{"id":6006,"date":"2021-09-06T12:08:23","date_gmt":"2021-09-06T10:08:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6006"},"modified":"2021-11-26T11:31:31","modified_gmt":"2021-11-26T10:31:31","slug":"o-quotidiano-dos-escravos-na-propriedade-desbassayns-de-saint-gilles-les-hauts","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/condicao-e-vida-quotidiana-do-escravo\/o-quotidiano-dos-escravos-na-propriedade-desbassayns-de-saint-gilles-les-hauts\/","title":{"rendered":"O quotidiano dos escravos na propriedade Desbassayns de Saint-Gilles-les-Hauts"},"content":{"rendered":"<h2>Na Ilha da Reuni\u00e3o, h\u00e1 poucos lugares, al\u00e9m de Vill\u00e8le, que re\u00fanem num espa\u00e7o t\u00e3o pequeno tantos edif\u00edcios e vest\u00edgios, testemunhos do passado esclavagista da ilha: mans\u00e3o, f\u00e1brica de a\u00e7\u00facar, hospital dedicado aos escravos, capela onde muitas pessoas se casaram, etc.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6006-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/poster_miranville-1.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/MIRANVILLE-PORT_SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/MIRANVILLE-PORT_SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/MIRANVILLE-PORT_SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da era do caf\u00e9 para a do a\u00e7\u00facar provocou grandes mudan\u00e7as na paisagem e economia da propriedade da Madame Desbassayns e tamb\u00e9m no dia a dia dos seus escravos.<\/p>\n<h3>O seu contexto de vida<br \/>\nA propriedade e as suas atividades econ\u00f3micas<\/h3>\n<p>A propriedade Panon Desbassayns, local de resid\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, formava uma pequena comunidade que cultivava os seus alimentos, criava os seus animais e produzia g\u00e9neros aliment\u00edcios para exporta\u00e7\u00e3o. No relato das visitas que fez \u00e0 Reuni\u00e3o em meados da d\u00e9cada de 1840, o Abade Macquet retratou-a como um principado chefiado por um chefe e v\u00e1rios ministros<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9611501031427173\" aria-label=\"Abade Macquet Six ann\u00e9es \u00e0 l\u2019\u00cele Bourbon, \u00c9ditions Alfred Cattier, 1893, Tours, p\u00e1gina 79. Para o autor, este principado tem \u00abum Ministro do Interior, encarregado do acampamento (de escravos); um Ministro das Obras P\u00fablicas, que supervisiona a planta\u00e7\u00e3o, o cultivo de cana e o fabrico de a\u00e7\u00facar; um Ministro das Finan\u00e7as, respons\u00e1vel pelas receitas e despesas (...), um Ministro da Religi\u00e3o... \u00bb.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h4>Constitui\u00e7\u00e3o e configura\u00e7\u00e3o espacial do dom\u00ednio de Saint-Gilles<\/h4>\n<p>Na origem da propriedade, em 1698, est\u00e1 a concess\u00e3o de um primeiro terreno a Th\u00e9r\u00e8se Mollet, vi\u00fava do senhor Duhal, av\u00f3 materna de Henri Paulin Panon Desbassayns, localizado \u00ab<em>na parte alta de Saint-Gilles<\/em>\u00bb, entre as ravinas Saint-Gilles e L&#8217;Ermitage. Essa concess\u00e3o totalizava cerca de meia l\u00e9gua de comprimento por um quarto de l\u00e9gua de largura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2069992643512082\" aria-label=\"Antoine Boucher, M\u00e9moire pour servir \u00e0 la connaissance de chacun des habitans de l\u2019Isle Bourbon, seguido por Notes do Padre Barassin, \u00c9ditions ARS Terres Cr\u00e9oles, La R\u00e9union, 1989, p\u00e1gina 316. \">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>As v\u00e1rias disputas que Th\u00e9r\u00e8se Mollet teve com os seus vizinhos encontram-se registadas no ato de ratifica\u00e7\u00e3o assinado a seu favor em 1727 e que estabelece, de um modo um pouco mais exato, os limites e as dimens\u00f5es da sua propriedade: 3262 m de comprimento por 856 m de largura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8705221165164648\" aria-label=\"Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o (ADR), C\u00b0 1919, Ata n\u00ba 86. Nesta ata, as dimens\u00f5es s\u00e3o expressas em gaulettes, uma unidade de medi\u00e7\u00e3o utilizada nas zonas rurais da Reuni\u00e3o at\u00e9 um per\u00edodo muito recente, o equivalente a 15 p\u00e9s de 33 cm e que corresponde a 4,95 m, que por vezes \u00e9 arredondado a 5 m.\">&nbsp;<\/span>. N\u00e3o apresentava, por\u00e9m, a forma de um ret\u00e2ngulo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2268419100562522\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 1919. Esta ata N\u00b0 74 indica que, caso seja medido unicamente na sua base, o terreno \u00abdiminuir\u00e1 em largura ou aumentar\u00e1, bem como os dos concession\u00e1rios vizinhos, na propor\u00e7\u00e3o em que os barrancos se abrem ou fecham por cima\u00bb.\">&nbsp;<\/span> e situava-se entre 250 m e 500 m de altitude, acima e no limite da savana na qual, a 20 de dezembro de 1731, um despacho do Conselho Superior da Ilha Bourbon cancela e pro\u00edbe qualquer anexa\u00e7\u00e3o ou aquisi\u00e7\u00e3o de terrenos. Este texto estipulava que a savana deveria permanecer comum a todos os propriet\u00e1rios das parcelas cont\u00edguas para deixar o gado<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.14141831237851288\" aria-label=\"Abade Meersseman. Historique de Saint-Gilles-Les-Hauts, ADR, bib 2126.