{"id":14956,"date":"2025-08-13T15:08:03","date_gmt":"2025-08-13T11:08:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=14956"},"modified":"2025-08-13T15:08:04","modified_gmt":"2025-08-13T11:08:04","slug":"os-escravos-e-o-dia-de-ano-novo","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/condicao-e-vida-quotidiana-do-escravo\/os-escravos-e-o-dia-de-ano-novo\/","title":{"rendered":"Os escravos e o dia de Ano Novo"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Concebidas para legalizar a pr\u00e1tica da escravatura nas ilhas de Fran\u00e7a e Bourbon, as Cartas Patentes de 1723 s\u00e3o uma teia de contradi\u00e7\u00f5es. Embora o escravo trazido de \u00c1frica, Madag\u00e1scar ou da \u00cdndia fosse um ser humano como outro qualquer, este texto legislativo do rei definia-o como um bem m\u00f3vel, versando assim na ilus\u00e3o.<\/h2>\n\n\n\n<p>Reconhecia, no entanto, que esse m\u00f3vel tinha alma, pois preconizava que fosse educado na religi\u00e3o cat\u00f3lica. Al\u00e9m disso, era considerado incapaz de agir por iniciativa pr\u00f3pria<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.544552077692595\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 21.\u00b0\">&nbsp;<\/span>, n\u00e3o dispondo de responsabilidade civil contratual ou extracontratual, uma vez que o respons\u00e1vel por reparar os danos que o escravo causava era o senhor. O artigo 30.\u00ba estabelecia que os senhores eram obrigados, \u00abem caso de furto ou outro dano causado pelos seus escravos\u2026 a reparar o dano em seu nome\u00bb. Por\u00e9m, podiam ser responsabilizados do ponto de vista penal, porque se um escravo batesse no seu senhor ou num dos membros da respetiva fam\u00edlia, o artigo previa a pena de morte<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2434961925618062\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 26.\u00b0\">&nbsp;<\/span>. A mesma pena era aplicada aos \u00abexcessos ou vias de facto\u00bb cometidos contra pessoas livres<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6331788409340742\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 27.\u00b0\">&nbsp;<\/span>. A no\u00e7\u00e3o de \u00abcoisa respons\u00e1vel\u00bb constitui um verdadeiro paradoxo. Pode a responsabilidade ser atribu\u00edda a uma coisa? De facto, \u00e9 contradit\u00f3rio considerar a pessoa escravizada como um objeto, subjug\u00e1-la a fim de tirar dela o m\u00e1ximo proveito e, ao mesmo tempo, consider\u00e1-la indiretamente como um sujeito, pois s\u00f3 um sujeito pode ser responsabilizado. A pessoa escravizada era inquestionavelmente um ser h\u00edbrido que dispunha de algumas \u00abprerrogativas\u00bb pouco respeitadas pelos seus senhores: alimenta\u00e7\u00e3o, alojamento, vestu\u00e1rio, garantia de descanso aos domingos e feriados<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.09026927283851904\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 4.\u00b0\">&nbsp;<\/span>, direito de n\u00e3o ser confiscado e vendido separadamente da mulher e dos filhos imp\u00faberes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9182107886525088\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 42.\u00b0\">&nbsp;<\/span>, direito de n\u00e3o ser casado contra a sua vontade pelo seu senhor<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6908350348509273\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 7.\u00b0\">&nbsp;<\/span>, e direito de receber cuidados do seu senhor em caso de doen\u00e7a<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7585867167942753\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 940, artigo 20.\u00b0\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Derradeiramente, conclui-se que o Direito n\u00e3o respeitava a dignidade humana das pessoas escravizadas, implicando abusos e gerando viol\u00eancia. Com efeito, encorajava a pervers\u00e3o, porque quando os seres humanos t\u00eam poder, abusam dele. A lei previa que os escravizados obedecessem e respeitassem os seus senhores que podiam castig\u00e1-los caso cometessem um erro no trabalho ou se atentassem contra a pr\u00f3pria vida ou a de um membro da sua fam\u00edlia. Apesar de nem todos os senhores serem excessivos, h\u00e1 que reconhecer que a porta para o excesso se encontrava inexoravelmente aberta. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69df4b4639ed5&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1049\" height=\"1280\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_2FI1979.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14743\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_2FI1979.jpg 1049w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_2FI1979-246x300.jpg 246w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_2FI1979-839x1024.jpg 839w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_2FI1979-768x937.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">[Um plantador teimoso. Apesar do que dizem os fil\u00f3sofos europeus\u2026<br>O a\u00e7\u00facar s\u00f3 pode ser feito com a ajuda da cana!]<br>Charles-\u00c9mile Jacque. [ca 1830-1840). Estampa.<br>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, inv. 2FI1979<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O estatuto das pessoas escravizadas tornava-as incapazes. Embora a maioria delas tivesse completado a sua inicia\u00e7\u00e3o antes de ser introduzida na col\u00f3nia \u2013 salvo, evidentemente, os mais jovens \u2013 eram considerados indiv\u00edduos incultos. Contudo, n\u00e3o obstante a imensid\u00e3o dos seus infort\u00fanios no seio da sociedade de Bourbon, foram capazes de demonstrar o seu esp\u00edrito criativo e inventivo. Todos os escravizados almejavam viver livres, portanto cada um deles se mostrou suficientemente engenhoso para quebrar este sistema odioso \u00e0 sua maneira.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo da conce\u00e7\u00e3o do tempo pelos escravizados revela a import\u00e2ncia que o dia de Ano Novo revestia para eles, pois situavam-se no tempo em fun\u00e7\u00e3o dele. Quando perguntaram a Jouan, escravo de Sieur Cardonne, detido por <em>marronnage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.34101532220769415\" aria-label=\" N. da T. \u2013 o marronnage era o ato de fuga de escravos na ilha da Reuni\u00e3o \">&nbsp;<\/span>, quanto tempo esteve em fuga, ele deixou o inquiridor boquiaberto. Enquanto o gabinete do <em>marronnage <\/em>indicava que ele estivera foragido um m\u00eas e vinte e um dias, ele afirmava ter estado ausente durante dois anos, certamente n\u00e3o para elevar a sua reputa\u00e7\u00e3o ou para se fazer de importante, mas simplesmente para expressar que dizia a verdade. As atas do interrogat\u00f3rio ap\u00f3s a sua captura revelam a sua capacidade de r\u00e9plica e perspic\u00e1cia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Inquirido sobre h\u00e1 quanto tempo estava foragido<br>Afirmou dois anos<br>Inquirido sobre se durante o tempo que estivera em <em>marronnage <\/em>n\u00e3o havia regressado a casa do seu senhor, nomeadamente no dia quatro do corrente m\u00eas.<br>Respondeu que n\u00e3o punha os p\u00e9s em casa do seu senhor h\u00e1 dois anos, que havia fugido para o mato.<br>Fizemos notar ao acusado que est\u00e1 enganado, que n\u00e3o \u00e9 <em>marron <\/em>h\u00e1 dois anos, mas apenas desde o dia cinco de setembro \u00faltimo, o que perfaz um m\u00eas e vinte e um dias.<br>Respondeu que n\u00e3o estava enganado, que tinha passado dois dias <em>bananes<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44723495979686556\" aria-label=\"Na \u00e9poca da escravatura na Reuni\u00e3o, em crioulo o \u00abo\u00bb de \u00abBonne ann\u00e9e\u00bb (Feliz ano novo) foi transformado em \u00aba\u00bb e a express\u00e3o foi contra\u00edda tornando-se \u00abBanan\u00e9\u00bb. No interrogat\u00f3rio do fugitivo, o escriba omitiu o acento no \u00abe\u00bb.\">&nbsp;<\/span> no mato, o que perfaz dois anos<br>Inquirido sobre em que lugar passou esses dois anos de <em>marronnage<\/em><br>Respondeu na floresta de Rivi\u00e8re des Pluies e que tinha passado muito tempo em Salazes.<br>Inquirido sobre se sabia a diferen\u00e7a entre um ano e um m\u00eas<br>Respondeu que distingue o final de um ano e o in\u00edcio de outro gra\u00e7as \u00e0 festa <em>banane <\/em>e que sabe que um m\u00eas tem quatro semanas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.906367296955465\" aria-label=\"ADR, 37 C, Interrogat\u00f3rio de Jouan, escravo de Sieur Vincent Cardonne.