{"id":5311,"date":"2021-07-06T09:42:25","date_gmt":"2021-07-06T07:42:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=5311"},"modified":"2021-11-26T10:31:04","modified_gmt":"2021-11-26T09:31:04","slug":"madame-desbassaynsde-segunda-providencia-a-carrasco-de-escravos-a-historia-de-uma-lenda","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-propriedade-desbassayns\/a-familia-desbassayns\/madame-desbassaynsde-segunda-providencia-a-carrasco-de-escravos-a-historia-de-uma-lenda\/","title":{"rendered":"Madame Desbassayns.<br\/>De Segunda Provid\u00eancia a carrasco de escravos: a hist\u00f3ria de uma lenda"},"content":{"rendered":"<h2>A biografia de Madame Desbassayns, falecida em Saint-Gilles-les-Hauts, a 4 de fevereiro de 1846, com mais de 90 anos, poderia resumir-se em poucas palavras. Filha \u00fanica de um cultivador rico, casou-se com um colono tamb\u00e9m de grande fortuna, mas mais velho do que ela. Vi\u00fava aos 45 anos, deu por si a gerir uma explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e uma fam\u00edlia alargada, muitos membros da qual ocupariam cargos importantes tanto a n\u00edvel local como nacional.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-5311-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster_miranville.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/MIRANVILLE_1_Port_sub.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/MIRANVILLE_1_Port_sub.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/MIRANVILLE_1_Port_sub.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Mesmo que a sintetizemos assim, a sua biografia denota um estatuto social e um destino pouco comuns no s\u00e9culo XIX, uma \u00e9poca em que a mulher era exclu\u00edda da maioria dos dom\u00ednios de atividade, ent\u00e3o reservados aos homens, estando destinada \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de esposa, dona de casa e m\u00e3e educadora. A partir do momento em que toma as r\u00e9deas da propriedade, a Madame Desbassayns empenha-se em faz\u00ea-la crescer e prosperar, apesar da crise econ\u00f3mica grave que se fazia sentir <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7240943923437635\" aria-label=\"Jean Farchi, Petite histoire de l'\u00eele Bourbon, PUF, Paris, 1937, p\u00e1ginas 167 e 173: planta\u00e7\u00f5es destru\u00eddas em 1806 e 1807 por cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, com\u00e9rcio mar\u00edtimo paralisado pela guerra naval com os Ingleses, necessidade de encontrar uma cultura para substituir a do caf\u00e9, etc.\">&nbsp;<\/span>. Na Reuni\u00e3o, contudo, ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o conhecida pela sua hist\u00f3ria pessoal, mas mais pela lenda que se desenvolveu em torno da sua personagem.<\/p>\n<h3>Admirada e complacentemente dotada de todas as virtudes<\/h3>\n<figure id=\"attachment_239\" aria-describedby=\"caption-attachment-239\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-1990-165-madame-desbassayns-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-239 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-1990-165-madame-desbassayns-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"968\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-1990-165-madame-desbassayns-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-1990-165-madame-desbassayns-web-248x300.jpg 248w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-1990-165-madame-desbassayns-web-768x929.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-239\" class=\"wp-caption-text\">Retrato de Madame Desbassayns. J\u00e9han de Vill\u00e8le. 1990. \u00d3leo em tela.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>A longa exist\u00eancia de Madame Desbassayns, no entanto, n\u00e3o come\u00e7ou sob os melhores ausp\u00edcios. Filha de Julien Gonneau, um cultivador dos Hauts de Saint-Paul, perde a m\u00e3e no pr\u00f3prio parto, a 3 de julho de 1755.