{"id":15806,"date":"2026-01-23T09:43:52","date_gmt":"2026-01-23T05:43:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=15806"},"modified":"2026-01-26T08:59:32","modified_gmt":"2026-01-26T04:59:32","slug":"testemunhos-materiais-da-presenca-da-escravatura-em-imerina-planalto-central-de-madagascar-entre-o-seculo-xvi-e-finais-do-seculo-xviii","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/a-escravatura-no-oceano-indico\/testemunhos-materiais-da-presenca-da-escravatura-em-imerina-planalto-central-de-madagascar-entre-o-seculo-xvi-e-finais-do-seculo-xviii\/","title":{"rendered":"Testemunhos materiais da presen\u00e7a da escravatura em Imerina (planalto central de Madag\u00e1scar) entre o s\u00e9culo XVI e finais do s\u00e9culo XVIII"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A famosa frase de Blaise Pascal, \u00abse o nariz de Cle\u00f3patra fosse mais curto, toda a face do mundo teria mudado\u00bb, ilustra o facto de que n\u00e3o se pode explicar a grandeza de um pa\u00eds somente atrav\u00e9s da figura dos seus l\u00edderes ou dos grupos dominantes da sociedade: a constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds tamb\u00e9m assenta na a\u00e7\u00e3o de grupos ami\u00fade marginalizados pelos relatos hist\u00f3ricos. Em Madag\u00e1scar, e mais particularmente em Imerina entre os s\u00e9culos XVI e XIX, esta observa\u00e7\u00e3o aplica-se plenamente aos escravos, designados pelo termo <em>andevo<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.17578813285827743\" aria-label=\"A palavra \u00abandevo\u00bb significa homem perdido, de acordo com Flacourt em \u00abHistoire de la Grande Isle de Madagascar\u00bb, edi\u00e7\u00e3o de 1661.\">&nbsp;<\/span>, cujo papel permanece amplamente omisso nas narrativas oficiais e na compila\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o oral.<\/h2>\n\n\n\n<p>Essa marginaliza\u00e7\u00e3o de um grupo dominado que contribuiu para a manuten\u00e7\u00e3o do poder real j\u00e1 foi mencionada por Bakoly Domenichini Ramiaramanana e Jean Pierre Domenichini, ao salientarem que \u00abo nosso desejo seria, evidentemente, que todos aqueles que compreenderam o interesse desta quest\u00e3o (<em>andevo<\/em>), daqueles que reivindicavam os <em>tantaran&#8217;ny Andevo<\/em> \u00e0queles que acabaram de anunciar a sua inten\u00e7\u00e3o de come\u00e7ar a trabalhar\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6720736082336579\" aria-label=\"Bakoly Domenichini Ramiaramanana e Jean Pierre Domenichini, \u00abAspects de l\u2019esclavage sous la monarchie merina d\u2019apr\u00e8s les textes l\u00e9gislatifs et r\u00e9glementaire\u00bb em Omaly sy Anio: revista de estudos hist\u00f3ricos, Volume 15, Departamento de Hist\u00f3ria, Universidade de Antananarivo, 1982, p. 53-98.\">&nbsp;<\/span>, no sentido de matizar a influ\u00eancia da famosa compila\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es orais <em>Tantara ny Andriana<\/em> realizada por R.P. Callet<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3833881576145507\" aria-label=\"Callet (R.P) 1908\/1982 \u00ab Tantara ny Andriana teto Madagascar \u00bb, Tananarive, Imprimerie officielle, 1243 p.\">&nbsp;<\/span>. Importa sublinhar que, embora constitua uma fonte prim\u00e1ria essencial para a hist\u00f3ria de Madag\u00e1scar, esta obra concede um espa\u00e7o muito limitado \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o dos grupos marginalizados, em particular a dos <em>andevo<\/em>. O seu papel aparece largamente ocultado em benef\u00edcio das linhagens reais (<em>Andriana<\/em>), que n\u00e3o teriam podido existir nem persistir sem a presen\u00e7a e a a\u00e7\u00e3o dos andevo. Al\u00e9m disso, a escravatura \u00e9 um tema sens\u00edvel em Madag\u00e1scar, pois afeta diretamente a identidade da linhagem. Evoc\u00e1-la pode suscitar rea\u00e7\u00f5es hostis, pois h\u00e1 quem a veja como um ataque \u00e0 honra dos seus antepassados. Este assunto tem alimentado tens\u00f5es sociais e familiares at\u00e9 hoje, especialmente entre os descendentes de escravos, por vezes estigmatizados pelos descendentes de \u00absujeitos reais\u00bb. Muitos autores j\u00e1 contribu\u00edram para o estudo da escravatura em Imerina<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8357703811087233\" aria-label=\"Fr\u00e9d\u00e9ric Garan, \u00ab Un esclavage \u00e0 l\u2019antique ? \u00bb, Journ\u00e9es de l\u2019Antiquit\u00e9 et des temps anciens, La R\u00e9union, Avril 2012, p. 117-123. Lolona Nathalie Razafindralambo, \u00ab Les statuts sociaux dans les Hautes Terres malgaches \u00e0 la lumi\u00e8re des archives missionnaires norv\u00e9giennes \u00bb em Ateliers A et Ateliers LESC (online), 32, 2008. O conjunto de artigos publicados anualmente na Revista da Associa\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica Internacional do oceano \u00cdndico desde os anos 1960 constitui um corpus particularmente vasto, a ponto de me ser dif\u00edcil elencar sistematicamente os autores sem correr o risco de omitir alguns.\">&nbsp;<\/span>, recorrendo a fontes variadas, tais como arquivos, textos e fotografias antigos, entrevistas, mas tamb\u00e9m tradi\u00e7\u00f5es orais transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. A originalidade da nossa reflex\u00e3o reside na utiliza\u00e7\u00e3o de vest\u00edgios materiais como testemunhos da escravatura em Imerina. Trata-se de uma abordagem delicada e dif\u00edcil de empreender, uma vez que n\u00e3o existem museus dedicados \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o de objetos relacionados com a escravatura. Al\u00e9m disso, a escravatura em Imerina \u00e9 diferente daquela que est\u00e1 presente no esp\u00edrito ocidental, em que os escravos s\u00e3o acorrentados ou tatuados como objetos de venda. Tendo em conta estas limita\u00e7\u00f5es, bem como as restri\u00e7\u00f5es de tempo a dedicar \u00e0 recolha de testemunhos inacess\u00edveis, debru\u00e7amo-nos sobre a identifica\u00e7\u00e3o de vest\u00edgios superficiais como testemunhos da escravatura nos arredores de Antananarivo. Que testemunhos s\u00e3o esses que ainda hoje s\u00e3o conservados para glorificar o poder dos senhores e n\u00e3o o sofrimento dos escravos? S\u00e3o os fossos perif\u00e9ricos, as muralhas de terra vermelha, os arrozais, os t\u00famulos dos escravos, bem como os mercados de escravos identificados gra\u00e7as \u00e0 topon\u00edmia, etc. De resto, os escravos participavam indiretamente da gl\u00f3ria do reino e dos seus senhores.