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Pesquisas e reflex\u00f5es mais aprofundadas sobre o dia de Ano Novo evidenciam tanto a estrat\u00e9gia que adotaram para o celebrar como a forma como os senhores, sobretudo os mais hip\u00f3critas, o encaravam. Uma situa\u00e7\u00e3o observada no dia de Ano Novo na propriedade dos Desbassayns d\u00e1-nos uma ideia da complexidade deste sistema.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os votos de Feliz Ano Novo, uma tentativa de corrigir o sistema<\/h3>\n\n\n\n<p>Como a palavra das pessoas escravizadas era temida, elas viam-se obrigadas a ocultar constantemente os seus pensamentos. Por isso, para desvendar o seu significado, \u00e9 necess\u00e1rio interpret\u00e1-lo a um segundo n\u00edvel. Em Bourbon, os escravizados criaram um costume que traduz o seu esp\u00edrito de resist\u00eancia e a sua vontade de pressionar os dominantes no sentido de agirem de forma racional. No in\u00edcio de cada ano, decidiram desejar aos seus senhores um feliz ano novo. Tratava-se, com efeito, de um dia de tr\u00e9guas, de compromisso e de verdade. Porque \u00e9 que um escravo daria votos de um feliz ano novo ao seu senhor? Seria demasiado simplista apontar para a sua extrema aliena\u00e7\u00e3o. Esta iniciativa incompreens\u00edvel, constitu\u00eda uma atitude ousada, com consequ\u00eancias profundas tanto para o escravo como para o senhor. Ap\u00f3s desejar um feliz ano novo aos seus senhores, os escravos deviam fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para que os seus senhores passassem um bom ano, e os respetivos senhores deviam adotar a mesma atitude para com eles. Enquanto a maior parte dos senhores acolhia a iniciativa dos escravos e lhes oferecia como recompensa duas mudas de roupa e um copo de \u00e1lcool ou limonada, alguns dos que estavam agarrados ao sistema detestavam esse dia, pois compreendiam o que estava em jogo. Para eles, esta abordagem era subversiva, viam-na como uma esp\u00e9cie de armadilha e sentiam-se amea\u00e7ados. Eram obrigados a dizer \u00abFeliz Ano Novo\u00bb, deixando de estar com a consci\u00eancia tranquila, pois n\u00e3o tinham qualquer inten\u00e7\u00e3o de se questionarem a si pr\u00f3prios como dominantes. O que os incomodava era o facto de serem condenados \u00e0 hipocrisia, porque o senhor que retribu\u00eda esses votos ao escravizado estava na realidade a assumir um compromisso t\u00e1cito, devendo fazer todos os poss\u00edveis para que o trabalhador tivesse um ano verdadeiramente bom. A iniciativa do escravizado parece assim muito bem pensada e deveras h\u00e1bil. \u00c9 certo que n\u00e3o colocava em causa o sistema, mas apelava \u00e0 n\u00e3o-viol\u00eancia. Atrav\u00e9s deste apelo dissimulado e subtil no sentido de p\u00f4r termo aos excessos, procurava quebrar, \u00e0 sua maneira, este sistema perverso. \u00c9 por isso que o senhor que n\u00e3o pretendesse mudar, nem um m\u00ednimo que seja, tinha pouca considera\u00e7\u00e3o por este dia pois sabia o que se escondia por detr\u00e1s desta iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu di\u00e1rio que abarca o per\u00edodo de 1811 a 1835, o propriet\u00e1rio de Sainte-Suzanne, Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, apresenta uma abordagem deste dia pelos escravos e mostra ser o exemplo por excel\u00eancia da classe dominante hostil a qualquer mudan\u00e7a. Para os escravos, era um dia de descanso e de alegria que dedicavam ao canto e \u00e0 dan\u00e7a. O diarista constatava que no dia 1 de janeiro de 1813 chovia. \u00abOs Negros de Grinne vieram ontem \u00e0 noite ao Grand Hazier para festejar o primeiro dia do ano, como de costume; mas hoje a chuva cont\u00ednua perturbou os seus prazeres, sem contudo os impedir de dan\u00e7ar e de se divertirem\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.10171461613069288\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, L\u2019Harmattan, Paris, 1990, volume 1, p. 89.