{"id":5034,"date":"2021-05-19T10:19:08","date_gmt":"2021-05-19T08:19:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=5034"},"modified":"2024-10-11T11:57:40","modified_gmt":"2024-10-11T07:57:40","slug":"o-trafico-de-escravos-no-oceano-indico","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/o-trafico-de-escravos\/o-trafico-de-escravos-no-oceano-indico-2\/o-trafico-de-escravos-no-oceano-indico\/","title":{"rendered":"Bourbon e a costa oriental da \u00c1frica, o\u00a0tr\u00e1fico de escravos no s\u00e9culo XVIII"},"content":{"rendered":"<h2>Poucos s\u00e3o aqueles que n\u00e3o sonham com os Tr\u00f3picos: os clich\u00e9s s\u00e3o muito conhecidos. As \u00abilhas\u00bb dos mares do Sul v\u00eam encontrar-se connosco com toda a sua cor tropical, precedidas por uma fama criada por tr\u00eas s\u00e9culos de letrados que as celebram com vontade. De Leconte de Lisle a Loys Masson, quantos cantaram a vis\u00e3o destes para\u00edsos!<\/h2>\n<p>Esque\u00e7amos a \u00eanfase e as mem\u00f3rias de Baudelaire; o que este artigo prop\u00f5e descrever, tal como escreveram Diderot e d&#8217;Alembert \u00e9 \u00aba compra dos Negros por parte dos europeus, na costa de \u00c1frica, com o fim de empregar estes infelizes nas suas col\u00f3nias na qualidade de escravos\u00bb num determinado momento e enquadramento espec\u00edfico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_305\" aria-describedby=\"caption-attachment-305\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-carte-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-305 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-carte-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"827\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-carte-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-carte-web-290x300.jpg 290w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-carte-web-768x794.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-305\" class=\"wp-caption-text\">Mapa do tr\u00e1fico de escravos a partir da costa leste da \u00c1frica no s\u00e9culo XVIII. <br \/>Em <em>Tingatinga ou les Makua de la modernit\u00e9<\/em>. 1999.<br \/>Museu Vill\u00e8le. Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento (IRD)<\/figcaption><\/figure>\n<h3>A que correspondia esta costa africana?<\/h3>\n<p>Desde o s\u00e9culo VIII, os \u00e1rabes fundaram entrepostos comerciais nessa costa. Nos s\u00e9culos XIV e XV, de acordo com Ibn Battouta e viajantes chineses, estas cidades \u00e1rabes tinham sido pr\u00f3speras. No s\u00e9culo XVI, os portugueses interromperam este com\u00e9rcio; apoderando-se at\u00e9 de algumas cidades, Qu\u00edloa (Kilwa), Zanzibar, Melinde, Pate, Mombasa, e durante algum tempo a ilha de Socotor\u00e1. As feitorias de Mo\u00e7ambique e Sofala foram os principais pontos deste Contra Costa portugu\u00eas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVII, os ataques levados a cabo pela Turquia e a Ar\u00e1bia (especialmente Om\u00e3), combinados com revoltas locais, tinham restringido a domina\u00e7\u00e3o. A queda do Forte Jesus de Mombasa, em 1698, marcou o fim da \u00absuserania\u00bb portuguesa a norte de Cabo Delgado.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVIII, os franceses dirigiram-se primeiramente ao sul de Cabo Delgado, que os portugueses dominavam, para depois tentarem a sua sorte nos territ\u00f3rios dominados pelos \u00e1rabes. Durante esse s\u00e9culo, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nesta costa foi sempre obscura; os portugueses ainda ajudavam os governadores \u00e1rabes locais nas lutas contra os seus suseranos em Om\u00e3. Os comerciantes das Mascarenhas beneficiaram ou padeceram desta situa\u00e7\u00e3o: sendo estrangeiros na costa da \u00c1frica oriental, tinham de conciliar-se com todos.<\/p>\n<p>A partir de 1770, o n\u00famero de \u00abCafres\u00bb (palavra de origem \u00e1rabe que designa \u00abinfiel\u00bb) foi, em m\u00e9dia, pelo menos cinco vezes maior do que o dos Malgaxes. O tr\u00e1fico iria conhecer um desenvolvimento sem precedentes. Navios reais e embarca\u00e7\u00f5es privadas passavam por l\u00e1. O armamento metropolitano tamb\u00e9m desempenhou o seu papel.<br \/>\nTrataremos as duas regi\u00f5es separadamente: primeiro os territ\u00f3rios portugueses e depois os \u00e1rabes, visto que o com\u00e9rcio diferia entre os dois.