<br \/>\nN\u00e3o se sabe muito sobre quem a criou: Jeanne Raux, a tia materna, esposa do guarda Jean-Baptiste Hoareau, que se torna oficialmente seu tutor a 20 de maio de 1757<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.38783215323866016\" aria-label=\"Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o (ADR), C 2742.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Ainda se sabe menos sobre a sua inf\u00e2ncia e a sua adolesc\u00eancia, a n\u00e3o ser que, segundo um dos seus netos, apelidado de<em> Petit Gascon<\/em>, \u00aba sua educa\u00e7\u00e3o foi perfeita e a sua instru\u00e7\u00e3o quase nula\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5115493335112884\" aria-label=\"Documento intitulado Pieux Souvenir, Arquivos do Bispado, quota 4B.\">&nbsp;<\/span>.\u00a0 S\u00f3 \u00abum pouco negligenciada\u00bb, acrescenta o seu genro Jean-Baptiste de Vill\u00e8le: leitura, escrita e c\u00e1lculo, ensino dispensado pelo padre da par\u00f3quia e um militar reformado<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.20202658666117101\" aria-label=\"Jean-Baptiste de Vill\u00e8le, Notice biographique sur Madame Desbassayns, Museu hist\u00f3rico de Saint-Gilles-les-Hauts, 1992, p\u00e1gina 4. Este militar reformado deve ser o seu tutor, Jean-Baptiste Hoareau.\">&nbsp;<\/span>. J\u00e1 adulta, escrevia pouco e mais ou menos de ouvido, mas aparentemente o suficiente para apoiar aquele com que se casaria a 28 de maio de 1770, quando ainda nem tinha feito 15 anos, Henri Paulin Panon Desbassayns, com 38 anos feitos.<br \/>\nAp\u00f3s a morte do marido, a 11 de outubro de 1800, parece descobrir-se nela uma personalidade pr\u00f3pria e qualidades que suscitam a admira\u00e7\u00e3o de todos os seus pr\u00f3ximos. Em agosto de 1813, aquando de uma curta estadia na Maur\u00edcia, foi recebida pelo novo governador-geral da \u00cdndia brit\u00e2nica, que estava de passagem na ilha e para quem \u00abas suas maneiras refletem a eleg\u00e2ncia da alta sociedade associada \u00e0 seguran\u00e7a que confere a pr\u00e1tica dos neg\u00f3cios\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.11801017051081275\" aria-label=\"Boletim da Sociedade da Hist\u00f3ria da Ilha Maur\u00edcia, volume 7, maio de 1999, p\u00e1gina 43.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Na <em>Notice biographique<\/em> que lhe dedica, em 1846, Jean-Baptiste de Vill\u00e8le assinala que ela tinha \u00abuma capacidade administrativa que faria inveja aos homens mais avisados\u00bb. J\u00e1 <em>Petit Gascon<\/em> compraz-se em notar que a sua av\u00f3 \u00abj\u00e1 h\u00e1 muito que tinha esquecido que era uma mulher, e era certo e sabido que tinha nela mais virilidade do que todos os homens que a rodeavam\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8990116117130349\" aria-label=\"Petit Gascon, Pieux Souvenir, Arquivos do Bispado, quota 4B. \">&nbsp;<\/span>. Nas suas mem\u00f3rias, lembra-se dela sempre vestida com uma \u00absimples <em>toilette<\/em> de vi\u00fava\u00bb: uma saia preta, um corpete branco e, na cabe\u00e7a, um len\u00e7o branco coberto por uma coifa de xadrez multicolor.<\/p>\n<p>Em 1817, al\u00e9m da imagem de dirigente empresarial, o visitante Auguste Billiard depara com a da \u00abavozinha, rodeada por meia d\u00fazia de filhos e netos\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.33818670373409887\" aria-label=\"Auguste Billiard, Voyages aux Colonies Orientales, \u00c9ditions ARS Terres Cr\u00e9oles, Saint-Denis de La R\u00e9union, 1990, p\u00e1gina 57. Billiard nota ainda que ela \u00e9 \u00abum pouco encurvada pela idade e tamb\u00e9m por uma queda que ela deu h\u00e1 una anos, mas que n\u00e3o lhe reduziu a coragem e a atividade. (\u2026)\u00bb.\">&nbsp;<\/span>. Entre 1818 e 1820, a Madame Desbassayns acolhe um outro viajante de passagem, o primeiro-tenente da armada Th\u00e9ophile Frappaz, que lhe deixou um retrato muito elogioso: \u00abEsta respeit\u00e1vel senhora goza da mais alta considera\u00e7\u00e3o em toda a ilha, n\u00e3o tanto pela sua grande fortuna, mas mais pelas suas estim\u00e1veis qualidades.