jpg 900w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/villele_grenier04-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/villele_grenier04-1-768x513.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10597\" class=\"wp-caption-text\">Servi\u00e7o de kabar\u00e9. Jean-Marc Grenier, fot\u00f3grafo. 2021. <br \/>\u00a9 Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>A Reuni\u00e3o foi portanto v\u00edtima de uma s\u00e9rie de feridas simb\u00f3licas: a escravatura, o <em>engagisme<\/em>, muitas vezes sem retorno, e o colapso socioecon\u00f3mico dos colonos. A isto juntou-se a nega\u00e7\u00e3o da identidade atrav\u00e9s da proibi\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas originais, e mais tarde do crioulo (proibido at\u00e9 aos anos 70) e a quase inexist\u00eancia de programas escolares sobre a hist\u00f3ria da ilha.<\/p>\n<h3>Quando o senhor reduz o pai ao estatuto de progenitor<\/h3>\n<p>Neste contexto social, o pai foi destitu\u00eddo do seu papel paternal e filial. No entanto, nem todos estes migrantes provinham de uma cultura matriarcal: consoante as suas origens, o pai podia ter um papel a desempenhar na educa\u00e7\u00e3o dos filhos: nas sociedades africanas pr\u00e9-coloniais, \u00abera o pai que ensinava ao rapaz o seu of\u00edcio de homem\u00bb (Camille. F., 2008), ao passo que, durante a coloniza\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as aprendiam um of\u00edcio \u00fatil com o senhor. Atualmente, em muitas fam\u00edlias, a educa\u00e7\u00e3o do \u00ab<em>marmaille<\/em>\u00bb (a crian\u00e7a) \u00e9 da responsabilidade da mulher (matrifocalidade) e o of\u00edcio \u00e9 essencialmente aprendido nos bancos da escola nacional.<br \/>\nPara o psic\u00f3logo J.-P. Cambefort (2001, p. 64), a destitui\u00e7\u00e3o do papel conjugal e educativo do pai bloquear\u00e1 a liga\u00e7\u00e3o afetiva da crian\u00e7a, que \u00e9 quase exclusivamente com a m\u00e3e, e dificultar\u00e1 a socializa\u00e7\u00e3o e a integra\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a nos limites sociais e, por conseguinte, na lei. Cambefort relata que, para milhares de fam\u00edlias, o facto de ter um patron\u00edmico resultante de uma alcunha cujo objetivo era estigmatizar os descendentes de escravos libertos (Nabucodonosor, T\u00e2ntalo, Hamilcar, etc.) (<em>ibid<\/em>., p.134), foi prejudicial \u00e0 fun\u00e7\u00e3o paterna. A psic\u00f3loga Bianca Benvenuti afirma que os fatores de desfilia\u00e7\u00e3o ps\u00edquica atacam o pensamento e os la\u00e7os relacionais (tanto mais fortemente) quando a transmiss\u00e3o parental \u00e9 enviesada por toda uma sociedade ou \u00e9 varrida por traumas coletivos (<em>op. cit.<\/em>, p. 216): estes \u00faltimos podem ent\u00e3o influenciar negativamente a qualidade da inter-rela\u00e7\u00e3o entre a crian\u00e7a e o seu progenitor.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10601\" aria-describedby=\"caption-attachment-10601\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/EDEPOT1-156.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10601 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/EDEPOT1-156.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"657\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/EDEPOT1-156.jpg 2000w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/EDEPOT1-156-300x99.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/EDEPOT1-156-768x252.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/EDEPOT1-156-1024x336.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10601\" class=\"wp-caption-text\">Registos de franquia de 1832 e registos especiais de 1848. Saint-Paul. <br \/>Registo K mantido por Ricquebourg, Archambaud. 