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Este latifundi\u00e1rio franco-ma\u00e7\u00e3o, que pretendia ser um homem de ideias avan\u00e7adas, um liberal, sentia-se pouco \u00e0 vontade quando os seus escravos se lhe apresentavam nesse dia para cumprir o seu dever e respeitar os seus costumes. Como era intrat\u00e1vel com qualquer pessoa que cometesse a mais pequena falta, custava-lhe aceitar que eles ainda lhe desejassem votos de um bom ano, pelo que n\u00e3o compreendia a atitude deles. Sabia muito bem que um carrasco n\u00e3o merecia agradecimentos nem recompensas e considerava o gesto deles rid\u00edculo. No dia 1 de janeiro de 1824, escreveu: \u00abA cena do dia de Ano Novo vai come\u00e7ar\u00bb, confirmando que as a\u00e7\u00f5es dos escravos perduravam. \u00abOs gritos de alegria dos Negros, o rufar dos tambores, os votos um tanto ou quanto rid\u00edculos de feliz ano novo, tudo isto constitui uma sandice insuport\u00e1vel, que, no entanto, \u00e9 necess\u00e1rio suportar. Este dia foi aproveitado pelos escravos, como tantos outros, para se embebedarem, fazerem barulho e dan\u00e7arem, nada mais. Por\u00e9m esquecem todas as suas m\u00e1goas, e isso j\u00e1 \u00e9 muito\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.31441836322059036\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, p. 279.\">&nbsp;<\/span>!<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69df4b463b4f8&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"881\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRM1069_1984.07.02.65.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14747\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRM1069_1984.07.02.65.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRM1069_1984.07.02.65-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRM1069_1984.07.02.65-1024x705.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRM1069_1984.07.02.65-768x529.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">O Ser\u00e3o. Dan\u00e7a dos Negros ao som do TamTam. Adolphe Martial Pot\u00e9mont. 1848. Litografia.<br>Col. Museu L\u00e9on Dierx, inv. 1984.07.02.65<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Este diarista n\u00e3o \u00e9 parvo. Embora n\u00e3o pudesse negar o aspeto positivo da festa, o esquecimento moment\u00e2neo do seu destino infeliz, n\u00e3o tolerava a sua aud\u00e1cia quando, de manh\u00e3, lhe vinham desejar \u00abFeliz ano novo\u00bb, porque \u00e9 evidente que ele n\u00e3o pretendia proporcionar-lhes um bom ano. Se considerava \u00abrid\u00edculos os seus desejos de feliz ano novo\u00bb, era porque esperavam que ele mudasse de atitude. Ver os escravos que maltratava sem piedade virem desejar-lhe felicidades era rid\u00edculo aos seus olhos, porque n\u00e3o queria ser desestabilizado pela sua excessiva bondade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os escravos podiam n\u00e3o se dar bem uns com os outros, pelo que o baile podia originar brigas. A 1 de janeiro de 1826, este senhor passou o dia em casa de um dos seus amigos, Bruno. Ao sair do jantar, um mensageiro disse-lhe que os seus escravos estavam a discutir e a lutar, pelo que ele se dirigiu imediatamente para sua casa. Ao chegar, os \u00e2nimos acalmaram, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Sr. Louis, que tamb\u00e9m havia sido insultado e amea\u00e7ado<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.13559947196435018\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, p. 483.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble ficava contente quando chovia, pois n\u00e3o tinha de suportar as visitas de cortesia dos seus escravos. Como no dia 1 de janeiro de 1827 choveu durante toda a noite e uma boa parte da manh\u00e3, constatou com satisfa\u00e7\u00e3o: \u00abOs votos de ano novo foram dados durante a tarde. O dia correu como de costume, foi um dia bastante banal\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2989861314219626\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, p. 583.