{"id":14016,"date":"2025-02-05T09:57:22","date_gmt":"2025-02-05T05:57:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=14016"},"modified":"2025-02-05T09:57:23","modified_gmt":"2025-02-05T05:57:23","slug":"os-escravos-de-confianca-e-os-seus-senhores-em-bourbon-no-seculo-xix","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/condicao-e-vida-quotidiana-do-escravo\/os-escravos-de-confianca-e-os-seus-senhores-em-bourbon-no-seculo-xix\/","title":{"rendered":"Os escravos de confian\u00e7a e os seus senhores em Bourbon no s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A rela\u00e7\u00e3o entre senhores e escravos era de tal forma antag\u00f3nica, que pode parecer absurdo evocar uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre essas pessoas totalmente opostas. A confian\u00e7a pressup\u00f5e garantias e seguran\u00e7a m\u00fatuas. Uma pessoa de confian\u00e7a \u00e9 algu\u00e9m em quem se pode confiar plenamente, por\u00e9m a sociedade de planta\u00e7\u00e3o assentava na subjuga\u00e7\u00e3o e na brutalidade.<\/h2>\n\n\n\n<p>Contudo, a massa servil n\u00e3o formava um todo uniforme e homog\u00e9neo. Os Negros ditos de picareta trabalhavam nos campos, ao passo que outros eram criados, cozinheiros ou palafreneiros. Durante a sua estadia em Bourbon (1827 &#8211; 1830), Jean Baptiste Louis Dumas pintou cenas do dia-a-dia. A aguarela intitulada \u00abN\u00e9gresse bonne d&#8217;enfants\u00bb (Negra ama de crian\u00e7as) representa uma jovem escrava a costurar, sentada junto a duas crian\u00e7as brancas adormecidas. O facto de serem representadas lado a lado sugere uma estreita afinidade entre essas pessoas. Ao estatuto jur\u00eddico do indiv\u00edduo escravizado, tal como definido no <em>Code Noir<\/em>, sobrep\u00f5em-se rela\u00e7\u00f5es \u00fanicas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69e0441547c1f&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"1037\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/FRAD974_98FI5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13952\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/FRAD974_98FI5.jpg 1200w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/FRAD974_98FI5-300x259.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/FRAD974_98FI5-1024x885.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/FRAD974_98FI5-768x664.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Negra ama de crian\u00e7as. Detalhe de <em>Pormenor de Malabare; Negro de picareta; Aguadeiro; Negra ama de crian\u00e7as; tocador de bobre; barril de \u00e1gua [14 personagens]<\/em>. Jean-Baptiste Louis Dumas. [1827-1830]. Desenho: l\u00e1pis, aguarela.<br>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, inv. 98FI5<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Alguns testamentos, invent\u00e1rios p\u00f3s-morte, conselhos de fam\u00edlia e at\u00e9 documentos judiciais encontram-se permeados de informa\u00e7\u00f5es que ilustram a realidade da rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre senhores e pessoas escravizadas. Compreender essas rela\u00e7\u00f5es, que podem parecer surpreendentes \u00e0 primeira vista, e conhecer os seus fundamentos e amplitude, \u00e9 uma tarefa interessante. Todavia, estas investiga\u00e7\u00f5es apenas revelam o ponto de vista do dominador. N\u00e3o dispomos da palavra do dominado, sendo que a sua pessoa apenas surge superficialmente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Lebouq era um not\u00e1vel da cidade de Saint-Denis. Em 1792, mencionou dois dos seus escravos, Pierre Jean e Modeste, referindo expressamente a confian\u00e7a que depositava neles.<br>\u00abReconhecendo em Pierre Jean muitas boas qualidades, em especial um car\u00e1cter am\u00e1vel, nele deposita plena confian\u00e7a e autoridade sobre todos os seus escravos\u00bb; \u00abEstava convencido de que o seu capataz partilhava particularmente os seus interesses, que possu\u00eda tamb\u00e9m uma grande intelig\u00eancia para a cultura, trabalhava com grande empenho e mantinha os seus escravos na maior docilidade.\u00bb<br>Quanto a Modeste, \u00aba do\u00e7ura do car\u00e1cter e as v\u00e1rias qualidades desta Negra valeram-lhe o apre\u00e7o do comparecente, que lhe concedeu a gest\u00e3o da sua casa e o cuidado dos seus filhos.