{"id":5182,"date":"2021-06-09T09:01:37","date_gmt":"2021-06-09T07:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=5182"},"modified":"2021-11-23T09:42:53","modified_gmt":"2021-11-23T08:42:53","slug":"a-plantacao-o-cerne-da-historia-social-da-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/uma-sociedade-de-plantacao\/definicao\/a-plantacao-o-cerne-da-historia-social-da-reuniao\/","title":{"rendered":"A Planta\u00e7\u00e3o, o cerne da hist\u00f3ria social da Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>Qual \u00e9 a melhor forma de compreender o que \u00e9 a sociedade da Reuni\u00e3o? Cada abordagem parcial d\u00e1-nos um ponto de vista particular e n\u00e3o uma apreens\u00e3o global.<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-5182-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/poster_benoist-1.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/BENOIST_ST_PORT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/BENOIST_ST_PORT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/BENOIST_ST_PORT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>A Reuni\u00e3o, no entanto, tem a vantagem de ser aquilo a que se pode chamar de \u201cobjeto\u201d de f\u00e1cil compreens\u00e3o: a sua pequena dimens\u00e3o permite-nos compreender a sociedade como um todo sem nos dispersarmos por vastos territ\u00f3rios. Por outro lado, a Reuni\u00e3o apresenta-se como uma esp\u00e9cie de alvo, centrado no ponto vermelho do vulc\u00e3o, rodeado por um primeiro c\u00edrculo constitu\u00eddo por montanhas com uma povoa\u00e7\u00e3o pontual e, de seguida, um segundo c\u00edrculo cujo limite \u00e9 o mar e onde se concentram as cidades e vastas \u00e1reas agr\u00edcolas que se situam entre o mar e a montanha, o que permite uma melhor observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo entanto, a sociedade da Reuni\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de analisar. A sua hist\u00f3ria deu-lhe rostos muito diferentes e depositou v\u00e1rios estratos nas suas terras, nas suas aldeias e nas suas cidades, construindo ao longo dos anos um conjunto que soube articular-se em torno a uma unidade, mantendo, ao mesmo tempo, os sinais dos seus diversos perfis.<\/p>\n<p>\u00c9 a estrutura e o funcionamento desta sociedade que temos que tentar compreender, entre a hist\u00f3ria que a criou e as rela\u00e7\u00f5es internas e externas que a moldam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_194\" aria-describedby=\"caption-attachment-194\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-1989-540-10-carte-de-l-ile-de-la-reunion-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-194 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-1989-540-10-carte-de-l-ile-de-la-reunion-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"566\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-1989-540-10-carte-de-l-ile-de-la-reunion-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-1989-540-10-carte-de-l-ile-de-la-reunion-web-300x212.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-1989-540-10-carte-de-l-ile-de-la-reunion-web-768x543.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-194\" class=\"wp-caption-text\">Mapa da Ilha da Reuni\u00e3o. Jean-Baptiste Bory de Saint-Vincent. 1804. In \u00ab Voyage dans les quatre principales \u00eeles des mers d&#8217;Afrique, fait par ordre du gouvernement, pendant les ann\u00e9es neuf et dix de la r\u00e9publique (1801 et 1802)\u2026 \u00bb.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<h3>A Planta\u00e7\u00e3o, facto econ\u00f3mico, realidade social<\/h3>\n<p>Em 1970, a primeira vis\u00e3o daquele que, como eu, chegava \u00e0 Reuni\u00e3o, era a refinaria de a\u00e7\u00facar de La Mare e as vast\u00edssimas encostas cobertas de cana-de-a\u00e7\u00facar que a rodeavam e subiam ao longo de um declive suave em dire\u00e7\u00e3o a um recorte de montanhas. Paisagem extremamente bonita, tanto familiar, como desconcertante para quem chegava das Ilhas das Cara\u00edbas.