\">&nbsp;<\/span> em cercado.<\/p>\n<p>Foi nesta concess\u00e3o que a mans\u00e3o, a f\u00e1brica, a capela e as primeiras cubatas do campo de escravos foram posteriormente constru\u00eddas, constituindo o primeiro n\u00facleo de onde seria erigido o dom\u00ednio dos Panon Desbassayns.<br \/>\nA vi\u00fava do senhor Duhal, que faleceu em 1753, deixou metade do seu bem a cada uma das duas filhas. A primeira, a vi\u00fava de Andr\u00e9 Rault<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8302418062401339\" aria-label=\"Nome por vezes escrito Raux.\">&nbsp;<\/span>, tendo tido seis filhos, subdividiu a sua parte em tantos lotes. Quanto a Augustin Panon (1694-1772), marido da segunda filha dos Duhal, s\u00f3 teve de partilhar o seu terreno entre dois dos filhos: Fran\u00e7ois Joseph Panon du Hazier e Henri Paulin Panon Desbassayns. Este \u00faltimo foi assim apelidado por ter herdado um terreno em Trois-Bassins.<\/p>\n<p>Como a maioria dos que obtiveram terras na parte alta de Saint-Gilles, a vi\u00fava do senhor Duhal n\u00e3o viveu nesse lugar, destinando-o \u00e0 agricultura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9550817841484187\" aria-label=\"A. Boucher, op. cit., p\u00e1ginas 47, 75, 185 e 316-317.\">&nbsp;<\/span>. De acordo com o poeta e agr\u00f3nomo Auguste de Vill\u00e8le (1858-1943), bisneto de Madame Desbassayns<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.28266346116265173\" aria-label=\"La famille Panon-Desbassayns, \u00c0 la m\u00e9moire de vieux colons fran\u00e7ais et de quelques-uns de leurs descendants, Boletim da Academia da Reuni\u00e3o, ano de 1928, volume 9, p\u00e1ginas 99-134.\">&nbsp;<\/span>, Augustin Panon foi o primeiro a ali se instalar, numa casa de madeira. A partir de 1780, o seu filho, Henri Paulin Panon Desbassayns, comprou as a\u00e7\u00f5es dos filhos do seu irm\u00e3o Panon du Hazier e depois alguns lotes pertencentes aos herdeiros de Andr\u00e9 Rault. Na altura da sua morte, em 1800, tinha mais do que duplicado a \u00e1rea recebida como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter enviuvado, Hombeline Gonneau Montbrun, agora mais conhecida como Madame Desbassayns, continuou a expandir a propriedade que, aquando do seu falecimento em 1846, perfazia 378 ha<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2574033724266447\" aria-label=\"ADR, 6 M 708, folha de recenseamento.\">&nbsp;<\/span>. A \u00e1rea cultiv\u00e1vel era ent\u00e3o de cerca de 300 ha, sendo que os 500 ha de savana ainda n\u00e3o faziam parte do dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta propriedade em Saint-Gilles, Madame Desbassayns possu\u00eda outra, a uma dist\u00e2ncia em linha reta de aproximadamente 3 km, localizada a uma altitude de 500 m na sua base, entre as ravinas Divon e Bernica<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3646533884464589\" aria-label=\"Arquivos Departamentais, cota 6 M 593. Foi esta ravina que lhe deu o nome.\">&nbsp;<\/span>, e herdada do pai, Julien Gonneau Montbrun, falecido em 1801.<\/p>\n<h4>Atividades econ\u00f3micas na propriedade de Saint-Gilles<\/h4>\n<figure id=\"attachment_811\" aria-describedby=\"caption-attachment-811\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/cafe-de-toutes-provenances.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-811 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/cafe-de-toutes-provenances.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"815\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/cafe-de-toutes-provenances.jpg 1200w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/cafe-de-toutes-provenances-300x204.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/cafe-de-toutes-provenances-768x522.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/cafe-de-toutes-provenances-1024x695.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-811\" class=\"wp-caption-text\">Casa especial de caf\u00e9s. 2a metade do s\u00e9culo XIX.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>No s\u00e9culo XVIII, Saint-Gilles viveu um per\u00edodo de intensa atividade de caf\u00e9. A mans\u00e3o da propriedade, conclu\u00edda em 1788, apresenta um telhado em terra\u00e7o onde se finalizava a secagem da colheita.<br \/>\nSegundo Auguste de Vill\u00e8le, o cultivo de algod\u00e3o, cujas sementes Henri Paulin tinha trazido da \u00cdndia, \u00ab<em>rivalizava com o do caf\u00e9 e das (plantas) aliment\u00edcias<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7126234373184863\" aria-label=\"Boletim da Academia da Ilha da Reuni\u00e3o, volume 9, ano de 1928, p\u00e1gina 109.\">&nbsp;<\/span>. Todavia, essa produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o aparece nas estat\u00edsticas em 1823<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6218089326406671\" aria-label=\"ADR, 6 M 593.