{"id":13254,"date":"2024-05-31T08:20:54","date_gmt":"2024-05-31T04:20:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=13254"},"modified":"2026-04-02T10:17:40","modified_gmt":"2026-04-02T06:17:40","slug":"os-escravos-mocambiques-em-bourbon-de-acordo-com-as-notas-manuscritas-de-eugene-huet-de-froberville-tomadas-durante-a-sua-estadia-na-ilha-em-1845","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/o-trafico-de-escravos\/a-origem-dos-escravos-de-bourbon\/os-escravos-mocambiques-em-bourbon-de-acordo-com-as-notas-manuscritas-de-eugene-huet-de-froberville-tomadas-durante-a-sua-estadia-na-ilha-em-1845\/","title":{"rendered":"Os escravos \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb em Bourbon, de acordo com as notas manuscritas de Eug\u00e8ne Huet de Froberville tomadas durante a sua estadia na ilha em 1845"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Eug\u00e8ne Huet de Froberville<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.00581578020792084\" aria-label=\"Eug\u00e8ne Huet de Froberville nem sempre usou o seu nome completo, mas na maioria das vezes assinava as suas correspond\u00eancias e publica\u00e7\u00f5es com o nome abreviado de Eug\u00e8ne de Froberville. Utilizo este \u00faltimo apelido no restante texto.\">&nbsp;<\/span>(1815-1904) descendia de uma fam\u00edlia aristocr\u00e1tica francesa estabelecida desde o final do s\u00e9culo XVIII nas Maur\u00edcias (ent\u00e3o \u00cele de France), ilha onde nasceu e que se tornou col\u00f3nia inglesa em 1810. Estabelecido em Fran\u00e7a com a fam\u00edlia desde o final da d\u00e9cada de 1820, Eug\u00e8ne de Froberville herdou do pai Prosper uma fortuna avultada resultante da venda de bens coloniais (especialmente de a\u00e7\u00facar), o que lhe permitiu dedicar a sua vida \u00e0s artes e ci\u00eancias. Em meados da d\u00e9cada de 1840, prop\u00f4s \u00e0 Sociedade de Geografia (de Fran\u00e7a) a realiza\u00e7\u00e3o de um estudo sobre \u00abas ra\u00e7as e as l\u00ednguas da \u00c1frica Oriental a sul do equador\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8956876761893318\" aria-label=\"Eyri\u00e8s, Malte-Brun, 1847.\">&nbsp;<\/span>. Nunca visitou o continente africano, levando a cabo a sua investiga\u00e7\u00e3o nas Ilhas Mascarenhas com base nos relatos de ex-cativos africanos designados \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb.<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video controls src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Klara_Boyer_Rossol_4-SUB_PT.mp4\"><\/video><\/figure>\n\n\n\n<p>O termo gen\u00e9rico \u00abMo\u00e7ambique\u00bb foi usado em finais do s\u00e9culos XVIII e ao longo do s\u00e9culo XIX para designar todos os cativos deportados da \u00c1frica Oriental para as Ilhas Mascarenhas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7715356506919546\" aria-label=\"Alpers, 2001 ; 2005. \">&nbsp;<\/span>, sendo que os pr\u00f3prios cativos africanos ter-se-iam apropriado desse termo no sentido de se definirem a si pr\u00f3prios. Froberville ter-lhes-\u00e1 colocado uma profus\u00e3o de perguntas com o intuito de descobrir os nomes das suas \u00abverdadeiras na\u00e7\u00f5es\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7410872715979671\" aria-label=\"Eyri\u00e8s, Malte-Brun, 1847.\">&nbsp;<\/span>. <br>Em Bourbon e nas Maur\u00edcias, entre 1845 e 1847, Froberville entrevistou mais de 350 pessoas oriundas da \u00c1frica Oriental, na sua grande maioria homens levados entre 1810 e 1830 para essas ilhas de planta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9394536654955086\" aria-label=\"Entre 1811 e princ\u00edpios da d\u00e9cada de 1830, estima-se que cerca de 106 500 cativos teriam sido deportados de Madag\u00e1scar e das costas da \u00c1frica Oriental para as Maur\u00edcias, a Reuni\u00e3o e as Seicheles. Richard Allen, 2001.\">&nbsp;<\/span>, atrav\u00e9s do com\u00e9rcio ilegal de escravos. Esses ex-cativos africanos proporcionaram a Froberville uma quantidade consider\u00e1vel de conhecimentos (lingu\u00edsticos, geogr\u00e1ficos e etnol\u00f3gicos) sobre os seus pa\u00edses de origem que podem ser rastreados at\u00e9 aos atuais Mo\u00e7ambique, Malawi e Tanz\u00e2nia.<br>As notas, os desenhos e a correspond\u00eancia do etn\u00f3grafo franc\u00eas est\u00e3o h\u00e1 muito guardados nos arquivos privados Huet de Froberville, que tive o privil\u00e9gio de consultar em finais de 2018<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4013254845241281\" aria-label=\"Os arquivos privados Huet de Froberville foram recentemente (finais de 2023) doados aos Arquivos nacionais do ultramar (ANOM) localizados em Aix-en-Provence. Registados sob o n\u00famero de refer\u00eancia 344 APOM, estes arquivos estar\u00e3o acess\u00edveis ao p\u00fablico at\u00e9 ao in\u00edcio de 2025. As imagens (cadernos e desenhos) que ilustram este artigo prov\u00eam de um lote de arquivos digitalizados que foram doados pelos propriet\u00e1rios de Froberville (in\u00edcio de 2023) ao Museu intercontinental da escravatura (ISM) das Maur\u00edcias.\">&nbsp;<\/span>. Gra\u00e7as \u00e0 an\u00e1lise dos cadernos e de outras notas manuscritas de Eug\u00e8ne de Froberville, foi poss\u00edvel reconstituir a sua investiga\u00e7\u00e3o etnol\u00f3gica efetuada nas Ilhas Mascarenhas, identificar 140 dos cerca de 350 ex-cativos africanos entrevistados por Froberville em Bourbon e Maur\u00edcias, e descobrir as suas origens e percursos de vid.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4013254845241281\" aria-label=\"Ver Klara Boyer-Rossol, 2024.\">&nbsp;<\/span>. Enquanto na col\u00f3nia brit\u00e2nica das Maur\u00edcias, os \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb entrevistados por Froberville em 1846 haviam sido libertados cerca de dez anos antes, em Bourbon ainda se encontravam em situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f67441&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"779\" height=\"1200\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ME-2013-128-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12932\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ME-2013-128-3.jpg 779w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ME-2013-128-3-195x300.jpg 195w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ME-2013-128-3-665x1024.jpg 665w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ME-2013-128-3-768x1183.