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, a Reuni\u00e3o parecia-me muito pr\u00f3ximo daquilo que tinha conhecido e estudado nas terras de planta\u00e7\u00e3o da Martinica, de Marie-Galante e de Guadalupe. A Reuni\u00e3o pertencia, muito naturalmente, \u00e0 mesma fam\u00edlia de ilhas, aquelas que os ge\u00f3grafos chamavam de \u201cilhas do a\u00e7\u00facar\u201d. Terras tropicais nas quais a cana-de-a\u00e7\u00facar se tinha espalhado atrav\u00e9s de vastas propriedades numerosas e refinarias de a\u00e7\u00facar. Desde o in\u00edcio, colocou-se uma primeira pergunta que se revelaria central: estas apar\u00eancias refletiriam a forma como a estrutura social da Reuni\u00e3o era, como a das Antilhas e outras terras tropicais, a de uma \u201csociedade de planta\u00e7\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>A denominada sociedade de planta\u00e7\u00e3o caracteriza-se pela preponder\u00e2ncia de uma produ\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, geralmente centrada na cana-de-a\u00e7\u00facar, e por uma organiza\u00e7\u00e3o social e uma estrutura de poderes diretamente articuladas com esta atividade dominante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4240\" aria-describedby=\"caption-attachment-4240\" style=\"width: 904px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.131.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4240 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.131.jpg\" alt=\"\" width=\"904\" height=\"626\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.131.jpg 904w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.131-300x208.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.131-768x532.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4240\" class=\"wp-caption-text\">[Ilha da Reuni\u00e3o &#8211; Saint-Andr\u00e9: vista a\u00e9rea da refinaria de a\u00e7\u00facar de Bois Rouge e dos canaviais]. Jean Legros. [1950-1960]. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o privada Jean Legros (1920-2004). Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<h4>Planta\u00e7\u00e3o e escravatura<\/h4>\n<p>As ra\u00edzes dos elos entre a escravatura e as planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar s\u00e3o antigas; para as seguir, \u00e9 necess\u00e1rio regressar no tempo, bem a montante do nascimento das ilhas do a\u00e7\u00facar, rumo a uma hist\u00f3ria muitas vezes negligenciada que nos permite compreender o mecanismo que relaciona uma forma de produ\u00e7\u00e3o com certos tra\u00e7os de uma sociedade, e em particular, as explora\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar com a escravatura. A cana-de-a\u00e7\u00facar, nativa da Nova Guin\u00e9, foi desenvolvida no sul da \u00cdndia, onde durante muito tempo se garantiu uma pequena produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar familiar (a palavra \u201ca\u00e7\u00facar\u201d \u00e9 de origem T\u00e2mil). Um produto de luxo, o a\u00e7\u00facar foi levado para o Ocidente gra\u00e7as a comerciantes \u00e1rabes. Todavia, ap\u00f3s o estabelecimento do reino de Jerusal\u00e9m no seguimento das cruzadas, o cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar foi introduzido na regi\u00e3o e nas ilhas do Mediterr\u00e2neo. A explora\u00e7\u00e3o mudou de tamanho e tomou a forma de planta\u00e7\u00f5es de uma dimens\u00e3o diferente das da agricultura camponesa. A procura de uma m\u00e3o de obra servil aumentou; incapaz de escravizar os Crist\u00e3os, a aten\u00e7\u00e3o desloca-se para os povos ainda n\u00e3o cristianizados, principalmente os Eslavos. Da\u00ed o nome dado a esta m\u00e3o de obra (eslavos ou esclav\u00f5es), nome que agora a seguiria para sempre e designaria o seu estatuto.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia da cana-de-a\u00e7\u00facar para a Am\u00e9rica hisp\u00e2nica come\u00e7a muito cedo (o sogro de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo era cultivador de cana nas ilhas Can\u00e1rias) e inspirou-se diretamente no modelo mediterr\u00e2nico. Crist\u00f3v\u00e3o Colombo sugeriu, numa das suas cartas, que as popula\u00e7\u00f5es que tinha descoberto podiam trabalhar nas planta\u00e7\u00f5es; isso n\u00e3o pode ser efetuado devido \u00e0 resist\u00eancia amer\u00edndia e, por conseguinte, recorreu-se ao mercado de escravos de \u00c1frica ao qual a Europa, em especial Portugal, teve acesso.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre cana-de-a\u00e7\u00facar\/planta\u00e7\u00e3o\/escravatura foi assim constitu\u00edda a partir de uma l\u00f3gica econ\u00f3mica inserida numa longa hist\u00f3ria. Esta rela\u00e7\u00e3o foi, por sua vez, refor\u00e7ada durante o desenvolvimento daquilo a que se chamou de \u201csociedade da planta\u00e7\u00e3o\u201d e foi associada a uma conota\u00e7\u00e3o racial devido ao contraste entre a origem dos senhores e a dos seus escravos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4242\" aria-describedby=\"caption-attachment-4242\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM1069_2005.00.66.