\">&nbsp;<\/span>, sendo que em 1815, cobria apenas 7 ha contra 27 no caso do caf\u00e9<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7036779379939717\" aria-label=\"Danielle Baret, Monographie d\u2019une habitation coloniale \u00e0 Bourbon : la propri\u00e9t\u00e9 Desbassayns 1770-1846, Paris, 1977, Universidade de Paris 1, ADR, 8J 15 ou 8J 61.\">&nbsp;<\/span> e 250 no do milho<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.17383659237107185\" aria-label=\"Um texto da Companhia das \u00cdndias datado de meados do s\u00e9culo XVIII indica que os terrenos costeiros, secos e arenosos s\u00e3o os mais prop\u00edcios para a cultura do algod\u00e3o, enquanto nas terras altas a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 muito baixa e de m\u00e1 qualidade (ADR, C\u00b02822).\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>O viajante Auguste Billiard que, em 1817, viveu numa casa ao lado da de Madame Desbassayns, evoca no seu livro<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5757992322385981\" aria-label=\"Auguste Billiard, Voyage aux colonies orientales, ARS Terres Cr\u00e9oles, Saint-Denis de La R\u00e9union, 1990, p\u00e1gina 65.\">&nbsp;<\/span> a destrui\u00e7\u00e3o de uma grande parte dos cafeeiros da ilha, causada pelos ciclones e secas de 1806, explicando o abandono desta cultura pelo facto de muitos colonos n\u00e3o terem a possibilidade de esperar os quatro a sete anos necess\u00e1rios para o crescimento das mudas. J\u00e1 o Tenente Frappaz atribui o seu decl\u00ednio menos a estes excecionais acidentes clim\u00e1ticos do que a uma diminui\u00e7\u00e3o constante das chuvas que, durante v\u00e1rios anos, \u00ab<em>vemos fugir ao longo das terras altas que ladeiam (a) bela planta\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4535536523823278\" aria-label=\"Raymond Decary , Les voyages du lieutenant de vaisseau Frappaz dans les mers des Indes et \u00e0 l\u2019\u00eele Bourbon, Boletim da Academia da Reuni\u00e3o, volume 15, ano de 1938.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>\u00c9 provavelmente por esta raz\u00e3o que a habita\u00e7\u00e3o de Bernica, que goza de uma altitude relativamente mais fresca e h\u00famida, foi preferida \u00e0 de Saint-Gilles para a primeira experi\u00eancia do cultivo da cana e da cria\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 o dom\u00ednio de Saint-Gilles que ser\u00e1 objeto de todos os cuidados de Madame Desbassayns e cuja administra\u00e7\u00e3o confiou ao seu filho Charles por meio de um acordo assinado em 1822<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9454652170860671\" aria-label=\"Danielle Baret, Monographie d\u2019une habitation coloniale \u00e0 Bourbon, \u2026, op.cit.\">&nbsp;<\/span>. Uma das principais vantagens desta propriedade \u00e9 o facto de se situar nas proximidades da costa onde Madame Desbassayns estabeleceu armaz\u00e9ns. Em 1829, ligou-os \u00e0 f\u00e1brica por uma estrada direta cujo tra\u00e7ado corresponde ao do atual <em>Chemin Carrosse<\/em>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esta propriedade n\u00e3o era inteiramente dedicada a uma monocultura de exporta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em 1805, muito antes da devasta\u00e7\u00e3o causada aos cafeeiros pelas cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas de 1806-1807, os v\u00edveres (milho, trigo, arroz, legumes, batatas) cobriam 85% da \u00e1rea cultivada, contra apenas 15% para o caf\u00e9.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6223003982327293\" aria-label=\"ADR, L222\/2.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Em 1846, na era pr\u00f3spera da cana, cobria um pouco mais de 34% das terras agr\u00edcolas contra cerca de 61% das plantas alimentares<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3713014245082502\" aria-label=\"ADR, 6M708.\">&nbsp;<\/span>. O milho, por si s\u00f3, ocupava o primeiro lugar com 118 ha, representando quase 50% das terras semeadas, muito \u00e0 frente das v\u00e1rias culturas de leguminosas (8,3%) e da mandioca (4,5%). Esta \u00faltima n\u00e3o substituiu o milho para a alimenta\u00e7\u00e3o dos escravos e animais, pese embora as recomenda\u00e7\u00f5es de Joseph Desbassayns e as diretivas do seu irm\u00e3o Charles.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5676239470622682\" aria-label=\"Charles Desbassayns, Notes des Objets \u00e0 Observer comme Moyens de Contr\u00f4le et de Surveillance, in Recueil de documents et travaux in\u00e9dits pour servir \u00e0 l\u2019histoire des \u00eeles fran\u00e7aises de l\u2019Oc\u00e9an Indien, ADR, janeiro de 1984, p\u00e1gina 21. Ele pretendia que este cultivo proporcionasse metade dos v\u00edveres produzidos na propriedade.