\u00bb As aptid\u00f5es e virtudes destas duas pessoas fazem com que Lebouq delegue a uma delas a autoridade para gerir a sua propriedade e \u00e0 outra, a gest\u00e3o da sua casa e at\u00e9 dos seus filhos. Modeste n\u00e3o se dedicava apenas \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas; tecia igualmente rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">De facto, os la\u00e7os de confian\u00e7a podiam ser criados desde muito cedo, ser profundos e duradouros.<\/h4>\n\n\n\n<p>Grinne, jovem aluno, tinha uma rela\u00e7\u00e3o epistolar com o tio. Nas suas cartas (1802-1803) escreveu: \u00abMeu querido tio, felicito-o pelo feliz parto da minha nenin , que lhe deu uma grande menina\u00bb; \u00abTransmita os meus votos de felicidade \u00e0 grande <em>nenin<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.31044004856448515\" aria-label=\"N. da T. \u2013 A nenin era a ama da fam\u00edlia. \">&nbsp;<\/span> e diga-lhes que os amo de todo o cora\u00e7\u00e3o\u00bb; \u00abTransmita \u00e0 <em>nenin <\/em>e aos filhos os meus melhores votos e diga-lhes que continuam a ter toda a minha afei\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Auguste Billiard, na sua obra <em>Voyage aux colonies orientales<\/em> (1822), confirma esta proximidade: \u00abA ama recebe a sua parte das melhores iguarias da mesa do patr\u00e3o; as Negras que foram criadas das crian\u00e7as, as suas <em>n\u00e9naines<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.35778296956490974\" aria-label=\"N. da T. \u2013 N\u00e9naine era o termo utilizado na ilha da Reuni\u00e3o para apelidar a ama da fam\u00edlia. \">&nbsp;<\/span>, para usar o termo local, s\u00e3o tamb\u00e9m objeto de uma aten\u00e7\u00e3o especial, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia da sua escravatura; n\u00e3o passam de pensionistas da casa\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Na pr\u00e1tica, as rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a eram forjadas de v\u00e1rias formas.<\/h4>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Efetivamente, atrav\u00e9s de la\u00e7os desde a primeira inf\u00e2ncia.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Marie Anne Th\u00e9r\u00e8se Ombline Gonneau de Montbrun (1755-1846) perdeu a m\u00e3e no dia do seu nascimento. Filha \u00fanica, foi criada por uma ama de leite, Madelaine. Aos 52 anos, no seu primeiro testamento, legava-lhe uma pens\u00e3o de 50 piastras e 4000 milhos por ano, bem como uma Negra forte para a servir.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69e044154903c&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"863\" height=\"1200\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/FRAD974_3_E_0426_03_008-extrait.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13970\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/FRAD974_3_E_0426_03_008-extrait.jpg 863w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/FRAD974_3_E_0426_03_008-extrait-216x300.jpg 216w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/FRAD974_3_E_0426_03_008-extrait-736x1024.jpg 736w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/FRAD974_3_E_0426_03_008-extrait-768x1068.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Extrato do T<em>estamento de Marie Anne Th\u00e9r\u00e8se Ombline Gonneau, vi\u00fava Panon Desbassayns<\/em>. 20 de novembro de 1807. Manuscrito.<br>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, inv. 98FI5<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Em 1815, Henriette Mac\u00e9 declarou no seu testamento: \u00abEm reconhecimento dos bons cuidados que recebi, desde a inf\u00e2ncia, de Margarida, minha ama e minha escrava, declaro que n\u00e3o quero que ela seja vendida ap\u00f3s a minha morte, nem inclu\u00edda nas partilhas juntamente com os meus outros escravos.