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0dd727&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"900\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2013-555_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15661\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2013-555_2.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2013-555_2-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2013-555_2-1024x720.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2013-555_2-768x540.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista de Antananarivo, capital de Madag\u00e1scar. Predhom Peulot, gravador. Terceiro quartel do s\u00e9culo XIX. Gravura.<br>Cole\u00e7\u00e3o Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, inv. ME.2013.555_2<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Breve panorama sobre a escravatura em Imerina<\/h3>\n\n\n\n<p>Em Madag\u00e1scar, coexistiam v\u00e1rias categorias de escravos, consoante as circunst\u00e2ncias da sua servid\u00e3o: prisioneiros de guerra, pessoas punidas por rebeli\u00e3o, indiv\u00edduos acusados de adult\u00e9rio com as mulheres dos chefes, escravos nascidos na servid\u00e3o ou ainda pessoas provenientes do tr\u00e1fico<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7861585300074251\" aria-label=\"Jacqueline Ravelomanana, \u00ab Esclavage \u00e0 Madagascar. G\u00e9n\u00e9ralit\u00e9s et particularit\u00e9s \u00bb em Revue historique de l\u2019oc\u00e9an Indien, Esclavage : nouvelles approches-8, p. 432-437.\">&nbsp;<\/span>. Flacourt<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9435867171258644\" aria-label=\"Flacourt, 1661, ibid, p. 7\">&nbsp;<\/span> relata que o termo \u00abondeve\u00bb (<em>andevo<\/em>) significa \u00abhomem perdido\u00bb e menciona que, na regi\u00e3o de Tamatave, os senhores chamavam os seus escravos \u00abfilhos\u00bb, tal como em Imerina, e por vezes davam-lhes as suas filhas em casamento quando estes se mostravam dignos. D. Rasamuel<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.28130390543058736\" aria-label=\"D. Rasamuel, \u00abD\u00e9port\u00e9s en Imerina au XIXe si\u00e8cle\u00bb em Omaly sy Anio N\u00b015, Departamento de Hist\u00f3ria, Universidade de Antananarivo.\">&nbsp;<\/span> prop\u00f5e conservar a denomina\u00e7\u00e3o \u00abdeportados\u00bb, em refer\u00eancia ao termo <em>gadralava<\/em> (\u00abcondenados a longas correntes\u00bb). Os termos <em>gadralava <\/em>e <em>andevo <\/em>designam, de facto, indiv\u00edduos transferidos \u00e0 for\u00e7a paralonge da sua regi\u00e3o de origem, muito antes dos decretos de 1865 que proibiam o tr\u00e1fico, da aboli\u00e7\u00e3o da pena de escravatura em 1868 e das medidas que proibiam a venda de escravos nas prov\u00edncias ou fora de Imerina. Jean Fran\u00e7ois Cany<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9913715213988318\" aria-label=\"Jean Fran\u00e7ois Cany, \u00ab Religions et servitudes : Theoria, \u00e9thique, salut : origines et structure dialectique des id\u00e9ologies de la servitude autour d\u2019une \u00eele de l\u2019oc\u00e9an Indien \u00bb, 2020, Universidade da Reuni\u00e3o, p. 97-110.\">&nbsp;<\/span> analisou bem as origens, as categorias e os estatutos dos <em>andevo <\/em>em Madag\u00e1scar, especialmente em Imerina. O autor precisou que origens end\u00f3genas e ex\u00f3genas contribuem para uma condi\u00e7\u00e3o servil: a guerra a partir do s\u00e9culo XVI proporciona uma reserva consider\u00e1vel de escravos para o grupo vencedor; depois v\u00eam os escravos de nascimento: a crian\u00e7a da m\u00e3e herda o estatuto de escravo, o que faz da escravatura uma condi\u00e7\u00e3o transmitida apenas pela linhagem materna. Mesmo as zazahova, crian\u00e7as nascidas da rela\u00e7\u00e3o entre uma mulher escrava e o seu senhor, permaneciam escravas. Por exemplo, se uma mulher escrava agradava ao seu senhor podia ser chamada para acompanh\u00e1-lo nas suas viagens \u00e0 prov\u00edncia, servindo-lhe de companheira sexual: \u00abDe facto, quando a esposa oficial \u00abrecusava\u00bb acompanhar o seu marido nas suas viagens pela prov\u00edncia, ela oferecia-lhe por vezes uma escrava, por receio de que o marido se apegasse a raparigas locais desconhecidas\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.609887711740901\" aria-label=\"C. Rafidinarivo Rakotolahy, \u00ab Le r\u00e9f\u00e9rent de l\u2019esclavage dans les repr\u00e9sentations transactionnelles marchandes \u00e0 Madagascar \u00bb in Journal des Africanistes 70, Num1 (2000), 123-144.\">&nbsp;<\/span>. Por fim, a lei tamb\u00e9m podia dar azo \u00e0 escravid\u00e3o, como os C\u00f3digos dos 101 e 305 artigos, que contemplavam, por exemplo, a rebeli\u00e3o contra a autoridade real em que toda a fam\u00edlia do condenado, mulher e filhos, era reduzida \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0dee75&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"719\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R3659.54.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15579\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R3659.54.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R3659.54-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R3659.54-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R3659.54-768x431.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Interior de uma cabana malgaxe. Escravo a moer arroz, enquanto outro acende uma fogueira sob a panela de barro. Canedi Barberis, gravador. 1884. Gravura. Em <em>Histoire de Madagascar, ses habitants et ses missionnaires<\/em>, por P. de La Vaissi\u00e8re\u2026, Paris, Victor Lecoffre, 1884, t. 2, p. 54.<br>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca Departamental da ilha da Reuni\u00e3o, inv. R3659.54<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Foram identificadas diferentes categorias de escravos em Imerina. Os escravos dom\u00e9sticos, integrados no quotidiano da casa e designados pelo termo ankizy (crian\u00e7as), beneficiavam geralmente de um tratamento relativamente brando e eram respons\u00e1veis por tarefas essenciais, como o transporte de \u00e1gua e lenha ou ainda a moagem do arroz. As mulheres escravas podiam servir de amas de leite, uma pr\u00e1tica que visava, nomeadamente, preservar a morfologia da senhora da casa, dispensando-a da amamenta\u00e7\u00e3o. Sendo amamentados em conjunto, os filhos dos escravos e os dos senhores eram ent\u00e3o considerados \u00abirm\u00e3os\u00bb ou \u00abirm\u00e3s\u00bb de leite, instituindo assim um la\u00e7o de parentesco simb\u00f3lico entre eles. De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o oral de Antsahadinta, Rabodo, considerada pela mem\u00f3ria coletiva