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Povos de Mo\u00e7ambique. Augustin Fran\u00e7ois Lema\u00eetre. 1848. Gravura com cinzel. <br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, Acervo Michel Pol\u00e9nyck, inv. ME.2013.128<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Neste artigo, vou focalizar-me nos escravizados<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6040151177980586\" aria-label=\"Uso o termo escravizado.a para destacar o processo de escraviza\u00e7\u00e3o desses homens, mulheres e crian\u00e7as, e o termo escravo para me referir ao estatuto jur\u00eddico servil.\">&nbsp;<\/span> da \u00c1frica Oriental entrevistados por Froberville durante sua viagem a Bourbon em novembro de 1845. Durante esta curta estadia de cerca de duas semanas, o etn\u00f3grafo relatou ter observado cerca de duzentos \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"999999\" aria-label=\"Arquivos privados Huet de Froberville (AHF). Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 m\u00e3e Eug\u00e9nie, cujo apelido de solteira era Bon. Port-Louis, 1 de janeiro de 1846.\">&nbsp;<\/span>, na sua maioria for\u00e7ados a cultivar planta\u00e7\u00f5es ou explorados como artes\u00e3os nas cidades, sendo os restantes escravos dom\u00e9sticos. Os \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb entrevistados por Froberville transmitiram oralmente (em crioulo) hist\u00f3rias de vida que revelam a viol\u00eancia da escravatura em Bourbon, apenas alguns anos antes da aboli\u00e7\u00e3o: \u00abPassava os dias a questionar estes pobres escravos, a ouvir a hist\u00f3ria comovente das suas vidas\u00bb, observou Eug\u00e8ne de Froberville<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.04130640869258895\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 prima Am\u00e9lie de Froberville. Maur\u00edcias, 28 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>em 1846. Ao inv\u00e9s de transcrever nos seus cadernos o conte\u00fado desses relatos sobre a vida de escravid\u00e3o em Bourbon \u2013 o que teria sido extremamente precioso, j\u00e1 que as hist\u00f3rias de vida dos escravos nas col\u00f3nias francesas s\u00e3o rar\u00edssimas, ou at\u00e9 inexistentes \u2013 o etn\u00f3grafo interessou-se pelos pa\u00edses de origem desses ex-cativos nascidos na \u00c1frica Oriental. Nos seus cadernos, encontramos excertos de relatos orais e de conhecimentos (sobretudo lingu\u00edsticos) de \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb acerca dos seus pa\u00edses africanos de origem. De acordo com essas notas, foi poss\u00edvel identificar quatro homens e uma mulher entre os escravos oriundos de \u00c1frica Oriental entrevistados em Bourbon, cujos nomes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.16151168403321647\" aria-label=\"Dos cadernos de Eug\u00e8ne de Froberville constam os nomes originais e\/ou os nomes atribu\u00eddos ou adquiridos em Bourbon. Nos censos oficiais, os nomes originais foram frequentemente apagados.\">&nbsp;<\/span>, origens, l\u00ednguas, pr\u00e1ticas culturais e parte das suas trajet\u00f3rias de vida puderam ser rastreados, de Mo\u00e7ambique a Bourbon. O cruzamento dos arquivos privados de Froberville com os arquivos departamentais da Ilha da Reuni\u00e3o permitiu confirmar a identidade de duas dessas pessoas escravizadas e colmatar lacunas relativas \u00e0s suas trajet\u00f3rias em Bourbon, bem como rastrear os seus poss\u00edveis descendentes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb entrevistados por Froberville em Saint-Denis, Sainte-Marie e Sainte-Suzanne<\/h3>\n\n\n\n<p>Em 12 de novembro de 1845, setenta e nove dias ap\u00f3s terem partido de Fran\u00e7a por via mar\u00edtima, Eug\u00e8ne de Froberville e a esposa Caroline desembarcaram em Bourbon onde passaram de dezassete a vinte dias, antes de prosseguirem para as Maur\u00edcias<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.23394734653816474\" aria-label=\"AHF. Nota de Eug\u00e8ne de Froberville. Saint-Denis, 12 de novembro de 1845; Carta de Caroline de Froberville \u00e0 sogra Eug\u00e9nie. Port-Louis, 28 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>. A correspond\u00eancia que mantiveram durante a sua estadia em Bourbon permite-nos reconstituir o contexto da investiga\u00e7\u00e3o etnol\u00f3gica e lingu\u00edstica realizada por Eug\u00e8ne de Froberville com base nos relatos de pessoas escravizadas nascidas em \u00c1frica. Numa carta endere\u00e7ada \u00e0 prima Am\u00e9lie de Froberville, Eug\u00e8ne conta ter-se dedicado \u00abao estudo dos africanos que cultivavam as planta\u00e7\u00f5es\u00bb durante a sua estadia em Bourbon<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7776796620694861\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 sua prima Am\u00e9lie de Froberville. Maur\u00edcias, 28 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>. Hubert Gerbeau demonstrou que o tr\u00e1fico de escravos il\u00edcito de Bourbon tinha servido diretamente \u00e0 economia das planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3230032540265282\" aria-label=\"Entre 1817 e 1835, cerca de 50 000 cativos foram trazidos para Bourbon. Hubert Gerbeau, 2002.\">&nbsp;<\/span> Mencionou tamb\u00e9m \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb que eram artes\u00e3os em oficinas ou criados em Saint-Denis. Eug\u00e8ne de Froberville teve acesso a esses escravos africanos com o assentimento dos pr\u00f3prios propriet\u00e1rios que acolheram os Frobervilles. Em Saint-Denis, o casal ficou alojado na casa de Adolphe Lory, em Sainte-Marie na da vi\u00fava de Gustave de Tourris, e em Sainte-Suzanne na de Louis de Tourris (filho de Gustave), que ali possu\u00eda uma propriedade.