\">&nbsp;<\/span>. Em 1829, choveu, por isso tampouco teve de receber os escravos, ficando bastante satisfeito: \u00abO primeiro dia do ano, que costuma ser muito entediante, n\u00e3o foi, no entanto, t\u00e3o aborrecido para mim como eu esperava. N\u00e3o tive que arcar muito com os bons dias e os votos de feliz ano novo que os Negros nos prodigalizam sem outro interesse que n\u00e3o a esperan\u00e7a de um copo de aguardente. O tempo tem estado t\u00e3o mau que \u00e9 preciso ter muita vontade para nos expormos a ele. Em minha casa, houve apenas um incidente: No\u00ebl, o meu cozinheiro, embriagou-se e os seus cozinhados correram mal. O Bruno enviou-me um pouco de carne de vaca que havia matado para esse dia famoso\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.26202406601949313\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, p. 731. \">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise que este senhor faz do comportamento dos escravos \u00e9 interessante, ainda que superficial. Em primeiro lugar, entendia que atrav\u00e9s da sua atitude, os escravos tornavam o dia \u00abrid\u00edculo\u00bb e \u00abmuito entediante\u00bb. Estas observa\u00e7\u00f5es refletem a sua recusa em dar-lhes um presente de ano novo e um copo de aguardente. Em segundo lugar, \u00e9 de notar que este senhor n\u00e3o se deixava enganar, pois sublinha que a atitude deles era rid\u00edcula, considerando intoler\u00e1vel que zombassem dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 1830, que come\u00e7ou com um tempo magn\u00edfico, contrasta com o ano anterior, contudo ele n\u00e3o menciona nada sobre os seus escravos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6722920702396362\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, p. 853.\">&nbsp;<\/span>. Quando os senhores estavam de luto ou sofriam os efeitos de uma crise econ\u00f3mica ou das adversidades clim\u00e1ticas, as consequ\u00eancias repercutiam-se no dia de ano novo dos escravos. O primeiro dia do ano de 1831 \u00ab\u00e9 um dia aborrecido para este propriet\u00e1rio, um dia vulgar, passa um dia sem alegria na companhia da mulher e dos filhos\u00bb, porque um dos filhos estava doente<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7512687665221657\" aria-label=\" Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, volume 3, p. 935.\">&nbsp;<\/span>. No ano seguinte, o ambiente n\u00e3o se altera e ele passa um dia insignificante. \u00abN\u00e3o estamos em condi\u00e7\u00f5es de irromper na alegria que reina em tempos de prosperidade\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7512687665221657\" aria-label=\" Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, volume 3, p. 935.\">&nbsp;<\/span>. O final de 1832 n\u00e3o foi um ano bom. \u00ab\u00c9 o \u00faltimo dia do ano de 1832, com o quarto crescente da lua de janeiro, e temos uma seca desoladora. Os propriet\u00e1rios todos devem ter cometido algum crime de monta ou algum pecado grave para merecerem tantas calamidades, talvez por terem sido demasiado brandos para com os seus perseguidores, penso eu\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4347818331938138\" aria-label=\" Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d'un colon de l'\u00eele Bourbon, volume 3, p. 1029\">&nbsp;<\/span>. A 1 de janeiro de 1834, recebeu uma cita\u00e7\u00e3o de um oficial de justi\u00e7a informando-o de que o filho, Fortun\u00e9, havia mandado apreender os seus dois Negros em Saint-Denis. No dia seguinte, deslocou-se a Saint-Denis para dizer ao procurador que estava indignado com o comportamento do \u00abpatife\u00bb. Termina 1834 com a esperan\u00e7a de que o ano seguinte fosse melhor. A noite do dia 31 foi chuvosa, \u00abos bailes dos Negros e os esfor\u00e7os dos endomingados e endomingadas para imitarem as senhoras de bom gosto divertiram-nos imenso. Em suma, o dia correu alegremente\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3641995421865788\" aria-label=\"Jean-Baptiste Renoyal de Lescouble, Journal d\u2019un colon de l\u2019\u00eele Bourbon, volume 3, p. 1506.\">&nbsp;<\/span>. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que ele n\u00e3o se opunha a que os escravos se divertissem nesse dia. No entanto, desejava que o fizessem entre eles, n\u00e3o perturbando a sua tranquilidade com pedidos surrealistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o relato de Victorine Monniot no <em>Di\u00e1rio de Margarida<\/em>, na madrugada do Ano Novo, os escravos da propriedade de Nicol Robinet de La Serve em Colosse prestaram culto aos seus antepassados com a ajuda do senhor, que honrou o convite que lhe foi endere\u00e7ado visitando-os \u00e0 tarde na companhia de toda a sua fam\u00edlia<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.38477385041152967\" aria-label=\"Victorine Monniot, Journal de Marguerite, Paris, 1858, p. 138. \">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69df4b463c61d&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"889\" height=\"1200\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1990-13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14751\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1990-13.jpg 889w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1990-13-222x300.jpg 222w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1990-13-759x1024.jpg 759w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1990-13-768x1037.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c1lbum da Reuni\u00e3o. N. Robinet de La Serve. Louis Antoine Roussin lit.; por A. Christophe. maio de 1861. Litografia. <br>Col. Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, inv. 1990.13<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Esta cerim\u00f3nia, que dava sentido \u00e0s suas vidas e os ajudava a suportar o insuport\u00e1vel, contribu\u00eda para construir uma ponte entre todos os protagonistas do lar, pois as ora\u00e7\u00f5es dirigidas aos antepassados beneficiavam todos os que participam no culto.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o dia de Ano Novo em cada propriedade fosse uma ocasi\u00e3o para os escravos se divertirem, estes podiam se deparar com problemas judici\u00e1rios caso tudo n\u00e3o tivesse sido validado pelo senhor. Quando os escravos de um dom\u00ednio convidavam pessoas de outras propriedades sem informar o seu senhor, aqueles que apareciam podiam ser expulsos e acusados de viola\u00e7\u00e3o de propriedade privada. Lamour, escravo cafre e padeiro de Sieur Sentuary, foi dan\u00e7ar a 1 de janeiro de 1800 em Rivi\u00e8re-des-Pluies a convite de Agapit, escravo de Mme Dejean, na companhia dos carpinteiros Gaspard, Come, P\u00e9lage e do ferreiro Anicet. Agapit n\u00e3o tinha informado o seu senhor da presen\u00e7a de estranhos, pelo que, a meio do baile, o filho do senhor, armado com uma pistola, perseguiu-os, mandando-os parar. Eles obtemperaram, sendo que apenas Michel foi preso e Agapit obrigado a lev\u00e1-lo para casa do Sr. Russel a fim de ser castigado. Como escapou pelo caminho, Agapit foi acusado de cumplicidade. Toussaint, o escravo dom\u00e9stico da vi\u00fava H\u00e9brard, diz que Agapit o convidou para tocar violino e que compareceu com a autoriza\u00e7\u00e3o do seu senhor, mas fugiu, tal como os outros escravos, quando o Sr. Dejean os afugentou com a espingarda. Ningu\u00e9m disse nada de depreciativo sobre o Sr. Dejean. Quando Lamour foi acusado de ter apelado \u00e0s armas e de ter proferido coment\u00e1rios sediciosos, afirmou n\u00e3o ter sucedido nada disso, lamentando sinceramente ter aceitado o convite de Agapit<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9484231236699809\" aria-label=\"ADR, L 449.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>A descri\u00e7\u00e3o efetuada por um jesu\u00edta do dia de Ano Novo de 1845 na casa dos Desbassayns, localizada nas alturas de Saint-Paul, levanta quest\u00f5es, pois a tradi\u00e7\u00e3o oral oferece uma imagem negativa da Senhora Ombline Desbassayns, falecida a 4 de fevereiro de 1846.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O dia de Ano Novo na propriedade dos Desbassayns segundo o jesu\u00edta Bertrand, o tempo dos poss\u00edveis<\/h3>\n\n\n\n<p>Na sua <em>Histoire de Madagascar<\/em>, o Padre de la Vayssi\u00e8re recorda uma cena verdadeiramente espantosa observada no in\u00edcio de 1845 pelo Padre Bertrand, mission\u00e1rio em Madur\u00e9, durante a sua visita a Bourbon e descrita numa carta enviada ao Padre Maillard, seu provincial em Lyon. Este sacerdote, que n\u00e3o aprovava a escravatura, afirmou ter ficado surpreendido ao ver a pr\u00e1tica deste sistema sob uma nova luz.