como a esposa mais jovem e mais bela de Andrianampoinimerina no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, mandava as escravas dom\u00e9sticas amamentar os seus filhos. Quanto aos escravos reais, ou tandapa, ocupavam uma posi\u00e7\u00e3o especial: pr\u00f3ximos do soberano, desempenhavam um papel direto na prote\u00e7\u00e3o da realeza, por vezes arriscando a pr\u00f3pria vida, ao servir de \u00abescudos humanos\u00bb. Os <em>tandapa <\/em>eram escolhidos entre os <em>Tsimandoa<\/em>, os <em>Manisotra<\/em>, os <em>Manendy <\/em>ou os <em>mainty enin-dreny<\/em>, mas n\u00e3o constituem o objeto principal desta an\u00e1lise, pois, embora garantissem a prote\u00e7\u00e3o do poder, tinham o estatuto de s\u00fabditos livres e viviam pr\u00f3ximo das fam\u00edlias reais. As mulheres da corte, chamadas de <em>madio tanana<\/em> (m\u00e3os limpas), cuidavam da prepara\u00e7\u00e3o das refei\u00e7\u00f5es reais a fim de evitar qualquer risco de envenenamento, de acordo com o ditado: \u00ab<em>Mpanjaka mahihitra, maty alohan\u2019ny andevony<\/em>\u00bb (Um rei avarento morrer\u00e1 antes do seu escravo). Algumas delas tamb\u00e9m podiam ser solicitadas como <em>tsindrife <\/em>(concubinas), quando as esposas reais n\u00e3o estavam dispon\u00edveis ou quando a sua presen\u00e7a agradava ao rei ou aos pr\u00edncipes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2948907196705006\" aria-label=\"Jacqueline Ravelomanana, 2016, op. cit.\">&nbsp;<\/span>. Esta breve panor\u00e2mica permite afirmar que a escravatura em Imerina era mais branda. Por outro lado, os vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos confirmam a dureza dos servi\u00e7os atribu\u00eddos aos escravos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os fossos (<em>hadivory<\/em>): testemunhos materiais da escravatura em Imerina<\/h3>\n\n\n\n<p>As muralhas reais (<em>rova<\/em>) est\u00e3o situadas em altitudes elevadas, simbolizando a autoridade pol\u00edtica. S\u00e3o delimitadas por fossos defensivos (<em>hadivory<\/em>), cujo aparecimento entre o s\u00e9culo XVI e o final do s\u00e9culo XVIII est\u00e1 na linha desta humilde contribui\u00e7\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.07078552197473187\" aria-label=\"O fosso-limite ou fosso simples j\u00e1 existia muito antes do s\u00e9culo XVI, na \u00e9poca dos Vazimba, mas n\u00e3o se destinava \u00e0 defesa da cidade, apenas \u00e0 delimita\u00e7\u00e3o da aldeia.\">&nbsp;<\/span>. Segundo A. Mille<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8690902159950706\" aria-label=\"A. Mille, \u00ab Contribution \u00e0 l\u2019\u00e9tude des villages fortifi\u00e9s de l\u2019Imerina ancien \u00bb, Antananarivo UM_MAA, Trabalhos e documentos, 1970, 266 p.\">&nbsp;<\/span>, distinguem-se duas grandes categorias de fossos: os fossos simples, de forma circular, oval ou quadrada, situados nas encostas, e os fossos poligonais, associados a grandes muralhas que necessitam de prote\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada. Os escravos participavam diretamente na escava\u00e7\u00e3o desses fossos, uma vez que representavam simultaneamente um meio de produ\u00e7\u00e3o e uma for\u00e7a de trabalho<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.06159233932023078\" aria-label=\"Bakoly Domenichini Ramiaramanana e Jean Pierre Domenichini, 1982, opcit. \">&nbsp;<\/span>. Embora pertencessem aos seus senhores, o soberano tinha um direito eminente sobre todas as pessoas do reino. Neste contexto, Andrianampoinimerina estabeleceu que o andevo, tal como qualquer habitante do seu reino, era um <em>olona <\/em>(ser humano)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5280801181963403\" aria-label=\"Bakoly Domenichini Ramiaramanana e Jean Pierre Domenichini, 1982, opcit.\">&nbsp;<\/span>. No entanto, a sua impureza ritual exclu\u00eda-os dos per\u00edmetros sagrados e da constru\u00e7\u00e3o das resid\u00eancias reais, incluindo os fossos. Assim, a escava\u00e7\u00e3o dos fossos, alguns dos quais atingiam at\u00e9 sete metros de profundidade, exigia uma for\u00e7a f\u00edsica consider\u00e1vel e era uma tarefa imposta aos s\u00fabditos livres ou \u00abhomens puros\u00bb. Por\u00e9m, pouco habituados a tais trabalhos, os s\u00fabditos livres ami\u00fade delegavam a execu\u00e7\u00e3o dessa pesada tarefa aos seus escravos, mas nenhuma informa\u00e7\u00e3o foi divulgada sobre a purifica\u00e7\u00e3o dos escravos antes de substitu\u00edrem os amos nos servi\u00e7os que deviam prestar aos pr\u00edncipes. Seria necess\u00e1rio purificar os escravos antes de se dirigirem a um per\u00edmetro sagrado ou, haveria uma lei autorizando qualquer categoria de escravos a entrar no dom\u00ednio real ou principesco? O que \u00e9 certo, \u00e9 que os escravos participavam de forma determinante nos dispositivos de defesa dos dom\u00ednios reais, embora a sua contribui\u00e7\u00e3o fosse sempre realizada em nome dos seus senhores.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0dfbf9&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"828\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_5FI8.143.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15702\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_5FI8.143.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_5FI8.143-300x194.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_5FI8.143-1024x662.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_5FI8.143-768x497.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">62. &#8211; MADAG\u00c1SCAR &#8211; ANTANANARIVO &#8211; Vista do Rova e do Pal\u00e1cio da ex-Rainha Ranavalo. <br>Fotografia Couadou. 1900-1950. Impress\u00e3o fotomec\u00e2nica (cart\u00e3o postal).<br>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da ilha da Reuni\u00e3o, inv. 5FI8.143<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Ademais, ainda \u00e9 imposs\u00edvel quantificar com exatid\u00e3o os esfor\u00e7os realizados pelos andevo, uma vez que eles eram considerados menores (ankizy) e agiam sob a responsabilidade jur\u00eddica e social dos seus propriet\u00e1rios. O invent\u00e1rio elaborado por A. Mille<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.20167820957987592\" aria-label=\"A.Mille, 1970, opcit.