17\/12\/1848 &#8211; 14\/07\/1849. Manuscrito. <br \/>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, inv. EDEPOT1\/156<\/figcaption><\/figure>\n<p>De facto, o escravo n\u00e3o sabia se tinha futuro (o senhor tinha o direito de vida ou de morte sobre ele). Esta filosofia do \u00abmomento presente\u00bb \u00e9 comummente encontrada no hiperconsumo e no sobreendividamento, encorajados por uma idealiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas sociol\u00f3gicas e culturais ocidentais, particularmente o consumismo. Este facto influencia a franja da popula\u00e7\u00e3o que recebe presta\u00e7\u00f5es sociais m\u00ednimas, \u00ablevando-a\u00bb a comprar bens manufaturados para al\u00e9m da sua capacidade financeira. Trata-se de uma tentativa desajeitada de ser t\u00e3o bem sucedido socialmente como as classes sociais mais abastadas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o contexto dos tempos da col\u00f3nia, em que o direito \u00e0 palavra n\u00e3o era observado (associado a culturas pouco atentas \u00e0 considera\u00e7\u00e3o do mal-estar psicol\u00f3gico end\u00f3geno<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2497243497359436\" aria-label=\"A origem do sofrimento e da doen\u00e7a \u00e9 ex\u00f3gena, vem do dem\u00f3nio e, portanto, n\u00e3o dos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es individuais. Brandibas. J, Tratado de Psicopatologia e Terap\u00eautica Reunionense.\">&nbsp;<\/span>), e o facto de as mulheres terem estado confinadas durante anos \u00e0s tarefas do lar e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos filhos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3975744939714332\" aria-label=\"Em algumas culturas tradicionais, as mulheres eram consideradas como \u00abmercadorias\u00bb a trocar, um comportamento que se repete na escravatura.\">&nbsp;<\/span>, podem ser as raz\u00f5es para a explos\u00e3o dos casos de viol\u00eancia intrafamiliar. O maior paradoxo continua a ser o dos \u00abarqui-pais\u00bb: estes representantes pol\u00edticos, muitas vezes envolvidos na corrup\u00e7\u00e3o, t\u00eam o poder, num clima tenso em mat\u00e9ria de emprego, de distribuir os contratos de trabalho em fun\u00e7\u00e3o das necessidades eleitorais. S\u00e3o modelos de identifica\u00e7\u00e3o negativos (\u00abse o presidente da c\u00e2mara se safa, eu tamb\u00e9m me safo\u00bb). \u00c9 ironia da hist\u00f3ria que o descendente de um escravo assuma por sua vez o papel de senhor, permitindo-se atos de omnipot\u00eancia, sem respeito pela lei dos homens, que \u00e9 a garantia da equidade.<\/p>\n<p>A imagem que os filhos t\u00eam do pai n\u00e3o \u00e9, portanto, gloriosa: num estudo realizado em 1990 junto a 1808 alunos dos 17 aos 25 anos, tanto raparigas como rapazes, levado a cabo em liceus profissionais, Cambefort (<em>ibid.<\/em>, p. 99) mostrou que a maioria (80,5%) dos alunos tinha uma imagem negativa do pai ou do padrasto que n\u00e3o se interessaria pela escolaridade, n\u00e3o dialogaria com eles, seria muitas vezes fisicamente violento, motivo de vergonha, autorit\u00e1rio, por vezes alco\u00f3lico ou descrito como louco.