{"id":5241,"date":"2021-06-17T13:10:44","date_gmt":"2021-06-17T11:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=5241"},"modified":"2021-11-26T09:09:45","modified_gmt":"2021-11-26T08:09:45","slug":"a-familia-desbassayns-na-economia-acucareira-de-bourbon","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/uma-sociedade-de-plantacao\/as-grandes-familias-de-plantadores\/a-familia-desbassayns-na-economia-acucareira-de-bourbon\/","title":{"rendered":"A fam\u00edlia Desbassayns na economia a\u00e7ucareira de Bourbon"},"content":{"rendered":"<h2>A no\u00e7\u00e3o de economia de planta\u00e7\u00e3o \u00e9, por um lado, comum e, por outro, de certa forma, obsoleta, sobretudo, no que respeita ao mundo colonial franc\u00eas, em geral, e a Bourbon, em particular.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-5241-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/poster_geraud.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/GERAUD_ST_PORT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/GERAUD_ST_PORT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/GERAUD_ST_PORT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O voc\u00e1bulo ingl\u00eas \u00ab<em>plantation<\/em>\u00bb significa \u00ab<em>habitation<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5097595120748579\" aria-label=\"Que se traduz por habita\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span> (propriedade) em franc\u00eas, sendo, no entanto, uma generaliza\u00e7\u00e3o abusiva aplicada ao termo \u00ab<em>plantation<\/em>\u00bb, emprestado do ingl\u00eas pelo imp\u00e9rio colonial franc\u00eas dos s\u00e9culos XVII-XIX, altura em que substituiu a \u00ab<em>habitation<\/em>\u00bb para designar uma explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola tropical durante mais ou menos o per\u00edodo em que vigorou o sistema esclavagista <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7132732000485376\" aria-label=\"Maurice Burac e Danielle B\u00e9got (\u2020), L\u2019Habitation\/plantation. H\u00e9ritages et mutations. Cara\u00efbe-Am\u00e9rique. Paris : Karthala, 2011, 492 p.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Augustin Cochin definia estas planta\u00e7\u00f5es como \u00ab<em>pris\u00f5es sem muralhas, f\u00e1bricas odiosas que produzem tabaco, caf\u00e9 e a\u00e7\u00facar e consomem escravos<\/em>\u00bb <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9091460577294981\" aria-label=\"Augustin Cochin L'Abolition de l'esclavage, 2 vols. Paris : Lecoffre et Guillaumin, 1861.\">&nbsp;<\/span>. O conceito heur\u00edstico de economia de planta\u00e7\u00e3o foi inventado por economistas e soci\u00f3logos impregnados de marxismo e anticolonialismo para tra\u00e7ar os contornos de uma economia e uma sociedade que, nos tempos modernos, aplicaram uma forma de explora\u00e7\u00e3o capitalista ao mundo colonial tropical e cujo \u00eaxito se deveu, apenas e s\u00f3, \u00e0 escravatura. A economia de planta\u00e7\u00e3o est\u00e1 na raiz daquilo a que chamamos o primeiro capitalismo comercial globalizado (1450-1804), que se utiliza no mundo colonial, por oposi\u00e7\u00e3o ao capitalismo industrial (1750-1975), desenvolvido nos pa\u00edses da Europa ocidental, da Am\u00e9rica do Norte e de uma parte da \u00c1sia, atualmente designados \u00abo Norte\u00bb.<\/p>\n<p>O \u00abfen\u00f3meno social total\u00bb que constitui a planta\u00e7\u00e3o, em termos de estrutura fundi\u00e1ria (unidade agr\u00edcola de grande superf\u00edcie, que tende para a monocultura) e de estrutura industrial (transforma\u00e7\u00e3o de uma produ\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole), determina uma economia altamente integrada na esfera financeira, que implica um crescente endividamento dos plantadores e a consequente tomada de posse pelos negociantes e os seus investidores. Al\u00e9m disso, faz-se acompanhar de uma estrutura social muito r\u00edgida \u2014 \u00ab<em>o plantador latifundi\u00e1rio no topo e o escravo africano na base<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44212321457327763\" aria-label=\"Jacques Forster, \u00ab\u201cKing sugar\u201d. Naissance et expansion de l\u2019\u00e9conomie de plantation dans les cara\u00efbes\u00bb, in Le village pi\u00e9g\u00e9, Urbanisation et agro-industrie sucri\u00e8re en C\u00f4te d'Ivoire, dir. Cahiers de l\u2019IUED. Genebra: Graduate Institute Publications, 1978, 366 p., p. 309-329. \">&nbsp;<\/span>\u2014, uma vez que o predom\u00ednio da grande propriedade acarreta a promo\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio \u00e9tnico (\u00abracial\u00bb, como se dizia \u00e0 \u00e9poca) no \u00e2mbito dos sistemas esclavagistas e p\u00f3s-esclavagistas. O escravo da planta\u00e7\u00e3o, originalmente comercializado, apresenta todas as caracter\u00edsticas do prolet\u00e1rio e do trabalhador dependente, com a exce\u00e7\u00e3o de ser livre e remunerado\u2026 Isto porque \u00e9 \u00e0 planta\u00e7\u00e3o\/\u00abhabita\u00e7\u00e3o\u00bb que se deve a acumula\u00e7\u00e3o primitiva do proletariado e a inven\u00e7\u00e3o das suas formas de controlo. A primeira classe oper\u00e1ria do capitalismo \u00e9 negra, e a planta\u00e7\u00e3o\/\u00abhabita\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 o laborat\u00f3rio da grande f\u00e1brica.<br \/>\n\u00c9 a partir dos finais do s\u00e9culo XVIII que esse sistema come\u00e7a a ser posto em causa, por motivos morais e, tamb\u00e9m, econ\u00f3micos. A prem\u00eancia da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura viria a permitir a moderniza\u00e7\u00e3o da planta\u00e7\u00e3o colonial com a ado\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e a constitui\u00e7\u00e3o de um assalariado mais produtivo \u2014 e a d\u00favida era se este poderia ou n\u00e3o ser reprimido\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p>O termo ingl\u00eas <em>plantation<\/em> designa, em primeiro lugar, e em termos gerais, a instala\u00e7\u00e3o de colonos do ultramar, independentemente da sua rela\u00e7\u00e3o com a terra e os modos de explora\u00e7\u00e3o, e, em segundo lugar, a grande explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola colonial. Aplica-se, desde logo, \u00e0s explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas americanas cujos propriet\u00e1rios, condicionados pelo protestantismo, entendiam o seu \u00eaxito material como sinal de escolha divina, mesmo que, para isso, tivessem de escravizar outros seres humanos. No mundo colonial franc\u00eas \u2014 e, muito particularmente, em Bourbon, situada nos ant\u00edpodas do mundo anglo-sax\u00e3o \u2014, os primeiros habitantes-exploradores, longe de considerar que deviam o que quer que fosse \u00e0 metr\u00f3pole ou a Deus, n\u00e3o s\u00f3 exprimem um firme sentido de propriedade e de identidade, como at\u00e9 fazem os poss\u00edveis para escapar ao controlo da Companhia das \u00cdndias e para ficar com todos os seus ganhos ou a \u00ab<em>papa<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7863095700921907\" aria-label=\"A palavra original \u00e9 \u00abgobes\u00bb. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span> toda, como se diria em crioulo\u2026<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, na sua origem, a palavra francesa \u00ab<em>plantation<\/em>\u00bb significa apenas plantar sementes ou plantas na terra. Em boa verdade, o par terminol\u00f3gico, \u00ab<em>habitation-plantation<\/em>\u00bb, \u00e9 muito pr\u00f3prio do franc\u00eas. Essa dualidade, na l\u00edngua francesa, pressup\u00f5e que a realidade da \u00ab<em>habitation<\/em>\u00bb, ou seja, o facto de nos instalarmos, habitarmos uma terra para nela viver, longe da autoridade absoluta \u2014 a autoridade que n\u00e3o s\u00f3 fecha os loucos em asilos e os pobres em hosp\u00edcios, como tamb\u00e9m segrega os protestantes, com a revoga\u00e7\u00e3o do \u00c9dito de Nantes, e os escravos, com a cria\u00e7\u00e3o do<em> Code noir<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.24915862132314426\" aria-label=\"O C\u00f3digo Negro. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span> (legisla\u00e7\u00f5es criadas em 1685\u2026) \u2014, precede o facto da produ\u00e7\u00e3o de qualquer produto agr\u00edcola com vista a export\u00e1-lo para uma metr\u00f3pole, numa economia extravertida. Em Bourbon \u2014 e em menor medida, no mundo colonial franc\u00eas \u2014 o povoamento, a explora\u00e7\u00e3o e a cultura giram em torno da \u00abhabita\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que, no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o, a unidade social de base seria um \u00abhabitat\u00bb tempor\u00e1rio, que corresponde a uma primeira forma de economia de preda\u00e7\u00e3o, cabana fr\u00e1gil, ou aquilo a que se chama ajoupa, boucan ou cayenne. A institui\u00e7\u00e3o de uma autoridade permanente \u2014 a Companhia das \u00cdndias, depois, a Administra\u00e7\u00e3o Real (1767) \u2014, contudo, traz as primeiras aloca\u00e7\u00f5es de concess\u00f5es, a serem obrigatoriamente arroteadas e habitadas (1713, despacho real de Marly). A partir de ent\u00e3o, tanto no oceano \u00cdndico como no Atl\u00e2ntico, o termo \u00abhabitation\u00bb passou a designar a unidade de troca, produ\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o crioula. Essa \u00abhabitation\u00bb primitiva \u00e9 um agrupamento estruturado de cariz aut\u00e1rcico, que abrange, por um lado, a \u00ablocaliza\u00e7\u00e3o\u00bb, em que se edificam as resid\u00eancias do concession\u00e1rio e as depend\u00eancias necess\u00e1rias para a vida quotidiana e a explora\u00e7\u00e3o (cozinhas, reservas, eiras para o caf\u00e9 e os t\u00eaxteis \u2014 s\u00f3 nas Ilhas Mascarenhas \u2014 lojas e hangares) e as cubatas dos escravos. Nas imedia\u00e7\u00f5es, h\u00e1 hortas\/pomares para a produ\u00e7\u00e3o de v\u00edveres e, um pouco mais afastadas, savanas onde o gado pasta, seguidas de bosques e, depois, terras incultas por desbravar. Apesar de tudo, a divis\u00e3o radial do solo a partir da beira-mar (do \u00abbater das ondas\u00bb, a jusante, ao \u00abcume das montanhas\u00bb, a montante), favorece naturalmente o encaminhamento das produ\u00e7\u00f5es para o litoral e indica que, voltando as costas ao interior das terras, a explora\u00e7\u00e3o marca, assim, o seu v\u00ednculo \u00e0 metr\u00f3pole. Nas terras por desbravar, surge um habitat sedent\u00e1rio orientado para a agricultura. \u00c9 a cabana \u00abde madeira esquadriada\u00bb de Regnault cujo modelo se vulgariza: contam-se de entre 15 e 20, a partir de 1672. Assente numa base de pedra e terra batida, essas cubatas de t\u00e1buas e madeiras esquadriadas s\u00e3o cobertas com ripas de madeira ou folhas de palmistes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_159\" aria-describedby=\"caption-attachment-159\" style=\"width: 374px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-case-de-bois-equarri.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-159 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-case-de-bois-equarri.jpg\" alt=\"\" width=\"374\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-case-de-bois-equarri.jpg 374w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-1-case-de-bois-equarri-265x300.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 374px) 100vw, 374px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-159\" class=\"wp-caption-text\">Cabana de madeira esquadriada. Detalhe de <em>Le Manchy: paysage des environs de Saint-Paul.<\/em><br \/>Louis Antoine Roussin. Segunda metade do s\u00e9culo XIX. Litografia. <br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>De acordo com o testemunho de Antoine Boucher (1720), \u00abh\u00e1 que abater, no m\u00ednimo, 7000 a 8000 palmistes para cobrir uma cubata, que seja um pouco grande\u00bb&#8230; Edificadas por carpinteiros vindos de v\u00e1rias regi\u00f5es da Fran\u00e7a, essas casas de elementos de madeira feitas em materiais locais tamb\u00e9m inspiram a experi\u00eancia do Fort-Dauphin de Madag\u00e1scar. Esse habitat pr\u00e9-fabricado pode ser desmontado pelos pioneiros, que remontar\u00e3o as \u00abmadeiras\u00bb das suas cubatas em novas localiza\u00e7\u00f5es. Em 1738, quando Mah\u00e9 de La Bourdonnais transfere a capital de Saint-Paul para Saint-Denis, o pequeno burgo \u00e9 composto por cerca de cem casas constru\u00eddas em madeira \u2014 salvo as do governador e de outras figuras importantes, que s\u00e3o feitas em pedra.<\/p>\n<p>Na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XVIII, a natureza das \u00abhabita\u00e7\u00f5es\u00bb muda, porque a Companhia das \u00cdndias imp\u00f5e a cultura do caf\u00e9. Em agosto de 1735, um recenseamento das pessoas que viviam em cada um dos quatro bairros (Saint-Paul, Saint\u2212Denis, Sainte-Suzanne, Saint-Louis), \u00abhabita\u00e7\u00e3o\u00bb por \u00abhabita\u00e7\u00e3o\u00bb, fornece um total de 1873 brancos, 430 dos quais propriet\u00e1rios; desses 430 propriet\u00e1rios, 347 cultivam efetivamente a terra com 7664 escravos, o que se traduz em 17,8\u00a0escravos por propriet\u00e1rio. Em m\u00e9dia, por\u00e9m, a superf\u00edcie realmente cultivada \u00e9 muito menor: 12,87 ha em Saint-Paul, 10,61\u00a0ha em Saint-Denis, 10,87 ha em Sainte-Suzanne e 4,16 ha em Saint-Louis! Desses 347 habitantes, 95 % (329) cultivam caf\u00e9, geralmente, a par de culturas de subsist\u00eancia: a partir dessa \u00e9poca, notamos uma inexist\u00eancia de monoculturas, que ser\u00e3o praticadas um s\u00e9culo mais tarde, com as planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O modelo imposto pela Companhia das \u00cdndias exige a extens\u00e3o progressiva das superf\u00edcies cobertas de planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 e a importa\u00e7\u00e3o acelerada de escravos: de 1729 a 1733, j\u00e1 desembarcariam cerca de 3500 escravos em Bourbon, que, tal como as outras ilhas, funciona como ratoeiras para escravos <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7918569746287698\" aria-label=\"Claude Mazet, L\u2019\u00eele Bourbon en 1735 : les hommes, la terre, le caf\u00e9 et les vivres, dans Fragments pour une histoire des \u00e9conomies et soci\u00e9t\u00e9s de plantation \u00e0 La R\u00e9union, Cl. Wanquet dir. Saint-Andr\u00e9 : Graphica\/Universit\u00e9 de La R\u00e9union, 1989, 350 p., p. 17-54.\">&nbsp;<\/span> . Dos 329 plantadores de caf\u00e9, 116 utilizam mais de 20\u00a0escravos. A partir de 1735, o essencial da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 fica nas m\u00e3os de um n\u00famero reduzido de grandes plantadores: 6 % dos produtores fornecem quase 48 % da produ\u00e7\u00e3o total, empregando uma m\u00e9dia de 58 escravos por \u00abhabita\u00e7\u00e3o\u00bb. Pouco a pouco, as propriedades cafeeiras come\u00e7am a satisfazer os crit\u00e9rios da \u00abeconomia de planta\u00e7\u00e3o\u00bb: unidades de produ\u00e7\u00e3o de grandes dimens\u00f5es recorrendo a m\u00e3o de obra for\u00e7ada e n\u00e3o remunerada, produ\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e protegida, uma classe reduzida de plantadores vinculados a correspondentes metropolitanos e detentora de grande poder pol\u00edtico e com um estatuto social elevado<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9749402860780514\" aria-label=\"George L. Beckford, Persistent Poverty, underdevelopment in plantation economies of the Third World. Oxford : Oxford University Press, 1972, 307 p.\">&nbsp;<\/span> . A Companhia das \u00cdndias funciona como uma empresa de importa\u00e7\u00e3o\/exporta\u00e7\u00e3o e como um banco, enquanto o \u00abhabitant\u00bb (propriet\u00e1rio), plantador e vendedor de caf\u00e9 compra os produtos que ela importa e pede-lhe empr\u00e9stimos de capital: a economia local rege-se pela l\u00f3gica do lucro no quadro geral de um capitalismo comercial que ganha os seus contornos.<\/p>\n<p>No entanto, em Bourbon, e ao contr\u00e1rio da zona das Cara\u00edbas, as \u00abhabita\u00e7\u00f5es\u00bb nunca ocuparam a totalidade do territ\u00f3rio nem dominaram imperiosamente o espa\u00e7o social. As classes altas mantiveram-se inc\u00f3lumes por muito tempo, e a natureza \u00abvirgem\u00bb permanece sempre pr\u00f3xima, insinuando-se at\u00e9 nas classes baixas \u00abpelos declives das ravinas \/Onde as ondas e os p\u00e1ssaros confundiam as suas can\u00e7\u00f5es\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3188020145546975\" aria-label=\"Auguste Lacaussade, Po\u00e8mes et Paysages, XLVI. Souvenirs d\u2019enfance. Paris : A. Lemerre, 1897 (1852).\">&nbsp;<\/span>, entrecortando as encostas cultivadas com uma flora primitiva\u2026 O facto de Sand, Leconte de Lisle, Adrien de Gaudemar, Pook (ou Alphonse Gaud) terem louvado a ravina do Bernica j\u00e1 demonstra claramente as fissuras do \u00abfen\u00f3meno total\u00bb da planta\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 origem ao arqu\u00e9tipo da ilha tropical selvagem&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5267\" aria-describedby=\"caption-attachment-5267\" style=\"width: 514px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.2-Ravine-Bernica-Le-Roy2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-5267 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.2-Ravine-Bernica-Le-Roy2.jpg\" alt=\"\" width=\"514\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.2-Ravine-Bernica-Le-Roy2.jpg 514w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.2-Ravine-Bernica-Le-Roy2-220x300.jpg 220w\" sizes=\"auto, (max-width: 514px) 100vw, 514px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5267\" class=\"wp-caption-text\">Le Bernica. Adolphe Le Roy.1884. \u00d3leo sobre tela.