{"id":17143,"date":"2026-08-21T11:31:10","date_gmt":"2026-08-21T07:31:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=17143"},"modified":"2026-08-21T11:31:11","modified_gmt":"2026-08-21T07:31:11","slug":"a-luta-contra-o-trafico-de-escravos-travada-pela-marinha-francesa-no-oceano-indico-durante-a-segunda-metade-do-seculo-xix","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/o-trafico-de-escravos\/o-comercio-ilegal\/a-luta-contra-o-trafico-de-escravos-travada-pela-marinha-francesa-no-oceano-indico-durante-a-segunda-metade-do-seculo-xix\/","title":{"rendered":"A luta contra o tr\u00e1fico de escravos travada pela marinha francesa no oceano \u00cdndico durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O caso do <em>Pocha<\/em><\/h3>\n\n\n\n<p>O brigue portugu\u00eas <em>Pocha <\/em>foi capturado a 25 de agosto de 1840, perto de Mayotte, no canal de Mo\u00e7ambique, pelo <em>Pr\u00e9voyante<\/em>, um navio da marinha francesa que operava ao abrigo da lei de 4 de mar\u00e7o de 1831, ou seja, a mais recente lei francesa ent\u00e3o em vigor relativa ao combate ao tr\u00e1fico de seres humanos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4874561268147811\" aria-label=\"Arquivos Nacionais Ultramarinos (ANOM, REU, 103\/736), Aix-en-Provence, Regulariza\u00e7\u00e3o das despesas relativas aos Negros provenientes do navio Pocha (1840\/1861).\">&nbsp;<\/span>. O <em>Pocha <\/em>levava a bordo 220 pessoas escravizadas. A tripula\u00e7\u00e3o do <em>Pr\u00e9voyante <\/em>\u00ablibertou-as\u00bb, recuperou-as e desembarcou-as a 13 de outubro do mesmo ano no porto de Saint-Denis, na Ilha da Reuni\u00e3o, a fim de as entregar \u00e0s autoridades coloniais da ilha. O caso da captura do <em>Pocha<\/em>, bem como o destino das pessoas escravizadas ap\u00f3s a sua \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb, convida-nos a questionar-nos sobre a natureza e os resultados do combate ao tr\u00e1fico de escravos levado a cabo pela marinha francesa no oceano \u00cdndico entre 1840 e 1900.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma liberta\u00e7\u00e3o? Uma nova captura?<\/h3>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, vejamos o resumo dos factos tal como constam dos arquivos. A 25 de agosto de 1840, um navio da marinha francesa capturou no oceano \u00cdndico Ocidental o <em>Pocha<\/em>, um navio portugu\u00eas, proveniente de Havana, envolvido no tr\u00e1fico de escravos. A tripula\u00e7\u00e3o era essencialmente espanhola, por\u00e9m o navio arvorava pavilh\u00e3o portugu\u00eas e encontrava-se munido de \u00abexpedi\u00e7\u00f5es portuguesas\u00bb, ou seja, cartas de tr\u00e1fico de escravos, emitidas fraudulentamente por um c\u00f4nsul portugu\u00eas de Havana que, destitu\u00eddo ap\u00f3s as ter emitido, fugiu para Mo\u00e7ambique. Foi ao chegar a esse mesmo destino que o <em>Pocha <\/em>foi condenado, pelo governador portugu\u00eas daquele territ\u00f3rio, a pagar uma multa e as suas cartas de tr\u00e1fico foram revogadas. De facto, desde 1810, sob press\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha, Portugal comprometera-se a abolir progressivamente o tr\u00e1fico de escravos em todos os seus territ\u00f3rios ultramarinos. Em 1836, promulgara uma lei nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6a88a11f624e4&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"420\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2013-368_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16955\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2013-368_1.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2013-368_1-300x98.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2013-368_1-1024x336.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2013-368_1-768x252.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">The East African slave trade: Mozambique, with the Fort St. Sebastian. An\u00f3nimo. 1873. Gravura.<br>Em <em>The Illustrated London News<\/em>, 19 de julho de 1873. \u201360.