\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6621264462585179\" aria-label=\"Decary (Raymond), Les voyages du lieutenant de vaisseau Frappaz dans les mers des Indes, Tananarive, 1939, ADR, Bib 1534\/I, p\u00e1gina 167. \">&nbsp;<\/span>. Frappaz tamb\u00e9m d\u00e1 a saber o que os escravos pensam dela: \u00abNunca esquecerei a express\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o e de amor que animava a fisionomia dos seus muitos escravos quando se lhes falava da sua boa senhora, que eles tratavam por m\u00e3e.\u00bb<br \/>\nNingu\u00e9m poder\u00e1 duvidar da sinceridade do oficial da marinha e da veracidade dos testemunhos recolhidos, mas, tendo em conta o seu elevado estatuto social, os poucos dias passados no local e o problema da l\u00edngua de comunica\u00e7\u00e3o, dificilmente se imagina que possa ter andado sozinho pela propriedade a falar livremente com os trabalhadores dos campos. Os seus contactos ter-se-\u00e3o muito provavelmente limitado aos escravos da casa ou a todos aqueles que se quis apresentar-lhe. Alguns serventes dom\u00e9sticos, por exemplo, eram muitas vezes mais pr\u00f3ximos dos seus senhores do que dos seus irm\u00e3os de cor, e n\u00e3o correriam o risco de perder os parcos privil\u00e9gios de que gozavam permitindo-se tecer a mais pequena cr\u00edtica a respeito dos propriet\u00e1rios. Todas essas considera\u00e7\u00f5es suscitam s\u00e9rias reservas, n\u00e3o acerca da boa-f\u00e9 de Frappaz, mas sobre a fiabilidade das suas fontes e das respostas que obteve.<\/p>\n<p>Seja como for, a Madame Desbassayns era, ent\u00e3o, uma verdadeira lenda dourada, conhecida como Segunda Provid\u00eancia (<em>Seconde Providence<\/em>) \u2014 nome que ainda em vida da pr\u00f3pria foi dado em sua homenagem a uma rua da cidade de Saint-Paul.<\/p>\n<p>Na origem dessa lenda est\u00e1 o papel que ela desempenhou ao salvar Saint-Paul da destrui\u00e7\u00e3o, aquando do ataque dos ingleses em 1809. H\u00e1 que saber tamb\u00e9m que, em 1817, ela doou a sua propriedade de Bout de l\u2019\u00c9tang \u00e0s Irm\u00e3s de S\u00e3o Jos\u00e9 de Cluny para a cria\u00e7\u00e3o, nessa mesma cidade, da primeira escola feminina, apesar de ser um estabelecimento unicamente destinado a crian\u00e7as de fam\u00edlias livres.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a sua morte, alimentando e consolidando a sua lenda dourada, a Madame Desbassayns foi dotada de todas as virtudes, que lhe configuravam uma imagem magn\u00edfica, por vezes, \u00e0 custa de algumas liberdades com a verdade hist\u00f3rica. Foi tamb\u00e9m a partir daqui que surgiu a ideia falsa de que ela dirigia as suas imensas propriedades por si s\u00f3. Na verdade, desde a morte do marido que ela contratara o futuro genro, Jean-Baptiste de Vill\u00e8le (1780-1848), para administrar todos os seus bens. Em 1822, foi o filho Charles que se encarregou dessa tarefa, tornando-se o principal respons\u00e1vel pela reconvers\u00e3o a\u00e7ucareira da sua propriedade de Saint-Gilles-les-Hauts, apesar de ela, considerando-o demasiado entusiasta pela cana-de-a\u00e7\u00facar, o refrear um pouco<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6439547499767728\" aria-label=\"Petit Gascon, Pieux Souvenir, op.cit.\">&nbsp;<\/span> e continuar a dedicar uma parte das suas terras ao cultivo de v\u00edveres, nomeadamente, milho.<\/p>\n<p>Em 1809, apesar de ela ter contribu\u00eddo para salvar Saint-Paul da destrui\u00e7\u00e3o, o seu papel n\u00e3o teria sido t\u00e3o glorioso como afirma Jean-Baptiste de Vill\u00e8le no seu elogio f\u00fanebre<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9598099119640482\" aria-label=\"Jean-Baptiste de Vill\u00e8le, Notice biographique..., op.cit., p\u00e1ginas 24-25.