<br \/>Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m disso, as habita\u00e7\u00f5es de Bourbon caracterizam-se pela presen\u00e7a f\u00edsica do senhor, que mant\u00e9m com os escravos uma rela\u00e7\u00e3o de autoridade e, ao mesmo tempo, proximidade, ao contr\u00e1rio do dom\u00ednio americano, que, ao representar o senhor como administrador, o distancia dos escravos.<\/p>\n<p>O poder e o prest\u00edgio do \u00abhabitante\u00bb enriquecido pelo caf\u00e9 est\u00e3o simbolicamente patentes na sua resid\u00eancia, na sua \u00abcasa\u00bb. Com o desenvolvimento de uma arquitetura dominial grandiosa no s\u00e9culo XVIII, a resid\u00eancia do senhor passa a chamar-se a \u00abgrande casa\u00bb ou \u00abcasa principal\u00bb. Dado o que subentende, o senhor por oposi\u00e7\u00e3o ao escravo, a express\u00e3o \u00abcasa senhorial\u00bb \u00e9 anacr\u00f3nica e n\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O aumento da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 leva ao crescimento e embelezamento da casa. A do poeta Bertin, em Sainte-Suzanne , assente numa impressionante base de pedra, tem teto de ripas de madeira com janelas de mansarda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_163\" aria-describedby=\"caption-attachment-163\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-case-bertin.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-163 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-case-bertin.jpg\" alt=\"\" width=\"630\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-case-bertin.jpg 630w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-case-bertin-300x215.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 630px) 100vw, 630px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-163\" class=\"wp-caption-text\">Casa onde nasceu o poeta Bertin. Burgo de Sainte-Suzanne. Louis Antoine Roussin. 1863. Litografia. <br \/>Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esses plantadores opulentos s\u00e3o encarnados pela pessoa de Henri-Paulin Panon Desbassayns (1732-1800), neto de Augustin Panon (1664-1679), chegado a Bourbon em 1689.<\/p>\n<p>Em 1761, Henri-Paulin assinala o seu \u00eaxito com a constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas resid\u00eancias quase id\u00eanticas, n\u00e3o em madeira, como dita a tradi\u00e7\u00e3o de Bourbon, mas com materiais pesados, para se proteger dos \u00abgolpes de vento\u00bb.<\/p>\n<p>Essa imagem de construtor, muito enraizada nas mentalidades locais, denota a a\u00e7\u00e3o de um homem que revindica uma forte identidade crioula \u2014 diz-se \u00abestrangeiro\u00bb em Fran\u00e7a e deixa que o chamem \u00abo Africano\u00bb \u2014, mas desenvolveu-se atrav\u00e9s de v\u00e1rias redes, como as outras fam\u00edlias dominantes da ilha, ainda que a um grau superior. Desde logo, a rede dos oficiais do rei a servir na \u00cdndia: Guy L\u00e9onard de Bellecombe, primeiro governador da Reuni\u00e3o, sob a chefia de Pierre Poivre, Joseph Ferdinand Anasthase de Boistel, Claude Joseph Guignard de La Bioli\u00e8re, Louis Alexis Grillot de Poilly, Pierre Elie Fran\u00e7ois Josset de La Parenterie, Antoine de Mellis, Beno\u00eet Mottet de La Fontaine, bar\u00e3o de Saint-Mart, Thomas de Conway, oficiais que Desbassayns encontra nas suas duas primeiras estadias em Paris<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.40725648468889997\" aria-label=\"Herv\u00e9 Perret, \u00abUne communaut\u00e9 de l'Oc\u00e9an Indien \u00e0 Paris au XVIIIe si\u00e8cle, le monde d'Henry Paulin Panon Desbassayns: tentative d'expression d'un r\u00e9seau\u00bb, https:\/\/sites.google.com\/site\/brissetpanonduhazier\/henry-paulin-panon-desbassayns?tmpl=%2Fsystem%2Fapp%2Ftemplates%2Fprint%2F&amp;showPrintDialog=1\">&nbsp;<\/span> . Depois, as redes da banca protestante, que inclui diretores no comando da Companhia das \u00cdndias e promove os interesses dos huguenotes nos estados do norte da Europa e nos territ\u00f3rios long\u00ednquos da \u00cdndia e, at\u00e9, da China \u2014 prova disso s\u00e3o as suas rela\u00e7\u00f5es com Louis Julien, o seu banqueiro, aliado de Jacques Rilliet, que disp\u00f5e de institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias em Paris na Su\u00ed\u00e7a, e com os Admyrauld, em boa parte envolvidos no com\u00e9rcio colonial, nomeadamente, no tr\u00e1fico negreiro. As suas desloca\u00e7\u00f5es pela prov\u00edncia dilatam as fronteiras da rede de Louis Julien na Fran\u00e7a, com Lacombe, correspondente em Revel \u2014 reduto dos interesses huguenotes \u2014 e os banqueiros protestantes Lys e Johnston, em Bord\u00e9us, a quem leva letras de c\u00e2mbio, assinalando a extens\u00e3o de circuitos monet\u00e1rios que ligam Bourbon ao com\u00e9rcio colonial de Genebra, Londres ou G\u00e9nova e aos territ\u00f3rios mar\u00edtimos, via Paris. Por fim, a rede da franco-ma\u00e7onaria, que reflete essa matura\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, social e pol\u00edtica das lojas praticantes de um cosmopolitismo seletivo, restringido a negociantes, cultivadores, parentela e administradores, evitando convidar ao templo os livres de cor. Apesar de n\u00e3o encontrarmos qualquer associa\u00e7\u00e3o sua com as lojas da Reuni\u00e3o ou da Maur\u00edcia, Henry Panon diz ter sido admitido pela ma\u00e7onaria escocesa \u00abRosa Cruz\u00bb a 26 de julho de 1792 e ter sido recebido como oficial do Grande Oriente, a 23 de agosto do mesmo ano.<\/p>\n<p>Estas liga\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o evidenciadas por uma sociabilidade local desenvolvida em torno do parentesco direto de Henry Panon: as fam\u00edlias Varnier de La Gironde, Grayell, de Lanux, Leger, de La Selle, de La Bioli\u00e8re, Routier de Grandval e Delaunay, origin\u00e1rias dos territ\u00f3rios insulares de Bourbon e da Maur\u00edcia, demonstram uma solidariedade familiar que n\u00e3o exclui a promo\u00e7\u00e3o de vantagens comuns. A extens\u00e3o e a efic\u00e1cia do poder do soldado que se tornou plantador explicam-se, ent\u00e3o, pela sua inclus\u00e3o nesses espa\u00e7os e redes de poder e, de forma alguma resultam de um plantador por si s\u00f3: a terra assume apenas um papel secund\u00e1rio nessa prosperidade, que est\u00e1 longe de ser determinada pela escravatura. Essas colus\u00f5es de interesses financeiros, confessionais, culturais e fraternais, associadas, nomeadamente, \u00e0 Companhia das \u00cdndias, tamb\u00e9m se traduzem num paradoxo, ao afirmarem a sua identidade crioula. Em finais do s\u00e9culo XVIII, essa elite indiano-oce\u00e2nica branca j\u00e1 est\u00e1 preparada para ganhar poder e desejosa de seguir um destino pol\u00edtico. Poder\u00e3o a Revolu\u00e7\u00e3o e as suas Assembleias coloniais trazer as chaves para uma emancipa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria asfixiada pelo absolutismo colonial?<\/p>\n<hr \/>\n<p>A cultura do caf\u00e9 sofre v\u00e1rios revezes: vendas ao desbarato, concorr\u00eancia antilhana, baixas de pre\u00e7o, endividamento e\/ou ru\u00edna de uma parte dos habitantes. Por volta de 1775, apenas 2,5 % das propriedades cafeeiras t\u00eam mais de 100 ha, e apesar de a Bourbon oitocentista acolher uma classe importante de grandes plantadores (de caf\u00e9, cravinho e algod\u00e3o: 10 % dos propriet\u00e1rios possuem 90 % dos escravos), as suas perspetivas econ\u00f3micas s\u00e3o pouco encorajadoras.<\/p>\n<p>Mas estes v\u00e3o aproveitar a Revolu\u00e7\u00e3o para desempenhar um papel pol\u00edtico \u2014 s\u00e3o eles que dominam as primeiras e as \u00faltimas assembleias coloniais, apesar de a sua supremacia ser temporariamente contestada na \u00e9poca jacobina. No fim das contas, no per\u00edodo revolucion\u00e1rio, a sociedade colonial constitui um dos grandes n\u00facleos de forma\u00e7\u00e3o da ideologia nacional. \u00c9 certo que algumas elites \u00abplantacion\u00e1rias\u00bb da ilha tinham alimentado a ilus\u00e3o de uma independ\u00eancia de Bourbon, que se desdobrou num intermin\u00e1vel folhetim, entre fevereiro de 1799 e dezembro de 1800. Ao destacar Bourbon da Fran\u00e7a, o que se pretendia era, pois, reaproxim\u00e1-la da Inglaterra, sem chegar \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o. O desafio era a escravatura: a Revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha tentado, em v\u00e3o, aplicar a aboli\u00e7\u00e3o (1794) nas Mascarenhas (1796), e temia-se que n\u00e3o deixaria de tentar, enquanto os ingleses garantiriam a manuten\u00e7\u00e3o do sistema servil \u2014 pelo menos, segundo os plantadores que subestimavam a pugnacidade e a influ\u00eancia dos abolicionistas. Contudo, Vill\u00e8le, na altura secret\u00e1rio e protegido do almirante de Saint-F\u00e9lix destacado na Ilha de Fran\u00e7a, tinha feito abortar o projeto<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6035373912283699\" aria-label=\"Charles de Mazade, L\u2019Homme d\u2019affaires de la Restauration \u2013 M. de Vill\u00e8le, Revue des Deux Mondes, 3e p\u00e9riode, t. 107, 1891, p. 5-43.