<\/p>\n<p>Este estudo deve ser relativizado pelo facto de ter sido realizado num liceu profissional j\u00e1 que estes jovens v\u00eam frequentemente de um contexto familiar dif\u00edcil. Isto explicaria, pelo menos em parte, a quantidade de cr\u00edticas negativas em rela\u00e7\u00e3o aos pais, o que poderia n\u00e3o se verificar num liceu geral. Estes adolescentes, que se encontram quase sempre na faixa et\u00e1ria caracterizada pela oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade, podem tamb\u00e9m exagerar a perce\u00e7\u00e3o da sua situa\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, as suas respostas. Contudo, estes n\u00fameros denotam o mal-estar familiar. Para 1,7% dos jovens, o pai ou o padrasto tentou assassinar a m\u00e3e, o que representa 30,7 em 1808 crian\u00e7as, ou seja, uma turma inteira de alunos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do uso do \u00abchicote p\u00eassego\u00bb (um ramo de pessegueiro), o castigo pode passar por obrigar a crian\u00e7a a se ajoelhar durante algum tempo sobre sal grosso (para purificar a alma). O uso da viol\u00eancia \u00e9 r\u00e1pido, simples e inequ\u00edvoco: \u00abmuitas vezes sob o pretexto de princ\u00edpios educativos\u00bb (<em>op. cit.<\/em>), com o argumento de que o que funcionou no passado funciona hoje. Segundo o historiador Yale N\u00e9ba (2009, p. 28), \u00abos escravos n\u00e3o tinham o direito de se defender das agress\u00f5es dos senhores&#8230; Eram punidos com a morte\u00bb. E, segundo o C\u00f3digo Negro, \u00abum simples olhar, uma palavra, um gesto acidental, um erro, um acidente ou uma fraqueza eram motivos para chicotear um escravo\u00bb (<em>idem.<\/em>, p. 31). Mas se considerarmos a destrui\u00e7\u00e3o das leis simb\u00f3licas paternas, coexiste tamb\u00e9m a omnipot\u00eancia materna.<\/p>\n<figure id=\"attachment_10605\" aria-describedby=\"caption-attachment-10605\" style=\"width: 391px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8-LK11-34-1-ce_qui_sert_a_vos_plaisirs.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-10605 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8-LK11-34-1-ce_qui_sert_a_vos_plaisirs.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"596\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8-LK11-34-1-ce_qui_sert_a_vos_plaisirs.jpg 391w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8-LK11-34-1-ce_qui_sert_a_vos_plaisirs-197x300.jpg 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10605\" class=\"wp-caption-text\">O que serve os vossos prazeres est\u00e1 molhado com as nossas l\u00e1grimas. Moreau Le Jeune. 1772. <br \/>Impress\u00e3o. Em <em>Viagem a Isle de France, Isle de Bourbon, Cabo da Boa Esperan\u00e7a,<\/em> etc.. <br \/>Henri Bernardin de Saint-Pierre. Merlin (Amesterd\u00e3o), 1773. P. 199, pl. 4. <br \/>Col. Biblioteca Nacional de Fran\u00e7a, inv. 8-LK11-34 (1)<\/figcaption><\/figure>\n<h3>A matrifocalidade e suas consequ\u00eancias<\/h3>\n<p>Os cl\u00ednicos observam regularmente que a crian\u00e7a dorme no quarto ou mesmo na cama dos pais, por vezes at\u00e9 \u00e0 adolesc\u00eancia<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3834697069603006\" aria-label=\"Para al\u00e9m de qualquer necessidade econ\u00f3mica.\">&nbsp;<\/span>. As chupetas e as fraldas s\u00e3o mantidas at\u00e9 aos quatro ou cinco anos, e a crian\u00e7a \u00e9 amamentada at\u00e9 aos seis anos&#8230; Uma heran\u00e7a cultural de certas comunidades africanas onde a crian\u00e7a podia mamar de qualquer peito. Contudo, cultura \u00e0 parte, este comportamento \u00e9 mantido por raz\u00f5es ps\u00edquicas: partilhar a cama com a crian\u00e7a evita a sexualidade conjugal e mant\u00e9m a crian\u00e7a psicologicamente dependente da m\u00e3e (e vice-versa). O pai, ele pr\u00f3prio criado num contexto em que a m\u00e3e tem um espa\u00e7o preponderante, v\u00ea-se ent\u00e3o limitado na sua capacidade de reivindicar o seu lugar no casamento e encontra-se reduzido ao papel de mero progenitor, n\u00e3o participando no cuidado dos filhos por sua pr\u00f3pria iniciativa. A sua esposa tamb\u00e9m reproduz a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia: os filhos pertencem \u00ab\u00e0s m\u00e3es\u00bb (m\u00e3e, av\u00f3s, cunhadas, etc.). \u00abTradicionalmente, ela [a m\u00e3e] \u00e9 a \u00fanica respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o dos filhos, sendo que o pai quase n\u00e3o participa nas tarefas dom\u00e9sticas e familiares\u00bb (Breton, 2005, p. 135).