\">&nbsp;<\/span>. Para ele, os Ingleses n\u00e3o concretizaram as suas amea\u00e7as porque a Madame Desbassayns tinha acolhido e tratado bem os seus oficiais anteriormente aprisionados, em reconhecimento \u00ab<em>dos cuidados e das aten\u00e7\u00f5es de que eles tinham sido alvo<\/em>\u00bb. Na realidade, essa destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu porque o general Des Brulys, governador da ilha, vindo de Saint-Denis com refor\u00e7os, n\u00e3o lan\u00e7ou um contra-ataque. A pedido de uma delega\u00e7\u00e3o de not\u00e1veis s\u00e3o-paulenses propriet\u00e1rios de bens na cidade, o general aceitou capitular, antes de se suicidar<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6588458837001085\" aria-label=\"ADR, L 421.\">&nbsp;<\/span>. Era casado com uma sobrinha da Madame Desbassayns, que tinha uma casa perto do seu quartel-general. Sem d\u00favida que n\u00e3o ter\u00e1 sido s\u00f3 por afeto que os Desbassayns rodearam sempre a sua vi\u00fava e os seus filhos \u00ab<em>dos seus cuidados atentos<\/em>\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.13893158280772888\" aria-label=\"Arquivos privados, correspond\u00eancia de 14 de abril de 1824.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h3>Uma quase-deifica\u00e7\u00e3o que lhe valeu ser objeto de uma contralenda<\/h3>\n<p>Em 1841, a constru\u00e7\u00e3o da Chapelle Pointue consolidou a sua imagem de grande benfeitora social. Hoje em dia, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil medir a import\u00e2ncia de que se revestia, naquela \u00e9poca, a cria\u00e7\u00e3o de um local de culto cat\u00f3lico. Independentemente da realidade ou da intensidade da sua f\u00e9, os colonos do s\u00e9culo XIX recorriam constantemente aos servi\u00e7os do padre, que os congregava para a missa dominical, para lhes dar not\u00edcias da ilha, da cidade ou do bairro. Era eles que os batizava, confessava, casava e enterrava. A sua vida quotidiana fazia-se ao ritmo do bater dos sinos e das festas do calend\u00e1rio lit\u00fargico. As pessoas iam \u00e0 igreja n\u00e3o s\u00f3 para rezar, mas tamb\u00e9m para se encontrarem, divertirem ou chorarem os mortos.<\/p>\n<p>Era \u00e0 luz dessas considera\u00e7\u00f5es que os habitantes dos Hauts de Saint-Gilles podiam apreciar o que a Madame Desbassayns lhes trazia com a sua capela. Na \u00e9poca, seria o equivalente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o p\u00fablico de proximidade, o que tamb\u00e9m justifica terem-lhe chamado Segunda Provid\u00eancia. Fosse intencionalmente ou n\u00e3o, de algum modo, Madame Desbassayns apaziguou assim as frustra\u00e7\u00f5es, as invejas e as inimizades daqueles \u00e0s custas dos quais ela tinha feito crescer o seu dom\u00ednio e a sua fortuna. Uma vez que a religi\u00e3o visava moralizar os costumes, muito em particular, os dos escravos, era tamb\u00e9m uma boa forma de tornar a m\u00e3o-de-obra d\u00f3cil e respeitosa para com a autoridade. Os efeitos pretendidos beneficiaram, acima de tudo, o dom\u00ednio de Madame Desbassayns, que ela queria transmitir em plena prosperidade aos seus herdeiros. Tinha mais de 85 anos quando mandou construir a sua capela.<\/p>\n<p>Seja como for, o nome e a lenda de Segunda Provid\u00eancia faziam dela quase uma santa, pelo que n\u00e3o ser\u00e1 de espantar, pois, que se tenha tornado, uma contralenda, sobretudo quando a escravatura foi abolida e os seus horrores foram revelados. Essa contralenda parece ter nascido por volta de 1910, ou seja, mais de meio s\u00e9culo ap\u00f3s a sua morte, a partir de um rumor: na sua propriedade ter-se-ia utilizado sangue dos escravos para fazer argamassa. Esse burburinho espalhou-se quando os oper\u00e1rios que trabalhavam nas obras da sua casa da Chauss\u00e9e Royale descobriram que o cimento a unir as pedras da velha cozinha era avermelhado<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4725977177659708\" aria-label=\"Selon Henri Cornu (1904-1993), autor de estudos, artigos e confer\u00eancias sobre Madame Desbassayns.