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-4242 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM1069_2005.00.66.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"643\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM1069_2005.00.66.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM1069_2005.00.66-300x241.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM1069_2005.00.66-768x617.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4242\" class=\"wp-caption-text\">Planta\u00e7\u00e3o na Ilha da Reuni\u00e3o. Gustave Dor\u00e9. Entre 1850 e 1860. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure>\n<h4>A planta\u00e7\u00e3o, uma organiza\u00e7\u00e3o agroindustrial<\/h4>\n<p>A cana-de-a\u00e7\u00facar reveste-se de uma exig\u00eancia que nem o tabaco nem o caf\u00e9 apresentam: num curto espa\u00e7o de tempo, deve ser transformada em a\u00e7\u00facar. Por conseguinte, tal atividade n\u00e3o se coaduna com um n\u00edvel artesanal, porque \u00e9 necess\u00e1rio produzir uma quantidade m\u00ednima para que seja rent\u00e1vel. Acresce, portanto, para al\u00e9m do trabalho agr\u00edcola propriamente dito, a necessidade de investir em locais, equipamentos e instala\u00e7\u00f5es destinados \u00e0 extra\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar. A sua rentabilidade exige que a refinaria receba um fornecimento de canas frescas adaptadas \u00e0s suas capacidades de transforma\u00e7\u00e3o, e que funcione de modo ininterrupto, o que leva a favorecer o cultivo da cana, em detrimento de qualquer outra cultura. O trabalho de colheita envolve a ajuda de uma m\u00e3o de obra suficientemente abundante a fim de manter o ritmo e preparar a quantidade de cana a moer na refinaria. As inova\u00e7\u00f5es permitiram a transforma\u00e7\u00e3o de quantidades crescentes de cana, o que levou \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o de outras produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas a favor da monocultura. Como resultado, a refinaria, e seguidamente a f\u00e1brica de a\u00e7\u00facar, tendiam a controlar cada vez mais terras para direcionar a sua produ\u00e7\u00e3o para a cana-de-a\u00e7\u00facar. Foi preciso mais m\u00e3o de obra, novos investimentos, cada vez mais onerosos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m deste movimento de concentra\u00e7\u00e3o de terras, a concorr\u00eancia de instala\u00e7\u00f5es mais eficientes levou, ao longo dos anos, ao encerramento de muitas f\u00e1bricas de a\u00e7\u00facar e ao aumento da concentra\u00e7\u00e3o, de acordo com uma din\u00e2mica em que a ind\u00fastria agroalimentar da planta\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira se tornou elemento precursor do surgimento do capitalismo industrial.<\/p>\n<p>Esta estrutura econ\u00f3mica da planta\u00e7\u00e3o teve um impacto em toda a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, da qual a planta\u00e7\u00e3o \u00e9 literalmente a matriz, cuja caracteriza\u00e7\u00e3o obedece a alguns tra\u00e7os fundamentais:<br \/>\n&#8211; A presen\u00e7a de unidades agr\u00edcolas e industriais cuja produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar \u00e9 a principal atividade.<br \/>\n&#8211; A deten\u00e7\u00e3o, por parte dos produtores de cana-de-a\u00e7\u00facar de terras cuja superf\u00edcie e qualidade permitem rentabilizar os investimentos e os custos de explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Uma tecnologia que \u00e0 medida que evolui ceda uma parte crescente ao capital.<br \/>\n&#8211; Uma m\u00e3o de obra abundante, dispon\u00edvel e de baixo custo. Esta pode ser encontrada inicialmente na escravatura, levando-a ao extremo pelo estatuto que atribui aos escravos; nas ilhas tropicais, a escravatura \u00e9 acompanhada por um contraste racial que o inscreve nos corpos e que permanecer\u00e1, muito ap\u00f3s a sua aboli\u00e7\u00e3o, uma marca indel\u00e9vel da hist\u00f3ria e a base das clivagens da sociedade.<br \/>\n&#8211; Um quadro jur\u00eddico e pol\u00edtico que garanta a hegemonia social e econ\u00f3mica do grupo dos plantadores. Isto leva \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o deste grupo que se torna predominante sobre a sociedade e tende a autorrepresentar-se como uma aristocracia (\u201co a\u00e7\u00facar enobrece\u201d dizia-se nas Antilhas).