<br>Cole\u00e7\u00e3o do Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2013.368<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Contudo, pese embora a sua condena\u00e7\u00e3o, o <em>Pocha <\/em>dedicou-se \u00e0 pirataria e ao tr\u00e1fico de escravos no canal de Mo\u00e7ambique. Primeiramente, apoderou-se de um boutre \u2014 navio com velas triangulares emblem\u00e1tico da navega\u00e7\u00e3o no oceano \u00cdndico \u2014 e escravizou seis homens livres. Posteriormente, apreendeu um segundo boutre envolvido no tr\u00e1fico de escravos, escravizando a tripula\u00e7\u00e3o constitu\u00edda por dezoito homens e subjugando os cento e vinte africanos escravizados que este transportava. Por fim, cometeu outros atos de pirataria e sequestro de pessoas, nomeadamente em Mayotte e em Nossi-B\u00e9 (Madag\u00e1scar). Foi em Nossi-B\u00e9, que estava na posse de Fran\u00e7a desde 1840, que o <em>Pocha <\/em>foi finalmente avistado pela marinha francesa, perseguido e, por fim, abordado nas proximidades de Mayotte. O navio <em>Pr\u00e9voyante <\/em>acolheu ent\u00e3o a bordo os 220 sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6a88a11f630db&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"871\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2017-1-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16959\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2017-1-2.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2017-1-2-300x204.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2017-1-2-1024x697.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2017-1-2-768x523.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Navio negreiro a fugir dos cruzadores e a atirar os seus escravos ao mar. L\u00e9on Morel-Fatio, desenhador; Harrison, gravador. 1844. Gravura. Em <em>Le Magasin pittoresque<\/em>, d\u00e9cimo segundo ano, 1844, p. 52.<br>Cole\u00e7\u00e3o do Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2017.1.2<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A 13 de outubro, ou seja, quase sete semanas ap\u00f3s a captura, o navio chegou ao porto de Saint-Denis, na Ilha da Reuni\u00e3o, e desembarcou somente 190 homens, mulheres e crian\u00e7as, entregando-as \u00e0s autoridades coloniais da ilha. Trinta pessoas tinham morrido entre a captura do <em>Pocha <\/em>e o desembarque na Ilha da Reuni\u00e3o, provando, como se disso houvesse necessidade, que os sobreviventes do tr\u00e1fico se encontravam num estado de sa\u00fade, tanto moral quanto f\u00edsico, catastr\u00f3fico. Posto que o <em>Pr\u00e9voyante <\/em>n\u00e3o era um navio-hospital, a tripula\u00e7\u00e3o n\u00e3o dispunha, portanto, de condi\u00e7\u00f5es para cuidar dos sobreviventes do tr\u00e1fico, como seria desej\u00e1vel. As sete semanas decorridas antes da chegada \u00e0 Reuni\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de interpretar. Os arquivos n\u00e3o s\u00e3o esclarecedores quanto a esta quest\u00e3o, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel que o <em>Pr\u00e9voyante <\/em>tenha permanecido ancorado em Mayotte, em quarentena, antes de regressar ao mar, a fim de monitorizar o estado de sa\u00fade dos sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez na Ilha da Reuni\u00e3o, o <em>Pocha <\/em>e a respetiva tripula\u00e7\u00e3o partiram rumo a Brest para serem julgados pelo tribunal mar\u00edtimo por atos de pirataria e tr\u00e1fico de escravos. O comandante e o seu imediato foram condenados a trabalhos for\u00e7ados perp\u00e9tuos. O navio e a respetiva carga, com um valor estimado em 250 000 francos, foram leiloados. A condena\u00e7\u00e3o foi suficientemente extraordin\u00e1ria para que fosse noticiada em numerosos artigos da imprensa da \u00e9poca, tanto em Fran\u00e7a como na Gr\u00e3-Bretanha, uma prova importante de que as autoridades francesas tencionavam divulgar a sua a\u00e7\u00e3o, bem como a decis\u00e3o judicial<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9894834674720521\" aria-label=\"Le Globe, 21 de julho de 1842, p. 3; Le Droit, 22 de julho de 1842, p. 1-2; Le Commerce, 24 de julho de 1842, p. 3; Ulster Times, 2 de fevereiro de 1841; Sun, 14 de julho de 1842.