<\/p>\n<h3>Nos territ\u00f3rios portugueses<\/h3>\n<p>Os portugueses sempre controlaram a costa entre a ba\u00eda de Delagoa e o Cabo Delgado. As suas possess\u00f5es formaram a capitania-geral de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<h4>Quais eram as feitorias frequentadas?<\/h4>\n<p>Em primeiro lugar estavam Mo\u00e7ambique e Sofala. J\u00e1 Ibo, nas ilhas Querimbe, recebia muitos franceses, visto que este porto tinha a vantagem de estar longe da autoridade do capit\u00e3o-geral. Foram visitados pelos franceses: \u00abYanbanne\u00bb (Imbano), \u00abem frente ao rio de Sena\u00bb (foz do Zambeze), a \u00abba\u00eda de Fernand Valoze\u00bb, Quelimane e, regra geral, os estu\u00e1rios dos rios&#8230;<\/p>\n<p>Durante este per\u00edodo, as feitorias portuguesas encontravam-se em completa decad\u00eancia e de uma \u00abimund\u00edcie aterradora\u00bb, de acordo com a express\u00e3o comum. A cidade de Mo\u00e7ambique foi o s\u00edmbolo desse decl\u00ednio: havia poucas lojas; o mercado era uma zona de lama seca; mulheres agachadas ou deitadas esperavam pelo potencial cliente; cachos de bananas espalhadas pelo ch\u00e3o&#8230;; no porto, os barcos franceses ao lado das embarca\u00e7\u00f5es portuguesas carregavam a carga humana&#8230;<\/p>\n<p>Em Ibo, a decrepitude era a mesma; em 1802, Garneray notou \u00abuma pilha de cabanas escuras, privadas de ar, tendo maus jardins mal conservados e espalhados aqui e ali em desordem&#8230; Uma casa deteriorada com um andar, um verdadeiro pardieiro, tinha a fun\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cio do governador.\u00bb Alguns capit\u00e3es n\u00e3o passavam pelos intermedi\u00e1rios portugueses; tratavam diretamente com os \u00abnativos\u00bb em lugares conhecidos apenas por eles. Os outros produtos da col\u00f3nia de Mo\u00e7ambique, o \u00abmorfil\u00bb (marfim), por exemplo, n\u00e3o parecem ter sido de grande interesse para os franceses.<br \/>\nTendo por base os historiadores de l\u00edngua inglesa, podemos afirmar que as Mascarenhas foram as principais respons\u00e1veis pelo tr\u00e1fico servil nesta possess\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<h3>Nos territ\u00f3rios \u00e1rabes<\/h3>\n<figure id=\"attachment_307\" aria-describedby=\"caption-attachment-307\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-2000-14-3-co-te-de-zanguebar-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-307 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-2000-14-3-co-te-de-zanguebar-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1046\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-2000-14-3-co-te-de-zanguebar-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-2000-14-3-co-te-de-zanguebar-web-229x300.jpg 229w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-2000-14-3-co-te-de-zanguebar-web-768x1004.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-2000-14-3-co-te-de-zanguebar-web-783x1024.jpg 783w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-307\" class=\"wp-caption-text\">Costa do Zanguebar. Robert de Vaugondy. 1749.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Do norte de Cabo Delgado at\u00e9 ao Golfo de \u00c1den, estendia-se \u00aba costa de Zanguebar, que estava sob o dom\u00ednio dos sult\u00f5es de Mascate. Esta suserania foi acima de tudo formal: na d\u00e9cada de 1770, o sult\u00e3o de Qu\u00edloa considerava-se independente&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>Em Zanzibar, em 1804, \u00abvi os franceses apresentarem uma ordem do sult\u00e3o ao governo desta \u00abilha\u00bb, para que os deixassem negociar livremente; isto saldou-se por um insucesso devido \u00e0s contrariedades com as quais se depararam e logo conclu\u00ed que as ordens do pr\u00edncipe n\u00e3o seriam cumpridas em Zanzibar, tanto mais que o nosso governo protegeria de forma imponente o nosso com\u00e9rcio nesta regi\u00e3o\u00bb, escreveu um denominado Dallons a Decaen, o governador-geral da ilha de Fran\u00e7a e Bourbon.<\/p>\n<p>Por volta de 1785-1790, o com\u00e9rcio na costa de Zanguebar aumentou em detrimento do de Mo\u00e7ambique, porque os escravos eram mais baratos e o reabastecimento mais abundante.<\/p>\n<p>De sul a norte, os entrepostos que vendiam escravos aos franceses eram: Linde \u00abQu\u00edloa\u00bb, Kilwa, Mafia, Zanzibar, Pemba, \u00abMontbaze\u00bb (Momba\u00e7a), Melinde, \u00abPate\u00bb (Patta) e Mogad\u00edscio. Enquanto uns eram raramente visitados, como Mogad\u00edscio e Pate; outros viram o seu com\u00e9rcio dificultado por lutas locais: Momba\u00e7a, Pemba, Melinde, Mafia. Em \u00faltima an\u00e1lise, os negociantes das Mascarenhas frequentavam principalmente as ilhas de Qu\u00edloa e Zanzibar.