<\/p>\n<p>A narrativa acima trata-se de um esquema demasiado geral para que a hist\u00f3ria o possa ter seguido ao longo dos seus meandros; cada territ\u00f3rio, cada ilha, realizou-o de acordo com uma configura\u00e7\u00e3o particular, como variantes deste esquema ao longo dos anos. Por\u00e9m, a estrutura b\u00e1sica persistiu.<\/p>\n<p>Na base desta estrutura encontram-se as \u201cpropriedades\u201d familiares. A unidade de explora\u00e7\u00e3o, a \u201cpropriedade\u201d j\u00e1 existia anteriormente \u00e0 cana-de-a\u00e7\u00facar. Na sua tese monumental \u201c<em>A sociedade de propriedade na Martinica, meio s\u00e9culo de forma\u00e7\u00e3o, 1635-1685<\/em>\u201d Jacques Petitjean Roget mostra bem como \u00e9 que esta forma inicial de agricultura foi estabelecida no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o das Antilhas, resultante de concess\u00f5es concedidas aos primeiros a chegar \u00e0s ilhas: a propriedade foi a c\u00e9lula fundamental da sociedade que estava a ser formada. Atrav\u00e9s das suas modifica\u00e7\u00f5es progressivas, ainda marca a paisagem e a sociedade. Por vezes, at\u00e9 hoje em dia, a propriedade familiar tem sido a base da produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar. Identificada com um lugar e uma fam\u00edlia propriet\u00e1ria, a propriedade fazia parte de uma rede de la\u00e7os familiares e sociais entre os \u201chabitantes\u201d. Foi deles que surgiu a minoria dominante que garantiu a sua supremacia sobre a vida econ\u00f3mica da ilha, visto que a propriedade, unidade de produ\u00e7\u00e3o, era tamb\u00e9m a unidade social, onde coabitavam os que l\u00e1 trabalhavam, propriet\u00e1rios, funcion\u00e1rios e trabalhadores. Era nela que o controlo social estava sediado, atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es marcadas pelo autoritarismo e paternalismo, de acordo com o lugar e as \u00e9pocas. Numa forte integra\u00e7\u00e3o vertical, cada um tinha acima de si, na pr\u00f3pria propriedade, aqueles de quem dependia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4244\" aria-describedby=\"caption-attachment-4244\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM070_1992.24.1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4244 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM070_1992.24.1.jpg\" alt=\"\" width=\"850\" height=\"522\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM070_1992.24.1.jpg 850w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM070_1992.24.1-300x184.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRM070_1992.24.1-768x472.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4244\" class=\"wp-caption-text\">Vista de uma propriedade. Pormenor de Sucrerie, vue d&#8217;une habitation, Coupe d&#8217;une Etuve et Canot avec ses Pilons. Robert Benard, diretor art\u00edstico. s\u00e9culo XVIII. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar nas respetivas refinarias mais importantes mas menos numerosas, levou \u00e0 fus\u00e3o de propriedades, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de sociedades agr\u00edcolas onde muitos propriet\u00e1rios se tornam exclusivamente plantadores, enquanto os detentores das f\u00e1bricas de a\u00e7\u00facar consolidam o seu poder, embora esse poder tivesse permanecido sempre fr\u00e1gil como o demonstra a fal\u00eancia das refinarias.<\/p>\n<p>A sociedade assim formada cristaliza ainda mais o contraste entre uma classe, numericamente muito restrita, de plantadores e propriet\u00e1rios de refinarias que det\u00eam a maior parte da terra e o resto da popula\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m do seu controlo econ\u00f3mico, a Planta\u00e7\u00e3o assegura a preponder\u00e2ncia da defini\u00e7\u00e3o dos interesses da sociedade global atrav\u00e9s da sua pr\u00f3pria grelha de leitura, o que cria desigualdades extremas. Somos automaticamente conduzidos \u00e0quilo que um analista em sociedades de planta\u00e7\u00e3o, Georges Beckford, definiu como \u201cpersistent poverty\u201d, a pobreza inelut\u00e1vel, para o resto da popula\u00e7\u00e3o, devido ao facto que \u201c<em>em todo o lado (as planta\u00e7\u00f5es) ocupam as melhores terras e empurram os camponeses para os cimos marginais; a consequ\u00eancia \u00e9 quase sempre a fragmenta\u00e7\u00e3o das terras e um n\u00edvel de vida extremamente baixo para os camponese<\/em>s<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.778101564720858\" aria-label=\"G.L. Beckford : Persistant poverty : underdevelopment in plantation economies of the Third World Oxford U. Press, 303 p. \">&nbsp;<\/span>\u201d.