\">&nbsp;<\/span>, que cataloga mais de 16&nbsp;400 locais com fossos em altitude a partir de fotografias a\u00e9reas, atesta a consider\u00e1vel amplitude dos trabalhos realizados, sem ter em conta os fossos n\u00e3o detetados pelas fotografias. A escava\u00e7\u00e3o era feita com enxadas de madeira, embora as ferramentas met\u00e1licas j\u00e1 existissem muito antes de Andriamanelo, no s\u00e9culo XVII, contudo eram utilizadas exclusivamente para fins b\u00e9licos. A escava\u00e7\u00e3o dos fossos era feita preferencialmente durante a esta\u00e7\u00e3o das chuvas, a fim de facilitar a extra\u00e7\u00e3o e a remo\u00e7\u00e3o dos detritos. A implanta\u00e7\u00e3o dos fossos seguia geralmente as curvas de n\u00edvel, e a sua densidade atesta o valor estrat\u00e9gico, pol\u00edtico e econ\u00f3mico dos locais em quest\u00e3o. Mille<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7180763550724178\" aria-label=\"A. Mille, idem.\">&nbsp;<\/span> salienta que os fossos simples e duplos s\u00e3o relativamente raros, enquanto os fossos poligonais s\u00e3o amplamente maiorit\u00e1rios. Os fossos duplos atendem a uma preocupa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e surgem a partir do s\u00e9culo XVI, quando as guerras entre r\u00e9gulos come\u00e7am a agravar-se devido ao roubo de escravos e de zebus e, sobretudo, \u00e0 expans\u00e3o do reino. Os fossos poligonais est\u00e3o frequentemente associados a dispositivos de drenagem destinados ao desenvolvimento de culturas em socalcos nas encostas. Todas estas infraestruturas contribuem para o refor\u00e7o do poder real, na medida em que a melhoria da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e a seguran\u00e7a alimentar permitem limitar os riscos de revolu\u00e7\u00e3o por parte da popula\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, estas infraestruturas n\u00e3o s\u00f3 asseguravam a evacua\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, como tamb\u00e9m ofereciam, em certos casos, um acesso dissimulado \u00e0s fontes situadas mais abaixo, o qual se podia recorrer em per\u00edodos de inseguran\u00e7a. Esta tipologia de fossos descrita por A. Mille atesta bem a natureza pesada da carga de trabalho dos escravos, que substitu\u00edam os seus senhores nas tarefas \u00e1rduas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os <em>andevo <\/em>n\u00e3o podiam habitar o interior do fosso, que era considerado per\u00edmetro sagrado, mas se os escravos reais com o t\u00edtulo de \u00abs\u00fabdito livre\u00bb, podiam viver dentro do Rova (muralhas reais) com a condi\u00e7\u00e3o de que a sua habita\u00e7\u00e3o se encontrasse a sul do recinto, sendo o sul um setor de submiss\u00e3o e obedi\u00eancia na cultura malgaxe<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.005038349986149604\" aria-label=\"J. C. Hebert, \u00ab La cosmographie malgache suivie de l\u2019\u00e9num\u00e9ration des points cardinaux et l\u2019importance du Nord-Est \u00bb in Taloha N\u00b01, Revue historique de l\u2019Institut de Civilisations, Universidade de Antananarivo, 1965. \">&nbsp;<\/span>. Atualmente, essa situa\u00e7\u00e3o mudou, uma vez que os supostos descendentes de escravos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.01352079417722607\" aria-label=\"De acordo com as informa\u00e7\u00f5es obtidas no local durante a nossa recolha de informa\u00e7\u00f5es nos arredores de Antananarivo em 2019.\">&nbsp;<\/span> habitam os fossos. Estes espa\u00e7os s\u00e3o designados pelo nome de <em>Ankadivory <\/em>(\u00abnos fossos\u00bb) devido ao facto de os seus ocupantes serem privados de <em>tanindrazana<\/em>, ou seja, de terra ancestral. Eles residem em habita\u00e7\u00f5es consideradas ilegais, constru\u00eddas em terrenos que permaneceram livres e dispon\u00edveis, embora muitas vezes expostos a riscos de eros\u00e3o ou desabamento, em especial durante a esta\u00e7\u00e3o das chuvas. As investiga\u00e7\u00f5es realizadas por Bienaim\u00e9 Randrianasolo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.30073555485561787\" aria-label=\"A data das investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 mencionada no relat\u00f3rio do seu trabalho sob a coordena\u00e7\u00e3o de J. Pierre Domenichini.\">&nbsp;<\/span> na aldeia de Ambohijanahary Antehiroka indicam que: \u00ab&nbsp;<em>Andevo no nonina tao Ankadivory fahiny ary tan\u00e0na kely no nonenan-dry zareo tao. Na izany aza anefa dia nodidininy hadivory ihany io tan\u00e0na io satria natahorany hanihan\u2019ny sasany izy. Io no nahatonga ny hoe Ankadivory<\/em> \u00bb (Antigamente, havia escravos que viviam em Ankadivory, numa pequena aldeia. Temendo repres\u00e1lias, eles cercavam as suas casas com pequenos fossos. Foi assim que se atribuiu o nome Ankadivory). Verifica-se assim que os andevo habitavam h\u00e1 muito tempo nos fossos e ainda delimitavam as suas casas com pequenas valas chamadas <em>hadifetsy <\/em>com o intuito de se protegerem contra saques e roubos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, os fossos m\u00faltiplos, denominados <em>hadivory fito sosona<\/em> (\u00absete fossos sucessivos\u00bb), constituem um sistema defensivo destinado a impedir qualquer ataque surpresa. O n\u00famero sete, dotado de um valor simb\u00f3lico de sacralidade e plenitude, marca a import\u00e2ncia da capital assim protegida. Essas obras eram realizadas por escravos sob a autoridade de seus senhores, que evitavam realizar eles pr\u00f3prios esse trabalho particularmente penoso, de acordo com o ditado malgaxe <em>mitady tany malemy hanorenam-pangady <\/em>(\u00abprocurar uma terra f\u00e1cil de trabalhar\u00bb). Os senhores obtinham assim o seu prest\u00edgio do trabalho realizado pelos seus dependentes, que realizavam a maior parte destas obras defensivas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os muros de terra vermelha (<em>tamboho<\/em>): testemunhos materiais da escravatura em Imerina<\/h3>\n\n\n\n<p>Embora a constru\u00e7\u00e3o dos fossos constitu\u00edsse antigamente um trabalho coletivo da aldeia e da comunidade, a participa\u00e7\u00e3o direta dos propriet\u00e1rios de escravos foi progressivamente substitu\u00edda pela dos seus <em>andevo<\/em>. Ao contr\u00e1rio desses fossos comunit\u00e1rios, os <em>tamboho<\/em>, muros de veda\u00e7\u00e3o em terra vermelha caracter\u00edsticos de Imerina, s\u00e3o marcadores expl\u00edcitos de riqueza individual, sendo a sua constru\u00e7\u00e3o assegurada pelos escravos de fam\u00edlia do propriet\u00e1rio. Estes <em>tamboho <\/em>delimitavam propriedades privadas. Se fossem de forma retangular, circundavam geralmente uma grande habita\u00e7\u00e3o em terra ou tijolo vermelho, bem como as suas depend\u00eancias. J\u00e1 a forma circular correspondia a um recinto destinado aos zebus (<em>valan&#8217;omby<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Os <em>tamboho <\/em>surgem como um dos testemunhos materiais do per\u00edodo de