{"id":15395,"date":"2025-11-24T12:10:16","date_gmt":"2025-11-24T08:10:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=15395"},"modified":"2025-11-24T13:29:52","modified_gmt":"2025-11-24T09:29:52","slug":"a-marinha-britanica-e-a-luta-contra-o-trafico-no-oceano-indico-durante-a-segunda-metade-do-seculo-xix","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/o-trafico-de-escravos\/o-trafico-de-escravos-no-oceano-indico-2\/a-marinha-britanica-e-a-luta-contra-o-trafico-no-oceano-indico-durante-a-segunda-metade-do-seculo-xix\/","title":{"rendered":"A marinha brit\u00e2nica e a luta contra o tr\u00e1fico no oceano \u00cdndico durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-video\"><video controls poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/poster_cheriau_2.jpg\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Raphael-CHERIAU.mp4\"><\/video><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A odisseia de Khamis<\/h3>\n\n\n\n<p>A 19 de setembro de 1888, o C\u00f4nsul brit\u00e2nico de Mascate no sultanato de Om\u00e3, o tenente E. Mockler, recolhia o testemunho de um jovem adolescente de quinze anos chamado Khamis Bin Nasseb Mahyawa, que se havia refugiado alguns dias antes a bordo do navio da Royal Navy a fim de escapar aos traficantes de escravos que o tinham capturado em Zanzibar<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.13098578000217476\" aria-label=\"House of Commons Parliamentary Papers (HCPP), 1889 (C.5821), Inclosure 3 in N\u00b017.\">&nbsp;<\/span>. O depoimento do jovem Khamis \u00e9 um dos raros testemunhos de v\u00edtimas do tr\u00e1fico de escravos que constam dos arquivos, trazendo a lume as principais caracter\u00edsticas deste tr\u00e1fico no oceano \u00cdndico, bem como o papel da Royal Navy no combate ao mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Khamis conta como foi capturado com a fam\u00edlia na regi\u00e3o africana dos Grandes Lagos, quando ainda era menino, para depois ser levado \u00e0 for\u00e7a para as costas da \u00c1frica oriental e, por fim, vendido ao propriet\u00e1rio de uma planta\u00e7\u00e3o de Zanzibar onde foi escravizado. Aquando da morte do seu \u00abamo\u00bb foi alforriado, tornando-se um \u00abhomem livre\u00bb at\u00e9 ao dia em que foi de novo capturado por traficantes do Golfo P\u00e9rsico que o levaram a bordo de um navio para Bagamoyo, um porto importante na costa que se encontra separada por um pequeno canal de mar de Unguja, a ilha principal do Sultanato de Zanzibar. De seguida, Khamis, juntamente com mais 29 outros escravos, teve que suportar, em condi\u00e7\u00f5es terr\u00edveis, a travessia do oceano \u00cdndico a bordo de outro navio, um \u00abBugala\u00bb, um veleiro \u00e1rabe com velas triangulares e cascos afiados, que na altura eram muito usuais na \u00c1frica oriental ou nas Ar\u00e1bias. Por fim atracaram em Sour, outro porto de tr\u00e1fico importante, situado na entrada do Golfo P\u00e9rsico no Sultanato de Om\u00e3. Khamis conta como conseguiu tirar partido da falta de aten\u00e7\u00e3o dos seus carcereiros, um dia em que se encontravam ancorados perto do porto de Mascate, atirando-se \u00e0 \u00e1gua ao avistar um navio da Royal Navy, e at\u00e9 ele nadando para pedir socorro e apelar \u00e0 sua liberdade.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69de85f383748&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"903\" height=\"1280\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2014-1-32.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15136\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2014-1-32.jpg 903w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2014-1-32-212x300.jpg 212w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2014-1-32-722x1024.jpg 722w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/2014-1-32-768x1089.