\">&nbsp;<\/span><br \/>\nO desenvolvimento da cana dependia, portanto, de uma m\u00e3o de obra abundante, cuja alimenta\u00e7\u00e3o exigia que uma parte significativa da terra fosse consagrada aos v\u00edveres. A este respeito, vale a pena citar o testemunho de um dos netos da Madame Desbassayns segundo o qual ela tinha conce\u00e7\u00f5es da economia da propriedade diferentes, ou at\u00e9 divergentes, do filho Charles. Estava convencida de que a cana-de-a\u00e7\u00facar estava a esgotar o solo e, for\u00e7ando os plantadores a endividarem-se, causaria inevitavelmente a sua ru\u00edna<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2749539055536707\" aria-label=\"Documento intitulado Pieux Souvenir, Arquivos do Episcopado, cota 4B.\">&nbsp;<\/span>. Ao defender a manuten\u00e7\u00e3o de uma produ\u00e7\u00e3o alimentar consider\u00e1vel, quis assegurar e garantir a alimenta\u00e7\u00e3o dos numerosos escravos e tornar a propriedade autossuficiente em termos alimentares.<\/p>\n<h3>As suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho<br \/>\nUma controlo severo e uma supervis\u00e3o constante<\/h3>\n<p>A supervis\u00e3o dos escravos era levada a cabo por um administrador de propriedades encarregado de velar pelo desempenho das tarefas di\u00e1rias, tais como definidas pelos seus patr\u00f5es, bem como pela aplica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos destes \u00faltimos. Tinha sob o seu comando um batalh\u00e3o de guardas e capatazes. Para obter uma melhor produtividade da m\u00e3o de obra servil, Charles Desbassayns escreveu instru\u00e7\u00f5es (\u00ab<em>Notes<\/em>\u00bb) destinadas aos administradores e apresentadas sob a forma de um cat\u00e1logo de observa\u00e7\u00f5es e recomenda\u00e7\u00f5es relativas a cada um dos guardas, capatazes ou chefes de grupo, expressamente designados<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9281838213531972\" aria-label=\"Charles Desbassayns, Notes..., op.cit.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h4>Capatazes e Guardas: Chefes que eram escravos<\/h4>\n<figure id=\"attachment_409\" aria-describedby=\"caption-attachment-409\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-frad974-98fi2-commandeur-porteur-d-eau-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-409 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-frad974-98fi2-commandeur-porteur-d-eau-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"515\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-frad974-98fi2-commandeur-porteur-d-eau-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-frad974-98fi2-commandeur-porteur-d-eau-web-300x193.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-3-frad974-98fi2-commandeur-porteur-d-eau-web-768x494.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-409\" class=\"wp-caption-text\">Ra\u00e7\u00e3o dos cavalos; Portador de \u00e1gua; Dom\u00e9stico indiano ; Capataz. Jean-Baptiste Louis Dumas. 1849.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais de Ilha da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os chefes de equipa chamados capatazes ocupavam o posto mais alto a que os escravos podiam aceder. A sua fun\u00e7\u00e3o era comandar um grupo destacado para uma determinada atividade ou s\u00edtio: os campos, a f\u00e1brica, a casa principal da propriedade, o jardim, para cortar madeira na floresta ou recolher corais na costa.<\/p>\n<p>Os respons\u00e1veis pelo galinheiro, a purga da f\u00e1brica e as equipas de carpinteiros ou trabalhadores do a\u00e7\u00facar tinham o t\u00edtulo de chefes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9481145559291382\" aria-label=\"Testamento de Madame Desbassayns, de 20 de junho de 1845.\">&nbsp;<\/span>. Os capatazes eram escolhidos de acordo com a sua capacidade para se fazerem respeitar, mas tamb\u00e9m entre os homens e mulheres mais competentes na sua \u00e1rea profissional e que possu\u00edam muitas outras qualidades, incluindo habilidade e intelig\u00eancia. Eram obrigados a uma total submiss\u00e3o. Charles Desbassayns viu-se, no entanto, for\u00e7ado a constar que as suas instru\u00e7\u00f5es nem sempre eram cumpridas \u00e0 risca e, notava, por vezes, uma certa cumplicidade entre os chefes e os transgressores. Por isso, pediu ao administrador que aumentasse o n\u00famero de controlos aleat\u00f3rios, que mudasse frequentemente os guardas de posto e at\u00e9, se necess\u00e1rio, os despromovesse.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9578385251193049\" aria-label=\"Charles Desbassayns Notes ..., op.cit., p\u00e1gina 26.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Tal como os capatazes, os guardi\u00f5es eram escolhidos entre aqueles em que o senhor poderia depositar alguma confian\u00e7a. No testamento de Madame Desbassayns, redigido em 1845, encontravam-se recenseados vinte e tr\u00eas deles, incluindo uma d\u00fazia com mais de sessenta anos. Ao contr\u00e1rio do que se possa pensar, n\u00e3o era uma fun\u00e7\u00e3o f\u00e1cil porque era preciso, todas as noites, informar o administrador de tudo o que se tinha feito ou visto fazer. O papel dos guardi\u00f5es de propriedade n\u00e3o se cingia a proteger os campos contra os ladr\u00f5es. Tinham igualmente de realizar m\u00faltiplas tarefas, como podar \u00e1rvores, arrancar as ervas daninhas, colher o milho ou fabricar cordas com fibras de alo\u00e9 conhecidas na Reuni\u00e3o como \u201c<em>choca<\/em>\u201d ou \u201c<em>cad\u00e8re<\/em>\u201d. No tocante \u00e0s mulheres, em geral, trabalhavam no p\u00e1tio ou perto da casa dos senhores. A guardi\u00e3 do hospital, que era tamb\u00e9m a enfermeira, era respons\u00e1vel tanto pelos cuidados aos doentes como pela supervis\u00e3o das suas tarefas, incluindo a realiza\u00e7\u00e3o de sacos realizados com folhas de vacoa (Pandanus utilis).