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>O contexto pol\u00edtico e eleitoral da \u00e9poca era propenso \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de tais rumores. A partir de finais do s\u00e9culo XIX, com a instaura\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica laica e anticlerical na Fran\u00e7a, os Vill\u00e8le tornam-se alvo do poder instalado, que os considerava inimigos do povo. Os descendentes e herdeiros de Madame Desbassayns eram partid\u00e1rios dos monarquistas clericais, que levavam a luta pela religi\u00e3o para o plano pol\u00edtico. Em 1906, um ano ap\u00f3s sair a lei da separa\u00e7\u00e3o entre as igrejas e o Estado, Jean-Baptiste de Vill\u00e8le (1852-1917) fundou o jornal <em>La Croix du Dimanche<\/em> para lutar contra os republicanos apresentados como os coveiros do catolicismo.<\/p>\n<p>Foi igualmente nessa \u00e9poca que surgiram refer\u00eancias \u00e0 cor da pele e \u00e0 escravatura no discurso pol\u00edtico, nomeadamente, quando o deputado Lucien Gasparin, de origem alforriada e eleito em 1906, passou para o lado dos maltratantes da aristocracia local. Ent\u00e3o, assistiu-se a uma catadupa de jornais que repercutiam e empolavam sem discernimento as propostas ou as acusa\u00e7\u00f5es de uns e de outros. Desse modo, na edi\u00e7\u00e3o do <em>Le Peuple<\/em> de 20 de janeiro de 1909, o autor an\u00f3nimo de uma carta do leitor denuncia os \u00ab<em>aristocratas deste pa\u00eds que, ontem, chicotearam os nossos antepassados e que, hoje, j\u00e1 s\u00f3 sonham com uma coisa: a morte do pequeno e o regresso \u00e0 escravatura<\/em>\u00bb. No seguinte dia 26 de janeiro, o mesmo jornal comentaria os resultados do escrut\u00ednio e o fraco n\u00famero de votos obtidos por aquele que designa da seguinte forma: \u00ab<em>O candidato republicano democrata Dager, o oper\u00e1rio, o negro Dager<\/em>.\u00bb Na sua edi\u00e7\u00e3o de 11 de fevereiro de 1910, Le Nouveau Journal de l&#8217;\u00eele de La R\u00e9union critica o comportamento do candidato Gasparin que, segundo diz, suscita \u00ab<em>a quest\u00e3o da cor<\/em>\u00bb e reaviva tamb\u00e9m \u00ab<em>as paix\u00f5es mal adormecidas<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>Longe do mundo da pol\u00edtica e dos seus partid\u00e1rios dos m\u00e9dia, um outro fato atesta que Madame Desbassayns n\u00e3o deixou s\u00f3 boas recorda\u00e7\u00f5es. Trata-se de um estudo surgido no boletim n.\u00b0 4-5 (1921-1922) da Academia da Ilha da Reuni\u00e3o, intitulado Locutions et proverbes cr\u00e9oles, em que, para ilustrar a defini\u00e7\u00e3o da palavra cip\u00e8que (peste<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8802626549347443\" aria-label=\"\u00abPeste\u00bb no sentido de pessoa rabugenta ou insuport\u00e1vel. (N. da T.) \">&nbsp;<\/span>), se cita Madame Desbassayns como uma \u00ab<em>pessoa autorit\u00e1ria e cruel<\/em> [\u2026], <em>uma senhora muito m\u00e1 para os seus escravos<\/em>\u00bb.<\/p>\n<h3>Uma lenda negra que se desenvolveu sobretudo a partir da d\u00e9cada de 1970<\/h3>\n<figure id=\"attachment_241\" aria-describedby=\"caption-attachment-241\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-cp-06-142a1000-clichc-h-nugent-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-241 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-cp-06-142a1000-clichc-h-nugent-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"740\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-cp-06-142a1000-clichc-h-nugent-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-cp-06-142a1000-clichc-h-nugent-web-300x278.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-cp-06-142a1000-clichc-h-nugent-web-768x710.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-241\" class=\"wp-caption-text\">L\u00e1pide de Madame Desbassayns. Hubert Nugent.