<\/p>\n<h4>Quiloa<\/h4>\n<figure id=\"attachment_309\" aria-describedby=\"caption-attachment-309\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-2014-1-14-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-309 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-2014-1-14-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"553\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-2014-1-14-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-2014-1-14-web-300x207.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-2014-1-14-web-768x531.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-309\" class=\"wp-caption-text\">The island and city of Quiloa. N. Parr. 1746.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos anos de 1770-1794, Qu\u00edloa foi o posto comercial \u00e1rabe mais frequentado pelos franceses; era \u00abo entreposto comercial de escravos de toda a costa de Zanguebar\u00bb. Cerca de 1500 escravos partiam todos os anos por volta de 1785-1790 para as Mascarenhas. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1770, as partidas eram da ordem de v\u00e1rias centenas, porque em 1776, Jean-Vincent Morice, um armador da ilha de Fran\u00e7a, tinha feito um contrato com o sult\u00e3o: \u00abN\u00f3s, rei de Qu\u00edloa, sult\u00e3o Hasan, filho do sult\u00e3o Ibrahim, damos a nossa palavra ao Sr. Morice, franc\u00eas, que lhe daremos 1000 escravos anualmente por 20 piastras cada um e que nos oferecer\u00e1 um presente de 2 piastras por cada escravo. Ningu\u00e9m negociar\u00e1 escravos at\u00e9 que ele tenha recebido os seus e n\u00e3o deseje mais nenhum. Este contrato \u00e9 feito por 100 anos entre eu e ele. Como garantia, damos-lhe a fortaleza na qual poder\u00e1 colocar os canh\u00f5es que lhe prouver e a sua bandeira&#8230;\u00bb.<\/p>\n<p>Este acordo enfit\u00eautico e praticamente assim\u00e9trico \u00e9 explicado pelos dons de cirurgi\u00e3o oferecidos por Morice ao sult\u00e3o e pelo desejo do sult\u00e3o de se proteger de Mascate e Zanzibar. Este entreposto comercial teria oferecido \u00ab\u00e0s ilhas de Fran\u00e7a, Bourbon e Seychelles os meios mais seguros, abundantes e menos dispendiosos para aumentar rapidamente as suas popula\u00e7\u00f5es de escravos e, consequentemente, proporcionar-lhes o grau de prosperidade que desejam\u00bb, acrescenta \u00abo amigo\u00bb de Morice, Cossigny, na altura engenheiro do Rei em Port-Louis. Infelizmente, este mir\u00edfico projeto permaneceu sem efeito: embora o ministro da marinha (Sartine) tivesse \u00abapreciado\u00bb a a\u00e7\u00e3o de Morice, n\u00e3o lhe deu seguimento; a Guerra de Independ\u00eancia Americana teve prioridade em mat\u00e9ria de homens e dinheiro a partir de 1778. Morice regressou a Qu\u00edloa em 1777, bem como outros \u2014 Crassons de Medeuil em 1784-1785 e Curt por volta de 1790 \u2014 que continuavam a desejar estabelecer um tratado de alian\u00e7a entre o sult\u00e3o e o rei de Fran\u00e7a. A metr\u00f3pole n\u00e3o mais se interessou pela iniciativa.<\/p>\n<p>Os navios das Mascarenhas continuaram a afluir em grande n\u00famero at\u00e9 1794; o tr\u00e1fico retomou um pouco em 1801, contudo, no ano seguinte, parece ter chegado a vez de Zanzibar de cativar o interesse dos negociantes.<\/p>\n<h4>Zanzibar<\/h4>\n<p>J\u00e1 em 1792, a ilha de Zanzibar tinha sido reconhecida como o local mais favor\u00e1vel, a tal ponto que, para os negociantes, suplantava a feitoria de Mo\u00e7ambique. Eventos revolucion\u00e1rios atrasaram esta promo\u00e7\u00e3o. Os barcos das Mascarenhas s\u00f3 come\u00e7aram a dirigir-se regularmente para esse territ\u00f3rio em 1802.<\/p>\n<p>Zanzibar foi \u00aba principal col\u00f3nia do im\u00e3 de Mascate\u00bb. Milhares de escravos partiam todos os anos para o Golfo P\u00e9rsico, a Ar\u00e1bia e a \u00cdndia. Os franceses interferiram assim no tr\u00e1fico, n\u00e3o obstante as recrimina\u00e7\u00f5es do governador-eunuco e do chefe das alf\u00e2ndegas.<\/p>\n<p>A ilha era \u00ababundante em alimentos, arroz, maky, milho, cocos, frutas, bois, cabritos, aves, tudo o mais barato poss\u00edvel\u00bb, e apesar das queixas de um certo Dallons (\u00abeste com\u00e9rcio que arru\u00edna os franceses\u00bb), sabe-se, gra\u00e7as a Garneray, que \u00abeste mercado era abundantemente abastecido com \u00e9bano\u00bb e que os pre\u00e7os n\u00e3o eram mais altos do que noutros lugares.