transforma\u00e7\u00e3o do sistema esclavagista, marcado pela ascens\u00e3o do grupo burgu\u00eas ou Hova, considerado como \u00abcriador e destruidor de reis\u00bb. Segunda categoria social depois dos pr\u00edncipes (<em>Andriana<\/em>), os Hova modificaram progressivamente o panorama socioecon\u00f3mico de Imerina. Recorde-se que, desde o s\u00e9culo XVI, os fossos defendiam a autoridade pol\u00edtica de um rei ou pr\u00edncipe, enquanto os <em>tamboho <\/em>do final do s\u00e9culo XVIII protegiam sobretudo as propriedades das elites econ\u00f3micas, n\u00e3o s\u00f3 as da fam\u00edlia real, mas tamb\u00e9m as dos Hova que haviam enriquecido. Esta estratifica\u00e7\u00e3o social \u00e9 observ\u00e1vel no ordenamento do territ\u00f3rio: os Hova, s\u00fabditos livres, ocupam principalmente as encostas das colinas ou as zonas interm\u00e9dias (cidade m\u00e9dia), enquanto a cidade alta permanece reservada \u00e0s linhagens principescas. O seu papel pol\u00edtico \u00e9 ilustrado pelo exemplo dos Hova Tsimahafotsy de Ambohimanga, que favoreceram a ascens\u00e3o de Andrianampoinimerina ao poder em detrimento do seu tio Andrianjafy. Em retribui\u00e7\u00e3o, Andrianampoinimerina ofereceu-lhes terras, arrozais, bem como t\u00edtulos de oficiais superiores na corte real. Os Hova tamb\u00e9m detinham um poder econ\u00f3mico consider\u00e1vel, controlando nomeadamente o com\u00e9rcio de escravos para as periferias do reino, como Moramanga<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.42291864707584037\" aria-label=\"O lugar onde os escravos eram baratos.\">&nbsp;<\/span>, Ambatomanga ou Andevoranto<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.015524572090653277\" aria-label=\"O lugar onde se capturavam os escravos. Outra vers\u00e3o salienta que se trata de um local dotado de nascentes de \u00e1gua.\">&nbsp;<\/span>. Neste contexto, o estatuto de escravo adquire uma dimens\u00e3o essencialmente econ\u00f3mica, distinta das antigas conce\u00e7\u00f5es baseadas na origem ancestral. Um Hova economicamente vulner\u00e1vel podia perder o seu estatuto de s\u00fabdito livre e ser vendido, tornando-se <em>andevo<\/em>, por exemplo, em Ampamoizankova<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7528440822925377\" aria-label=\"L\u00e0 o\u00f9 on oublie les Hova\">&nbsp;<\/span>, em que essa perda de estatuto \u00e9 oficializada. Por outro lado, um escravo podia enriquecer e, em certos casos, adotar os filhos do seu antigo senhor a fim de lhes transmitir os seus bens, demonstrando a relativa fluidez de certas situa\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0e1858&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"1115\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_325.3-REC_389.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15698\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_325.3-REC_389.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_325.3-REC_389-300x261.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_325.3-REC_389-1024x892.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_325.3-REC_389-768x669.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ambohimanga, cidade sagrada dos hovas. Baseado numa fotografia fornecida pela Sociedade Geogr\u00e1fica.<br>Gravura. Em <em>La France et ses colonies. Tome second : nos colonies<\/em>\u2026,<br>por On\u00e9sime Reclus, Paris, Livraria Hachette et Cie, 1889, p. 389.<br>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca Departamental da Reuni\u00e3o, inv. 325.3 REC_389<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a maioria dos <em>tamboho <\/em>pertencia a hovas abastados, propriet\u00e1rios de escravos familiares. Estes \u00faltimos eram obrigados a construir muros de terra, sempre em n\u00famero \u00edmpar de camadas, refletindo a riqueza do propriet\u00e1rio, facto simbolicamente oposto ao dos pr\u00edncipes, que privilegiavam os n\u00fameros pares considerados sagrados, uma distin\u00e7\u00e3o interpretada por Marc Chemillier<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.41156161726689466\" aria-label=\"M. Chemillier, D.Jacquet, V.Randrianary et M. Zabalia : Aspects math\u00e9matiques et cognitifs de la divination du sikidy \u00e0 Madagascar, 2007.\">&nbsp;<\/span> como um marcador de \u00abimparidade principesca\u00bb. Este uso do n\u00famero \u00edmpar tamb\u00e9m se encontra nos colares protetores: um indiv\u00edduo que usava sementes em n\u00famero \u00edmpar era identificado como escravo, enquanto o uso de um n\u00famero par remetia para uma origem principesca<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5755964125349374\" aria-label=\"M.Chemillier dir, idem\">&nbsp;<\/span>. No entanto, na representa\u00e7\u00e3o malgaxe, a imparidade estava associada com a ideia de \u00abreserva\u00bb (<em>manana ny ambiny<\/em>), pensada como prote\u00e7\u00e3o contra a pobreza, para que a prosperidade continuasse sempre. O manuscrito do <em>Ombiasy<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6048225669999959\" aria-label=\"J. Valette, \u00ab Manuscrit de l\u2019Ombiasy \u00bb, Antananarivo, 1965, 284 p.\">&nbsp;<\/span>, citado por A. Mille<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9870385594400789\" aria-label=\"A. Mille, opcit\">&nbsp;<\/span>, constitui uma fonte escrita que atesta que: \u00abUm dia, Andrianampoinimerina mandou construir <em>tamboho <\/em>em Mananiera, Soavimasoandro e Ambohipo. Estas paredes serviam para cercar um local reservado a passeios ou destinado a servir de arsenal\u2026 Radama mandou construir <em>tamboho <\/em>em Mahazoarivo\u00bb. Estas indica\u00e7\u00f5es sugerem que o aparecimento do <em>tamboho <\/em>corresponde a uma fase terminal na evolu\u00e7\u00e3o dos dispositivos de defesa, substituindo os fossos no final do s\u00e9culo XVIII. A sua constru\u00e7\u00e3o diminuiu progressivamente e cessou efetivamente ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1897, no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o francesa. Durante esse per\u00edodo, as popula\u00e7\u00f5es malgaxes sem acesso \u00e0 cidadania francesa foram cingidas ao estatuto de \u00abs\u00fabditos ind\u00edgenas\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a constru\u00e7\u00e3o dos <em>tamboho <\/em>envolvia uma t\u00e9cnica complexa baseada em trabalho intenso, historicamente realizado por escravos dom\u00e9sticos. O material b\u00e1sico \u00e9 uma argila vermelha later\u00edtica caracter\u00edstica da regi\u00e3o merina, cuja extra\u00e7\u00e3o nos terrenos mais baixos e transporte para as encostas das colinas eram realizados pelos