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">African slave dhow. An\u00f3nimo. 2\u00aa metade do s\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, inv. 2014.1.32<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Longe de ser um caso isolado, a hist\u00f3ria de Khamis \u00e9 um exemplo emblem\u00e1tico dos in\u00fameros casos de escravos fugitivos recolhidos pela Royal Navy na segunda metade do s\u00e9culo XIX, mostrando-nos um jovem adolescente que estava surpreendentemente ciente do papel desempenhado pela marinha brit\u00e2nica no combate ao tr\u00e1fico de escravos. Ele sabia que ao abordar um navio de Sua Majestade podia escapar \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de escravo. Ali\u00e1s, os fugitivos como Khamis foram t\u00e3o numerosos, que em 1875 o Almirantado brit\u00e2nico proibiu aos marinheiros de Sua Majestade de os socorrer devido \u00e0s tens\u00f5es que tal suscitava junto aos Estados aliados de Londres no oceano \u00cdndico, cuja prosperidade (t\u00e2maras, p\u00e9rolas, marfim e cravinho) dependiam em grande parte da m\u00e3o de obra servil. Al\u00e9m disso, esta atitude permitia aos brit\u00e2nicos limitar o seu envolvimento a opera\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas contra o tr\u00e1fico internacional, sem no entanto colocar em causa a legalidade da escravatura no seio de Estados soberanos. Contudo, esta circular do Almirantado foi rapidamente abandonada sob a press\u00e3o de uma violenta mobiliza\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica e dos deputados de Westminster, que espelhava a for\u00e7a inigual\u00e1vel da corrente abolicionista na pol\u00edtica Inglesa desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.03942423549541496\" aria-label=\"W. Mulligan, \u00ab The Fugitive Slave Circulars, 1875 1876 \u00bb, The Journal of Imperial and Commonwealth History, vol. 37, n\u00b0 2, Junho de 2009, p. 183-205.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69de85f384281&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"821\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2013-734.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15140\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2013-734.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2013-734-300x192.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2013-734-1024x657.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2013-734-768x493.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">The slavery question in eastern Africa. 1873. Gravura. Em <em>The Graphic<\/em>, 8 de Mar\u00e7o 8 de 1873, p. 233.<br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2013.734<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma enorme tarefa, com meios irris\u00f3rios<\/h3>\n\n\n\n<p>Embora os navios da Royal Navy tenham ficado famosos pelo seu envolvimento no combate ao tr\u00e1fico de escravos nos anos 1880, isso nem sempre foi assim. At\u00e9 \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura na Gr\u00e3-Bretanha (1807), e mais tarde em Fran\u00e7a (1817-1831), os Europeus dominavam o tr\u00e1fico no oceano \u00cdndico<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7218364742782543\" aria-label=\"R. B. Allen, European Slave Trading in the Indian Ocean, 1500 1850, Ohio University Press, 2015, p.38.\">&nbsp;<\/span>. Todavia, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o nas col\u00f3nias brit\u00e2nicas (1833) e francesas (1848), e no momento em que o tr\u00e1fico deca\u00eda no Atl\u00e2ntico durante a Guerra Civil americana (1861-1865) e a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil (1888), as opera\u00e7\u00f5es navais das pot\u00eancias europeias contra o tr\u00e1fico de escravos foram refor\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta de 1860, a esta\u00e7\u00e3o naval brit\u00e2nica da \u00c1frica oriental era constitu\u00edda por \u00absete a doze navios\u00bb que patrulhavam \u00abdesde a orla oriental do oceano \u00cdndico at\u00e9 ao cabo da Boa Esperan\u00e7a\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5278702567468473\" aria-label=\"R. Howell, The Royal Navy and the Slave Trade, Londres, Croom Helm, 1987, p. 36.