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8753078531921321\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, 1848.\">&nbsp;<\/span>. Os Arquivos departamentais da Ilha da Reuni\u00e3o fornecem informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre as fam\u00edlias Lory e de Tourris, colonos que vieram das Maur\u00edcias para a Ilha da Reuni\u00e3o em 1826 e 1827, respetivamente<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.044253435888234494\" aria-label=\"Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o (ADR). Censo 6M 321. L. Saint-Denis. 1845. ADR. Censo 6M 446. Q-X. Sainte-Suzanne. 1841; 6M 460. M-Z. Sainte-Suzanne. 1848.\">&nbsp;<\/span>. Na mesma altura, em 1827, Prosper Huet de Froberville (1791-1839), pai de Eug\u00e8ne, deixou as Maur\u00edcias com a fam\u00edlia para se estabelecer na Fran\u00e7a. \u00c0 frente de v\u00e1rias empresas comerciais (domiciliadas nas Maur\u00edcias e em Fran\u00e7a), Prosper tinha forjado rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas com Bord\u00e9us e Liverpool, e teria aproveitado as condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis, adotadas pela Inglaterra em 1825, em mat\u00e9ria de venda de a\u00e7\u00facar proveniente da col\u00f3nia das Maur\u00edcias<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.09130871115560346\" aria-label=\"Allen, 2001, p. 114.\">&nbsp;<\/span>. Depreende-se facilmente que Adolphe Lory (industrial e comerciante), Gustave de Tourris (industrial e propriet\u00e1rio de terras) e Prosper Huet de Froberville (comerciante), todos nascidos nas Maur\u00edcias e pertencentes \u00e0 mesma gera\u00e7\u00e3o, mantinham rela\u00e7\u00f5es sociais e\/ou comerciais. O facto de Eug\u00e8ne de Froberville ter transmitido informa\u00e7\u00f5es sobre a ind\u00fastria a\u00e7ucareira nas Maur\u00edcias \u00e0 fam\u00edlia Lory, corrobora esta hip\u00f3tese<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9508534592443942\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville a Adolphe Lory. Port-Louis, Maur\u00edcias, 15 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>. \u00c9 prov\u00e1vel que os Frobervilles tamb\u00e9m tivessem elos familiares com algumas das grandes fam\u00edlias latifundi\u00e1rias da Ilha da Reuni\u00e3o. Eug\u00e9nie Huet de Froberville (cujo apelido de solteira era Bon), m\u00e3e de Eug\u00e8ne, era parente afastada da Senhora Desbassayns que havia convidado o jovem casal Froberville como h\u00f3spede em novembro de 1845, contudo a filha, a Sra. de Vill\u00e8le, adoeceu, pelo que o convite n\u00e3o p\u00f4de ser mantido<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2655834741710046\" aria-label=\"AHF. Carta de Caroline de Froberville endere\u00e7ada \u00e0 sogra Eug\u00e9nia. Port-Louis, 28 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a sua estada em Bourbon, Eug\u00e8ne de Froberville dedicou-se ao estudo das l\u00ednguas da \u00c1frica Oriental<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9771985163671413\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 prima Am\u00e9lie de Froberville. Maur\u00edcias, 28 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>. Dos seus cadernos constam vocabul\u00e1rios em abund\u00e2ncia obtidos de escravos \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb em Saint-Denis, Sainte-Marie e Sainte\u2011Suzanne. Froberville agradeceu aos propriet\u00e1rios Adolphe Lory e Louis de Tourris que colocaram \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o \u00abos escravos africanos que possu\u00edam, o primeiro nas suas oficinas em St Denis, o segundo na sua casa em Sainte-Suzanne\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9602563741710652\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Notas etnogr\u00e1ficas sobre a \u00c1frica Oriental 1846-1847 (sem data).\">&nbsp;<\/span>. Os vocabul\u00e1rios \u00abMakua\u00bb e \u00abNiambane\u00bb tamb\u00e9m foram recolhidos em Sainte-Marie na casa da vi\u00fava de Tourris, a m\u00e3e de Louis Nas de Tourris, que convidara os Froberville a ali permanecer por alguns dias<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3003513345472666\" aria-label=\"AHF. Carta de Caroline de Froberville endere\u00e7ada \u00e0 sogra Eug\u00e9nia. Port-Louis, 28 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f682a2&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full is-style-default wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"763\" height=\"1000\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-1-Cahier-Manika-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12787\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-1-Cahier-Manika-2.jpg 763w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-1-Cahier-Manika-2-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Eug\u00e8ne de Froberville. Caderno Makina. Entrevista com Virginie e Onsinanga, escravos de Lory em Saint-Denis. <br>\u00a9Archives et Collections priv\u00e9es Huet de Froberville\/Phot\u00f3grafo F. Lauginie \u00a9International Slavery Museum (ISM), Maur\u00edcias<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6944c&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full is-style-default wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"759\" height=\"1000\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-2-Cahier-Mudhiaua-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12791\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-2-Cahier-Mudhiaua-1.jpg 759w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-2-Cahier-Mudhiaua-1-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Eug\u00e8ne de Froberville. Caderno Mudhiaua. Entrevista com Mkuto Germain (escravo de Tourris) em Sainte-Marie (resid\u00eancia de Sainte-Suzanne) <br>\u00a9Arquivos e cole\u00e7\u00f5es