\">&nbsp;<\/span>. Tal como recordou a comiss\u00e3o encarregada de analisar os processos relativos \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da lei de 4 de mar\u00e7o de 1831, tratava-se de uma apreens\u00e3o, ou seja, uma captura semelhante \u00e0s que os cors\u00e1rios realizavam nas Cara\u00edbas na \u00e9poca da Guerra de Corso (s\u00e9culos XVII-XVIII). Esta captura foi considerada duplamente legal pelo Conselho de Estado e pelo Tribunal Mar\u00edtimo de Brest, uma vez que o estado-maior do <em>Pocha <\/em>se revelara culpado de pirataria e de tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Pr\u00e9voyante <\/em>tinha, por conseguinte, efetuado simultaneamente uma nova captura e uma \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb. Embora, lamentavelmente, os arquivos n\u00e3o contenham testemunhos dos sobreviventes do <em>Pocha<\/em>, pode-se, no entanto, admitir como hip\u00f3tese que n\u00e3o conseguiram imaginar que estavam a ser \u00ablibertados\u00bb. Como poderiam, de facto, deixar de pensar que estavam a ser capturados de novo, uma vez que j\u00e1 haviam sido alvo de captura pelo menos duas vezes? Al\u00e9m disso, na primeira metade do s\u00e9culo XIX, os europeus, com os franceses a encabe\u00e7\u00e1-los, dominavam as rotas mar\u00edtimas do tr\u00e1fico de escravos nesta regi\u00e3o do mundo, antes de serem finalmente suplantados, ap\u00f3s 1848, pelos navios \u00e1rabes de Om\u00e3, do Golfo P\u00e9rsico, da Ar\u00e1bia ou do Mar Vermelho.<\/p>\n\n\n\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6a88a11f63e2e&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"920\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/An-Arab-slave-ship-in-the-Red-sea.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16971\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/An-Arab-slave-ship-in-the-Red-sea.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/An-Arab-slave-ship-in-the-Red-sea-300x216.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/An-Arab-slave-ship-in-the-Red-sea-1024x736.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/An-Arab-slave-ship-in-the-Red-sea-768x552.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">An Arab slave ship in the Red Sea, with British cruiser in sight. Horace Harrell. 1874. Gravura. Em <em>The Graphic<\/em>, 25 de abril de 1874.<br>Cole\u00e7\u00e3o Schomburg Center for Research in Black Culture, Photographs and Prints Division, The New York Public Library, b11486940<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Por fim, \u00e0 chegada a Saint-Denis, os 190 sobreviventes foram entregues ao gabinete dos estaleiros da Ilha da Reuni\u00e3o. Nos termos dos artigos 10.\u00ba e 11.\u00ba da lei de 4 de mar\u00e7o de 1831 sobre a repress\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos, os chamados \u00ablibertados\u00bb deviam, de facto, ser contratados como trabalhadores e colocados sob a autoridade do diretor das oficinas coloniais. Tratava-se, assim, tanto de uma \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb como de uma \u00abcaptura\u00bb reiterada que conduzia a novas formas de servid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma importante quest\u00e3o de direito p\u00fablico internacional e de rivalidade colonial<\/h3>\n\n\n\n<p>Para a marinha francesa ou para as autoridades coloniais, a quest\u00e3o do destino \u00abdos cativos libertados\u00bb quase n\u00e3o se colocava. Os abolicionistas, por seu lado, n\u00e3o se deixavam enganar e denunciavam este novo tipo de servid\u00e3o colonial, semelhante \u00e0 dos trabalhadores contratados indianos ou chineses.