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura n\u00e3o foi a aboli\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es e o espa\u00e7o agr\u00edcola dispon\u00edvel para a instala\u00e7\u00e3o das novas pessoas livres ilustra bem a observa\u00e7\u00e3o de Beckford. No que diz respeito \u00e0 sociedade de planta\u00e7\u00e3o, esta resistiu a este abalo, e as estruturas antigas, bem como muitas rela\u00e7\u00f5es sociais, foram posteriormente reinterpretadas, incluindo durante o recrutamento de trabalhadores contratados, garantindo a grande continuidade da realidade sob novas apar\u00eancias.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_4246\" aria-describedby=\"caption-attachment-4246\" style=\"width: 904px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.17.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4246 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.17.jpg\" alt=\"\" width=\"904\" height=\"636\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.17.jpg 904w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.17-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.17-768x540.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4246\" class=\"wp-caption-text\">[Ilha da Reuni\u00e3o &#8211; Saint-Louis: vista a\u00e9rea dos acampamentos da refinaria do Gol]. Jean Legros. [1950-1960]. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o privada Jean Legros (1920-2004). Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>Isto verifica-se no final do s\u00e9culo XIX, quando os herdeiros das estruturas derivadas da propriedade se viram confrontados com o desenvolvimento de f\u00e1bricas de a\u00e7\u00facar que exigiam um forte investimento em capital e que levam muitos plantadores a uma l\u00f3gica econ\u00f3mica estrangeira. Em alguns casos, a antiga planta\u00e7\u00e3o adaptou-se de forma a resistir e teve sucesso, como na Martinica e, por vezes, na Reuni\u00e3o, \u00e0 custa do encerramento de muitas refinarias de a\u00e7\u00facar cujas ru\u00ednas pontuam a paisagem. Foi tamb\u00e9m a transi\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola direta para outra gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de cana, ou como nas Maur\u00edcias atrav\u00e9s de fragmenta\u00e7\u00f5es em prol dos pequenos plantadores, obrigados a manter a produ\u00e7\u00e3o de cana, ou ainda na Reuni\u00e3o, pelo arrendamento de terras que manteve os colonos dependentes dos propriet\u00e1rios. De seguida vieram as maiores concentra\u00e7\u00f5es: os conglomerados cobriram \u00e1reas consider\u00e1veis, fornecendo a cana a refinarias ampliadas e renovadas e, com mais frequ\u00eancia, utilizando a mecaniza\u00e7\u00e3o do trabalho agr\u00edcola. As sociedades afastaram-se cada vez mais para longe do mundo da planta\u00e7\u00e3o para se tornar uma atividade industrial moderna, cuja gest\u00e3o leva muitas vezes \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e \u00e0 venda de terrenos com vista a investimentos em atividades comerciais e tur\u00edsticas: a sociedade de planta\u00e7\u00e3o deixou ent\u00e3o de existir como tal.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_4248\" aria-describedby=\"caption-attachment-4248\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.49.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4248 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.49.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"634\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.49.jpg 900w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.49-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRIHOI_5P2.2007.JL_.SFS_.49-768x541.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4248\" class=\"wp-caption-text\">[Ilha da Reuni\u00e3o &#8211; Saint-Louis: vista a\u00e9rea da f\u00e1brica de a\u00e7\u00facar e da destilaria do Gol. Jean Legros. [1950-1960]. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o privada Jean Legros (1920-2004). Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>A Planta\u00e7\u00e3o, um sistema totalmente centrado nas exporta\u00e7\u00f5es, s\u00f3 pode resistir aos acasos da economia caso se mantenha numa estreita depend\u00eancia pol\u00edtica ou, pelo menos, econ\u00f3mica, de uma pot\u00eancia que era, nas ilhas tropicais, uma pot\u00eancia colonial.<br \/>\nAssim, quando falamos de \u201csociedade de planta\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o se trata de uma sociedade onde h\u00e1 planta\u00e7\u00f5es, nem qualquer agricultura baseada na cana-de-a\u00e7\u00facar: trata-se de uma sociedade centrada no grupo dominante que \u00e9 o cerne da vida pol\u00edtica e do sistema de valores. As fortes desigualdades do sistema (atrav\u00e9s da escravatura, da contrata\u00e7\u00e3o ou de um proletariado rural) s\u00e3o apoiadas por uma ideologia que diz legitim\u00e1-los com base nas origens dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<h3>A Reuni\u00e3o \u00e9 uma sociedade de planta\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>Assim sendo, ser\u00e1 que a primeira abordagem sobre a Reuni\u00e3o estava certa ao descobrir nela todos os \u00edndices de uma \u201csociedade de planta\u00e7\u00e3o\u201d? \u00c0 primeira vista, a Reuni\u00e3o parecia encaixar-se neste quadro. Contudo, as coisas s\u00e3o mais complexas e merecem uma aten\u00e7\u00e3o particular, porque:<br \/>\n&#8211; A Reuni\u00e3o permaneceu por muito mais tempo do que as Antilhas, uma sociedade de propriedade para al\u00e9m do mundo do a\u00e7\u00facar e das suas consequ\u00eancias. A chegada tardia, no s\u00e9culo XIX, da \u201ccana total\u201d permitiu n\u00e3o somente uma certa diversidade da produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma maior flexibilidade do controlo da terra, uma menor estabilidade de um grupo de grandes propriet\u00e1rios que se consideram aristocratas, uma dissocia\u00e7\u00e3o, pelo menos parcial, entre o estatuto social e as origens: grandes planta\u00e7\u00f5es tornaram-se propriedade, muito cedo, dos nativos da \u00cdndia. Ao passo que nas Cara\u00edbas e nas Maur\u00edcias, a barreira entre brancos e outros segmentos da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 clara, na Reuni\u00e3o as transi\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas e sociais s\u00e3o m\u00faltiplas. A mobilidade e a permeabilidade sociais est\u00e3o longe de ter estabelecido um grupo dominante que permaneceu parcialmente aberto, com ascens\u00f5es e colapsos. Ademais, na Reuni\u00e3o, devido ao seu relevo, tal como a Basse-Terre em Guadalupe, oferece m\u00faltiplas possibilidades de sucesso aos camponeses.<\/p>\n<p>Todavia, n\u00e3o obstante o facto de a Reuni\u00e3o ter uma grande especificidade, ela participa plenamente no modelo da sociedade de planta\u00e7\u00e3o que a dominou durante muito tempo. A \u201cvoca\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira\u201d da ilha, os elos das classes abastadas com o mundo da planta\u00e7\u00e3o, a extens\u00e3o da grande propriedade a todo o c\u00edrculo a\u00e7ucareiro da Reuni\u00e3o, atestam isso. N\u00e3o h\u00e1 nada mais eloquente do que identificar a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade da Reuni\u00e3o retra\u00e7ando, nem que seja muito brevemente, a hist\u00f3ria de certas propriedades. O passado da propriedade onde se encontra atualmente o Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, em St Gilles les Hauts, atesta-o perfeitamente. Num primeiro momento, assistimos \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o, ao sabor das heran\u00e7as, da concess\u00e3o inicial detida por Th\u00e9r\u00e8se Mollet em 1698. Esta &#8220;m\u00e1quina de retalhar a terra&#8221; segundo os dizeres de Jean Mas, opera at\u00e9 1785 e resulta na divis\u00e3o da propriedade original em oito partes desiguais, sob a forma de faixas paralelas. Uma mudan\u00e7a radical ocorreu quando Henri Paulin Panon Desbassayns, e de seguida a sua vi\u00fava, Madame Desbassayns, desenvolveram a planta\u00e7\u00e3o e come\u00e7aram a unir as terras reconstituindo gradualmente a antiga concess\u00e3o com a exce\u00e7\u00e3o de uma zona estreita. F\u00e1brica de a\u00e7\u00facar, aumento do n\u00famero de escravos, e tamb\u00e9m esfor\u00e7os para construir a propriedade como terra aristocr\u00e1tica. A constru\u00e7\u00e3o de uma capela destinada a obter um estatuto que a vinculasse, &#8211; o que n\u00e3o ocorre \u2013 n\u00e3o ao episcopado da Reuni\u00e3o mas a Roma, alian\u00e7as matrimoniais com a grande fam\u00edlia aristocr\u00e1tica de Vill\u00e8le, tudo isto contribuiu para fazer desta propriedade um exemplo daquilo a que se aspirava, muitas vezes em v\u00e3o, na Martinica, na Reuni\u00e3o ou na Maur\u00edcia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4250\" aria-describedby=\"caption-attachment-4250\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRAD974_99FI39.