<br \/>\nAs chicotadas, mencionadas por Charles Desbassayns nas suas <em>Notes<\/em>, constavam das penas aplic\u00e1veis aos guardas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.16854288273116502\" aria-label=\"Ibid., p\u00e1gina 22.\">&nbsp;<\/span> e capatazes.<\/p>\n<h4>A grande maioria dos trabalhadores: uma especializa\u00e7\u00e3o limitada e adaptada<\/h4>\n<figure id=\"attachment_407\" aria-describedby=\"caption-attachment-407\" style=\"width: 653px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-frad974-98fi14-four-d-une-sucrerie-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-407 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-frad974-98fi14-four-d-une-sucrerie-web.jpg\" alt=\"\" width=\"653\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-frad974-98fi14-four-d-une-sucrerie-web.jpg 653w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-2-frad974-98fi14-four-d-une-sucrerie-web-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 653px) 100vw, 653px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-407\" class=\"wp-caption-text\">Forno de uma f\u00e1brica de a\u00e7\u00facar; Palanquin. Jean-Baptiste Louis Dumas. 1849.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais de Ilha da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_411\" aria-describedby=\"caption-attachment-411\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-frad974-98fi5-noir-de-pioche-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-411 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-frad974-98fi5-noir-de-pioche-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"518\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-frad974-98fi5-noir-de-pioche-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-frad974-98fi5-noir-de-pioche-web-300x194.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4-frad974-98fi5-noir-de-pioche-web-768x497.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-411\" class=\"wp-caption-text\">Malabar; Noir de pioche (trabalhador do campo); Portador de \u00e1gua; Escrava ama de crian\u00e7as; tocado de bobre (instrumento da fam\u00edlia do berimbau); pipa de \u00e1gua. Jean-Baptiste Louis Dumas. 1849.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais de Ilha da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_413\" aria-describedby=\"caption-attachment-413\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4b-frad974-98fi8-nc-gresse-de-pioche-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-413 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4b-frad974-98fi8-nc-gresse-de-pioche-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"511\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4b-frad974-98fi8-nc-gresse-de-pioche-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4b-frad974-98fi8-nc-gresse-de-pioche-web-300x192.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-4b-frad974-98fi8-nc-gresse-de-pioche-web-768x491.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-413\" class=\"wp-caption-text\">Mulher P\u00e1ria ; Escrava crioula; Yambane ; Escravo crioulo; Escrava do campo. Jean-Baptiste Louis Dumas. 1849.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais de Ilha da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1845, os chamados <em>Noirs<\/em> ou <em>N\u00e9gresses de pioche<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.26954121658047625\" aria-label=\"Testamento de Madame Desbassayns.\">&nbsp;<\/span> (trabalhadores comuns) totalizavam quase 48% dos escravos com uma fun\u00e7\u00e3o definida. S\u00e3o, portanto, de longe a maior categoria dos trabalhadores. Levada \u00e0 letra, a palavra \u00ab<em>pioche<\/em>\u00bb significa picareta e designava exclusivamente as pessoas que trabalhavam no campo, restando apenas, para operar a f\u00e1brica e garantir todo o servi\u00e7o de transporte, os tr\u00eas trabalhadores e o \u00fanico carroceiro mencionado no testamento de Madame Desbassayns (1845), que tamb\u00e9m menciona dezasseis mulas e trinta e nove bois com as suas carro\u00e7as.<br \/>\nAl\u00e9m do n\u00famero de guardas substancial (12,5% do pessoal servil), destaca-se uma forte representa\u00e7\u00e3o do pessoal dom\u00e9stico (10,5%)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0029920855907241695\" aria-label=\"Categoria invejada porque, vivendo junto aos senhores, era por eles melhor tratada.\">&nbsp;<\/span> e da categoria de pedreiros e carpinteiros (8,5%).