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da marinha, por\u00e9m, tratava-se sobretudo de legitimar a apreens\u00e3o de um navio mercante estrangeiro envolvido no tr\u00e1fico de escravos, demonstrando simultaneamente o respeito pelo direito franc\u00eas e pelo direito internacional. Com efeito, de acordo com o direito mar\u00edtimo, qualquer abordagem de um navio mercante que arvorasse pavilh\u00e3o estrangeiro s\u00f3 era legal no \u00e2mbito muito restrito do direito de visita em tempo de guerra, um direito definido no rescaldo da Guerra da Crimeia (1856)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8466385721597988\" aria-label=\"Declara\u00e7\u00e3o que regula diversos pontos do direito mar\u00edtimo. Paris, 16 de abril de 1856\">&nbsp;<\/span>. Apenas nessas condi\u00e7\u00f5es era legal a marinha de uma na\u00e7\u00e3o capturar um navio mercante que arvorasse um pavilh\u00e3o diferente do seu. Neste contexto, a marinha francesa podia abordar legalmente, por exemplo, um navio portugu\u00eas, a fim de evitar qualquer inger\u00eancia no conflito em curso, impedindo, nomeadamente, a entrega (contrabando) de armas, muni\u00e7\u00f5es ou tropas. Em tempo de paz, pelo contr\u00e1rio, a marinha de um pa\u00eds n\u00e3o estava autorizada a abordar navios mercantes que arvorassem o pavilh\u00e3o de um pa\u00eds terceiro. Tratava-se de preservar duas regras fundamentais do direito internacional: a primeira, a liberdade de com\u00e9rcio e de navega\u00e7\u00e3o; a segunda, o respeito pela soberania dos Estados, soberania materializada no mar pelo pavilh\u00e3o do navio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como sublinha o artigo do <em>Constitutionnel <\/em>de 24 de agosto de 1842, encontrado no dossi\u00ea de arquivo dedicado \u00e0 captura do <em>Pocha<\/em>, a quest\u00e3o da captura de um navio de tr\u00e1fico de escravos foi, por estas raz\u00f5es, uma quest\u00e3o crucial do direito internacional ao longo de todo o s\u00e9culo XIX. Assim, j\u00e1 no Congresso de Viena, em 1815, a Gr\u00e3-Bretanha contribuiu para a ado\u00e7\u00e3o de uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o vinculativa por todos os pa\u00edses signat\u00e1rios, com o objetivo de legalizar o direito de inspe\u00e7\u00e3o em tempo de paz. O texto estipulava que \u00abo tr\u00e1fico de escravos [era] contr\u00e1rio aos princ\u00edpios da humanidade e da moralidade universal\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1340710422401432\" aria-label=\"Declara\u00e7\u00e3o das Pot\u00eancias sobre a aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de negros, de 8 de fevereiro de 1815.\">&nbsp;<\/span>. Tratou-se de um primeiro passo simb\u00f3lico importante para na\u00e7\u00f5es que tinham legalizado e institucionalizado o tr\u00e1fico durante quase 400 anos.<\/p>\n\n\n\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6a88a11f64ab6&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"830\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2020-1-8.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16991\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2020-1-8.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2020-1-8-300x195.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2020-1-8-1024x664.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2020-1-8-768x498.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sal\u00e3o de 1846. \u2013 O direito de visita. An\u00f3nimo; baseado num quadro de Fran\u00e7ois-Auguste Biard. Ap\u00f3s 1846. Gravura.<br>Cole\u00e7\u00e3o particular<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Foi, ali\u00e1s, sob press\u00e3o brit\u00e2nica que Lu\u00eds XVIII assinou, no ex\u00edlio, um primeiro tratado com a Gr\u00e3-Bretanha, no qual a Fran\u00e7a se comprometia a p\u00f4r cobro ao tr\u00e1fico de seres humanos (1814). A 8 de janeiro de 1817, foi promulgado um primeiro decreto real que proibia o tr\u00e1fico, seguido e complementado pela lei de 15 de abril de 1818. Estas duas leis, \u00abelaboradas com relut\u00e2ncia sob press\u00e3o inglesa\u00bb, foram aprimoradas pela Monarquia de Julho, que finalmente promulgou a lei de 4 de mar\u00e7o de 1831, refor\u00e7ando o quadro legislativo com o objetivo de incentivar a luta contra o tr\u00e1fico e afirmar o papel da Fran\u00e7a no abolicionismo no panorama internacional, para que o pa\u00eds fosse visto como \u00abuma na\u00e7\u00e3o civilizada\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.48514919208400886\" aria-label=\"Hubert Gerbeau, A escravatura e a sua sombra: a ilha de Bourbon nos s\u00e9culos XIX e XX, Les Indes savantes, 2023, p. 327.