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>No ano VI, os parentes dos tr\u00eas filhos menores do falecido Joseph Larcher deliberaram o seguinte. Tr\u00eas escravos estavam associados \u00e0 sucess\u00e3o. A malgaxe Za\u00efre, de 45 anos, cuidava das crian\u00e7as. Desde a morte da cidad\u00e3 Larcher, era ela que lhes servia de m\u00e3e. O seu bom comportamento, bem como o seu apego pelos menores de tenra idade, que ainda careciam dos seus cuidados, justificavam que ficasse junto das duas meninas, para dela cuidar. O falecido cidad\u00e3o Larcher havia recomendado especialmente que n\u00e3o se vendesse o denominado Pierre crioulo, dado o seu grande apre\u00e7o por esse escravo. Al\u00e9m disso, os seus servi\u00e7os seriam necess\u00e1rios para Alexandre, um dos menores, enfermo e de sa\u00fade muito fr\u00e1gil, que requeria cuidados muito especiais. Os parentes e amigos manifestaram uma opini\u00e3o un\u00e2nime no sentido de que Za\u00efre era absolutamente necess\u00e1ria ao servi\u00e7o e cuidado dos referidos menores. Era do interesse deles que n\u00e3o fosse vendida, tanto mais que esse era o desejo do pai, expresso muitas vezes na sua presen\u00e7a. Os escravos permaneceriam ao servi\u00e7o dos menores cuja idade e sa\u00fade prec\u00e1ria exigiam cuidados especiais.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Longe de temer atos maliciosos, vingan\u00e7as vis ou ataques \u00e0 pessoa do senhor ou da sua fam\u00edlia, situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis ou peculiares, certos momentos da vida proporcionavam o estabelecimento ou at\u00e9 o aprofundar de la\u00e7os de confian\u00e7a. Tal era o caso da doen\u00e7a, da velhice e at\u00e9 das situa\u00e7\u00f5es de perigo.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Em 1792, Joseph de Sabadin, tenente-coronel de infantaria, recompensou alguns dos seus escravos que, por cinco ou seis anos, lhe prestaram cuidados constantes, dia e noite, durante o tempo em que esteve enfermo. Concedeu-lhes a liberdade, bem como aos seus familiares que perfaziam um total de treze pessoas. Os escravos seriam libertados ap\u00f3s a morte da mulher, que contaria com a continuidade dos seus leais servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Dachery Salicant, no ano XI, formulou que em reconhecimento pelos servi\u00e7os prestados pelo crioulo Gabriel, de 57 anos, nomeadamente aquando \u00e0s v\u00e1rias doen\u00e7as de que sofrera, e por lhe ter salvo a vida numa circunst\u00e2ncia perigosa, libertou\u2011o da escravatura, cedendo-lhe metade de um terreno onde o mesmo j\u00e1 estava estabelecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1827, Augustin Fran\u00e7ois Motais, de Narbonne, legou Fran\u00e7ois Malgache, o seu mordomo, ao sobrinho Charles Motais, pois quando o levara para Fran\u00e7a, Fran\u00e7ois cuidara especialmente bem dele durante a travessia.<\/p>\n\n\n\n<p>Num testamento datado de 1835, Clermont Hoarau declara:<br>\u00abDou a liberdade \u00e0 crioula de nome C\u00e9l\u00e9rine, de quase 40 anos, nossa criada, que sempre nos serviu lealmente e de mim bem cuidou durante v\u00e1rias doen\u00e7as graves de que padeci. Dar-lhe-emos tamb\u00e9m algo para viver, bem como o crioulo Hyppolite, de 10 anos, que far\u00e1 parte dos seus meios de subsist\u00eancia. Dou a liberdade a Hilaire, um crioulo an\u00e3o de 30 anos, que me serviu e cuidou bem de mim durante todo o tempo em que estive doente, e que serviu bem a sua antiga senhora. Dou a liberdade a Caroline, uma crioula de quase 25 anos, que sempre nos serviu bem e cuidou bem da sua senhora, estando junto a ela dia e noite durante os seus ataques de asma, que infelizmente se repetem. Dar-lhe-emos tamb\u00e9m algo para subsistir.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1846, o senhor Chrysante Bosse escreveu:<br>\u00abDeixo a liberdade e uma por\u00e7\u00e3o de terra \u00e0 minha negra Marie, crioula de 46 anos, como recompensa pelos seus bons servi\u00e7os e pelos cuidados que dispensou \u00e0 minha velhice, que ela ajudou a prolongar.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os la\u00e7os de confian\u00e7a tamb\u00e9m podiam ser forjados ao longo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es.