<\/p>\n<figure id=\"attachment_415\" aria-describedby=\"caption-attachment-415\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-frad974-98fi9-repasseuse-nc-gresse-faisant-la-cuisine-porteur-d-eau-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-415 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-frad974-98fi9-repasseuse-nc-gresse-faisant-la-cuisine-porteur-d-eau-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"513\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-frad974-98fi9-repasseuse-nc-gresse-faisant-la-cuisine-porteur-d-eau-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-frad974-98fi9-repasseuse-nc-gresse-faisant-la-cuisine-porteur-d-eau-web-300x192.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-5-frad974-98fi9-repasseuse-nc-gresse-faisant-la-cuisine-porteur-d-eau-web-768x492.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-415\" class=\"wp-caption-text\">Engomadeira; escrava a cozinhar. Jean-Baptiste Louis Dumas. 1849.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais de Ilha da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>No que diz respeito ao n\u00famero de trabalhadores e carreteiros, os valores anormalmente baixos mostram que apenas uma pequena parte dos trabalhadores eram especializados. Uma vez que a agricultura e a ind\u00fastria a\u00e7ucareira eram atividades sazonais, a gest\u00e3o racional da m\u00e3o de obra exigia que esta fosse adapt\u00e1vel, de modo a poder passar rapidamente e com a mesma efici\u00eancia de uma cultura para outra, dos campos \u00e0 f\u00e1brica, do trabalho de produ\u00e7\u00e3o para trabalhos de manuten\u00e7\u00e3o. As diretivas de Charles Desbassayns v\u00e3o nesse sentido, preconizando a forma\u00e7\u00e3o dos escravos no exerc\u00edcio de v\u00e1rios of\u00edcios<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1086994847704097\" aria-label=\"Charles Desbassayns Notes ..., op.cit., p\u00e1gina 29.\">&nbsp;<\/span>. A maioria dos trabalhadores comuns (<em>Noirs de pioche<\/em>) formava assim uma categoria muito mais social do que profissional, constituindo a camada mais baixa da comunidade servil.<\/p>\n<h4>Rela\u00e7\u00f5es sociais baseadas na desconfian\u00e7a e no medo rec\u00edprocos<\/h4>\n<p>Nas suas <em>Notes<\/em>, Charles Desbassayns considera que os escravos s\u00f3 trabalham bem se forem constantemente vigiados. Na sua opini\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o consistia em implementar uma organiza\u00e7\u00e3o rigorosa baseada na vigil\u00e2ncia m\u00fatua constante, com controlos fortuitos e repetidos, v\u00e1rias san\u00e7\u00f5es que iam desde chicotadas at\u00e9 \u00e0 pris\u00e3o, passando pelo trabalho domingueiro e a proibi\u00e7\u00e3o de sair da propriedade. Incapaz de ver ou fazer tudo sozinho, o administrador devia \u00ab<em>criar olhos em todo o lado, munir-se de pernas, ter um esp\u00edrito e uma mem\u00f3ria substitutos<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.36645713764212484\" aria-label=\"Ibid., p\u00e1gina 18.\">&nbsp;<\/span> para que todos estivessem permanentemente prevenidos.<\/p>\n<p>O administrador n\u00e3o devia tolerar qualquer omiss\u00e3o ou viola\u00e7\u00e3o do regulamento. Charles Desbassayns surge assim como um empres\u00e1rio frio e met\u00f3dico, apenas preocupado em tirar o melhor proveito de uma m\u00e3o de obra submissa e totalmente instrumentalizada.<\/p>\n<p>Com tais pr\u00e1ticas, a atmosfera que prevalecia em toda a propriedade s\u00f3 poderia ser tensa e as rela\u00e7\u00f5es sociais conflituosas j\u00e1 que se baseavam na desconfian\u00e7a e no medo m\u00fatuos. Todavia, recomendava tamb\u00e9m ao administrador que n\u00e3o fosse demasiado duro com os escravos que desertavam por apenas alguns dias, aos quais se devia transmitir a for\u00e7a e coragem, em vez de recorrer aos grilh\u00f5es ou ao encarceramento demasiadamente longo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.461892865709439\" aria-label=\"Charles Desbassayns Notes ..., op.cit., p\u00e1ginas 25, 26 e 33.\">&nbsp;<\/span>. Considerava que as pr\u00e1ticas excessivamente duras poderiam desencadear o ciclo infernal das revoltas, fugas e san\u00e7\u00f5es cada vez mais severas.<\/p>\n<h3>Uma vida quotidiana regulamentada<br \/>\nEscravos que os senhores desejavam ligar \u00e0s suas terras<\/h3>\n<figure id=\"attachment_417\" aria-describedby=\"caption-attachment-417\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-1992-147-4-site-des-environs-de-la-rivia-re-d-abord-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-417 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-1992-147-4-site-des-environs-de-la-rivia-re-d-abord-web.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-1992-147-4-site-des-environs-de-la-rivia-re-d-abord-web.jpg 640w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-6-1992-147-4-site-des-environs-de-la-rivia-re-d-abord-web-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-417\" class=\"wp-caption-text\">Local nos arredores da Rivi\u00e8re d\u2019Abord. Jean-Baptiste Genevi\u00e8ve Marcellin Bory de Saint Vincent. 1801.