\">&nbsp;<\/span>. A sua principal miss\u00e3o era garantir a seguran\u00e7a das rotas mar\u00edtimas rumo \u00e0 \u00cdndia, a joia do Imp\u00e9rio brit\u00e2nico, sendo a sua miss\u00e3o secund\u00e1ria lutar contra o tr\u00e1fico no oceano \u00cdndico com vista a finalizar a \u00abmiss\u00e3o\u00bb da Gr\u00e3-Bretanha em todos os mares do mundo desde 1807.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69de85f384de8&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"518\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-364.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15144\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-364.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-364-300x121.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-364-1024x414.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-364-768x311.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">The slave trade in East Africa, ships of the British and German Blockading Fleets. <br>Em <em>The Graphic<\/em>, 19 de janeiro de 1889, p. 56.<br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2009.01.364<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Por\u00e9m, em 1873, o capit\u00e3o G. L. Sulivan sublinhava, numa narrativa popular da sua campanha no oceano \u00cdndico durante os anos 1860, \u00abo qu\u00e3o os meios para erradicar o tr\u00e1fico eram insuficientes\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3904707301289482\" aria-label=\"G. L. Sulivan, Dhow Chazing in Zanzibar Waters and on the Eastern Coast of Africa, Londres, Low &amp; Searle, 1873, p. 5\">&nbsp;<\/span>. No entanto, gra\u00e7as aos relat\u00f3rios publicados pelo Parlamento e \u00e0s obras que divulgavam junto ao p\u00fablico, sabe-se que os oficiais da Marinha como Sulivan conseguiam contribuir para melhorar um pouco a situa\u00e7\u00e3o. Esta estrat\u00e9gia deu especialmente frutos em 1873, ap\u00f3s a passagem da miss\u00e3o diplom\u00e1tica de Sir Bartle Frere a Zanzibar que culminou na assinatura de um tratado de aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos nas costas do Sultanato. De seguida, os meios foram refor\u00e7ados durante o bloqueio naval de Zanzibar (1888-1889), cujo objetivo foi, mais de reprimir uma revolta anticolonial, acabar efetivamente com o tr\u00e1fico, num momento em que o interesse por \u00c1frica estava no seu apogeu. Em todo o caso, como mais tarde veio a ser destacado por v\u00e1rios historiadores, os cruzadores brit\u00e2nicos comprometidos com o combate ao tr\u00e1fico humano n\u00e3o lograram erradic\u00e1-lo definitivamente, embora tenham contribu\u00eddo para o reduzir consideravelmente. Assim, de 1860 \u00e0 1890, os cruzadores capturaram 1 000 embarca\u00e7\u00f5es, libertando cerca de 12 000 escravos (perfazendo um total de 22 000 entre 1807 e 1888), enquanto, segundo as estimativas, entre 800 000 e mais de dois milh\u00f5es de pessoas foram v\u00edtimas do tr\u00e1fico humano durante esse per\u00edodo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5820906348963822\" aria-label=\"M. S. Hopper, \u00ab Liberated Africans in the Indian Ocean World \u00bb, in R. Anderson et H. B. Lovejoy (dir.), Liberated Africans and the Abolition of the Slave Trade, 1807 1896, Rochester, University of Rochester Press, 2020, p. 272; G. Campbell, \u201cServitude and the Changing Face of the Demand for Labor in the Indian Ocean World c. 1800-1900\u201d in R. Harms et alii (dir.), Indian Ocean Slavery in the Age of Abolition, Yale University Press, 2013, p.34.