escravos. Esta terra era ent\u00e3o misturada com \u00e1gua, estrume de vaca e v\u00e1rios detritos vegetais, e depois pisada longamente pelos escravos durante um per\u00edodo de cerca de tr\u00eas dias; na aus\u00eancia de m\u00e3o de obra servil, as fam\u00edlias abastadas podiam recorrer ao pisoteio por zebus. No caso das constru\u00e7\u00f5es reais, essa mistura era enriquecida com claras de ovo para refor\u00e7ar a coes\u00e3o do material. Ap\u00f3s essa primeira fase, os escravos amassavam novamente a prepara\u00e7\u00e3o at\u00e9 obter uma pasta homog\u00e9nea, que era deixada em pilhas durante pelo menos dois dias para permitir uma desumidifica\u00e7\u00e3o parcial. A pasta assim preparada estava ent\u00e3o pronta para uso. A constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ava com a coloca\u00e7\u00e3o da primeira camada diretamente no solo. Ap\u00f3s uma secagem ao sol de cinco a dez dias, uma nova camada era adicionada, e assim por diante. Uma vez o muro conclu\u00eddo e perfeitamente seco, os escravos procediam \u00e0 abertura de uma passagem, recortando um \u00abnegativo\u00bb na parede para permitir a entrada e sa\u00edda dos zebus. Um caso particular foi observado em Ambatolampy-Antehiroka<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9969418240126954\" aria-label=\"M. R. Rajoelinoro, \u00ab Sur les traces des migrations vazimba d\u2019Analamanga aux Antehiroka d\u2019Ambohitriniarivo \u00bb, Tese de Doutoramento, Departamento de Hist\u00f3ria, Universidade de Antananarivo, julho de 2019, 431 p.\">&nbsp;<\/span>, onde se nota a predomin\u00e2ncia de <em>tamboho <\/em>com cinco a sete camadas e, facto not\u00e1vel, muros duplos paralelos cont\u00edguos que delimitam um acesso estreito em forma de chicana, constituindo um verdadeiro corredor. Para refor\u00e7ar ainda mais a fun\u00e7\u00e3o defensiva, a dupla veda\u00e7\u00e3o forma um \u00e2ngulo obl\u00edquo ao n\u00edvel da entrada, criando assim uma zona prop\u00edcia para encurralar eventuais agressores.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0e292a&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1252\" height=\"764\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Figure-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15835\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Figure-2-1.jpg 1252w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Figure-2-1-300x183.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Figure-2-1-1024x625.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Figure-2-1-768x469.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tamboho em Ambatolampy Antehiroka (Imerina), fotografia da autora, 2019<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A transforma\u00e7\u00e3o dos p\u00e2ntanos em arrozais irrigados e as formas de enterrar os escravos<\/h3>\n\n\n\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o das zonas pantanosas atrav\u00e9s da sua convers\u00e3o em arrozais remonta ao per\u00edodo mon\u00e1rquico, quando a disponibilidade de m\u00e3o de obra servil, essencialmente constitu\u00edda por escravos, tornava poss\u00edvel este tipo de ordenamento. Os escravos eram instalados nas imedia\u00e7\u00f5es das parcelas de arroz pertencentes aos seus senhores, a fim de assegurar a continuidade das atividades agr\u00edcolas. A sua instala\u00e7\u00e3o nas terras baixas de cultivo de arroz refletia tanto a sua posi\u00e7\u00e3o social subordinada como a necessidade, para os senhores propriet\u00e1rios, de exercer um controlo direto sobre a produ\u00e7\u00e3o. De acordo com a vers\u00e3o de R.P. Callet<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5820788575100022\" aria-label=\"Callet, 1981, p. 276 \">&nbsp;<\/span> : \u00ab <em>Raha nonina taty Antananarivo Andriantsitakatrandriana dia hoy izy: Monina anosindrano isika : ataovy izay hahavary ity Betsimitatatra ity. Dia nijinj\u00e0na ny kirihitrala sy ny zozoro sy ny herana, ary dia nanao fefiloha \u2026Ary dia natao ny tanimbary i Betsimitatatra andrefan\u2019Antananarivo<\/em> \u00bb (Quando Andriantsitakatrandriana vivia em Antananarivo, dizia: Vivemos nas margens do rio; certifiquem-se de que Betsimitatatra seja cultivada. Ent\u00e3o, cortaram-se os arbustos, os juncos e os cani\u00e7os, e construiu-se um dique\u2026 E Betsimitatatra tornou-se um arrozal a oeste de Antananarivo). Andriantsitakatrandriana mandou construir os primeiros arrozais de Betsimitatatra ou da plan\u00edcie de Antananarivo durante o seu reinado de 1630-1650<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9495344766134423\" aria-label=\"Callet, ibid\">&nbsp;<\/span> gra\u00e7as ao trabalho \u00e1rduo, para o qual os senhores eram sempre substitu\u00eddos pelos seus escravos. As zonas pantanosas nos arredores de Antananarivo eram outrora densamente povoadas por crocodilos, o que explica a origem topon\u00edmica de v\u00e1rias localidades: assim, Andavamamba, literalmente \u00abno buraco dos crocodilos\u00bb, designa uma zona situada nas cercanias dos antigos arrozais da capital, enquanto um dos principais afluentes do Ikopa tem o nome de Imamba, \u00abrio dos crocodilos\u00bb. Neste ambiente dif\u00edcil, as tarefas atribu\u00eddas aos escravos eram particularmente \u00e1rduas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0e3663&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"887\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_120FI2.30.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15686\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_120FI2.30.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_120FI2.30-300x208.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_120FI2.30-1024x710.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_120FI2.30-768x532.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Casas ind\u00edgenas no meio dos arrozais. [N\u00e3o identificado]. [1903]. Fotografia positiva.