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4250 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRAD974_99FI39.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"623\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRAD974_99FI39.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRAD974_99FI39-300x234.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/FRAD974_99FI39-768x598.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4250\" class=\"wp-caption-text\">Recorda\u00e7\u00e3o da ilha Bourbon, N \u00b0 36: Propriedade Desbassayns (Saint Gilles). J. Dureau; de Antoine Roussin.<br \/>22 de outubro de 1847. Litografia a cores. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos do Departamento da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois tudo periclitou, at\u00e9 ao choque final. A divis\u00e3o administrativa da Reuni\u00e3o em departamentos remonta a 1946. Foi em 1948 que se formaram a empresa <em>Sucreries de Bourbon<\/em>, reunindo v\u00e1rias empresas familiares, e introduzindo novos m\u00e9todos de gest\u00e3o de terras num esfor\u00e7o de adapta\u00e7\u00e3o a novos constrangimentos, e para tirar partido das novas oportunidades. Os herdeiros mais afastados de Madame Desbassayns tiveram de ceder a sua propriedade, que se fundiu no todo . Algumas modifica\u00e7\u00f5es permitiram-lhes manter o seu modo de vida numa casa que j\u00e1 n\u00e3o lhes pertencia. Os vest\u00edgios da velha sociedade desapareceram. Uma consider\u00e1vel remodela\u00e7\u00e3o social que afetou igualmente os antigos colonos, que se tornaram \u201c<em>\u00f3rf\u00e3os de um universo paternalista que morr<\/em>e\u201d segundo palavras de J. e R. Potier.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3473923353150111\" aria-label=\"Potter, R e J., 1973 Estudo antropol\u00f3gico de uma zona a\u00e7ucareira na Reuni\u00e3o. O Gol e a sua \u00e1rea de abastecimento, Museu de Arte e Arqueologia de Antananarivo. \">&nbsp;<\/span><br \/>\nEstava longe o desejo expresso no testamento Madame Desbassayns, em novembro de 1845! Os seus herdeiros, ao longo das gera\u00e7\u00f5es futuras, tiveram que manter a propriedade intacta, como um conjunto \u00fanico, e \u201c<em>apreci\u00e1-la em comum e indivisamente o maior tempo poss\u00edvel<\/em>\u201d. Expressou um prop\u00f3sito, quase uma ordem: \u201c<em>O meu desejo mais ardente \u00e9 que esta propriedade e os escravos ligados a ela nunca passem para m\u00e3os estrangeiras<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica econ\u00f3mica das grandes sociedades n\u00e3o fazendo do a\u00e7\u00facar uma prioridade, rapidamente se tornou evidente que o capital que representava a terra seria mais bem utilizado noutras atividades. A Sucreries de Bourbon, entre outras , reorienta-se para o com\u00e9rcio, o turismo e outras ambi\u00e7\u00f5es que a tornaram um conglomerado com atividades internacionais, que elimina do seu nome a palavra \u201csucrerie\u201d.<\/p>\n<h3>E depois?<\/h3>\n<p>O choque da divis\u00e3o administrativa em departamentos (departamentaliza\u00e7\u00e3o) levou a uma remodela\u00e7\u00e3o da sociedade. Os representantes eleitos da esquerda que tinham promovido este novo estatuto consideraram que a evolu\u00e7\u00e3o residia nesse sentido; a lentid\u00e3o inicial e as inevit\u00e1veis perman\u00eancias ocultaram o facto de terem tido raz\u00e3o de um ponto de vista global: a departamentaliza\u00e7\u00e3o acarretou consigo uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa que viria a abolir o sistema de planta\u00e7\u00e3o e a sociedade que ele tinha constitu\u00eddo.<br \/>\nTodavia, a estrutura e os poderes antigos amorteceram h\u00e1 muito estas consequ\u00eancias. A sociedade de planta\u00e7\u00e3o, firmemente detida por um grupo social din\u00e2mico, tornou-se a porta-voz da vida econ\u00f3mica, com a participa\u00e7\u00e3o de representantes eleitos bem colocados. Os progressos t\u00e9cnicos, a aud\u00e1cia de alguns chefes de empresas inspirados no exemplo da Maur\u00edcia onde a planta\u00e7\u00e3o tinha sobrevivido aos acasos da independ\u00eancia, parecia reservar-lhe um futuro real. Contudo, vimos como a mudan\u00e7a das regras do jogo numa sociedade anteriormente dedicada \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do a\u00e7\u00facar deu lugar \u00e0 emerg\u00eancia de outra sociedade.