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, importa tamb\u00e9m considerar que todas as pessoas que, tal como Khamis, foram \u00ablibertadas\u00bb pela Royal Navy passaram por novas formas de servid\u00e3o colonial, quer no \u00e2mbito da \u00abaprendizagem\u00bb (coloca\u00e7\u00e3o sob tutela e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Estado ou de um particular), quer no \u00e2mbito do \u00abtrabalho sob contrato\u00bb, com m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s dos \u00abcoolies\u00bb indianos ou chineses. Os \u00abAfricanos alforriados\u00bb do oceano \u00cdndico passaram quase todos pela experi\u00eancia do \u00abtrabalho contratado\u00bb no ex\u00e9rcito, nas miss\u00f5es religiosas, nas obras p\u00fablicas, nas planta\u00e7\u00f5es coloniais ou nos trabalhos dom\u00e9sticos, alguns tornando-se at\u00e9 interpretes ou marinheiros da Royal Navy, participando ativamente nas opera\u00e7\u00f5es de luta contra o tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma revolu\u00e7\u00e3o do direito internacional<\/h3>\n\n\n\n<p>No oceano \u00cdndico, tal como no Atl\u00e2ntico, a repress\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos levada a cabo pela Royal Navy foi, todavia, uma revolu\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e pol\u00edtica. Ali\u00e1s, a luta foi estritamente enquadrada pelo Parlamento, o Almirantado, o Foreign Office e as autoridades consulares no terreno, com o intuito de evitar que qualquer captura de navios \u00abnegreiros\u00bb fosse interpretada como um atentado \u00e0 liberdade de navega\u00e7\u00e3o (garantia do com\u00e9rcio mundial) ou \u00e0 soberania dos Estados (qualquer navio que arvorasse bandeira era considerado como sendo a representa\u00e7\u00e3o de um Estado soberano).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a fim de lutar contra o tr\u00e1fico de seres humanos, em tempos de paz, a Gr\u00e3-Bretanha tinha criado o direito de visita (inspe\u00e7\u00e3o) dos navios suspeitos de traficarem escravos, por meio da celebra\u00e7\u00e3o de in\u00fameros tratados bilaterais que autorizavam a abordagem, a captura e a destrui\u00e7\u00e3o dos ditos navios. Inicialmente, \u00e0 luz do direito internacional, o direito de visita e de captura de um navio mercante apenas era autorizado em tempos de guerra, para evitar qualquer inger\u00eancia nos conflitos e proteger a soberania dos Estados. A inspe\u00e7\u00e3o e a confisca\u00e7\u00e3o dos navios traficantes abria assim a via a uma nova forma de inger\u00eancia em nome dos princ\u00edpios humanit\u00e1rios plasmados no direito internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Por conseguinte, qualquer captura de navios efetuada no \u00e2mbito da repress\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos devia obedecer a um quadro jur\u00eddico e pol\u00edtico r\u00edgido. As capturas tinham que ser validadas por um tribunal do vice-almirantado (tribunal dos lit\u00edgios mar\u00edtimos) ou por uma comiss\u00e3o mista (cria\u00e7\u00e3o de um tribunal no \u00e2mbito de um acordo bilateral entre dois pa\u00edses). A partir de 1869<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.05770109844365878\" aria-label=\"HCPP 1868-69 (237) Zanzibar (jurisdiction of consul).\">&nbsp;<\/span> no oceano \u00cdndico, qualquer oficial que efetuasse uma captura tinha que se dirigir imediatamente a um dos portos onde houvesse um desses tribunais do vice-almirantado (Cidade do Cabo, Maur\u00edcias, Ad\u00e9m, Bombaim ou Zanzibar). Tal como o quadro indica, o tribunal do Sultanato foi especialmente ativo na segunda metade do s\u00e9culo XIX, libertando 7819 escravos num total de 12000 \u00abliberta\u00e7\u00f5es\u00bb realizadas entre 1860 e 1890 no oceano \u00cdndico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-regular\" style=\"font-style:normal;font-weight:400\"><table class=\"has-text-color has-link-color has-fixed-layout\" style=\"color:#725549\"><tbody><tr><td><strong>Ano<\/strong><\/td><td><strong>N\u00famero de dhows capturados e casos julgados pelo tribunal da Vice-Almirantado de Zanzibar<\/strong><\/td><td><strong>Escravos \u201ccapturados\u201d e depois \u201clibertados\u201d<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>1867-1874<\/td><td>214<\/td><td>4 698<\/td><\/tr><tr><td>1870-1875<\/td><td>89<\/td><td>2 118<\/td><\/tr><tr><td>1880-1884<\/td><td>117<\/td><td>1 003<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#725549\" class=\"has-inline-color\">Quadro. N\u00famero de casos julgados pelo tribunal do vice-almirantado de Zanzibar entre 1867 e 1884<\/mark><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:6px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69de85f386383&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"773\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-68.