<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga Laurence Pourchez explica que alguns pais tamb\u00e9m deixaram de estar presentes no parto: \u00abquando as maternidades foram criadas, a partir do momento em que o padr\u00e3o tradicional do parto foi perturbado [&#8230;], foram exclu\u00eddos do parto da mesma forma que os seus hom\u00f3logos da Fran\u00e7a metropolitana o foram em meados do s\u00e9culo, condenados, devido ao risco microbiano, a fumar cigarro atr\u00e1s de cigarro no corredor\u00bb (2000, p. 31). De facto, a descend\u00eancia \u00abileg\u00edtima\u00bb e o n\u00e3o reconhecimento dos filhos pelo pai s\u00e3o significativos: \u00abentre os nascimentos ditos ileg\u00edtimos (uni\u00f5es de facto e PACS), h\u00e1 uma mistura de nascimentos de casais est\u00e1veis e de m\u00e3es solteiras [&#8230;]. Em 1999, 45% dos filhos ileg\u00edtimos foram reconhecidos pela m\u00e3e e pelo pai, e 39% por apenas um dos progenitores\u00bb, em regra geral a m\u00e3e (Breton, 2007, p. 188).<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_10614\" aria-describedby=\"caption-attachment-10614\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/FRIHOI_15P1.AN4_.22a.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10614 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/FRIHOI_15P1.AN4_.22a.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"639\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/FRIHOI_15P1.AN4_.22a.jpg 900w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/FRIHOI_15P1.AN4_.22a-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/FRIHOI_15P1.AN4_.22a-768x545.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10614\" class=\"wp-caption-text\">22 &#8211; Ilha da Reuni\u00e3o &#8211; Fam\u00edlia crioula. Foto L.A.G.. [191.]. Impress\u00e3o fotomec\u00e2nica (cart\u00e3o postal). <br \/>Acervo privado Jean-Fran\u00e7ois Hibon de Frohen (1947- ), inv. 15P1.AN4.22a<\/figcaption><\/figure>Em contrapartida, segundo Cambefort, \u00aba m\u00e3e assume um papel refor\u00e7ado, primeiramente na vida dom\u00e9stica e, depois, nas rela\u00e7\u00f5es com o exterior, nomeadamente com a administra\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>op. cit.<\/em>, p.84): \u00abs\u00e3o as mulheres que na maioria das vezes tratam da papelada, pelo que, aquando do seu falecimento, deixam os maridos na ignor\u00e2ncia dos imperativos administrativos, soterrados em dificuldades financeiras [&#8230;]. O homem crioulo \u00e9 progressivamente enredado numa din\u00e2mica social que o exclui\u00bb (<em>Ibid.<\/em>). Para este autor, \u00abo pai, visto como violento, distante e ausente na educa\u00e7\u00e3o, deixa de estar envolvido na vida do lar, tornando-se marginalizado. Ele deixa de ser o garante da entrada da crian\u00e7a na socializa\u00e7\u00e3o exterior, dos limites e da lei [&#8230;]. Ela [a crian\u00e7a] est\u00e1, portanto, insuficientemente estruturada relativamente \u00e0 autoridade tutorial do adulto e cresce em fun\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o imediata das suas necessidades\u00bb (<em>Id.<\/em>, p.85).