<br>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o, inv. 120FI2.30<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Privados de <em>tanindrazana<\/em>, ou seja, de terras e t\u00famulos ancestrais, os escravos aceitavam essas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e habita\u00e7\u00e3o. Eram instalados em terrenos dispon\u00edveis, como valas, margens de arrozais ou mesmo terras ancestrais dos seus senhores, geralmente na parte sul da propriedade, a fim de garantir a vigil\u00e2ncia permanente das propriedades. N\u00e3o tendo t\u00famulos familiares, eram enterrados em sepulturas constru\u00eddas na periferia das dos seus senhores, chamadas <em>fasana an&#8217;iritra<\/em>, destinadas aos falecidos que, por v\u00e1rias raz\u00f5es, n\u00e3o podiam ser enterrados nos t\u00famulos familiares (crian\u00e7as n\u00e3o circuncidadas, crian\u00e7as natimortas ou <em>zazarano<\/em>, indiv\u00edduos falecidos de doen\u00e7as estigmatizadas como a lepra e, sobretudo, escravos). Os descendentes dos escravos chamados <em>andevon-drazana<\/em>, literalmente \u00abescravos dos antepassados\u00bb, continuavam a assegurar a vigil\u00e2ncia das propriedades rodeadas por <em>tamboho <\/em>(muros de recinto) pertencentes \u00e0s linhagens nobres. Eram assim designados pelo nome de <em>valala fiandry fasana<\/em>, \u00abos gafanhotos que guardam o t\u00famulo\u00bb, em refer\u00eancia \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o de guardi\u00f5es funer\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Andrianampoinimerina procedeu a uma redistribui\u00e7\u00e3o dos arrozais aos seus s\u00fabditos, a fim de atenuar os efeitos da escassez alimentar. Esta pol\u00edtica permitiu simultaneamente realizar um recenseamento da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da cobran\u00e7a do <em>hetra<\/em>, um tributo devido ao soberano, proporcional \u00e0 superf\u00edcie das terras oriz\u00edcolas, de acordo com o princ\u00edpio de que todo o territ\u00f3rio era propriedade real. Nesse contexto, a escravatura era essencialmente uma quest\u00e3o dom\u00e9stica. Quando o soberano proclamou que os escravos eram seres humanos de pleno direito, afirmou igualmente que a autoridade suprema sobre todas as pessoas, livres ou n\u00e3o, passava a pertencer ao rei: este, e n\u00e3o mais o senhor, detinha o poder de vida e morte sobre os escravos. A mem\u00f3ria coletiva evoca, al\u00e9m disso, a pr\u00e1tica do <em>lafika<\/em>, segundo a qual os escravos eram enterrados vivos para constituir um \u00abcolch\u00e3o\u00bb funer\u00e1rio destinado a sustentar o corpo do respetivo senhor falecido. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 provas materiais que corroborem esta tradi\u00e7\u00e3o, uma vez que as escava\u00e7\u00f5es funer\u00e1rias s\u00e3o proibidas em Madag\u00e1scar, a fim de preservar o car\u00e1ter sagrado das sepulturas ancestrais. Todavia, foi feita uma exce\u00e7\u00e3o no in\u00edcio dos anos 2000, aquando da transfer\u00eancia das rel\u00edquias reais de Antananarivo para Ambohimanga, capital religiosa do reino. Questionada sobre os resultados dessa opera\u00e7\u00e3o, uma colega que participou nas escava\u00e7\u00f5es indicou que n\u00e3o foram observados vest\u00edgios de <em>lafika<\/em>, nem de escravos enterrados vivos sob os restos mortais reais. O corpo real foi depositado diretamente no solo vermelho, sem leito mortu\u00e1rio de granito nem organiza\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O mercado de escravos<\/h3>\n\n\n\n<p>Em Imerina, os escravos eram bens comercializ\u00e1veis nos mercados semanais. Esses mercados, designados pelo termo <em>Fihaonana<\/em>, literalmente \u00ablocal de encontro\u00bb, eram realizados na <em>kianja<\/em>, a pra\u00e7a p\u00fablica. A exist\u00eancia de um bairro chamado <em>Fihaonana <\/em>a oeste de Antananarivo ilustra esta pr\u00e1tica antiga: situado no limite ocidental de Imerina, correspondia a um espa\u00e7o de transa\u00e7\u00e3o frequentado principalmente por comerciantes sakalava em busca de escravos. Por outro lado, os escravos pertencentes \u00e0 casa constitu\u00edam um patrim\u00f3nio familiar transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. A sua venda era proibida, como sublinha o princ\u00edpio <em>andevon-drazana tsy azo amidy<\/em> (\u00abos escravos ancestrais n\u00e3o podem ser vendidos\u00bb). At\u00e9 os escravos reais ou <em>tandapa<\/em> participavam como grandes atores do tr\u00e1fico, embora continuassem a ser inalien\u00e1veis<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8812037185661287\" aria-label=\"Jean Fran\u00e7ois Cany, 2020, opcit.\">&nbsp;<\/span>. A legisla\u00e7\u00e3o proibia tamb\u00e9m a separa\u00e7\u00e3o das mulheres escravas dos seus filhos pequenos, especialmente quando estes ainda estavam a ser amamentados.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0e5065&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"599\" height=\"1280\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_56Fi151.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15690\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_56Fi151.jpg 599w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_56Fi151-140x300.jpg 140w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRAD974_56Fi151-479x1024.jpg 479w\" sizes=\"auto, (max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Escravos. [N\u00e3o identificado]. [1865-1905]. Fotografia.<br>Em <em>\u00c1lbuns fotogr\u00e1ficos de Madag\u00e1scar.<\/em><br>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da ilha da Reuni\u00e3o, inv. 56FI151<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Para serem colocados no mercado, os escravos deviam ter uma apar\u00eancia considerada satisfat\u00f3ria de modo a atrair compradores. A tradi\u00e7\u00e3o oral situa amplamente em Antaninarenina o antigo mercado de escravos de Antananarivo, correspondente ao \u00abmercado de sexta-feira\u00bb, embora se care\u00e7a de fontes materiais para localizar com precis\u00e3o o <em>kianja <\/em>hoje ocupado pelo jardim p\u00fablico. Mais a leste, at\u00e9 Ambatomanga, tamb\u00e9m existiam mercados semanais especializados na venda de escravos. A negocia\u00e7\u00e3o era feita pelos <em>hova<\/em> promovidos a oficiais do pal\u00e1cio e pelos escravos reais (<em>tandapa<\/em>), especialmente nas transa\u00e7\u00f5es envolvendo comerciantes \u00e1rabes ou sakalava.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma fonte iconogr\u00e1fica sugere que os escravos podiam ser expostos como gado, tal como gatos ou c\u00e3es, mantendo ao mesmo tempo boa apar\u00eancia, nomeadamente para evitar tentativas de fuga. Contudo, a interpreta\u00e7\u00e3o destas imagens requer cautela metodol\u00f3gica, pois refletem uma perspetiva ocidental, provavelmente elaborada para fam\u00edlias abastadas. Neste contexto, a autora teve o cuidado de distinguir a condi\u00e7\u00e3o de \u00abescravo\u00bb da de <em>gadralava<\/em>. Os escravos podiam ser trocados por espingardas, p\u00f3lvora ou v\u00e1rios produtos manufaturados importados da Europa. Podiam tamb\u00e9m ser comprados por malgaxes abastados, ami\u00fade com o objetivo de substitu\u00ed-los nas tarefas penosas obrigat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0e5bad&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"895\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2012-12_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15653\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2012-12_2.