<\/h4>\n\n\n\n<p>Os herdeiros da vi\u00fava Pierre Mussard chegaram a um acordo em 1821. O patrim\u00f3nio da m\u00e3e inclu\u00eda duas Negras, antigas e fi\u00e9is servidoras, de nome Euphrosine e Rozalie, ambas crioulas. Estas escravas eram de grande valor para eles, devido aos servi\u00e7os que tinham prestado tanto aos seus antepassados como a eles pr\u00f3prios, n\u00e3o devendo ser avaliadas, partilhadas ou vendidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A senhora Marie Genevi\u00e8ve Goureau, vi\u00fava de Amalvain Euger, escrevia em 1840: \u00abComo a minha escrava crioula S\u00e9l\u00e9rine sempre se comportou como uma boa s\u00fabdita para comigo, para com o meu pobre marido e para com todos os nossos filhos, depois da minha morte, pe\u00e7o aos meus filhos que n\u00e3o a incluam na partilha nem a vendam, que lhe deem carta branca e a deixem ser dona das suas vontades, viver onde quiser. Esta \u00e9 a minha recompensa pelos cuidados afetuosos e respeitosos que esta boa escrava nunca deixou de nos prestar a todos.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Podemos suputar casos de concubinagem.<\/h4>\n\n\n\n<p>Em 1837, Dubuisson, propriet\u00e1rio de terras em Saint-Gilles, redigiu o seu testamento nos seguintes termos: \u00abDou e lego \u00e0 menina Sidonie Fr\u00e9tigny, crioula que alforriei e que se tornou minha mulher de confian\u00e7a, todos os bens de que sou propriet\u00e1rio nesta ilha Bourbon, m\u00f3veis, objetos de uso dom\u00e9stico e im\u00f3veis no momento da minha morte, para a recompensar justamente pelo seu trabalho, probidade e bons cuidado para comigo.\u00bb<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"499\" height=\"672\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/OF-1-FOL-AFRIQUE-REUNION.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13966\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/OF-1-FOL-AFRIQUE-REUNION.jpg 499w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/OF-1-FOL-AFRIQUE-REUNION-223x300.jpg 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 499px) 100vw, 499px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilha Bourbon. Sua igual por um momento, escrava para sempre. Achille Dev\u00e9ria, 1838. Impress\u00e3o. <br>Col. Biblioteca Nacional de Fran\u00e7a. Inv. OF-1-FOL (\u00c1FRICA-REUNI\u00c3O<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A lealdade \u00e9 um dos fatores em que assentava a confian\u00e7a.<\/h4>\n\n\n\n<p>Em 1818, Guillaume Antoine Desjardins recompensa especialmente tr\u00eas dos seus escravos. Trouxera da \u00cdndia para Bourbon P\u00e8dre, com mais de 70 anos, e P\u00e9tronille, com mais de 65. Esses escravos mantiveram-se fi\u00e9is a ele e serviram-no bem durante muito tempo. Permitiu-lhes ent\u00e3o escolher com quem terminariam a carreira ap\u00f3s a sua morte e concedeu-lhes alguns subs\u00eddios para lhes proporcionar \u00abalgum conforto\u00bb e \u00abalguma facilidade\u00bb na velhice. Do mesmo modo, a L\u00e9ocadie, uma Negra crioula de cerca de 50 anos, que nascera em sua casa e fora criada pela falecida m\u00e3e de Desjardins, concedeu a liberdade pela forma como cuidara dele incansavelmente durante a sua inf\u00e2ncia, pelos cuidados que lhe prestara toda a vida, bem como pela sua assiduidade e pelo apego que lhe manifestara na sua velhice.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os la\u00e7os comprovados acomodavam por vezes verdadeiras qualidades profissionais. O senhor selava a forma\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio filho numa forma de companheirismo.<\/h4>\n\n\n\n<p>Lu\u00edsa Ticot, cujo nome de casada era Malbeste, possu\u00eda um escravo malabar chamado B\u00e9lizaire havia cerca de 20 anos e que lhe tinha prestado longos e bons servi\u00e7os. Em 1810, decidiu que ele seria libertado no prazo de cinco anos ap\u00f3s a sua morte, durante os quais trabalharia na sua ourivesaria com o filho mais velho, a quem recomendou especialmente B\u00e9lizaire.<br>Em alguns testamentos, \u00e9 expressamente indicado que os escravos de confian\u00e7a viveriam na casa do senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Henriette Mac\u00e9 pediu a Advisse, o filho mais velho, que acolhesse Margarida em sua casa, que a alimentasse, alojasse, mantivesse e cuidasse dela enquanto ela vivesse, como ela pr\u00f3pria faria se fosse viva.