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante muito tempo, por se propagar oralmente ou ser referida em textos pouco lidos, a lenda negra de Madame Desbassayns n\u00e3o foi muito difundida entre a popula\u00e7\u00e3o. Assim, at\u00e9 ao fim da d\u00e9cada de 1960, ela permaneceu totalmente desconhecida para muitas fam\u00edlias de determinados bairros de Saint-Paul, parecendo n\u00e3o sair do esquecimento em que ca\u00edra desde a sua morte. J\u00e1 em 1866, a traslada\u00e7\u00e3o das suas cinzas para a Chapelle Pointue passou completamente despercebida, e o mesmo se poder\u00e1 dizer da comemora\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio do seu desaparecimento, em 1946, e da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, em 1948. \u00c9 verdade que nada disto \u00e9 estudado nas escolas, onde os alunos continuam a aprender que os seus antepassados s\u00e3o os gauleses \u2014 n\u00e3o por se querer inculcar-lhes essa ideia \u00e0 for\u00e7a, mas porque os manuais escolares adotados s\u00e3o os mesmos por toda a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Come\u00e7a-se a falar novamente na Madame Desbassayns sobretudo na d\u00e9cada de 1970, em testemunhos orais \u00abtransmitidos aos seus descendentes por ex-escravos\u00bb, recolhidos entre 1976 e 1978 por um etn\u00f3logo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.269381804736754\" aria-label=\"Encyclop\u00e9die de La R\u00e9union, \u00c9ditions Livres R\u00e9union, Saint-Denis de La R\u00e9union, volume 6, 1980, p\u00e1gina 110. \">&nbsp;<\/span> e dois estudantes de Hist\u00f3ria<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3962967514430764\" aria-label=\"Brizou (J.) et Despr\u00e8s (M.-R.), Madame Desbassayns, mythes et r\u00e9alit\u00e9s, mem\u00f3rias de licen\u00e7a, Universidade da Proven\u00e7a, 1978, ADR, 8J 26\">&nbsp;<\/span> da Universidade da Reuni\u00e3o. Todos apresentam a personagem de uma mulher m\u00e1 e cruel, uma psicopata que teria passado boa parte dos seus dias a infligir mis\u00e9rias aos escravos e a cometer crimes s\u00e1dicos: a incarna\u00e7\u00e3o do mal absoluto.<\/p>\n<p>Os exageros e as inverosimilhan\u00e7as hist\u00f3ricas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0005532313724605498\" aria-label=\"A proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico, em 1817, tinha dificultado o aprovisionamento da m\u00e3o-de-obra.\">&nbsp;<\/span> contidas nestes depoimentos por si s\u00f3 bastam para p\u00f4r em causa a sua fiabilidade: os autores e denunciadores de um compl\u00f4 que ela mandou lan\u00e7ar para a Ravine \u00e0 Malheur, os calabou\u00e7os subterr\u00e2neos que ela fez inundar para matar os fal\u00edveis \u00e0s d\u00fazias, os homens que ela enterrou vivos, as mulheres que ela fez dar \u00e0 luz em cima de um buraco, os beb\u00e9s negros que ela deu a comer aos porcos, etc.<br \/>\nEnquanto todos os historiadores sublinham a fragilidade dos testemunhos obtidos nos inqu\u00e9ritos orais e a imperiosa necessidade de os multiplicar para se poder proceder aos cotejos ou confronta\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis, aqui nem sequer se d\u00e1 nome completo ou, sequer, aproximado, das pessoas questionadas. Cont\u00e1mos apenas dez, nomeadamente, citadas ou designadas pelas iniciais. Apesar deste corpus t\u00e3o limitado e, portanto, t\u00e3o pouco representativo, as respostas transcritas s\u00e3o apresentadas como sendo a express\u00e3o do bom senso popular e da tradi\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p>H\u00e1 que, contudo, n\u00e3o tirar quaisquer conclus\u00f5es por aus\u00eancia de recorda\u00e7\u00f5es negativas de Madame Desbassayns na mem\u00f3ria dos descendentes dos seus escravos. Ap\u00f3s 1848, muitos deles apressaram-se a deixar o seu antigo dom\u00ednio e nem todos deveriam manter uma boa imagem dela. V\u00e1rios ter\u00e3o sofrido com a dura disciplina que l\u00e1 se aplicava: uma organiza\u00e7\u00e3o rigorosa baseada numa vigil\u00e2ncia m\u00fatua constante, repetidas a\u00e7\u00f5es de controlo e san\u00e7\u00f5es que poderiam chegar \u00e0 pris\u00e3o ou ao acorrentamento.