\">&nbsp;<\/span>. Foi neste contexto que ocorreu a captura do <em>Pocha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Apoiando-se na sua supremacia mar\u00edtima, a Gr\u00e3-Bretanha assumiu a lideran\u00e7a do combate ao tr\u00e1fico no mar no s\u00e9culo XIX, tentando legalizar o direito de inspe\u00e7\u00e3o em tempo de paz ou procurando fazer com que o tr\u00e1fico fosse reconhecido como um ato de pirataria, tal como aconteceu nos congressos de Londres em 1817-1818, de Aachen em 1819 ou de Verona em 1822. Na altura, a pirataria representava o \u00fanico motivo legal universal que permitia apreender um navio em tempo de paz, independentemente do seu pavilh\u00e3o. Salientemos aqui a import\u00e2ncia do Tratado das Cinco Pot\u00eancias (\u00c1ustria, Fran\u00e7a, Gr\u00e3-Bretanha, Pr\u00fassia, R\u00fassia), assinado, com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, a 20 de dezembro de 1841. Atrav\u00e9s deste tratado, as partes contratantes tentavam equiparar o tr\u00e1fico de escravos ao crime de pirataria e declaravam que qualquer navio que tentasse comet\u00ea-lo perderia, por esse simples facto, qualquer o direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do seu pavilh\u00e3o. A rejei\u00e7\u00e3o por parte da Fran\u00e7a conduziu, no entanto, ao seu fracasso. A Fran\u00e7a considerava que o tratado legalizava um direito de inspe\u00e7\u00e3o \u00abbrit\u00e2nico\u00bb e consagrava de facto a supremacia mar\u00edtima da sua grande rival \u2014 uma quest\u00e3o inaceit\u00e1vel do seu ponto de vista desde as humilha\u00e7\u00f5es de Trafalgar (1805) e Waterloo (1815).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6a88a11f65f2f&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"926\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2009-01-84-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17003\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2009-01-84-1.jpg 1280w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2009-01-84-1-300x217.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2009-01-84-1-1024x741.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ME-2009-01-84-1-768x556.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">The suppression of piracy and slave trading in the red sea: navigating a captive dhow. Frank Dadd, desenhador. 1902.<br>Em <em>The Graphic<\/em>, 22 de mar\u00e7o de 1902, p. 397<br>Cole\u00e7\u00e3o do Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk, inv. ME.2009.01.84<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste ponto que os esclarecimentos fornecidos pelo arquivo da captura do <em>Pocha <\/em>relativamente a esta quest\u00e3o se revelam muito interessantes. Com efeito, a captura foi considerada legal pelo tribunal de Brest, desde logo, \u00e0 luz da lei francesa de 10 de abril de 1825 sobre a pirataria e n\u00e3o apenas com base na lei sobre a repress\u00e3o do tr\u00e1fico de 4 de mar\u00e7o de 1831. \u00c9, portanto, bastante paradoxal que o artigo do <em>Constitutionnel <\/em>de 24 de agosto de 1842 tenha destacado a lei sobre a pirataria, sendo que a Fran\u00e7a se recusara a assinar o Tratado das Cinco Pot\u00eancias mencionado no par\u00e1grafo anterior. Constata-se aqui toda a contradi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica francesa em mat\u00e9ria de repress\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX. A Fran\u00e7a procurava, acima de tudo, preservar a integridade da respetiva soberania face ao dom\u00ednio mar\u00edtimo brit\u00e2nico. No ac\u00f3rd\u00e3o proferido em Brest, tal como na Confer\u00eancia de Bruxelas de 