particulares de Huet de Froberville Private Collections\/Fot\u00f3grafo F. Lauginie \u00a9International Slavery Museum (ISM), Maur\u00edcias<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Em Saint-Denis, Froberville dedicou o seu tempo a coletar \u00abvocabul\u00e1rios de todas as pessoas negras Makua que conheceu\u00bb, afirmou a esposa Caroline<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5142612665304018\" aria-label=\"AHF. Carta de Caroline de Froberville \u00e0 sogra Eug\u00e9nie. Port-Louis, 28 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>. Acredita-se que Froberville entrevistou principalmente homens pois eram especialmente numerosos nas planta\u00e7\u00f5es. Os escravos de sexo masculino, chamados cafres na propriedade da fam\u00edlia de Tourris em Sainte-Suzanne, eram quase todos cultivadores<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7652537282487881\" aria-label=\"ADR. Censo. 6M 442. L-W. Sainte-Suzanne. 1840.\">&nbsp;<\/span>. Em Sainte-Marie, na propriedade da fam\u00edlia de Tourris, \u00abEug\u00e8ne continuou a aprender makua e niambane\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.26799834000599754\" aria-label=\"AHF. Carta de Caroline de Froberville \u00e0 sogra Eug\u00e9nie. Port-Louis, 28 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>. Ao todo, Froberville recolheu em Bourbon quatro vocabul\u00e1rios das l\u00ednguas \u00ab<em>moadjaoua<\/em>\u00bb [yao], \u00ab<em>maravi<\/em>\u00bb, \u00ab<em>makoua<\/em>\u00bb [makua] e \u00ab<em>mak\u014dssi<\/em>\u00bb [ou \u00ab<em>cafre<\/em>\u00bb, tamb\u00e9m confundido com a categoria conhecida como \u00ab<em>niambane<\/em>\u00bb]\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4130995193199951\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 sua prima Am\u00e9lie de Froberville. Maur\u00edcias, 28 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dados lingu\u00edsticos proporcionam-nos pistas valiosas sobre as origens e, por vezes, sobre as rotas do tr\u00e1fico negreiro e as viagens for\u00e7adas dos escravizados entrevistados, que falavam frequentemente v\u00e1rias l\u00ednguas da \u00c1frica Oriental, algumas das quais aprendidas durante a sua travessia for\u00e7ada do interior de \u00c1frica e, em particular, durante o per\u00edodo de aquartelamento nas costas. A t\u00edtulo de exemplo, determinadas variantes da l\u00edngua Emakhuwa eram faladas por cativos que haviam sido deportados do litoral norte de Mo\u00e7ambique para ilhas situadas no oeste do oceano \u00cdndico<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.04954561298410409\" aria-label=\"Klara Boyer-Rossol, 2015, p. 66 et 659.\">&nbsp;<\/span>.<br>Na Reuni\u00e3o, a maioria dos chamados \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb entrevistados por Froberville em 1845 eram Makua, Maravi, Yao e \u00abYambane\u00bb. Estes grupos sociolingu\u00edsticos eram oriundos de regi\u00f5es por vezes muito distantes umas das outras: os Yao do noroeste, os Makua do norte e os Maravi do centro-oeste e do noroeste de Mo\u00e7ambique. Os Yao eram na maioria das vezes deportados atrav\u00e9s de rotas internas para os portos de Kilwa ou ainda Mo\u00e7ambique, os Makua e Maravi dos portos de Mo\u00e7ambique ou Quelimane.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6a308&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full is-style-default wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"911\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6536\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16.jpg 1300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16-768x538.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16-1024x718.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">O Canal de Mo\u00e7ambique, a Ilha de Madag\u00e1scar, os Estados de Monomotapa e os Reinos Vizinhos. Rigobert Bonne, cart\u00f3grafo; Andr\u00e9, gravador. S\u00e9culo XVIII. Talha doce; realce de cor. <br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. 2019.1.16<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>As l\u00ednguas Yao, Makua e Maravi (Chewa, Manganja) ainda hoje s\u00e3o faladas em Mo\u00e7ambique. O termo \u00abNiambane\u00bb ou \u00abYambane\u00bb era um termo gen\u00e9rico usado em Bourbon para se referir a todos os cativos deportados a partir do porto de Inhambane<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5639353310786279\" aria-label=\"AH.F. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Manika (p\u00e1gina 28 a l\u00e1pis).\">&nbsp;<\/span>, localizado no sul de Mo\u00e7ambique, e n\u00e3o correspondia a uma realidade sociolingu\u00edstica. Os vocabul\u00e1rios obtidos gra\u00e7as aos chamados \u00abNiambane\u00bb provinham provavelmente de l\u00ednguas faladas na regi\u00e3o de Inhambane.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1845, o facto de que ex-cativos do tr\u00e1fico ilegal de escravos, que haviam sido introduzidos em Bourbon por vezes desde h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, tenham conservado a mem\u00f3ria, porventura a pr\u00e1tica, das l\u00ednguas da \u00c1frica Oriental, assemelha-se a uma forma de resist\u00eancia cultural contra o processo de desumaniza\u00e7\u00e3o provocado pela escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A viol\u00eancia da escravatura em Bourbon<\/h3>\n\n\n\n<p>Os africanos escravizados entrevistados por Froberville transmitiram testemunhos orais e hist\u00f3rias de vida na l\u00edngua crioula de Bourbon, que Eug\u00e8ne de Froberville, ele pr\u00f3prio natural das Maur\u00edcias, falava sem dificuldade. Para a sociedade dos senhores de Bourbon, o aristocrata de Paris era visto como um homem curioso, exc\u00eantrico, que passava os dias a falar com escravos.