\">&nbsp;<\/span> , e a quest\u00e3o resolveu-se em 1802, quando Bonaparte restabeleceu a escravatura.<br \/>\nPor conseguinte, essa classe de plantadores faz sistematicamente uma convers\u00e3o de capital pol\u00edtico em capital econ\u00f3mico, bem como a passagem de um espa\u00e7o social para outro \u2014 que se explica pelo facto de o custo social ser muito baixo, a transi\u00e7\u00e3o ser f\u00e1cil e as gratifica\u00e7\u00f5es serem imediatamente tang\u00edveis. Esta classe que passa a ocupar o dom\u00ednio econ\u00f3mico continua a funcionar em redes. A descend\u00eancia de Henri-Paulin Panon Desbassayns confirma-o atrav\u00e9s de alian\u00e7as. O filho Philippe, nomeado Ordenador da Reuni\u00e3o, em 1817, e, de seguida, \u00abcomiss\u00e1rio inspetor para o rei\u00bb nas feitorias da \u00cdndia, em 1818, e feito bar\u00e3o de Richemont na Restaura\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m o redator, com o apoio do cunhado, Vill\u00e8le, do despacho de 21\u00a0de agosto de 1825, que, ao for\u00e7ar o pr\u00edncipe a nomear todos os respons\u00e1veis pol\u00edticos, faz aumentar o controlo da sua fam\u00edlia sobre a ilha.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5264\" aria-describedby=\"caption-attachment-5264\" style=\"width: 486px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.4-Philippe-Panon-Desbassayns-de-Richemont-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-5264 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.4-Philippe-Panon-Desbassayns-de-Richemont-1.jpg\" alt=\"\" width=\"486\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.4-Philippe-Panon-Desbassayns-de-Richemont-1.jpg 486w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ill.4-Philippe-Panon-Desbassayns-de-Richemont-1-224x300.jpg 224w\" sizes=\"auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5264\" class=\"wp-caption-text\">Philippe Panon Desbassayns de Richemont. Pormenor de Arbre g\u00e9n\u00e9alogique de la famille Desbassayns.<br \/>J\u00e9han de Vill\u00e8le. 1989. Aguarela, carv\u00e3o.<br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>A filha, M\u00e9lanie, desposa Joseph, o conde de Vill\u00e8le, ministro e, depois, presidente do Conselho sob Lu\u00eds XVIII e Carlos X .<\/p>\n<figure id=\"attachment_169\" aria-describedby=\"caption-attachment-169\" style=\"width: 519px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-1997-6-villele-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-169 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-1997-6-villele-web.jpg\" alt=\"\" width=\"519\" height=\"623\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-1997-6-villele-web.jpg 519w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-1997-6-villele-web-250x300.jpg 250w\" sizes=\"auto, (max-width: 519px) 100vw, 519px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-169\" class=\"wp-caption-text\">Vill\u00e8le. Fran\u00e7ois-S\u00e9raphin Delpech. Primeiro quartel do s\u00e9culo XIX. Litografia, realce de cor. <br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Pelo seu intermedi\u00e1rio, Eug\u00e8ne, ser\u00e1 nomeado Ordenador de Pondich\u00e9ry, em 1824, e, depois, governador, de junho de 1826 a 1829<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6280585019603062\" aria-label=\"Nessa altura, vai para Fran\u00e7a e torna-se um qu\u00edmico de renome.\">&nbsp;<\/span>. O pequeno Montbrun, filho de Henri-Paulin, acede \u00e0 carreira de cobrador-geral das finan\u00e7as e junta-se \u00e0 nobreza de Bord\u00e9us.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_171\" aria-describedby=\"caption-attachment-171\" style=\"width: 1054px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-eugene-de-villele-2017-3-4-1-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-171 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-eugene-de-villele-2017-3-4-1-web.jpg\" alt=\"\" width=\"1054\" height=\"1153\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-eugene-de-villele-2017-3-4-1-web.jpg 1054w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-eugene-de-villele-2017-3-4-1-web-274x300.jpg 274w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-eugene-de-villele-2017-3-4-1-web-768x840.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-eugene-de-villele-2017-3-4-1-web-936x1024.jpg 936w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-171\" class=\"wp-caption-text\">Mr. Eug. Desbresseurs [sic] Conde de Richemont. Entre 1828 e 1842. Grafite. <br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>Ora, entre esta descend\u00eancia, dois filhos, Charles e Joseph, escolher\u00e3o para Bourbon a cultura da cana-de-a\u00e7\u00facar e a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar logo no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, levando assim a elite de plantadores da Ilha a seguir-lhes o exemplo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.06285049716354196\" aria-label=\"Jean-Fran\u00e7ois G\u00e9raud, Les Ma\u00eetres du sucre. \u00cele Bourbon. 1810-1848... Saint-Andr\u00e9 : CRESOI-Graphica, 2013, 367 p.\">&nbsp;<\/span>. As convuls\u00f5es pol\u00edticas ligadas \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o alteraram o contexto econ\u00f3mico internacional em que a Ilha se insere. Aproveitando as oportunidades, por um lado, negativas, da aniquila\u00e7\u00e3o quase total dos cafezais da Ilha pelas grandes intemp\u00e9ries de 1806, e, por outro, positivas, da independ\u00eancia de S\u00e3o Domingos e da anexa\u00e7\u00e3o da Maur\u00edcia, os irm\u00e3os Desbassayns, e, depois, a maioria dos colonos de Bourbon, voltam as costas ao caf\u00e9, ao cravinho, etc. para se lan\u00e7arem na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do caf\u00e9, que era sujeito a imposto pela Companhia, o a\u00e7\u00facar foi uma escolha dos pr\u00f3prios plantadores, motivados pelo lucro, sobretudo tanto mais que, na Europa, o seu consumo conhece um crescimento espetacular: 1 kg por habitante\/ano, em 1822; 2,7 kg por habitante\/ano, em 1840. Em 1823, s\u00e3o plantados 4200 ha, em Bourbon, e 25 300 ha em 1846. Dado necessitar, desde a colheita, de um complexo processo de transforma\u00e7\u00e3o, sob pena de se perder uma grande parte do seu teor em sacarose, a cana requer uma industrializa\u00e7\u00e3o efetiva e um fluxo constante de financiamento para acompanhar os progressos t\u00e9cnicos. Originalmente rejeitada em Bourbon, essa escolha leva os colonos a alargarem, desde logo, o seu campo de a\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, colocando-os \u00e0 margem das estruturas administrativas na sua rela\u00e7\u00e3o de exporta\u00e7\u00e3o para a Fran\u00e7a \u2014 salvo da prote\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria \u2014, sujeitando-os \u00e0 concorr\u00eancia dos colonos antilhanos, que gozavam das vantagens do tempo e da experi\u00eancia, e inserindo-os na conjuntura nacional \u2014 ou mundial \u2014 do a\u00e7\u00facar. O estabelecimento da ind\u00fastria a\u00e7ucareira faz tamb\u00e9m uma transposi\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio econ\u00f3mico da quest\u00e3o fundamental que, na altura, agitava os intelectuais de Bourbon: a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o dos mais influentes com o poder central, do estatuto da classe dos dirigentes e, em consequ\u00eancia, do territ\u00f3rio que exploram e que dirigem.<\/p>\n<p>A rutura que a cultura do a\u00e7\u00facar implica faz-se por etapas, com o abandono dos modelos da Maur\u00edcia, das Antilhas e de S\u00e3o Domingos e o aperfei\u00e7oamento de um modelo da Reuni\u00e3o que se caracteriza por uma singular inova\u00e7\u00e3o no mundo do a\u00e7\u00facar: a partir de 1817, Charles Desbassayns adota a m\u00e1quina a vapor (uma m\u00e1quina inglesa da marca Fawcett, com um caldeir\u00e3o) para acionar o moinho da cana-de-a\u00e7\u00facar<\/p>\n<figure id=\"attachment_173\" aria-describedby=\"caption-attachment-173\" style=\"width: 515px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7-charles-desbassayns-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-173\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7-charles-desbassayns-web.jpg\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7-charles-desbassayns-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7-charles-desbassayns-web-238x300.jpg 238w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7-charles-desbassayns-web-768x970.