<\/p>\n<p>Foi o filho, Charles, administrador do dom\u00ednio a partir de 1822, que instaurou essa dura disciplina, apesar de continuar a ocupar-se das suas outras propriedades, de entre as quais, a de Sainte-Marie, onde residia<br \/>\n<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8699356143115371\" aria-label=\"Charles Desbassayns, Notes des Objets \u00e0 Observer comme Moyens de Contr\u00f4le et de Surveillance, in Recueil de documents et travaux in\u00e9dits pour servir \u00e0 l\u2019histoire des \u00eeles fran\u00e7aises de l\u2019Oc\u00e9an Indien, ADR, janeiro 1984.\">&nbsp;<\/span>. Em Saint-Gilles-les-Hauts, omnipresente at\u00e9 ao fim da vida, Madame Desbassayns era a \u00fanica senhora do dom\u00ednio, e alguns escravos detestavam-na tanto, que transmitiram esse sentimento aos seus descendentes. O pr\u00f3prio Jean-Baptiste de Vill\u00e8le reconhecia que ela era muito severa<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6691434019156255\" aria-label=\"Jean-Baptiste de Vill\u00e8le, Notice biographique, op. cit., p\u00e1ginas 44-45 e 47. Bonne avec (ses esclaves), mais sans faiblesse et leur procure tout le bien-\u00eatre que comportait leur position (\u2026) mais (elle) exigeait d\u2019eux ob\u00e9issance et soumission, d\u00e9vouement \u00e0 ses int\u00e9r\u00eats, attachement pour ses enfants.\">&nbsp;<\/span>. A lenda tem, ent\u00e3o, a suas ra\u00edzes na realidade.<\/p>\n<h3>A constru\u00e7\u00e3o de um s\u00edmbolo para a escravatura<\/h3>\n<figure id=\"attachment_5314\" aria-describedby=\"caption-attachment-5314\" style=\"width: 466px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-madame-desbassayns-web-e1625555604922.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-5314 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-madame-desbassayns-web-e1625555604922.jpg\" alt=\"\" width=\"466\" height=\"700\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5314\" class=\"wp-caption-text\">Escultura de Madame Desbassayns. Marco Ah-Khiem. Basalto.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Se a lenda negra de Madame Desbassayns se desenvolveu facilmente ap\u00f3s 1970, apesar dos exageros e inverosimilhan\u00e7as das acusa\u00e7\u00f5es levantadas, \u00e9 porque o per\u00edodo propicia a sua difus\u00e3o. A partir da d\u00e9cada de 1960, assistiu-se \u00e0 emerg\u00eancia de uma corrente pol\u00edtica identit\u00e1ria que denunciava os limites da departamentaliza\u00e7\u00e3o \u2014 a via adotada em 1946 para descolonizar a Reuni\u00e3o \u2014 e, consequentemente, reivindicava um estatuto de autonomia<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.13923714503998985\" aria-label=\"Jean-Claude Leloutre, La R\u00e9union d\u00e9partement fran\u00e7ais, \u00c9ditions Masp\u00e9ro, Paris, 1968 ; Cercle \u00c9liard Laude, R\u00e9union 1969 une colonie fran\u00e7aise, \u00c9ditions Masp\u00e9ro, Paris, 1969.\">&nbsp;<\/span>. O desafio eleitoral era evidente: exaltava-se a mem\u00f3ria dos sofrimentos passados infligidos pelo sistema servil e a coloniza\u00e7\u00e3o a que se atribu\u00eda a origem das desigualdades e discrimina\u00e7\u00f5es do presente. Na d\u00e9cada de 1960, a influ\u00eancia do marxismo sobre os historiadores tornou-se particularmente forte, manifestando-se na relev\u00e2ncia que se dava aos fatores econ\u00f3micos e aos antagonismos sociais.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a hist\u00f3ria da Reuni\u00e3o reduzia-se praticamente \u00e0 hist\u00f3ria da escravatura: come\u00e7ava com ela e estava intimamente associada \u00e0 ideia de busca pelas ra\u00edzes, do dever de preservar a mem\u00f3ria e de prestar culto aos antepassados.<\/p>\n<p>Desse modo, os testemunhos orais dos descendentes dos escravos eram elevados a documentos hist\u00f3ricos privilegiados ou, at\u00e9, sacralizados.<\/p>\n<p>O grande n\u00famero de obras ou artigos consagrados \u00e0 escravatura revela bem o interesse dos investigadores e o entusiasmo do p\u00fablico por esta quest\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.20894459031843726\" aria-label=\"Hubert Gerbeau, Les esclaves noirs pour une histoire du silence, \u00c9ditions Balland, Paris, 1970 ; Les Cahiers de La R\u00e9union et de l'oc\u00e9an Indien, imprimerie R.E.I., Saint-Denis de La R\u00e9union, N\u00b01, novembro-dezembro de 1972.