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69df4b463d317&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"988\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_99FI39.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14755\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_99FI39.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_99FI39-300x232.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_99FI39-1024x790.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FRAD974_99FI39-768x593.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Lembran\u00e7a da ilha Bourbon, N.\u00b0 36: Propriedade Desbassayns (Saint Gilles). J Dureau; por Louis Antoine Roussin. 22 de outubro de 1847. Litografia.<br>Col. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, inv. 99FI39<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>N\u00e3o posso deixar de vos comunicar algumas observa\u00e7\u00f5es sobre um assunto s\u00e9rio que h\u00e1 muito est\u00e1 na ordem do dia, a saber, a escravatura. Cheguei com todas as minhas convic\u00e7\u00f5es firmes e com os meus sentimentos de desaprova\u00e7\u00e3o e de horror contra este tr\u00e1fico indigno de seres humanos. Sem d\u00favida que nada pode alterar estas convic\u00e7\u00f5es no tocante ao princ\u00edpio, mas eis algumas observa\u00e7\u00f5es que me surpreenderam:<br>1\u00b0 No primeiro dia do ano, todos os escravos da Senhora Desbassayns chegam em cerim\u00f3nia, ao som do violino, diante da sua senhora, rodeada pelos filhos e filhas. Depois do cumprimento habitual, um toque de arco d\u00e1 o sinal, e imediatamente cada senhore escolhe uma das escravas, cada senhora d\u00e1 a m\u00e3o a um dos escravos, e o baile come\u00e7a, um verdadeiro baile de fam\u00edlia que est\u00e1 muito longe da ideia que eu tinha da escravatura.<br>2\u00b0 Os escravos destas fam\u00edlias n\u00e3o se consideram t\u00e3o degradados como se poderia pensar; elevam-se \u00e0 altura da posi\u00e7\u00e3o dos seus senhores e orgulham-se do poder e da reputa\u00e7\u00e3o daqueles que servem. Dizem: a nossa casa, o nosso dom\u00ednio, e manifestam o esp\u00edrito de fam\u00edlia muito melhor do que todos esses criados da civiliza\u00e7\u00e3o moderna<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8680765970282588\" aria-label=\"R.P. de la Vaissi\u00e8re, Histoire de Madagascar, p. 50, retomado por R. P\u00e8re Engelvin na sua Histoire anecdotique de Bourbon - La R\u00e9union. 300 ans de colonisation fran\u00e7aise dans l'\u00c9den de l'oc\u00e9an Indien, 1640-1940, Tananarive, 1940, p. 201.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Segundo as confid\u00eancias deste padre antiescravatura, no dia de Ano Novo, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o dos votos dos escravos ao senhor e aos membros da sua fam\u00edlia, realizava-se o baile no interior da casa do senhor. Na abertura do baile, cada filha do senhor dan\u00e7ava com um escravo. Era, segundo ele, um \u00abverdadeiro baile de fam\u00edlia\u00bb. Na realidade, as barreiras n\u00e3o ca\u00edam, mas esse dia tornava poss\u00edvel uma aproxima\u00e7\u00e3o; o que era considerado degradante e intoler\u00e1vel deixava de o ser nesse dia. Esta cena inesperada n\u00e3o parece ter sido inventada pelo padre para louvar esta propriet\u00e1ria abastada e contrariar os abolicionistas da Fran\u00e7a continental, porque a sua opini\u00e3o sobre este sistema odioso estava firmemente estabelecida e nada podia mud\u00e1-la. Trata-se simplesmente de uma prova da complexidade deste sistema e da necessidade de multiplicar as fontes para o estudar e melhor se aproximar da realidade.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":14738,"parent":5036,"menu_order":90,"template":"","class_list":["post-14956","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/14956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14738"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}