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-173\" class=\"wp-caption-text\">Charles Desbassayns. Pormenor de <em>Arbre g\u00e9n\u00e9alogique de la famille Desbassayns<\/em>.<br \/>J\u00e9han de Vill\u00e8le. 1989. Aguarela, carv\u00e3o.<br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>O recurso a esta inova\u00e7\u00e3o \u2014 no exterior ou a n\u00edvel local \u2014, leva ao aperfei\u00e7oamento da bateria Gimard, a \u00abbateria colonial\u00bb de Wetzell<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.10915669304704112\" aria-label=\"Jean-Fran\u00e7ois G\u00e9raud, Joseph Martial Wetzell (1793-1857) : une r\u00e9volution sucri\u00e8re oubli\u00e9e \u00e0 La R\u00e9union, Revue Historique des Mascareignes, n\u00b0 1, junho de 1998, AHIOI, 269 p., p. 113-156.\">&nbsp;<\/span>com as suas prensas de escumas, filtros e rotadores, e \u00e0 ado\u00e7\u00e3o das turbinas e da cozedura em v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>Para produzirem a\u00e7\u00facar e, mais tarde, tornarem-se a\u00e7ucareiros, os \u00abhabitantes\u00bb ter\u00e3o de adquirir novas compet\u00eancias: aprofundar o \u00absaber da terra\u00bb, que parte do conhecimento emp\u00edrico e entra no dom\u00ednio do conhecimento cient\u00edfico (observa\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas e pedol\u00f3gicas; aperfei\u00e7oamento de um m\u00e9todo de cultura da cana e relan\u00e7amento da cultura da mandioca que se torna \u00aba base da alimenta\u00e7\u00e3o dos escravos\u00bb por Joseph Desbassayns); compreender as exig\u00eancias profissionais e fazer escolhas t\u00e9cnicas inovadoras; ganhar um esp\u00edrito empreendedor, em que, para citar o exemplo de J.-B. Say, o empres\u00e1rio passa a protagonista do progresso das sociedades, combinando os fatores de produ\u00e7\u00e3o, e a deten\u00e7\u00e3o de capitais passa para segundo plano. A \u00fanica compet\u00eancia que esses a\u00e7ucareiros t\u00eam dificuldade em adquirir \u00e9 a compet\u00eancia da gest\u00e3o: alguns geriram mal os seus cr\u00e9ditos, cedendo a um frenesim de compras e empr\u00e9stimos e perdendo o contacto com a realidade, como Abadie, de La Serve, Despeissis, Pignolet, Mlle Lagourgue e, sobretudo, Joseph Desbassayns\u2026<\/p>\n<p>O \u00eaxito global de Charles Desbassayns e do seu cl\u00e3 familiar faz a interconex\u00e3o dos espa\u00e7os t\u00e9cnicos indiano-oce\u00e2nico, antilhano e europeu para criar um verdadeiro espa\u00e7o t\u00e9cnico de Bourbon coerente e din\u00e2mico, assegurando a difus\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o junto dos outros a\u00e7ucareiros da Ilha. Com efeito, os Desbassayns abrem largamente as suas a\u00e7ucareiras aos \u00abhabitantes\u00bb, para que eles possam imitar os seus equipamentos ou inspirar-se neles.<\/p>\n<p>Essa \u00absociabilidade t\u00e9cnica\u00bb torna-se poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s m\u00faltiplas alian\u00e7as matrimoniais anteriores ao a\u00e7\u00facar, mas por ele refor\u00e7adas. Para vincar essa alian\u00e7a, os casamentos s\u00e3o, na sua maioria, celebrados sob o regime da comunidade: \u00ab<em>O casamento \u00e9 a alian\u00e7a entre dois sogros<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9693937443780742\" aria-label=\"Denis Woronoff, Histoire de l\u2019industrie en France, du XVIe si\u00e8cle \u00e0 nos Jours. Paris : Seuil, Points Histoire, reed. 1998, 674 p.\">&nbsp;<\/span> , e, em Bourbon, as uni\u00f5es celebradas nos meios do a\u00e7\u00facar n\u00e3o fogem a essa regra. A alian\u00e7a matrimonial desempenha um papel fundamental, pelo menos, no in\u00edcio do per\u00edodo, em que o capitalismo ainda n\u00e3o se faz sentir tanto, at\u00e9 porque os habitantes sabem perfeitamente discernir que compet\u00eancias poder\u00e3o ser-lhes \u00fateis nos seus futuros genros. Recrutado em 1830 pelos Desbassayns, De Chateauvieux (neto de Fran\u00e7ois Nion, gerente de Sra. Desbassayns desde 1814), rapidamente se torna genro de Charles, e esse descendente de um pequeno aristocrata arruinado pela Revolu\u00e7\u00e3o e que vingou na gest\u00e3o a\u00e7ucareira na metr\u00f3pole, inaugura uma carreira de criador de f\u00e1bricas (sobretudo em Vincendo), antes de gerir o seu pr\u00f3prio dom\u00ednio nos Colima\u00e7ons.<\/p>\n<p>Socialmente fortalecidos durante toda a primeira metade do s\u00e9culo xix, os a\u00e7ucareiros de Bourbon encontram o seu habitat natural no campo, nas suas \u00abhabita\u00e7\u00f5es\u00bb, entre a envolvente produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar, rodeados pelos familiares e amigos que comp\u00f5em as suas redes de vida social, mundana e profissional. Joseph Desbassayns vive tanto na sua propriedade do \u00abGrand Hazier\u00bb como nas dos seus vizinhos, Sicre de Fontbrune, Lescouble, o doutor Brun, a Sra. Dior\u00e9, ou a Sra. de Villentroy, P\u00e9richon de Sainte-Marie. Charles Desbassayns habita uma casa que mandou construir na sua propriedade do Chaudron. Em Basse-Terre, Saint-Pierre, a casa Deheaulme constru\u00edda no meio de um mangal, perto da a\u00e7ucareira, imp\u00f5e-se e destaca-se num terra\u00e7o precedido de quatro tanques de \u00e1gua do ben\u00e9fico canal Saint-Etienne. Essa fixa\u00e7\u00e3o rural demonstra bem como, ao contr\u00e1rio do que sucedida nas Antilhas, em Bourbon os a\u00e7ucareiros s\u00e3o residentes e n\u00e3o ausentes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_175\" aria-describedby=\"caption-attachment-175\" style=\"width: 561px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-8-maison-deheaulme-basse-terre-jpg.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-175 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-8-maison-deheaulme-basse-terre-jpg.jpg\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-8-maison-deheaulme-basse-terre-jpg.jpg 561w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-8-maison-deheaulme-basse-terre-jpg-300x180.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 561px) 100vw, 561px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-175\" class=\"wp-caption-text\">La Basse Terre (\u00e0 Mr. de Heaulme). Quartier St Pierre. Etienne-Adolphe d&#8217;Hastrel de Rivedoux. 1836-1837. Honor\u00e9 Clerget. 1847. Litografia.<br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1830, os a\u00e7ucareiros \u2014 j\u00e1 os principais animadores da \u00abeconomia de planta\u00e7\u00e3o\u00bb \u2014 acrescem \u00e0 sua casa rural uma \u00abinstala\u00e7\u00e3o\u00bb urbana onde residem frequentemente. Esse vasto movimento de instala\u00e7\u00e3o urbana abre-lhes muitas vezes as ruas principais ou os bairros centrais, como a atual rue de Paris ou o \u00abvelho quarteir\u00e3o\u00bb em Saint-Denis. Numa sociedade colonial cujo funcionamento econ\u00f3mico n\u00e3o depende fundamentalmente do desenvolvimento urbano, o tropismo dos a\u00e7ucareiros para a cidade ilustra a vontade de se integrar no poder como espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o, de fazer concorr\u00eancia aos agentes tradicionais do poder e de tirar partido dos elementos constitutivos da massa e da sociabilidade.<\/p>\n<p>Com efeito, os a\u00e7ucareiros ocupam os conselhos municipais, considerando que fazer parte de uma institui\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para exercer um poder na cidade, onde se interessam muitas vezes pelas redes de servi\u00e7os municipais e de abastecimento de \u00e1gua. Em Sainte-Marie, sob o morgado de Hugot, a\u00e7ucareiro, encontram-se homens da elite, como Charles Desbassayns, Martin-Flacourt, G\u00e9rard e Advisse Desruisseaux.<\/p>\n<p>Essas fam\u00edlias que enchem os conselhos municipais e o Conselho colonial \u2014 muitas vezes, exercendo fun\u00e7\u00f5es de conselheiros privados ou delegados \u2014 assumem responsabilidades na C\u00e2mara da agricultura e pertencem \u00e0s altas inst\u00e2ncias da mil\u00edcia, edificam redes e desenvolvem atitudes que permitir\u00e3o assegurar, at\u00e9 \u00e0 departamentaliza\u00e7\u00e3o, a vida pol\u00edtica e econ\u00f3mica da col\u00f3nia, apesar da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, as transi\u00e7\u00f5es para a rep\u00fablica e o sufr\u00e1gio universal.