<br>\u00abOs colonos n\u00e3o conseguiam entender o meu interesse por este trabalho, e alguns sorriam com desprezo. Conversar com um negro, procurar sentimentos e ideias sob o seu inv\u00f3lucro feio! \u00c9 preciso ter muito tempo de \u00f3cio! Diziam eles\u00bb, escreveu Eug\u00e8ne de Froberville<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.458187952994207\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 prima Am\u00e9lie de Froberville. Maur\u00edcias, 28 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>.<br>As discuss\u00f5es com os senhores e as narrativas dos escravos convenceram Eug\u00e8ne de Froberville da necessidade de abolir a escravatura nas col\u00f3nias francesas, pois a viol\u00eancia dessa institui\u00e7\u00e3o em Bourbon era flagrante, em especial a brutalidade das mulheres propriet\u00e1rias para com os seus escravos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00abAs minhas conversas com os habitantes de Bourbon tornaram-me um filantropo: n\u00e3o acredito que a escravid\u00e3o seja uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para os Negros. Estas pessoas, que t\u00eam fama de serem selvagens, sofrem perante o infort\u00fanio, e eu senti isso quando as vi chorar perante a brutalidade das senhoras e raparigas brancas. A Sra. Trollope retratou perfeitamente o modo como as senhoras tratam e usam os seus escravos, e nada h\u00e1 de mais revoltante\u00bb, relatou Eug\u00e8ne de Froberville numa carta endere\u00e7ada \u00e0 m\u00e3e<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7462663810870414\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 m\u00e3e Eug\u00e9nia. Port\u2011Louis, 1 de janeiro de 1846.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Durante uma excurs\u00e3o a Salazie, a esposa Caroline estava sentada numa poltrona carregada por escravos por meio de paus longos. Esses escravos, que teriam transportado \u00abtodas as mulheres de Bourbon\u00bb, pertenciam \u00e0 Sra. Lory, propriet\u00e1ria de um dom\u00ednio nas imedia\u00e7\u00f5es das montanhas de Salazie<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6441522579541452\" aria-label=\"AHF. Carta de Caroline de Froberville \u00e0 sogra Eug\u00e9nia. Port-Louis, 28 de dezembro de 1845.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6b4a5&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full is-style-default wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"852\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1989_540_41.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12800\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1989_540_41.jpg 1200w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1989_540_41-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1989_540_41-1024x727.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1989_540_41-768x545.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Passagem da Rivi\u00e8re des Remparts. desenhado por Jean-Baptiste Genevi\u00e8ve Marcellin Bory de Saint-Vincent, segundo Patu de Rosemond; Fortier, gravador; Adam, gravador. [1804]. Litografia. In Voyage dans les quatre grandes \u00eeles des mers d&#8217;Afrique\u2026, de J.-B.-G.-M. Bory de St- Vincent, pl. 39. <br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, inv. Ref. 1989.540.41<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Nascido em 1815 nas Maur\u00edcias, numa sociedade escravista colonial, Eug\u00e8ne de Froberville deixou a ilha natal quando tinha doze anos para se estabelecer em Fran\u00e7a. Foi em 1845, durante a sua estadia em Bourbon, que afirmou ter-se tornado ciente de que a escravid\u00e3o era \u00abuma coisa horr\u00edvel\u00bb. Esta den\u00fancia da viol\u00eancia da escravatura, por parte de um membro da elite colonial das Ilhas Mascarenhas, atentava contra a mem\u00f3ria aristocr\u00e1tica que h\u00e1 muito se esfor\u00e7ava por transmitir a ideia de que a escravatura em Bourbon era mais \u00abhumana\u00bb do que alhures<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8248758434418393\" aria-label=\"Hubert Gerbeau, 2002.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00abOs colonos de Bourbon que publicam manifestos afirmando oficialmente que o escravo \u00e9 moral e fisicamente a pessoa mais feliz do mundo, t\u00eam consci\u00eancia de que est\u00e3o a mentir oficialmente. N\u00e3o obstante esta m\u00e1-f\u00e9 pol\u00edtico-social, os habitantes de Bourbon s\u00e3o amig\u00e1veis e hospitaleiros, sendo muito am\u00e1veis com qualquer ser humano revestido de uma pele branca\u00bb, escreveu Froberville<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.16190390230356977\" aria-label=\"AHF. Carta de Eug\u00e8ne de Froberville \u00e0 prima Am\u00e9lie de Froberville. Maur\u00edcias, 28 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O discurso de Eug\u00e8ne de Froberville era, de facto, muito amb\u00edguo e mudava significativamente dependendo da pessoa a quem se dirigia. Certamente n\u00e3o manifestava esses pensamentos abolicionistas aos seus anfitri\u00f5es. Froberville fazia parte da sociedade dos senhores, ele pr\u00f3prio era descendente da elite colonial das Ilhas Mascarenhas. Foi esse elevado estatuto social que lhe permitiu transgredir parcialmente os costumes da \u00e9poca e estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de natureza diferente entre um membro da sociedade dos senhores brancos e escravos africanos: uma rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o, marcada pelo preconceito, mas que ao mesmo tempo implicava o reconhecimento das pessoas escravizadas como produtoras de conhecimento e protagonistas culturais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Retratos de escravizados da \u00c1frica Oriental em Bourbon<\/h3>\n\n\n\n<p>Dos nativos africanos entrevistados por Froberville em 1845 em Bourbon encontravam-se os nomes de Virginie, Onsin\u0101nga, Mal\u0101ssi e Mtchirima Thomas, que eram legalmente escravos de Adolphe Lory em Saint-Denis, bem como Mk\u016bto Germain, que era escravo de Louis de Tourris na sua propriedade em Sainte-Suzanne.