1890, a Fran\u00e7a rejeitou a execu\u00e7\u00e3o de medidas internacionais visando a repress\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos. Em Bruxelas, a Fran\u00e7a recusou-se a assinar os atos da confer\u00eancia devido \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de um direito de inspe\u00e7\u00e3o universal dos navios mercantes suspeitos de tr\u00e1fico numa vasta zona mar\u00edtima internacional definida no oceano \u00cdndico Ocidental. A Fran\u00e7a, tal como no caso do <em>Pocha<\/em>, defendeu em Bruxelas o ponto de vista segundo o qual cada na\u00e7\u00e3o devia ser respons\u00e1vel pela pr\u00f3pria fiscaliza\u00e7\u00e3o das suas \u00e1guas territoriais ou dos seus navios mercantes, em vez de ceder a sua soberania a inst\u00e2ncias internacionais. Para a Fran\u00e7a, a soberania dos Estados prevalecia sobre a repress\u00e3o internacional de um crime pass\u00edvel de ser caracterizado pelo direito internacional como uma viola\u00e7\u00e3o universal da \u00abhumanidade\u00bb; \u00abum crime contra a humanidade\u00bb, tal como os abolicionistas ingleses j\u00e1 o denunciavam na imprensa desde a d\u00e9cada de 1840<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3130161979345769\" aria-label=\"Thomas Clarkson et al., The Times, 20 de julho de 1846, p. 6, col. e. O jurista norte-americano Henry Wheaton j\u00e1 havia utilizado esta express\u00e3o no \u00e2mbito do seu estudo sobre o direito de visita publicado em 1842. Ver Rapha\u00ebl Cheriau, Intervention d'humanit\u00e9, CNRS \u00e9ditions, 2023, pp. 314-332.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo a sua l\u00f3gica de soberania, a Fran\u00e7a criara, portanto, em conjunto com a Inglaterra, uma frota de navios de guerra para reprimir o tr\u00e1fico de escravos praticado por navios que arvoravam o seu pavilh\u00e3o ou por navios estrangeiros que navegavam nas suas \u00e1guas territoriais. Entre 1817 e 1831, mobilizou 77 cruzadores no Atl\u00e2ntico. Cerca de 301 \u00abnavios negreiros\u00bb, de um total de cerca de 729, foram capturadoss<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.008613561319890106\" aria-label=\"Serge Daget, La R\u00e9pression de la Traite des Noirs aux XIXe, Karthala, 1997.\">&nbsp;<\/span>. No oceano \u00cdndico, por outro lado, a mobiliza\u00e7\u00e3o foi mais modesta e os resultados muito limitados. De acordo com o trabalho de Hubert Gerbeau, contabilizam-se 115 navios envolvidos no tr\u00e1fico ilegal na Ilha da Reuni\u00e3o entre 1815 e 1848. Embora cerca de 50 desses navios tenham sido apreendidos, as tripula\u00e7\u00f5es condenadas pela justi\u00e7a foram escassas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8555168647712131\" aria-label=\"Hubert Gerbeau, \u00abA Escravatura e a sua Sombra\u00bb, op. cit., pp. 370-401.\">&nbsp;<\/span>.O governo franc\u00eas criou posteriormente, entre 1858 e 1889, a esta\u00e7\u00e3o naval do oceano \u00cdndico cujo objetivo anunciado era p\u00f4r fim ao tr\u00e1fico ilegal de escravos sob pavilh\u00e3o franc\u00eas e controlar as condi\u00e7\u00f5es de recrutamento dos trabalhadores contratados. Um total de 234 navios de guerra franceses serviram nesta divis\u00e3o naval, o que corresponde a uma m\u00e9dia de 5 navios por ano. No entanto, a esquadra francesa pouco logrou, uma vez que apenas 22 navios foram capturados entre 1858 e 1889<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6878985537300617\" aria-label=\"Servi\u00e7o Hist\u00f3rico da Marinha, Lorient. Repress\u00e3o do tr\u00e1fico e irregularidades na contrata\u00e7\u00e3o de trabalhadores livres, 4C6.2\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">\u00abA escravatura foi substitu\u00edda pela servid\u00e3o\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.41719170345867707\" aria-label=\"Rapha\u00ebl Confiant, Commandeur du sucre, \u00c9criture, 1994, p. 31.