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2012-12_2-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2012-12_2-1024x716.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/ME-2012-12_2-768x537.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Caravana de escravos. 1890. Gravura. Em <em>Aventures de six fran\u00e7ais aux colonies<\/em>,<br>Gaston Bonnefont, Garnier fr\u00e8res, 1890. Gravura.<br>Cole\u00e7\u00e3o Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, inv. ME.2012.12<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O romance da escritora Mich\u00e8le Rakotoson<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7064288624089334\" aria-label=\"Mich\u00e8le Rakotoson, \u00ab Ambatomanga : le silence et la douleur \u00bb, Atelier des nomades, 2022, 256p\">&nbsp;<\/span> constitui um testemunho liter\u00e1rio que permite vislumbrar a presen\u00e7a persistente do mercado de escravos em Madag\u00e1scar antes da coloniza\u00e7\u00e3o, no qual a autora retrata a aberra\u00e7\u00e3o da conquista colonial atrav\u00e9s de um dispositivo narrativo baseado no olhar cruzado de um escravo malgaxe, Tavao, e de um oficial franc\u00eas. O motivo do \u00absil\u00eancio\u00bb, recorrente na obra, remete para o sofrimento interiorizado da personagem escravo, contribuindo, simultaneamente, para a mem\u00f3ria de uma hist\u00f3ria familiar que remonta \u00e0s primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Nessa \u00e9poca, embora a escravatura tivesse sido oficialmente abolida, os <em>andevon-drazana<\/em>, escravos ancestrais, continuavam ligados \u00e0s fam\u00edlias dos amos, adotando agora a denomina\u00e7\u00e3o de \u00abdependentes\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 1894, marcado pela amea\u00e7a da invas\u00e3o francesa, constitui um momento de ang\u00fastia geral para a popula\u00e7\u00e3o malgaxe, j\u00e1 confrontada com a superioridade militar e financeira europeia durante as guerras franco-merina de 1885 e 1895. Na aldeia de Ambatomanga, a leste de Antananarivo, a topon\u00edmia conserva a mem\u00f3ria dessa hist\u00f3ria: o local de Ambatonandevo (\u00abrochedo dos escravos\u00bb) designa o lugar onde os <em>Andevo <\/em>eram reunidos antes de serem colocados \u00e0 venda no <em>kianja<\/em>, a pra\u00e7a p\u00fablica. Algumas fam\u00edlias not\u00e1veis mantiveram os seus dependentes dom\u00e9sticos at\u00e9 ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX, como foi o caso da fam\u00edlia de Mich\u00e8le Rakotoson. No romance, o filho mais velho, destinado a uma carreira de m\u00e9dico, \u00e9 mobilizado para participar na guerra contra os franceses. O seu escravo dom\u00e9stico, Tavao, \u00e9 obrigado a acompanh\u00e1-lo, deixando para tr\u00e1s a mulher e os filhos. Ao optar por seguir o filho do seu senhor no intuito de o proteger, Tavao encarna o sofrimento silencioso dos escravos malgaxes, uma lealdade que ultrapassa a l\u00f3gica expressa pelo ditado <em>ny hena no anarahana andriana<\/em> (seguimos o senhor porque partilhamos a sua carne). O apego entre senhores e escravos \u00e9 revelador aqui de uma lealdade obrigat\u00f3ria e interiorizada, e n\u00e3o de um benef\u00edcio material.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69f8c1f0e721b&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"aligncenter size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"865\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R00406.3.113_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15694\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R00406.3.113_1.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R00406.3.113_1-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R00406.3.113_1-1024x692.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/FRB974115201_R00406.3.113_1-768x519.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ambatomanga. [n\u00e3o identificado]. &#8211; Paris: Quantin, [1889?]. Gravura.<br>Em <em>Les colonies fran\u00e7aises. 1, Colonies de l&#8217;Oc\u00e9an Indien<\/em>, [sob a dire\u00e7\u00e3o de Louis Henrique], terceira parte, p. 113.<br>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca Departamental da ilha da Reuni\u00e3o, inv. R00406.3.113_1<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>No final desta an\u00e1lise, verifica-se que os vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos da escravatura em Imerina permanecem limitados, nomeadamente porque os escravos eram integrados na casa como dependentes. A sua proximidade di\u00e1ria com os senhores tamb\u00e9m se expressava atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es quase familiares, refor\u00e7adas por pr\u00e1ticas como a amamenta\u00e7\u00e3o dos filhos dos amos por mulheres escravas ou, em alguns casos, pela exist\u00eancia de cortes\u00e3s escolhidas pelas esposas leg\u00edtimas. Os escravos reais, ou tandapa, desempenhavam tamb\u00e9m um papel essencial no funcionamento da corte, embora fossem considerados s\u00fabditos livres de um ponto de vista jur\u00eddico. Os trabalhos de defesa, escava\u00e7\u00e3o de fossos, constru\u00e7\u00e3o de trincheiras, constru\u00e7\u00e3o de muros de terra vermelha, bem como a manuten\u00e7\u00e3o dos arrozais, pilares da estabilidade pol\u00edtica e do poder econ\u00f3mico da realeza e das fam\u00edlias abastadas, dependiam em grande parte da m\u00e3o de obra servil. Este fator indispens\u00e1vel explica em parte a proibi\u00e7\u00e3o de vender escravos dom\u00e9sticos ou familiares, cuja cess\u00e3o, quando inevit\u00e1vel, constitu\u00eda uma prova\u00e7\u00e3o dolorosa vivida em sil\u00eancio, tanto para o senhor como para o escravo. Quer os escravos fossem cativos de guerra ou tivessem sido reduzidos \u00e0 escravid\u00e3o por d\u00edvidas, rebeli\u00e3o ou nascimento, a venda de escravos em Imerina era assim semelhante \u00e0 perda de um companheiro de vida, marcando profundamente a organiza\u00e7\u00e3o social e as mem\u00f3rias coletivas.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":15685,"parent":15764,"menu_order":20,"template":"","class_list":["post-15806","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/15806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/15764"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15685"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}