<\/p>\n<p>O que poderia ser definido como o fim da sociedade de planta\u00e7\u00e3o, na sua base econ\u00f3mica e nas formas mais vis\u00edveis do seu poder social, n\u00e3o implica, no entanto, o desaparecimento dos seus vest\u00edgios ou das suas cicatrizes.<\/p>\n<p>Alguns deles tornaram-se patrim\u00f3nio. Pensamos no mais expl\u00edcito: o Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le ou o Museu de Stella Matutina na Reuni\u00e3o, a f\u00e1brica de Beauport na Guadalupe ou a Funda\u00e7\u00e3o Clement na Martinica. Pensamos tamb\u00e9m no patrim\u00f3nio imaterial, que se expressa cada vez, resultante do que os trabalhadores de Madag\u00e1scar, \u00c1frica e \u00cdndia trouxeram consigo, e que foi transmitido, por vezes de forma surpreendentemente est\u00e1vel, mas de modo frequente, misturado no cadinho das propriedades, tornou-se parte integrante das m\u00faltiplas combina\u00e7\u00f5es da cultura crioula (na linguagem, nas artes, nas rela\u00e7\u00f5es familiares, na alimenta\u00e7\u00e3o, etc.).<\/p>\n<figure id=\"attachment_4252\" aria-describedby=\"caption-attachment-4252\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/musee-de-villele.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4252 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/musee-de-villele.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/musee-de-villele.jpg 900w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/musee-de-villele-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/musee-de-villele-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4252\" class=\"wp-caption-text\">Museu Vill\u00e8le. Emmanuel Richard, Alexandre Rivi\u00e8re. 2019. Fotografia.<br \/>Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>Outros vest\u00edgios s\u00e3o mais subtis e difusos: na estratifica\u00e7\u00e3o social, no acesso aos grupos dirigentes. As redes de parentesco entre os propriet\u00e1rios das planta\u00e7\u00f5es, as elites econ\u00f3micas urbanas e numerosos membros das profiss\u00f5es liberais continuam muito vivas. Vest\u00edgios que marcam a vida social e pol\u00edtica na perman\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es de hierarquia\/depend\u00eancia\/revolta para com aqueles que representam a autoridade, vest\u00edgios nas formas de uso dos solos e distribui\u00e7\u00e3o do habitat: os bairros derivam diretamente dos antigos \u201ccampos\u201d enquanto as casas dispersas s\u00e3o testemunho do povoado.<\/p>\n<p>Outros legados s\u00e3o \u201cferidas da alma\u201d entre os descendentes daqueles que, escravos ou contratados, foram marcados por um estatuto que selou a sua depend\u00eancia inelut\u00e1vel. Os corol\u00e1rios raciais e culturais da hierarquia sem piedade, obrigaram-nos, durante muito tempo, a vergar-se sob o peso de um desprezo que lhes foi ensinado a partilhar. Isto levou a uma certa &#8220;racializa\u00e7\u00e3o&#8221; da sociedade que marca muitas dimens\u00f5es da vida social e dos valores ligados a v\u00e1rios elementos da cultura, especialmente nas Antilhas. \u00c9 neste contexto que surgem v\u00e1rias formas de reconstru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A sociedade de planta\u00e7\u00e3o surge, assim, como um quadro constrangedor que se decomp\u00f4s.<br \/>\nDar\u00e1 lugar a uma perturba\u00e7\u00e3o testemunhada por muitos \u201cdeixados para tr\u00e1s\u201d ou a um equil\u00edbrio mais harmonioso e promissor para aqueles que ela dominava ao mesmo tempo que os enquadrava?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Transforma\u00e7\u00f5es-fundi\u00e1rias-e-evolu\u00e7\u00e3o-da-planta\u00e7\u00e3o-3.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Descarregar o artigo: Transforma\u00e7\u00f5es fundi\u00e1rias e evolu\u00e7\u00e3o da planta\u00e7\u00e3o<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5225,"parent":5024,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-5182","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5024"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5225"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}