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Virginie<\/h4>\n\n\n\n<p>O testemunho de Virginie \u00e9 ainda mais excecional por ter sido a \u00fanica mulher entrevistada por Froberville em Bourbon de cujo nome temos hoje conhecimento. Froberville n\u00e3o menciona o nome original de Virginie, mas apenas aquele que lhe foi atribu\u00eddo na col\u00f3nia de Bourbon, para onde foi deportada e escravizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Virginie teria nascido por volta de 1809 no sul do atual Mo\u00e7ambique. De acordo com Froberville, Virginie era \u00abMakossi-Niambane\u00bb, o que indica que seria origin\u00e1ria do sul do que \u00e9 hoje Mo\u00e7ambique. Virginie proferiu voc\u00e1bulos \u00abmakossi\u00bb que foram anotados por Froberville nos seus cadernos, sob a forma de um l\u00e9xico franc\u00eas-\u00abmakossi\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.04650259964855641\" aria-label=\"Nos cadernos de Froberville h\u00e1 listas de palavras francesas com as respetivas tradu\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias l\u00ednguas da \u00c1frica Oriental. O investigador preparara antecipadamente listas de palavras a traduzir.\">&nbsp;<\/span> de cerca de vinte p\u00e1ginas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8250967103422271\" aria-label=\"test de note\">&nbsp;<\/span>. Para al\u00e9m da mem\u00f3ria da l\u00edngua, Virginie trazia consigo marcas culturais do seu pa\u00eds de origem. Froberville refere a \u00abtatuagem em relevo\u00bb usada por Virginie na testa, uma linha de \u00abpontos\u00bb que iam do cimo da testa at\u00e9 \u00e0 ponta do nariz, uma caracter\u00edstica do povo \u00abNiambane\u00bb feita com um pequeno gancho e uma faca: \u00abpuxa-se a pele com o gancho, depois faz-se uma incis\u00e3o\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.013982606278703624\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Manika (p\u00e1gina 48 a l\u00e1pis).\">&nbsp;<\/span>. Era, de facto, uma escarifica\u00e7\u00e3o generalizada em v\u00e1rios grupos \u00e9tnicos do sul de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6c7df&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1092\" height=\"1000\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-3-Dessin-dune-femme-makossi-ou-niambane-tatouee-.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12804\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-3-Dessin-dune-femme-makossi-ou-niambane-tatouee-.jpg 1092w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-3-Dessin-dune-femme-makossi-ou-niambane-tatouee--300x275.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-3-Dessin-dune-femme-makossi-ou-niambane-tatouee--1024x938.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-3-Dessin-dune-femme-makossi-ou-niambane-tatouee--768x703.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Eug\u00e8ne de Froberville. Desenho de uma mulher com uma tatuagem na testa caracter\u00edstica dos chamados \u00abMakossi\u00bb e\/ou \u00abNiambane\u00bb. <br>\u00a9Arquivos e cole\u00e7\u00f5es particulares de Huet de Froberville\/Fot\u00f3grafo F. Lauginie \u00a9International Slavery Museum (ISM), Maur\u00edcias<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O desenho acima foi muito provavelmente realizado por Froberville em novembro de 1845 durante a sua estadia na Ilha Bourbon. Trata-se do \u00fanico desenho de retrato de mulher \u00abniambane\u00bb e\/ou \u00abmakossi\u00bb existente, podendo tratar-se da representa\u00e7\u00e3o de Virginie.<br>O facto de ter uma tatuagem indica possivelmente que a pessoa j\u00e1 fora iniciada aos saberes do seu grupo social de origem antes de dele ter sido extirpada. No caso dos rapazes essa inicia\u00e7\u00e3o poderia consistir em ritos de circuncis\u00e3o, e no caso das raparigas na sua primeira menstrua\u00e7\u00e3o. Pensa-se que Virginie teria pelo menos uns dez anos aquando da sua deporta\u00e7\u00e3o, durante a d\u00e9cada de 1820 ou in\u00edcios da d\u00e9cada de 1830, da costa sul de Mo\u00e7ambique, provavelmente da regi\u00e3o costeira de Inhambane, para Bourbon. Foram registadas v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico ilegal de cativos chamados \u00abYambane\u00bb durante esse per\u00edodo em Bourbon, nomeadamente as dos navios <em>Deux-Fr\u00e8res<\/em> em 1826 e <em>Marie <\/em>em 1827<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.18809101390738125\" aria-label=\"Hubert Gerbeau, 2005, p. 405.\">&nbsp;<\/span>. Rastreamos Virginie na d\u00e9cada de 1840 entre os escravos de Lory (pai) registados em Saint-Denis<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9093975336787887\" aria-label=\"ADR. Censo 6M 356. L. Saint-Denis. 1848 ; 6M 330 J-L. Saint-Denis 1846 ; 6M 321 L. Saint-Denis 1845 ; 6M 304 Saint-Denis 1841 ; 6M 300 L. Saint-Denis 1840.\">&nbsp;<\/span>. As entrevistas realizadas em 1845 por Froberville a Virginie ter-se-iam desenrolado na casa de Adolphe Lory em Saint-Denis. Em 1848, Virginie foi registada como escrava dom\u00e9stica de 39 anos, da casta \u00abMo\u00e7ambique\u00bb, medindo 1,60 m e ostentando \u00abos sinais caracter\u00edsticos ou marcas do seu pa\u00eds\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4416094506832342\" aria-label=\"ADR. Censo 6M 356. L. Saint-Denis. 1848.\">&nbsp;<\/span> ; as tatuagens faciais descritas por Froberville.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mal\u0101ssi et Onsin\u0101nga<\/h4>\n\n\n\n<p>Outros escravos de Lory, interrogados em novembro de 1845 por Eug\u00e8ne de Froberville em Saint-Denis, foram definidos como sendo \u00abMakossi-Niambane\u00bb, Mal\u0101ssi e Onsin\u0101nga [Onsign\u0101nga], e transmitiram-lhe os vocabul\u00e1rios \u00abniambane\u00bb e \u00abmakossi\u00bb, respetivamente.