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Ir\u00e1 essa \u00abeconomia de planta\u00e7\u00e3o\u00bb periclitar, ap\u00f3s a segunda aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1848? O fim da escravatura, que traz grandes benef\u00edcios a alguns, decerto poderia parecer a outros uma esp\u00e9cie de \u00abdesencantamento\u00bb do mundo, sendo a modernidade capitalista facilmente fantasiada e percebida como um fator de nivelamento dos valores, em meados do s\u00e9culo XIX, numa vis\u00e3o apocal\u00edptica do mundo, onde o progresso se transforma em regress\u00e3o moral\u2026 Esta ilus\u00e3o dos perdedores do l\u00f3bi do a\u00e7\u00facar desvia-se do seu objetivo de abolir a escravatura para alimentar um fantasma de perda das origens e decl\u00ednio identit\u00e1rio que ainda hoje perdura.<\/p>\n<p>Para a maioria dos a\u00e7ucareiros, contudo \u2014 em primeiro lugar, os Desbassayns \u2014, a aceita\u00e7\u00e3o pac\u00edfica da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura de 1848 que contradiz as \u00abemo\u00e7\u00f5es\u00bb do passado, acarreta igualmente uma nova inteligibilidade pol\u00edtica. Os colonos abandonam o desejo, por vezes acompanhado, como j\u00e1 vimos, de independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metr\u00f3pole, mesmo correndo o risco de uma \u00abru\u00edna econ\u00f3mica\u00bb anunciada, que n\u00e3o aconteceu, muito pelo contr\u00e1rio: at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1860, a col\u00f3nia conhece uma prosperidade econ\u00f3mica sem precedentes. Os a\u00e7ucareiros aceitam o desaparecimento da escravatura, sem d\u00favida, tendo em conta a sua rentabilidade limitada no contexto capitalista e, sobretudo, porque a sua prioridade \u00e9 manter os la\u00e7os que os vinculam \u00e0 metr\u00f3pole, cuja realidade pol\u00edtica traduzem no plano econ\u00f3mico. A compensa\u00e7\u00e3o que exigem \u00e9 o elemento essencial dessa estrat\u00e9gia de aceita\u00e7\u00e3o e sinal desse deslocamento. Na verdade, essa compensa\u00e7\u00e3o \u00e9 o prot\u00f3tipo de uma pol\u00edtica de assist\u00eancia econ\u00f3mica, que vir\u00edamos a conhecer \u00ab<em>na Reuni\u00e3o, onde se espera mais facilmente um benef\u00edcio do que um direito<\/em>\u00bb, como o sublinha Jean Benoist<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9657602173576163\" aria-label=\"Jean Benoist, Paysans de La R\u00e9union. Aix-Paris : PUAM-CNRS, 1981, 100 p.\">&nbsp;<\/span>. Ora, a aboli\u00e7\u00e3o inscreve-se na l\u00f3gica de uma configura\u00e7\u00e3o de assimila\u00e7\u00e3o que ela pressup\u00f5e (o escravo alforriado pode tornar-se um igual do nascido em liberdade) \u2014 assimila\u00e7\u00e3o essa que contribui para definir o regime republicano cuja institui\u00e7\u00e3o \u00e9, assim, implicitamente aceite pelos a\u00e7ucareiros\u2026<\/p>\n<p>A escravatura n\u00e3o foi suprimida por se ter tornado incompat\u00edvel com a perenidade das explora\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar e da \u00abeconomia de planta\u00e7\u00e3o\u00bb. Apesar de inst\u00e1vel, enquanto sociedade trabalhada por contradi\u00e7\u00f5es, a economia de planta\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo menos uma ordem im\u00f3vel. Soube adaptar-se e resistir \u00e0s convuls\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e da ordem liberal do capitalismo industrial de tipo ingl\u00eas, pois a maioria dos a\u00e7ucareiros interessa-se mais pela organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do que propriamente pelo estatuto da m\u00e3o-de-obra. Os Desbassayns, que fizeram da habita\u00e7\u00e3o-refinaria uma escolha deliberada dos colonos, j\u00e1 tinham tentado, ap\u00f3s 1830, \u00absalvar\u00bb a escravatura e restabelec\u00ea-la com a vigil\u00e2ncia permanente dos escravos no trabalho para o tornar mais produtivo. O que se procurava j\u00e1 n\u00e3o era a obedi\u00eancia, mas o rendimento, que se obtinha n\u00e3o pela viol\u00eancia mas pelo \u00abpoliciamento\u00bb sistem\u00e1tico.<\/p>\n<p>A partir de 1848, Desbassayns tenta perpetuar a economia de planta\u00e7\u00e3o, adaptando-a ao salariado. Por altura de um importante debate que divide o Conselho privado, a 23 de outubro de 1848, o a\u00e7ucareiro Ruyneau de Saint Georges, al\u00e9m disso advogado, afirma que \u00aba emancipa\u00e7\u00e3o foi aqui um facto aceite de antem\u00e3o pela clara maioria dos habitantes, mas tiveram de se preocupar vivamente com o futuro da continua\u00e7\u00e3o do trabalho e da manuten\u00e7\u00e3o da ordem\u00bb. Acrescenta: \u00abNo que respeita aos sal\u00e1rios [dos alforriados], ser\u00e3o hoje infalivelmente fixados muito por baixo, porque os habitantes s\u00e3o mais ou menos desprovidos de recursos\u00bb. O \u00abcidad\u00e3o Desbassayns\u00bb, o emblem\u00e1tico a\u00e7ucareiro da Ilha, a praticar um fourierismo tropical, exige ent\u00e3o que se defina, como possibilidade de compromisso, a associa\u00e7\u00e3o: os a\u00e7ucareiros explorar\u00e3o a terra de bra\u00e7o dado com os alforriados, partilhando os lucros, mas, transferindo para eles o encargo da alimenta\u00e7\u00e3o, da roupa e do alojamento, de modo que adquiram h\u00e1bitos de ordem e economia. E acrescenta: \u00abA popula\u00e7\u00e3o negra demonstra um car\u00e1cter distintamente indolente e ap\u00e1tico\u00bb. Ruyneau op\u00f5e-se, defendendo pelo contr\u00e1rio, que esses encargos sejam assumidos pelo contratante e que se retire aos sal\u00e1rios uma parte destinada a \u00abassegurar a exist\u00eancia dos idosos e dos enfermos\u00bb, de cerca de 15 000 \u2014 que Desbassayns reduz para 2000. \u00c9 a op\u00e7\u00e3o de Ruyneau que vinga: o chamado <em>engagisme<\/em> \u00e9 uma pol\u00edtica de contrata\u00e7\u00e3o que ganha os contornos e o conte\u00fado da escravatura\u2026<\/p>\n<p>Apesar de este quadro amb\u00edguo n\u00e3o deixar antever sen\u00e3o a dif\u00edcil sobreviv\u00eancia da economia de planta\u00e7\u00e3o, os plantadores-a\u00e7ucareiros tentam moldar o futuro, apoderando-se dos principais mecanismos de controlo social<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.04413460740922526\" aria-label=\"Jean-Fran\u00e7ois G\u00e9raud, Les Ma\u00eetres du sucre. \u00cele Bourbon. 1810-1848..., op. cit.\">&nbsp;<\/span> . Dessa forma, favorecem o culto cat\u00f3lico. \u00c9 verdade que o apoio dos plantadores \u00e0 Igreja j\u00e1 era bem anterior \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o. A condi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 que os escravos n\u00e3o sejam implicados: a cristianiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o servil \u00e9, ent\u00e3o, adiada, dado o perigo de, em nome dos princ\u00edpios evang\u00e9licos, se colocar em causa a ordem estabelecida. Mais uma vez, em 1845, ap\u00f3s as leis Mackau, que visam preparar os escravos para a emancipa\u00e7\u00e3o pela sua cristianiza\u00e7\u00e3o, a Igreja, que se lan\u00e7ou na cria\u00e7\u00e3o de capelas e na evangeliza\u00e7\u00e3o, confronta-se, como se sabe, com a oposi\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria da maior parte do <em>establishment<\/em> a\u00e7ucareiro \u2014 \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de alguns plantadores, entre eles, os Desbassayns&#8230; Em contrapartida, depois da aboli\u00e7\u00e3o, os a\u00e7ucareiros encorajam a evangeliza\u00e7\u00e3o dos alforriados, convencidos de que isso favorecer\u00e1 a sua integra\u00e7\u00e3o na sociedade e torn\u00e1-los-\u00e1 mais f\u00e1ceis de controlar. Os alforriados, por sua vez, procuram maci\u00e7amente a evangeliza\u00e7\u00e3o, que julgam facilitar-lhes a integra\u00e7\u00e3o e a admiss\u00e3o no espa\u00e7o social em p\u00e9 de igualdade com os brancos. Assim, os a\u00e7ucareiros apoiam a iniciativa do bispo Desprez, em 1852, de fundar a miss\u00e3o Saint-Thomas des Indiens<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0492865710934971\" aria-label=\"S\u00e3o Tom\u00e9 dos Indianos. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>. Trata-se de iniciar no cristianismo os antigos escravos indianos que desertaram dos estabelecimentos a\u00e7ucareiros dois anos depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura: faz-se vir da \u00cdndia, em 1853, o padre Joseph Gury, e, depois, padres jesu\u00edtas e catecistas. Em Saint-Louis, o a\u00e7ucareiro Chabrier encorajou vivamente a edifica\u00e7\u00e3o de uma nova igreja sobredimensionada para acolher os alforriados, oferecendo, aquando da sua conclus\u00e3o, sinos, que batiza com os nomes das filhas. O objetivo \u00e9 ver os \u00abalforriados retomarem os trabalhos regulares nos campos, depois de serem esclarecidos sobre as suas verdadeiras obriga\u00e7\u00f5es por uma instru\u00e7\u00e3o religiosa mais \u00edntima\u00bb. N\u00e3o h\u00e1 melhor forma de definir os elos que unem a acultura\u00e7\u00e3o religiosa \u00e0 forma\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica!<\/p>\n<p>Os a\u00e7ucareiros t\u00eam uma interven\u00e7\u00e3o bastante \u00abobl\u00edqua\u00bb no dom\u00ednio da escola. A pedido de Philippe Panon Desbassayns, as religiosas de Cluny, sob a dire\u00e7\u00e3o da madre Rosalie Javouhey, tinham-se instalado em Bourbon, em 1817, primeiro, na cidade de Saint-Paul, dois anos depois em Saint-Denis e, progressivamente, noutras localidades, como Saint-Pierre, em 1845, onde foram acolhidas pelo a\u00e7ucareiro Kerv\u00e9guen. N\u00e3o ser\u00e1, ent\u00e3o, por acaso que o representante da poderosa fam\u00edlia a\u00e7ucareira toma essa iniciativa. Esse ato de educar os pobres, que come\u00e7a por excluir os escravos, passa, em 1848, a visar em grande medida os alforriados, que as irm\u00e3s recebem nos seus estabelecimentos, como a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, em Saint-Denis. Os Padres da Doutrina Crist\u00e3, ami\u00fade apoiados pelos a\u00e7ucareiros, tamb\u00e9m d\u00e3o instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria aos filhos pequenos dos alforriados. Em 1871, em Saint-Louis, quando o presidente da c\u00e2mara Eug\u00e8ne Payet comenta que os filhos da \u00abclasse infeliz embrutecem na ignor\u00e2ncia\u00bb, um conselheiro municipal, a\u00e7ucareiro de estatuto, prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de escolas dos Frades de Etang Sal\u00e9, nos Avirons e em La Rivi\u00e8re, que n\u00e3o ter\u00e3o custos para o munic\u00edpio porque ficar\u00e3o a cargo do Estado. Em 1858, a Congrega\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo v\u00ea-se a confiar, por um per\u00edodo de vinte e cinco anos, a escola da Provid\u00eancia \u2014 um estabelecimento p\u00fablico fundado dois anos antes pelo governador Hubert Delisle que inclu\u00eda um hosp\u00edcio para idosos e enfermos, uma escola agr\u00edcola e profissional para os jovens alforriados, bem como uma penitenci\u00e1ria para jovens delinquentes. O presidente do Conselho-geral e a\u00e7ucareiro, Charles Desbassayns, atribui-lhe uma subven\u00e7\u00e3o anual de oitenta mil francos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_177\" aria-describedby=\"caption-attachment-177\" style=\"width: 673px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-9-ecole-penitencier-providence-jpg.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-177 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-9-ecole-penitencier-providence-jpg.jpg\" alt=\"\" width=\"673\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-9-ecole-penitencier-providence-jpg.jpg 673w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-9-ecole-penitencier-providence-jpg-300x208.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 673px) 100vw, 673px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-177\" class=\"wp-caption-text\">Etablissement de la Providence : le P\u00e9nitencier. An\u00f3nimo. 1862. Litografia. <br \/>Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o dos alforriados \u00e9 pensada num contexto econ\u00f3mico e pratica um ensino seletivo. Jules Duval maravilha-se com \u00abas ci\u00eancias e as artes, que suscitam sensa\u00e7\u00f5es: o desenho, a geometria, a mec\u00e2nica, a m\u00fasica e as l\u00ednguas\u00bb, penetram facilmente nos esp\u00edritos \u00abcuja rudeza exterior derivante da escravatura fazia parecer refrat\u00e1rios ao ensino\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7000794848151568\" aria-label=\"Jules Duval, Politique coloniale de la France. L\u2019\u00eele de La R\u00e9union, ses ressources, ses progr\u00e8s, l\u2019immigration et l\u2019absent\u00e9isme, Revue des Deux Mondes, 1860 \u2013 2e p\u00e9riode, p. 854-893.\">&nbsp;<\/span> . N\u00e3o obstante, os a\u00e7ucareiros defrontam um paradoxo: a educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 prestes a retirar \u00e0 agricultura e ao trabalho fabril contingentes por de mais avultados de novas gera\u00e7\u00f5es. Uma parte da pr\u00f3pria imprensa critica os frades de incitarem demasiado os jovens alforriados a pensar e de instilarem neles uma ambi\u00e7\u00e3o subversiva! Com tantas press\u00f5es, o governador acaba por emitir ac\u00f3rd\u00e3os limitando a escola ao trabalho manual.<\/p>\n<p>Muito antes do advento da Terceira Rep\u00fablica francesa, e no contexto colonial, orientados por objetivos econ\u00f3micos, os a\u00e7ucareiros tamb\u00e9m puxam os seus cordelinhos, primeiro, com esquemas religiosos e, depois, com esquemas pol\u00edticos republicanos no seio dos quais isolam a escola. O intuito \u00e9 estabelecer o controlo da m\u00e3o-de-obra para tentar perpetuar a economia de planta\u00e7\u00e3o. Efetivamente, nos primeiros meses ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o, as pequenas e m\u00e9dias explora\u00e7\u00f5es perderam uma parte da sua m\u00e3o-de-obra alforriada: em 1854, uma comiss\u00e3o dirigida por Patu de Rosemont constata que 35 000 pessoas sobre 62 000 fogem ao sistema de contrato de servid\u00e3o ou engagisme. Apesar de um decreto do pr\u00edncipe-presidente (de 28 de abril de 1852) conferindo aos propriet\u00e1rios meios para impor o trabalho obrigat\u00f3rio aos alforriados. A \u00abdeser\u00e7\u00e3o dos alforriados\u00bb \u2014 um fen\u00f3meno que ainda hoje se rev\u00ea por baixo \u2014 deve-se ao facto de os plantadores s\u00f3 lhes oferecerem sal\u00e1rios de mis\u00e9ria, que os impedem de aproveitar a sua nova liberdade.<\/p>\n<p>A marginaliza\u00e7\u00e3o dos alforriados, com efeito, deve-se ao ressentimento e ao desprezo que os plantadores demonstram para com eles. Ali\u00e1s, os plantadores preferem recrutar os seus trabalhadores com contrato de servid\u00e3o fora da Reuni\u00e3o, oferecendo-lhes n\u00e3o mais do que um m\u00f3dico sal\u00e1rio. Ap\u00f3s a interdi\u00e7\u00e3o de recrutamento nas costas africanas, que em muito se assemelhavam a opera\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico de escravos (os negreiros compravam escravos aos traficantes africanos e levavam-nos para a Reuni\u00e3o com um estatuto de trabalhadores livres com contrato de servid\u00e3o), as aten\u00e7\u00f5es voltam-se para o recrutamento de indianos.<\/p>\n<p>A finalidade do contrato de servid\u00e3o, contudo, \u00e9 t\u00e3o pol\u00edtica como econ\u00f3mica: na verdade, \u00e9 preciso marginalizar e excluir do circuito laboral o grupo de cidad\u00e3os alforriados, dada a sua express\u00e3o pol\u00edtica, pass\u00edvel de contestar a ordem \u00abplantacion\u00e1ria\u00bb. Essa exclus\u00e3o faz-se em prol de uma for\u00e7a de trabalho desprovida de qualquer capacidade de express\u00e3o pol\u00edtica: os trabalhadores com contratos de servid\u00e3o.<br \/>\nEssa regra incoerente da quest\u00e3o da m\u00e3o-de-obra, por\u00e9m, n\u00e3o impede a degrada\u00e7\u00e3o brutal e duradoura da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. Sem uma vis\u00e3o a longo prazo, o Conselho-geral \u2014 h\u00e1 muito dominado por Charles Desbassayns, homem de incontest\u00e1vel intelig\u00eancia e energia mas claramente legitimista \u2014, em vez de favorecer o empreendimento, apoia todas as administra\u00e7\u00f5es que se sucedem, numa estreita colus\u00e3o com o bispo Desprez, rejeitando a educa\u00e7\u00e3o como rem\u00e9dio da pobreza e fator de progresso e coes\u00e3o do corpo social, voltando-se, pelo contr\u00e1rio para a Igreja e a religi\u00e3o em busca de ajuda e apoio para toda a sociedade, incluindo os alforriados. Desse modo, ter\u00e1 de financiar, sem hesita\u00e7\u00f5es, a constru\u00e7\u00e3o de diversas capelas e igrejas, de uma nova catedral nunca conclu\u00edda e do Estabelecimento da Provid\u00eancia, que, diga-se o que se disser, faz concorr\u00eancia aberta \u00e0s empresas ligadas ao a\u00e7\u00facar. Al\u00e9m disso, enquanto a tributa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel aos a\u00e7\u00facares da Reuni\u00e3o vai desaparecendo progressivamente, a sucess\u00e3o de cat\u00e1strofe naturais, os ciclones e o Borer<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.497028706228943\" aria-label=\"Caruncho. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span> (a sua larva alimenta-se da cana-de-a\u00e7\u00facar perfurando-lhes a base; identificada na Maur\u00edcia, em 1850, infesta a Reuni\u00e3o em 1855) desencadeiam uma longa crise econ\u00f3mica. Sem d\u00favida que a morte de Charles Desbassayns, em 1863, representa, no Conselho-geral e junto do governador, uma redu\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia desse l\u00f3bi, mas a sua nocividade como que se desmultiplica na partilha da sua heran\u00e7a pol\u00edtica pelos dois sobrinhos, Fr\u00e9d\u00e9ric e Paul de Vill\u00e8le, sendo um dos seus outros sobrinhos, Bellier de Villentroy, presidente da corte imperial e parente por alian\u00e7a do not\u00e1rio Fran\u00e7ois Mottet. Sem um contrapeso institucional, a crise leva \u00e0 ru\u00edna as grandes fam\u00edlias locais endividadas pela compra de m\u00e1quinas dispendiosas que esperavam poder paliar os problemas impostos pela aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n<p>Claro que muitas fam\u00edlias de grandes plantadores j\u00e1 previam as dificuldades tanto estruturais \u2014 ligadas \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura ou \u00e0 atividade a\u00e7ucareira \u2014 como conjunturais \u2014 ligadas, por exemplo, \u00e0s tens\u00f5es com a Inglaterra e aos riscos de guerra devido \u00e0 partida \u00abpara Fran\u00e7a\u00bb. N\u00e3o nos iludamos: mesmo crioulas, as fam\u00edlias almejam a Fran\u00e7a e refletem a sua nostalgia na imita\u00e7\u00e3o dos usos e costumes franceses. Para muitos plantadores crioulos, a col\u00f3nia e o a\u00e7\u00facar serviam apenas como local e meios para fazer fortuna; o objetivo seria gozar essa fortuna na Fran\u00e7a. Em 1820, Auguste Billiard indica: \u00abAs emigra\u00e7\u00f5es para a Fran\u00e7a s\u00e3o mais significativas a barlavento; \u00e9 onde a propriedade muda mais de senhor\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2989337025453451\" aria-label=\"Auguste Billiard, Voyage aux colonies orientales\u2026, op. cit.\">&nbsp;<\/span> . Esse desejo de partir torna-se obsessivo sob a pluma de Betsi de Fontbrune, para quem o \u00eaxito material parece nunca residir na ilha, em 1837: \u00abMais do que nunca, sou atormentada pelo desejo de ir para Fran\u00e7a\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8268254762158049\" aria-label=\"Arquivos privados Sicre de Fontbrune.\">&nbsp;<\/span> .<\/p>\n<p>Todos os que ficam, segundo as palavras de Jacques Weulersse \u00abs\u00e3o certamente colonos (\u2026) Abandonaram para sempre a velha e mesquinha Europa\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8175198068352159\" aria-label=\"Jacques Weulersse, Noirs et blancs : \u00e0 travers l'Afrique nouvelle : de Dakar au Cap. Paris : A. Colin, 1931, 242 p.\">&nbsp;<\/span>. No entanto, n\u00e3o podem contrariar a evolu\u00e7\u00e3o para uma economia capitalista, competitiva e rent\u00e1vel, geradora de uma tardia concentra\u00e7\u00e3o industrial e fundi\u00e1ria. Uns atr\u00e1s dos outros, veem-se conduzidos \u00e0 ru\u00edna pela sociedade parisiense do Cr\u00e9dit Foncier Colonial (CFC)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3973885202439986\" aria-label=\"Cr\u00e9dito Fundi\u00e1rio Colonial. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>, que exige os reembolsos das suas d\u00edvidas e acaba por se tornar a principal sociedade agr\u00edcola e industrial instalada na col\u00f3nia \u2026<\/p>\n<p>Na sess\u00e3o de abertura do Conselho-geral, a 24 de novembro de 1865, o governador Dupr\u00e9 interpreta esta debandada econ\u00f3mica no plano pol\u00edtico: \u00abAdministrativa e economicamente, somos mantidos sob uma tutela estreita e severa. As col\u00f3nias desejam, com raz\u00e3o, libertar-se dela. N\u00e3o podemos, por n\u00f3s pr\u00f3prios, tomar todas as medidas essenciais para a nossa prosperidade e conserva\u00e7\u00e3o (&#8230;) O rem\u00e9dio ser\u00e1, portanto, autorizar-nos a tomarmos por n\u00f3s pr\u00f3prios, e em grande medida, todas as provid\u00eancias relacionadas com os nossos neg\u00f3cios, que n\u00e3o interessam diretamente \u00e0 metr\u00f3pole (&#8230;) A col\u00f3nia da Reuni\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o pode ser governada sem se proceder a uma profunda modifica\u00e7\u00e3o da sua estrutura pol\u00edtica. Essa modifica\u00e7\u00e3o deve instar a popula\u00e7\u00e3o a concorrer \u00e0 gest\u00e3o das quest\u00f5es p\u00fablicas, nomeando conselhos municipais e o conselho-geral por meio de um sistema eleitoral assente na mais ampla base\u00bb. A ressurg\u00eancia \u2014 de espantar, quando vinda da boca de um governador \u2014 de problem\u00e1ticas autonomistas n\u00e3o abafa o soar do fim da \u00abeconomia de planta\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Quando \u00e9 que a Reuni\u00e3o conheceu o fim da economia de planta\u00e7\u00e3o?<br \/>\nA ilha passou de uma economia de planta\u00e7\u00e3o baseada no a\u00e7\u00facar para uma economia de consumo sustentada pelas transfer\u00eancias p\u00fablicas. Nos planos econ\u00f3mico, social e pol\u00edtico, ap\u00f3s a crise da d\u00e9cada de 1860, s\u00f3 n\u00e3o se produziria a\u00e7\u00facar a intervalos, mas o que nessas pausas se produzia \u00abaproveitou\u00bb as pequenas crises da cana para se destacar e se manter como atividade cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida de que \u00e9 dif\u00edcil isolar uma s\u00f3 causa para o fim da economia de planta\u00e7\u00e3o na nossa ilha. Essa rutura d\u00e1-se entre finais do s\u00e9culo XIX e a d\u00e9cada de 1930. A ela, acrescem fatores ex\u00f3genos \u2014 a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura; o fim do protecionismo tarif\u00e1rio e a institui\u00e7\u00e3o de um certo com\u00e9rcio livre; a concorr\u00eancia da beterraba; e a evolu\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos de consumo \u2014 e fatores end\u00f3genos \u2014 a debilidade capital\u00edstica das sociedades face \u00e0 subida dos custos, incluindo os custos laborais e o sobre-endividamento; a separa\u00e7\u00e3o entre \u00absociedades familiares\u00bb e sociedades verdadeiramente an\u00f3nimas, o que poria fim \u00e0s rela\u00e7\u00f5es pessoais e paternalistas para fazer surgir uma estrutura de classes.<\/p>\n<p>Sucedendo-se ao fim do engagisme, em 1883, a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, alicer\u00e7ada no sistema do colonato parci\u00e1rio, forma de arrendamento partilhado visando atrair os descendentes de escravos, os indianos que tinham acabado o seu contrato de servid\u00e3o e os mesti\u00e7os crioulos, generaliza-se nas grandes explora\u00e7\u00f5es. Os propriet\u00e1rios terr\u00edcolas encontram forma, atrav\u00e9s de contratos orais, de evitar a apropria\u00e7\u00e3o das suas terras pela popula\u00e7\u00e3o pobre instalada ilegalmente na periferia dos seus dom\u00ednios. Acima de tudo, o colonato parci\u00e1rio permite reintegrar os alforriados de 1848 no circuito do trabalho agr\u00edcola. Por outro lado, \u00e9 um sistema que coloca a popula\u00e7\u00e3o rural desfavorecida sob a influ\u00eancia da burguesia. Os descendentes de escravos ou de indianos e africanos com contratos de servid\u00e3o inserem-se na clientela pol\u00edtica dos detentores da terra, enquanto os avan\u00e7os reembols\u00e1veis tornam os colonos dependentes desses propriet\u00e1rios cuja autoridade moral chega mesmo a permitir-lhes intervir na vida quotidiana dos seus trabalhadores! Concebido no quadro do paternalismo, esse clientelismo colonial \u00e9 o \u00faltimo avatar da \u00abeconomia de planta\u00e7\u00e3o\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.24756734762145027\" aria-label=\"Sudel Fuma (\u2020), \u00abLa soci\u00e9t\u00e9 de plantation dans la deuxi\u00e8me moiti\u00e9 du XIXe si\u00e8cle. L\u2019\u00e8re de la r\u00e9volution industrielle \u00bb. https:\/\/www.cresoi.fr\/-Histoire-moderne-et-contemporaine-\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Resta saber se o que \u00e9 que foi dos rurais cuja subsist\u00eancia dependia do dinheiro que entrava proveniente do trabalho nas planta\u00e7\u00f5es ou nas f\u00e1bricas de a\u00e7\u00facar. Ou como evoluiu a estrutura fundi\u00e1ria quando milhares de hectares das melhores terras das planta\u00e7\u00f5es s\u00e3o abandonadas e as pequenas e m\u00e9dias explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas se veem v\u00edtimas de um movimento de fragmenta\u00e7\u00e3o sem precedentes.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que ser\u00e3o s\u00e3o as solidariedades consolidadas na primeira metade do s\u00e9culo XIX que vir\u00e3o determinar o \u00eaxito e a longevidade das elites insulares, bem depois do decl\u00ednio do a\u00e7\u00facar, at\u00e9 aos primeiros tempos da departamentaliza\u00e7\u00e3o e, at\u00e9, depois dela.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5242,"parent":5026,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-5241","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5026"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5242"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}