<\/p>\n\n\n\n<p>Os herdeiros da vi\u00fava Pierre Mussard acordaram que Euphrosine e Rozalie escolheriam a pessoa com quem desejassem viver, pessoa essa que teria a obriga\u00e7\u00e3o de as acolher, alimentar, tratar e cuidar em caso de doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, em 1822, Gardye la Chapelle refere Paulin, que sempre fora um criado fiel e afetuoso. Este decidiria se ficava na fam\u00edlia, escolhendo a pessoa com quem quisesse ficar, pessoa essa que seria obrigada a receb\u00ea-lo, \u00abmas n\u00e3o como escravo, porque nunca esteve, positivamente, como tal na fam\u00edlia; mas como um bom criado que nos serviu bem, que merece respeito, e al\u00e9m disso dar-lhe um pequeno sal\u00e1rio, suficiente para a sua subsist\u00eancia\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutros casos, n\u00e3o existem provas tang\u00edveis, contudo h\u00e1 pouca margem para d\u00favidas. Os cuidados constantes dispensados aos membros da fam\u00edlia, como por exemplo um beb\u00e9, implicavam necessariamente que a pessoa escravizada vivesse com o seu senhor ou a sua senhora. O senso comum apoia amplamente esta hip\u00f3tese. V\u00e1rios fatores apontam para a verosimilhan\u00e7a de que os escravos partilhavam o teto do senhor, pelo que a casa do propriet\u00e1rio n\u00e3o lhes era um espa\u00e7o inacess\u00edvel. \u00c9 dif\u00edcil imaginar, quanto mais n\u00e3o seja por raz\u00f5es pr\u00e1ticas, que um escravo de confian\u00e7a fosse obrigado a deixar a casa do propriet\u00e1rio para dormir ou mesmo comer na sua pr\u00f3pria cubata, visto que era necess\u00e1rio mudar fraldas, alimentar, medicar, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, nada sabemos sobre as disposi\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. Durante os invent\u00e1rios p\u00f3s-morte, os not\u00e1rios percorriam as divis\u00f5es, nomeando-as, enumerando os objetos de uso pessoal, os len\u00e7\u00f3is, as roupas, as lou\u00e7as, abrindo as arcas, os arm\u00e1rios, os ba\u00fas, etc. Muitas vezes mencionavam as cabanas dos negros, as <em>ajoupas<\/em>, sem entrarem no seu interior. Registavam os len\u00e7os e os tecidos azuis que serviam para vestir os escravos. Por\u00e9m isso era meramente factual. No invent\u00e1rio de Madame Desbassayns de 1846, o funcion\u00e1rio ministerial visitou os quartos, o sal\u00e3o, a varanda, a despensa, o escrit\u00f3rio e a sala de jantar da mans\u00e3o de Chauss\u00e9e Royale. O mesmo sucedeu com a casa de Saint-Gilles. Em nenhum momento mencionou qualquer espa\u00e7o ou divis\u00e3o dedicada a um escravo dom\u00e9stico. N\u00e3o h\u00e1 qualquer refer\u00eancia a objetos, vestu\u00e1rio ou outras coisas que lhe possam ter pertencido. De facto, n\u00e3o se fala deles em nenhum invent\u00e1rio. O escravo dividia o quarto com um beb\u00e9 ou uma pessoa doente? Retirava-se para um quarto cont\u00edguo? Na realidade, poder-se-ia argumentar que a quest\u00e3o n\u00e3o assume grande relev\u00e2ncia, sendo certo que a coabita\u00e7\u00e3o, pelo menos ocasionalmente, continuava a ser uma realidade tang\u00edvel, tal como a partilha de intimidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Esta confian\u00e7a entre pessoas cujo estatuto jur\u00eddico era formalmente oposto \u00e9, como referimos, surpreendente \u00e0 primeira vista. Continua a ser dif\u00edcil compreender o seu funcionamento interno. Da parte do escravo, \u00e9 imposs\u00edvel saber qual era o eventual papel da lisonja, da esperan\u00e7a de um destino melhor, da inveja dos outros. Ao mesmo tempo &#8211; e isto \u00e9 complexo -, da resigna\u00e7\u00e3o, da aceita\u00e7\u00e3o triste da sua condi\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 de uma certa aliena\u00e7\u00e3o. As rela\u00e7\u00f5es podem, por vezes, romper-se. Pierre Jean, o homem de confian\u00e7a de Lebouq, acima mencionado, acabou por se revoltar contra o seu patr\u00e3o, tendo a inten\u00e7\u00e3o de o assassinar, bem como \u00e0 sua fam\u00edlia, sendo por isso condenado \u00e0 morte. A sinceridade tamb\u00e9m devia existir. Os la\u00e7os que se teciam duradouramente, por vezes ao longo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, como relatam muitos senhores, s\u00e3o disso testemunho.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":13965,"parent":5036,"menu_order":80,"template":"","class_list":["post-14016","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/14016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13965"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}