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15153\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-68.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-68-300x181.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-68-1024x618.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-68-768x464.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">The East African slave trade: Examination of captured slaves in the British Consul-General\u2019s court at Zanzibar. <br>Gravura. Em <em>The illustrated London News<\/em>, 17 de dezembro de 1881. <br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2009.01.68<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Todavia, o recurso ao direito de visita podia dar azo a abusos, que n\u00e3o s\u00f3 desacreditavam o car\u00e1ter da \u00abmiss\u00e3o\u00bb levada a cabo pela Royal Navy, como tamb\u00e9m podiam resultar em crises diplom\u00e1ticas com os pa\u00edses cujos navios haviam sido abusivamente inspecionados ou destru\u00eddos. Por exemplo, em 1868, o Sult\u00e3o de Zanzibar Seyyid Majid, escreveu ao c\u00f4nsul brit\u00e2nico Henry Adrian Churchill, queixando-se da captura e destrui\u00e7\u00e3o de navios, ato que ele qualificava de atentado \u00e0 sua soberania e ao direito internacional<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.40809938863697115\" aria-label=\"Churchill to the Secretary to Government, Bombay, 12 de dezembro de 1868, HCPP 1870 (C.141) incl. 1 in n\u00b0 32, p. 34.\">&nbsp;<\/span>. Entre a Fran\u00e7a e a Gr\u00e3-Bretanha, o exerc\u00edcio do direito de visita causou v\u00e1rias crises. Estes incidentes reiterados azedaram como nunca antes as rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses ao longo dos anos 1840 no Atl\u00e2ntico e, mais tarde, durante a segunda metade do s\u00e9culo, no \u00cdndico. Ali\u00e1s, a Fran\u00e7a sempre recusou acordar \u00e0 marinha brit\u00e2nica o direito de visita de navios mercantes que arvoravam a sua bandeira, com exce\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de 1831 a 1833 no Atl\u00e2ntico e num quadro muito restrito. Paris considerava que a inspe\u00e7\u00e3o pela Royal Navy de um navio com a sua bandeira era uma humilha\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel \u00e0 sua soberania. Por sua vez, Londres acusava a Fran\u00e7a de deixar proliferar o tr\u00e1fico de escravos ao abrigo da sua bandeira e de impedir o \u00eaxito da sua \u00abnobre miss\u00e3o humanit\u00e1ria\u00bb, ao que Fran\u00e7a respondia que a utiliza\u00e7\u00e3o do direito de visita pela Royal Navy era um mero meio disfar\u00e7ado no sentido de afirmar a sua supremacia naval e colonial. Os diferendos entre as duas pot\u00eancias aumentaram em finais do s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69de85f386d49&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"851\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-619.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15157\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-619.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-619-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-619-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ME-2009-01-619-768x511.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">The blockade on the East Coast of Africa : overhauling the Papers of a Suspicious Dhow. 1889. Gravura. <br>Em <em>The Illustration London News<\/em>, 9 de fevereiro de 1889. P. 176-177.