<br>Onsin\u0101nga relatou que deixou o seu pa\u00eds quando ainda era jovem. De acordo com os top\u00f3nimos e etn\u00f3nimos transmitidos, o seu pa\u00eds localizava-se a sul do atual Mo\u00e7ambique. Froberville aprendeu vocabul\u00e1rios \u00abMakossi\u00bb com Onsin\u0101nga, sendo veros\u00edmil que tenham conversado sobre gram\u00e1tica e fon\u00e9tica. Relativamente a este africano escravizado, Froberville observa o seguinte: \u00abA intelig\u00eancia deste homem \u00e9 altamente desenvolvida\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.12975114531004972\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Manika (p\u00e1gina 28 a l\u00e1pis).\">&nbsp;<\/span>.<br>Das v\u00e1rias pr\u00e1ticas culturais \u00abniambane\u00bb (tatuagens, pr\u00e1ticas ornamentais<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.14133900826834478\" aria-label=\"AHF. Froberville menciona uma esp\u00e9cie de bainha na qual o p\u00e9nis era apertado e que era chamada de <em>mba\u00ef<\/em>. Ibidem.\">&nbsp;<\/span>), Froberville evoca a m\u00fasica e a dan\u00e7a, referindo os \u00ab acess\u00f3rios hediondos que usam quando dan\u00e7am\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5323149023105413\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Manika (p\u00e1gina 28 a l\u00e1pis).\">&nbsp;<\/span> Esta observa\u00e7\u00e3o, imbu\u00edda de preconceito, \u00e9 interessante na medida em que sugere que Froberville assistiu a dan\u00e7as \u00abNiambane\u00bb em 1845 em Bourbon. Froberville realizou belos desenhos e esbo\u00e7os dessas dan\u00e7as, destacando movimentos em roda ou em fila de homens e mulheres que possu\u00edam elementos culturais comuns.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6d52f&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full is-style-default wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"975\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-4-Danseurs-dits-Niambane-femmes-a-la-file.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12808\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-4-Danseurs-dits-Niambane-femmes-a-la-file.jpg 1300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-4-Danseurs-dits-Niambane-femmes-a-la-file-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-4-Danseurs-dits-Niambane-femmes-a-la-file-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-4-Danseurs-dits-Niambane-femmes-a-la-file-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Eug\u00e8ne de Froberville. Desenhos de bailarinos \u00abNiambane\u00bb. <br>\u00a9Arquivos e cole\u00e7\u00f5es particulares Huet de Froberville\/Fot\u00f3grafo F. Lauginie \u00a9International Slavery Museum (ISM), Maur\u00edcias<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6dee8&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full is-style-default wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"975\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-5-Danseurs-et-musiciens-dits-Niambane-avec-tatouages.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12812\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-5-Danseurs-et-musiciens-dits-Niambane-avec-tatouages.jpg 1300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-5-Danseurs-et-musiciens-dits-Niambane-avec-tatouages-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-5-Danseurs-et-musiciens-dits-Niambane-avec-tatouages-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-5-Danseurs-et-musiciens-dits-Niambane-avec-tatouages-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Eug\u00e8ne de Froberville. Desenhos de bailarinos \u00abNiambane\u00bb. <br>\u00a9Arquivos e cole\u00e7\u00f5es particulares Huet de Froberville\/Fot\u00f3grafo F. Lauginie \u00a9International Slavery Museum (ISM), Maur\u00edcias<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:19px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mtchirima Thomas<\/h4>\n\n\n\n<p>Entre 20 e 25 de novembro de 1845, Froberville interrogou outro escravo de Adolphe Lory nas suas oficinas em Saint-Denis. Nascido por volta de 1806-1810 no territ\u00f3rio que hoje corresponde a Mo\u00e7ambique, \u00abMtchirima Thomas\u00bb pertencia ao grupo \u00e9tnico Maravi, que ocupava um vasto territ\u00f3rio no centro-oeste de Mo\u00e7ambique, numa regi\u00e3o fronteiri\u00e7a com o Malawi. Os top\u00f3nimos e etn\u00f3nimos que transmitiu permitem-nos localizar o seu pa\u00eds de origem com bastante precis\u00e3o: duas semanas de caminhada a sul do Lago Niassa e um dia de marcha de dist\u00e2ncia de Senna, um posto de guarni\u00e7\u00e3o portuguesa localizado nas margens do rio Zambeze, a que os Maravi chamavam \u00abLomb\u0101dzi\u00bb. Foi levado \u00e0 for\u00e7a do interior do vale do Zambeze, provavelmente para o porto de Quelimane. O seu nome \u00abMtchirima\u00bb \u00e9 indubitavelmente derivado do termo \u00abTsirimane\u00bb, que era o termo usado localmente para Quelimane. Por volta de 1825<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.27065854567072045\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Maravi (p\u00e1gina 41 a l\u00e1pis).\">&nbsp;<\/span>, quando tinha quinze ou dezasseis anos, foi deportado para a Ilha Bourbon, no contexto de tr\u00e1fico de escravos ilegal. V\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es clandestinas assinaladas pelos portugueses em 1827 e 1828 em Quelimane podem ser rastreadas at\u00e9 navios envolvidos no tr\u00e1fego para abastecer Bourbon<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.49550112515388656\" aria-label=\"Hubert Gerbeau, 2005, p. 424. \">&nbsp;<\/span>. Mtchirima foi renomeado Thomas chegando \u00e0 ilha. Nas oficinas de Saint-Denis, onde os escravos de Lory (oper\u00e1rios, ferreiros, caldeireiros, fundidores) eram for\u00e7ados a trabalhar, Froberville anotou vocabul\u00e1rios \u00abmaravi\u00bb em abund\u00e2ncia (cerca de oitenta p\u00e1ginas) gra\u00e7as a Mtchirima Thomas. Dos escravos da sociedade de Lory e Pitel recenseados em Saint-Denis em 1841 constava um certo Thomas, 35 anos, manobrador, que apresentava as \u00abmarcas de seu pa\u00eds\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.786803477900603\" aria-label=\"ADR. Censo 6M 304. Saint-Denis. 1841.