<\/p>\n<p>Nas feitorias \u00e1rabes, o tr\u00e1fico franc\u00eas era secund\u00e1rio e n\u00e3o prim\u00e1rio como nas portuguesas. A maioria dos escravos ia para as possess\u00f5es mu\u00e7ulmanas. A quest\u00e3o \u00e9 saber de onde vinham esses escravos e por que meios foram trazidos para a costa. Por\u00e9m, deparamo-nos com uma dificuldade: a falta de documentos. Dispomos apenas de alguns elementos dispersos.<\/p>\n<h4>O interior<\/h4>\n<figure id=\"attachment_311\" aria-describedby=\"caption-attachment-311\" style=\"width: 644px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-1990-16-partie-de-la-co-te-orientale-d-afrique-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-311 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-1990-16-partie-de-la-co-te-orientale-d-afrique-web.jpg\" alt=\"\" width=\"644\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-1990-16-partie-de-la-co-te-orientale-d-afrique-web.jpg 644w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-1990-16-partie-de-la-co-te-orientale-d-afrique-web-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 644px) 100vw, 644px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-311\" class=\"wp-caption-text\">Parte da costa oriental da \u00c1frica com a ilha de Madag\u00e1scar e os mapas pormenorizados das ilhas de Fran\u00e7a e Bourbon. Rigobert Bonne. S\u00e9culo XVIII. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>O com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia existia muito antes do com\u00e9rcio de escravos: marfim e objetos forjados eram levados de aldeia em aldeia.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XVII, os Yao, do norte de Mo\u00e7ambique, come\u00e7aram a traficar para al\u00e9m das suas terras. Entraram em contacto com tribos que negociavam com a costa e logo fizeram a viagem por si pr\u00f3prios. Eram os mais importantes traficantes de escravos da \u00c1frica oriental. Trouxeram os seus prisioneiros para os entrepostos comerciais de Mo\u00e7ambique, Qu\u00edloa, Ibo e Quelimane.<\/p>\n<p>Mais a norte, os Nyamwezi serviram como intermedi\u00e1rios, por\u00e9m a um n\u00edvel mais baixo: o seu tr\u00e1fico s\u00f3 se tornou realmente importante por volta de 1800.<\/p>\n<p>A atividade destes dois povos explicaria porque \u00e9 que a maioria dos prisioneiros vinha da regi\u00e3o do lago Niassa e do oeste do lago Victoria. Isto implicava igualmente uma certa organiza\u00e7\u00e3o central para assegurar envios regulares.<\/p>\n<p>Mais a sul, a partir do Zambeze, o sistema parece ter sido diferente. Os intermedi\u00e1rios, \u00abos patamares, que lembram os pombeiros de Angola\u00bb, foram para o interior \u00e0 procura de escravos. Tete no Zambeze, foi o ponto mais avan\u00e7ado dos portugueses no continente. A partir desse local, parece ter havido trocas de bens e escravos at\u00e9 \u00e0s proximidades do lago Mweru, no territ\u00f3rio do rei de Kazembe, no final do s\u00e9culo XVIII.<br \/>\nAs indica\u00e7\u00f5es assinaladas no mapa explicativo exprimem, portanto, apenas hip\u00f3teses de trabalho.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, podemos afirmar que este tr\u00e1fico foi bem individualizado no espa\u00e7o e no tempo. Poder-se-ia acreditar que s\u00e3o tempos que j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o. Nada \u00e9 menos certo. Basta ir \u00e0s ilhas Maur\u00edcias, \u00e0 Reuni\u00e3o, \u00e0s Seychelles, caminhar pelas ruas de Port-Louis, Curepipe, Saint-Denis, Saint-Paul, Victoria, ou passar pelos campos de cana no momento da ceifa, ou ainda observar as pequenas aldeias aqui e ali: os rostos revelam a diversidade da popula\u00e7\u00e3o, sendo que a \u00c1frica est\u00e1 sempre presente.<\/p>\n<p>Alguns autores quiseram apurar responsabilidades, \u00absins of the fathers\u00bb escreveu o historiador brit\u00e2nico Pope Hennessy. Ser\u00e1 que temos direito de nos apresentarmos na qualidade de ju\u00edzes? O tr\u00e1fico de escravos era filho do esp\u00edrito do seu tempo.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5845,"parent":13889,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-5034","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5034","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/13889"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5845"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5034"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}