\">&nbsp;<\/span>. A partir da d\u00e9cada de 1970, Madame Desbassayns tamb\u00e9m foi alvo de estudos ou processos que reativaram a sua lenda negra de mulher autorit\u00e1ria desprovida de humanidade. Os contadores, cantores e outros artistas locais que falam dela consideram geralmente estar a expressar a realidade da sua personagem. Na verdade, seja volunt\u00e1ria ou inadvertidamente, alimentam, empolam e propagam a sua lenda. Atualmente, todas as mulheres que se critica, com ou sem raz\u00e3o, por imporem demasiada autoridade no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es de chefia veem-se sistematicamente comparadas \u00e0 Madame Desbassayns.<\/p>\n<p>Isso deve-se, em boa parte, a uma simplifica\u00e7\u00e3o abusiva da sociedade esclavagista com os Negros, por um lado, continuamente acorrentados e maltratados, e os \u00abGrands Blancs\u00bb (fam\u00edlias brancas poderosas), por outro, ricos, for\u00e7osamente maus e cujo arqu\u00e9tipo imaginamos ser a Madame Desbassayns. Ora, sabe-se que ela nem sempre foi detentora da maior fortuna da ilha, tendo sido largamente ultrapassada a partir da d\u00e9cada de 1830 por Gabriel Le Coat de Kerv\u00e9guen (1800-1860), propriet\u00e1rio de mais escravos do que ela. Sabe-se tamb\u00e9m que, na sua \u00e9poca, todos os habitantes da Reuni\u00e3o que tinham meios \u2014 fossem eles brancos, mesti\u00e7os ou negros \u2014, possu\u00edam escravos, por vezes, muito poucos, para trabalhar as suas terras ou para cuidar das tarefas dom\u00e9sticas. A sua designa\u00e7\u00e3o impl\u00edcita como bode expiat\u00f3rio leva a que as pessoas se esque\u00e7am de todos os outros esclavagistas menos conhecidos do que ela e exonerem os seus descendentes de eventuais exa\u00e7\u00f5es cometidas pelos seus antepassados.<\/p>\n<p>\u00c9 como se, \u00e0 falta de um libertador \u2014 como Toussaint Louverture, no Haiti \u2014, cristalizando ao seu redor todos os seus ressentimentos, Madame Desbassayns devesse reunir novamente os descendentes dos escravos da Reuni\u00e3o e perpetuar a mem\u00f3ria da escravatura.<\/p>\n<h3>Segunda Provid\u00eancia ou torcion\u00e1ria de escravos?<\/h3>\n<p>\u00c9 sempre poss\u00edvel descobrir elementos novos, mas, at\u00e9 hoje, n\u00e3o se descobriu qualquer argumento convincente a favor de uma ou outra destas duas teses. A an\u00e1lise cr\u00edtica dos mais variados documentos que pudemos consultar revela que ela era filha do seu tempo, produto e protagonista de um determinado tipo de sociedade<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6384233754444704\" aria-label=\"Alexis Miranville, Madame Desbassayns, le mythe, la l\u00e9gende et l\u2019histoire, Oc\u00e9an \u00c9ditions-Museu historico de Vill\u00e8le, 2012.\">&nbsp;<\/span>. A economia do seu dom\u00ednio assentava sobre a escravatura, uma pr\u00e1tica desumana e conden\u00e1vel, mas, na altura, legal e estritamente codificada.<\/p>\n<p>Tal como qualquer dirigente empresarial, \u2014 que quer no passado quer no presente raramente \u00e9 filantropo \u2014, como administradora dos seus dom\u00ednios ela pretendia tirar o melhor partido desse sistema e melhorar a sua efic\u00e1cia. Cada uma das suas a\u00e7\u00f5es ou cada uma das facetas da sua personagem deu naturalmente lugar, nos s\u00e9culos XIX e XX, a todos os tipos de interpreta\u00e7\u00f5es e representa\u00e7\u00f5es, as quais refletem as mentalidades e os valores das respetivas \u00e9pocas e est\u00e3o na origem da lenda arreigada no imagin\u00e1rio de muitos habitantes da Reuni\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5315,"parent":5028,"menu_order":10,"template":"","class_list":["post-5311","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5311","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5028"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5311"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}