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer descri\u00e7\u00e3o detalhada das habita\u00e7\u00f5es dos escravos de Madame Desbassayns. Tal como as cubatas dos trabalhadores contratados, que os substitu\u00edram ap\u00f3s 1848, as suas eram provavelmente constru\u00eddas com materiais recolhidos na propriedade: troncos ou ramos de diversas \u00e1rvores, folhas de vetiver, palha de cana-de-a\u00e7\u00facar e grandes ervas da savana para o telhado. Quanto ao seu vestu\u00e1rio, sabemos apenas que estavam vestidos \u00ab<em>de acordo com o clima ameno de Bourbon<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5958536506649805\" aria-label=\"Jean Baptiste de Vill\u00e8le, Notice Biographique sur Madame Desbassayns, redigida em 1846, reedi\u00e7\u00e3o do Museu hist\u00f3rico de Saint-Gilles-les-Hauts, 1992, p\u00e1gina 45. \">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>As cubatas serviam acima de tudo para abrigar o sono dos escravos que regressavam extenuados dos longos dias de labor. Todas as manh\u00e3s, ao som do sino, todos sa\u00edam do acampamento, com exce\u00e7\u00e3o dos dois guardas, e formavam grupos para se dirigirem ao seu local de trabalho. A disciplina era quase militar, como descreveu o Abade Macquet<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9674302456527661\" aria-label=\"Abade Macquet, Six ann\u00e9es \u00e0 l\u2019\u00cele Bourbon, op.cit. Nomeado vig\u00e1rio da par\u00f3quia de Saint-Paul no dia 1 de julho de 1844, por l\u00e1 permaneceu durante seis anos e teve a oportunidade de vir muitas vezes a Saint-Gilles-les-Hauts. Para descrever a sa\u00edda dos escravos do acampamento da propriedade, usava os termos esquadr\u00f5es, dec\u00farias e decuri\u00f5es que evocavam os soldados da Roma antiga.\">&nbsp;<\/span>. As crian\u00e7as eram confiadas a uma escrava dom\u00e9stica (<em>N\u00e9gresse de cour<\/em>) que, al\u00e9m de respons\u00e1vel pelo seu <em>alegre grupo<\/em>, devia tamb\u00e9m varrer toda a envolvente da mans\u00e3o e garantir a limpeza dos arredores da f\u00e1brica. Quanto \u00e0s amas, eram empregadas na manufatura, fabricando sacos para embalagem.<\/p>\n<figure id=\"attachment_421\" aria-describedby=\"caption-attachment-421\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7b-frad974-26j16-nc-na-ne-assise-dans-l-herbe-avec-trois-enfants-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-421 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7b-frad974-26j16-nc-na-ne-assise-dans-l-herbe-avec-trois-enfants-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"598\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7b-frad974-26j16-nc-na-ne-assise-dans-l-herbe-avec-trois-enfants-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7b-frad974-26j16-nc-na-ne-assise-dans-l-herbe-avec-trois-enfants-web-300x224.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ill-7b-frad974-26j16-nc-na-ne-assise-dans-l-herbe-avec-trois-enfants-web-768x574.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-421\" class=\"wp-caption-text\">Ama sentada na relva com tr\u00eas crian\u00e7as. Jean-Joseph Patu de Rosemont. 1818.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais de Ilha da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ningu\u00e9m tinha o direito de entrar no acampamento durante o dia. Toda a gente devia esperar pelo regresso dos outros grupos para regressarem \u00e0s cubatas, depois de cada guarda, supervisor ou capataz ter efetuado o relato do seu dia ao administrador.<\/p>\n<p>Em Notes, Charles Desbassayns especifica ainda que as refei\u00e7\u00f5es dos escravos, tanto adultos como crian\u00e7as, eram preparadas coletivamente, ao almo\u00e7o e ao jantar, numa cozinha para escravos localizada no p\u00e1tio da casa principal da propriedade. As ra\u00e7\u00f5es dos adultos eram levadas para os seus locais de trabalho e entregues aos respons\u00e1veis dos grupos. \u00ab<em>Aos domingos entregam-nas aos negros em pessoa<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.005110076829709875\" aria-label=\"Na propriedade de Ravine \u00e0 Marquet, visitada por Billiard em 1817, este destaca que \u00abo grupo corre para a cabana enfuma\u00e7ada, onde o velho cozinheiro confeciona duas grandes marmitas, de ervilhas do Cabo e milho; cada Preto apresenta-se com um peda\u00e7o de caba\u00e7a, um prato de madeira, uma metade de coco de Praslin, ou apenas um bocado de folha de bananeira, para usufruir da distribui\u00e7\u00e3o\u00bb.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Os escravos apenas podiam descansar aos domingos \u00e0 tarde. Toda a manh\u00e3, at\u00e9 \u00e0s 13h, tinham que realizar as labutas que consistiam em limpar tudo, principalmente a f\u00e1brica, mas tamb\u00e9m os outros edif\u00edcios de opera\u00e7\u00f5es. Para Charles Desbassayns \u00ab<em>este dia de esfrega e limpeza<\/em>\u00bb ajuda a conservar neles o interesse, o apego e at\u00e9 a paix\u00e3o pelo seu trabalho. Se nesse dia se colhessem as batatas, podiam ir buscar as que tinham sido esquecidas, por\u00e9m sob a condi\u00e7\u00e3o de para l\u00e1 se dirigirem em grupo e deixarem a terra limpa ap\u00f3s a sua passagem. O que se assemelhava a um favor era, na realidade, apenas uma forma de limpar os campos e prepar\u00e1-los para a sementeira.