\">&nbsp;<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>Para concluir, vejamos agora ao destino dos \u00abcativos libertados\u00bb. Atrav\u00e9s do decreto local de 4 de agosto de 1831, as autoridades de Bourbon impunham a todos os \u00abNegros do tr\u00e1fico\u00bb, de acordo com os termos utilizados na \u00e9poca, um compromisso de sete anos nas suas oficinas coloniais. A \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb dava assim azo a novas formas de servid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, de acordo com o relat\u00f3rio do diretor das oficinas coloniais da Reuni\u00e3o, em 1841, os sobreviventes do <em>Pocha <\/em>foram sujeitos a 26 797 dias de trabalhos de terraplenagem nas estradas reais, num total anual de 32 161 dias de trabalho. No ano de 1842, tiveram de realizar, entre outras tarefas, 19 709 dias de trabalhos mar\u00edtimos, num total anual de 31&nbsp;101 dias de trabalho<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6374460939978189\" aria-label=\"Travail des Noirs du Pocha, ANOM, REU 103\/736.\">&nbsp;<\/span>. Estes n\u00fameros, que devem ser associados ao n\u00famero de trabalhadores (190) para serem bem compreendidos, mostram sem ambiguidade que os sobreviventes do tr\u00e1fico de escravos foram obrigados e for\u00e7ados a \u00abservir\u00bb a col\u00f3nia. Sobretudo, importa notar a refer\u00eancia feita no mesmo relat\u00f3rio a uma despesa de 5 francos pela \u00abcaptura de um negro do <em>Pocha<\/em>\u00bb. Esta men\u00e7\u00e3o implica claramente, e inequivocamente, que esses homens, mulheres e crian\u00e7as n\u00e3o eram, de forma alguma, livres, pois continuavam a ser tratados como pessoas escravizadas. Por fim, os sobreviventes do <em>Pocha <\/em>assinaram todos um novo contrato de trabalho e partiram da Reuni\u00e3o para Mayotte em dezembro de 1842, onde, infelizmente, o seu rasto se perde no sil\u00eancio dos arquivos. Apenas se encontram registados \u2014 um facto suficientemente raro para ser mencionado \u2014: os seus nomes, datas de nascimento e origens, como Amadi (Mougara), nascido em 1822, ou Moimom\u00e9 (Marave), nascida em 1825<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.07645696290039783\" aria-label=\"Infelizmente, o formato deste artigo n\u00e3o nos permite reproduzir aqui a lista completa dos nomes dos sobreviventes do Pocha.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6a88a11f66e7e&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" class=\"wp-block-image size-full wp-lightbox-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"861\" height=\"1280\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on-async--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-async-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2FI1995.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17139\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2FI1995.jpg 861w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2FI1995-202x300.jpg 202w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2FI1995-689x1024.jpg 689w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2FI1995-768x1142.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\">Les Philanthropes du jour. Honor\u00e9 Daumier. 6 de dezembro de 1844. Litografia. Em <em>Le Charivari<\/em>, 13.\u00ba ano, n.\u00ba 340, p. 21<br>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos do Departamento da Reuni\u00e3o, inv. 2FI1995<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb destas pessoas foi, indubitavelmente, muito amarga, levando apenas a uma nova e diversa forma de servid\u00e3o. Todavia, este pequeno passo, embora t\u00e3o limitado e contradit\u00f3rio, n\u00e3o deixou de ser um passo, um passo decisivo na longa caminhada rumo \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o universal do tr\u00e1fico de escravos e da escravatura.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":16990,"parent":17017,"menu_order":20,"template":"","class_list":["post-17143","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/17143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/17017"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}