\">&nbsp;<\/span>. Estas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o coerentes com os dados solicitados por Froberville a Mtchirima Thomas, que tinha uma tatuagem Maravi que consistia numa esp\u00e9cie de estrela gravada na testa, nas t\u00eamporas e no peito. Os Maravi limavam os dentes incisivos em forma de bico<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.29474496691345964\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Maravi (p\u00e1gina 41 a l\u00e1pis).\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f1c80f6eb96&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"1000\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-6-Portrait-dessine-dun-Maravi-portant-des-tatouages-sous-forme-detoiles.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12816\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-6-Portrait-dessine-dun-Maravi-portant-des-tatouages-sous-forme-detoiles.jpg 750w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fig-6-Portrait-dessine-dun-Maravi-portant-des-tatouages-sous-forme-detoiles-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Retratos desenhados de um homem Maravi com tatuagens em forma de estrelas. <br>\u00a9Archives e Cole\u00e7\u00f5es Particulares de Huet de Froberville\/Fot\u00f3grafo F. Lauginie \u00a9International Slavery Museum (ISM), Maur\u00edcias.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<div style=\"height:22px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mk\u016bto Germain<\/h4>\n\n\n\n<p>Em Sainte-Marie, Froberville interrogou Mk\u016bto, um escravo de Louis de Tourris, que foi batizado com o nome de Germain. Mk\u016bto estava em idade de casar quando foi extirpado \u00e0 sua terra natal.<br>Chamados nas Maur\u00edcias e em Bourbon de \u00abMoujaoua\u00bb, \u00abMuj\u0101va\u00bb ou \u00abMonjavane\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9971865323623301\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Mudhi\u0101ua, n\u00e3o paginado.\">&nbsp;<\/span>, os Yao ocupavam um vasto territ\u00f3rio no que \u00e9 hoje o noroeste de Mo\u00e7ambique. Os cativos Yao eram obrigados a caminhar at\u00e9 v\u00e1rios meses para chegar \u00e0 costa em Kilwa ou Mo\u00e7ambique. Neste \u00faltimo porto comercial, os Yao eram os cativos mais numerosos, revelou um comerciante das Ilhas Mascarenhas no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.07443908241697983\" aria-label=\"Epidariste Colin, 1809, p. 321.\">&nbsp;<\/span> Agrilhoados e amontoados em navios, aqueles que sobreviviam \u00e0 travessia mar\u00edtima eram escravizados nessas ilhas de planta\u00e7\u00e3o. Entre eles, Mk\u016bto que tinha conservado a mem\u00f3ria do seu pa\u00eds bem como a pr\u00e1tica da sua l\u00edngua materna. Nos cadernos de Froberville encontramos cerca de trinta p\u00e1ginas de palavras traduzidas do franc\u00eas para Yao por Mk\u016bto.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4953073945469859\" aria-label=\"AHF. Eug\u00e8ne de Froberville, Caderno Mudhi\u0101ua, n\u00e3o paginado.\">&nbsp;<\/span>.<br>Em Bourbon, o Yao pode ter sido usado como l\u00edngua de comunica\u00e7\u00e3o por escravos fugitivos. Editado num livro recente do historiador J\u00e9r\u00e9my Boutier<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4771113506900049\" aria-label=\"Gostaria de agradecer calorosamente a J\u00e9r\u00e9my Boutier pelas conversas enriquecedoras que tivemos durante a confer\u00eancia \u00abSemaine de l\u2019Histoire de l\u2019Indianoc\u00e9anie \u00bb, organizada pela Associa\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica Internacional do Oceano \u00cdndico (AHIOI), realizada de 20 a 22 de novembro de 2023 na Ilha da Reuni\u00e3o. Inici\u00e1mos uma colabora\u00e7\u00e3o com J. Boutier no sentido de realizar pesquisas conjuntas sobre esses cinco escravizados.as identificados.as, a fim de retra\u00e7ar as suas trajet\u00f3rias de vida em Bourbon.\">&nbsp;<\/span>, um documento escrito por Auguste Logeais da d\u00e9cada de 1840 refere os di\u00e1logos de escravos \u00ab<em>marrons<\/em>\u00bb numa l\u00edngua africana at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o identificada<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8276681709349047\" aria-label=\"Auguste Logeais, 2022.\">&nbsp;<\/span>. Gra\u00e7as aos cadernos de Froberville, foi poss\u00edvel determinar esta linguagem como Yao.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><a href=\"https:\/\/www.calameo.com\/read\/00522093310aaff85aa27\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1094\" height=\"888\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/loisirs-nouvelles-de-bourbon-p-70-71.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12832\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/loisirs-nouvelles-de-bourbon-p-70-71.jpg 1094w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/loisirs-nouvelles-de-bourbon-p-70-71-300x244.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/loisirs-nouvelles-de-bourbon-p-70-71-1024x831.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/loisirs-nouvelles-de-bourbon-p-70-71-768x623.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Excerto de <em>Loisirs. Nouvelles de Bourbon<\/em> de Auguste Logeais, impr. P.A. Genesley-Portier, 1845. <br>Col. Biblioteca departamental da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>A conserva\u00e7\u00e3o, no contexto da escravatura, da mem\u00f3ria do pa\u00eds de nascimento na \u00c1frica Oriental, de nomes (individuais ou coletivos) de origem, de l\u00ednguas, ou ainda de m\u00fasicas e dan\u00e7as, surgem como formas de resist\u00eancia cultural e identit\u00e1ria dos \u00abMo\u00e7ambiques\u00bb, que foram das \u00faltimas pessoas escravizadas pelo tr\u00e1fico ilegal em Bourbon.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":12831,"parent":5032,"menu_order":20,"template":"","class_list":["post-13254","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/13254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5032"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}