<\/p>\n<p>Os termos que o Abade Macquet emprega para descrever a sa\u00edda dos escravos do acampamento, pela manh\u00e3, conferem-lhes a imagem de uma manada humana, dividida em grupos levados todos os dias ao seu local de trabalho, sob a amea\u00e7a do capataz<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.892404445715355\" aria-label=\"O Abade Macquet compara o acampamento a uma \u00abverdadeira cidade obreira, atravessada em todas as dire\u00e7\u00f5es por diversas ruas; todas as cubatas apresentam fachada para a rua, a fim de facilitar a vigil\u00e2ncia\u00bb.\">&nbsp;<\/span>. Na verdade, mais de um ter\u00e7o dos ocupantes deste acampamento de m\u00e3o de obra viviam em fam\u00edlia. O testamento de Madame Desbassayns permite enumerar cerca de cinquenta destes agregados que, por vezes, contavam v\u00e1rias crian\u00e7as cujo total representava mais de 25% da popula\u00e7\u00e3o servil. Os homens e as mulheres com mais de dezasseis anos (69%) eram a grande maioria, contudo com uma boa representa\u00e7\u00e3o dos maiores de sessenta anos (9%). Se tamb\u00e9m contarmos os vinte e oito escravos recenseados como doentes, fracos ou inv\u00e1lidos, constata-se uma propor\u00e7\u00e3o significativa de pessoas improdutivas, total ou parcialmente, na propriedade. Como resultado, todos tinham uma ocupa\u00e7\u00e3o adaptada \u00e0 sua idade ou condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica.<\/p>\n<p>Os casais de escravos da propriedade estavam unidos religiosamente e as crian\u00e7as que nasciam, recebiam o sacramento do batismo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.355686395524196\" aria-label=\"O livro de raz\u00e3o de Henri Paulin menciona isto j\u00e1 nos anos 1760. Arquivos privados da fam\u00edlia, documento comunicado por Christel e Auguste de Vill\u00e8le.\">&nbsp;<\/span>. Esses casamentos tornaram-se mais frequentes a partir de 1843, com a entrada em servi\u00e7o da Chapelle Pointue.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8935164640570026\" aria-label=\"\u00c0s vezes celebrados no mesmo dia, eram frequentemente meras formaliza\u00e7\u00f5es de antigas uni\u00f5es, tendo muitos dos novos c\u00f4njuges mais de 30-40 anos.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Decididas e organizadas pela Madame Desbassayns, estas uni\u00f5es religiosas representavam a sua oportunidade para atribuir oficialmente aos escravos apelidos franceses. Ao procurar transmitir-lhes o significado e os valores da fam\u00edlia, ela pretendia, sem d\u00favida, apeg\u00e1-los \u00e0 propriedade e aos senhores. Numa carta dirigida ao filho Charles, a 4 de outubro de 1821, ela expressou o seu receio de que os escravos fossem maltratados por administradores brancos inexperientes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6102171109602239\" aria-label=\"\u00abSeria um grande (tormento) para mim colocar-me nas m\u00e3os destes jovens que n\u00e3o t\u00eam experi\u00eancia e que poderiam atormentar os meus negros\u00bb. Arquivos privados da fam\u00edlia, documento comunicado por Christel e Auguste de Vill\u00e8le.\">&nbsp;<\/span>. Neste sentido, ela aplicava, se bem que de uma forma menos brutal, os mesmos objetivos que o filho Charles<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4658449961787918\" aria-label=\"Nas suas Notes (p\u00e1ginas 33-34), quando menciona a pequena cria\u00e7\u00e3o familiar no acampamento, refere imediatamente as san\u00e7\u00f5es a ela associadas: em caso de m\u00e1 conduta, \u00e9 recusada a autoriza\u00e7\u00e3o ao escravo propriet\u00e1rio para ir vender o produto na cidade.\">&nbsp;<\/span>, designadamente a produtividade e rentabilidade da explora\u00e7\u00e3o, bem como a perenidade da sua empresa, na v\u00e9spera da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n<p>Madame Desbassayns morreu em 1846, dois anos antes deste acontecimento t\u00e3o temido pelos senhores. O seu neto e sucessor, Fr\u00e9d\u00e9ric de Vill\u00e8le, parecia partilhar as suas preocupa\u00e7\u00f5es: desde o m\u00eas de novembro de 1848 alforriou seis antigos escravos de confian\u00e7a da av\u00f3, incluindo cinco capatazes, atribuindo-lhes o estatuto de guardas pessoais<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.25550325686062547\" aria-label=\"OB 1848, p\u00e1gina 591.\">&nbsp;<\/span>. Atrav\u00e9s desta dupla promo\u00e7\u00e3o, pretendia, incontestavelmente, estabelecer um quadro de gest\u00e3o seguro e competente para futuros trabalhadores livres e garantir uma certa continuidade do funcionamento e da economia da propriedade.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6008,"parent":5036,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6006","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6008"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}