<\/p>\n<p>\u00abPresente sem estar presente\u00bb, o pai n\u00e3o pode separar progressivamente a crian\u00e7a da sua m\u00e3e. Quando \u00aba m\u00e3e idolatra o seu filho, sobrestima-o, sobrevaloriza-o [&#8230;] que j\u00e1 n\u00e3o ousa mais afastar-se, confrontar-se com o mundo, tal \u00e9 o seu receio de cair do seu pedestal\u00bb, segundo o psic\u00f3logo Jacques Robion (2003, p. 65-67). Assim, \u00abo homem continua a ser, aconte\u00e7a o que acontecer, o filho da sua m\u00e3e, a quem deve respeito e obedi\u00eancia\u00bb (Cambefort, <em>op. cit.<\/em>, p.94). Se o pai est\u00e1 ausente, seja em termos reais, imagin\u00e1rios ou simb\u00f3licos, j\u00e1 n\u00e3o se trata de continuar a ser dois em vez de tr\u00eas, mas de continuar a ser um &#8211; \u00abisto acontece no momento em que o filho pretende quebrar o contrato que sufoca a sua autonomia\u00bb (<em>ibid.<\/em>, p. 65-67) &#8211; n\u00e3o permitindo ao filho, agora marido e pai, \u00abinvestir-se\u00bb junto aos seus pr\u00f3prios mulher e filhos.<\/p>\n<p>Assim, \u00abo filho guarda a imagem do pai como um eterno rival [&#8230;] muitas vezes refor\u00e7ada na realidade pelos atos violentos do pai deposto, que se refugia no alcoolismo e na marginalidade\u00bb (<em>loc.cit.<\/em>). Esta manuten\u00e7\u00e3o da fus\u00e3o com a m\u00e3e (bem como a influ\u00eancia religiosa) contribui para um certo desconhecimento do amor e do prazer: \u00aba sexualidade, por n\u00e3o ter sido verbalizada [e portanto virada para a alteridade], ser\u00e1 vivida diretamente no ato, no agir\u00bb (<em>ibid.<\/em>, pp. 101-102). Por conseguinte, no seio da fam\u00edlia ou do c\u00edrculo pr\u00f3ximo, o abuso sexual de menores, que \u00e9 de 200 por ano, \u00e9 proporcionalmente mais elevado do que o n\u00famero aproximado na Fran\u00e7a metropolitana (<em>op. cit.<\/em>, p. 105).<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>O per\u00edodo colonial provocou uma mudan\u00e7a radical no papel paterno na Reuni\u00e3o, que se perdeu entre as injun\u00e7\u00f5es ditas tradicionais e modernas relativas \u00e0s posturas e fun\u00e7\u00f5es conjugais e familiares. Para muitos homens reunionenses, a parentalidade paterna \u00e9 objeto de um verdadeiro sofrimento devido a uma perda de identidade e de filia\u00e7\u00e3o, gerando uma confus\u00e3o que \u00e9 transmitida geracionalmente, como se o homem tivesse recebido uma miss\u00e3o educativa, mas nem sempre sabendo o que fazer nem como. Seria importante ajud\u00e1-los a encontrar o seu lugar e o seu papel no seio das fam\u00edlias, atrav\u00e9s de uma forma\u00e7\u00e3o de qualidade dos profissionais (cuidadores, assistentes sociais, magistrados e agentes da autoridade), muitos dos quais s\u00e3o tamb\u00e9m prisioneiros dos seus pr\u00f3prios prismas: h\u00e1 cerca de dez anos, a cria\u00e7\u00e3o da unidade hospitalar \u00abmulher-m\u00e3e-crian\u00e7a\u00bb (obstetr\u00edcia, maternidade, pediatria) excluiu, desde logo devido ao nome da unidade, o (futuro) pai.<br \/>\nA hist\u00f3ria n\u00e3o deve repetir-se, e o psicanalista Lebrun conclui: aprender a pensar \u00absignifica aprender, mas sobretudo aprender a aprender [&#8230;]. Deixar para tr\u00e1s o apoio que ganh\u00e1mos com o que aprendemos dos outros&#8230; Para isso, \u00e9 essencial encontrar um ponto de apoio que permita deixar o primeiro (a m\u00e3e): isto \u00e9&#8230; um pai\u00bb (2007, p. 29).<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":10592,"parent":5044,"menu_order":60,"template":"","class_list":["post-11483","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/11483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10592"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}