<br>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2009.01.619<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Alguns exemplos s\u00e3o o caso do navio <em>Fath el Kheir<\/em>, detido no porto de Zanzibar em 1893 por H.M.S. <em>Philomel <\/em>com 77 escravos a bordo ou os casos do <em>Diriki <\/em>e do <em>Fath el Kheir<\/em>, em 1900, ambos apreendidos com muitos escravos. Paralelamente, deram-se muitas visitas arbitr\u00e1rias. Em setembro de 1897, o <em>Fath el Kheir<\/em> em Mombasa e o <em>Majunga<\/em>, foram detidos e inspecionados pela Royal Navy embora n\u00e3o estivessem de todo envolvidos no tr\u00e1fico de seres humanos. Estes incidentes continuaram a perpetuar o c\u00edrculo vicioso de tens\u00f5es entre as duas pot\u00eancias coloniais rivais, alcan\u00e7ando o paroxismo no limiar do do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1903, cinco propriet\u00e1rios de \u00abnavios franceses\u00bb origin\u00e1rios de Sour foram detidos pela marinha brit\u00e2nica e depois julgados e presos pelo Sult\u00e3o de Om\u00e3. Para evitar um conflito aberto entre Paris e Londres, foi necess\u00e1rio apresentar a quest\u00e3o ao rec\u00e9m-criado tribunal permanente de arbitragem de Haia, porque esse homens, tanto quanto os respetivos navios, eram considerados \u00abs\u00fabditos franceses\u00bb, dependendo unicamente da justi\u00e7a francesa. Para Paris era uma quest\u00e3o de soberania, ao passo que para Londres se tratava da soberania de Om\u00e3 e, por conseguinte, do direito de visita concedido \u00e0 Royal Navy. O Tribunal proferiu a senten\u00e7a do \u00abcaso dos navios de Mascate\u00bb no dia 8 de agosto de 1905. No nov\u00edssimo contexto pol\u00edtico de <em>Entente Cordiale<\/em> (1904), este julgamento permitiu p\u00f4r termo \u00e0s crises violentas que haviam polarizado os dois pa\u00edses no oceano \u00cdndico, consagrando o direito de uma na\u00e7\u00e3o a atribuir a sua bandeira aos navios que elege, e portanto, a soberania dos Estados, sendo que o ac\u00f3rd\u00e3o do tribunal limitava, por\u00e9m, a possibilidade de os navios traficarem, em virtude da ratifica\u00e7\u00e3o pela Fran\u00e7a (1892) do Ato da Conven\u00e7\u00e3o de Bruxelles (1890), um tratado internacional que visava lutar contra o tr\u00e1fico no oceano \u00cdndico, concedendo aos signat\u00e1rios um direito de visita universal dos navios \u00abnegreiros\u00bb. No contexto do novo \u00edmpeto colonial europeu em \u00c1frica, tratava-se igualmente de colocar o imperialismo ocidental sob os ausp\u00edcios do humanitarismo e do direito internacional a fim de o legitimar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Embora os historiadores continuem a debater o sentido hist\u00f3rico a dar \u00e0 repress\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos levada a cabo pela Gr\u00e3-Bretanha no oceano \u00cdndico, ficou estabelecido que a a\u00e7\u00e3o dos cruzadores brit\u00e2nicos contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o significativa desse tr\u00e1fico, sem no entanto lhe dar o golpe fatal. O historiador Matthew S. Hopper, mostrou que o tr\u00e1fico no oceano \u00cdndico s\u00f3 diminuiu nos anos 1920, quando \u00abo com\u00e9rcio de t\u00e2maras e de p\u00e9rolas da Ar\u00e1bia colapsou devido \u00e0 mundializa\u00e7\u00e3o\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6769416010357314\" aria-label=\"M. S. Hopper, \u00ab East Africa and the End of the Indian Ocean Slave Trade \u00bb, Journal of African Development, vol. 13, n\u00b0 1, 2011, p. 41.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o contributo brit\u00e2nico foi determinante para estatuto do tr\u00e1fico e da escravatura no direito internacional. Com efeito, a experi\u00eancia hist\u00f3rica da Royal Navy inspirou os artigos 99.\u00b0 e 110.\u00b0 da Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Direito do Mar (1982), proibindo o transporte de escravos e criando um direito de visita universal dos navios suspeitos de tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":15135,"parent":13889,"menu_order":2,"template":"","class_list":["post-15395","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/15395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/13889"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}