{"id":6023,"date":"2021-09-07T06:56:38","date_gmt":"2021-09-07T04:56:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6023"},"modified":"2021-11-26T11:33:08","modified_gmt":"2021-11-26T10:33:08","slug":"a-escravatura-e-a-escolarizacao-em-bourbon","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/condicao-e-vida-quotidiana-do-escravo\/a-escravatura-e-a-escolarizacao-em-bourbon\/","title":{"rendered":"A escravatura e a escolariza\u00e7\u00e3o em Bourbon"},"content":{"rendered":"<h2>Por defini\u00e7\u00e3o, a Escola e a Sociedade mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es estreitas e interdependentes que, em contexto colonial e esclavagista, s\u00e3o estabelecidas atrav\u00e9s de m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es. Em Bourbon, que ocupa um lugar singular na diversidade dos contextos coloniais, a quest\u00e3o escolar \u2014 que veio realmente ao de cima ap\u00f3s o Tratado de Paris de 1814 \u2014 foi marcada por discord\u00e2ncias acaloradas em torno do projeto que deveria ser implementado. O governo central e a burguesia crioula apenas conseguiram chegar a acordo sobre um ponto: que o projeto em quest\u00e3o n\u00e3o deveria dizer respeito aos escravos.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6023-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/poster_lucas.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/LUCAS-PORT_SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/LUCAS-PORT_SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/LUCAS-PORT_SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Havia alguma legisla\u00e7\u00e3o oficial que proibisse a educa\u00e7\u00e3o dos escravos? Aparentemente n\u00e3o, por\u00e9m isto n\u00e3o \u00e9 surpreendente: as normas esclavagistas aplicavam-se sem qualquer obje\u00e7\u00e3o. Todavia, em todos os outros aspetos da quest\u00e3o da escolariza\u00e7\u00e3o \u2014 os n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o, os grupos visados, os professores a serem recrutados \u2014 as opini\u00f5es divergiam. .<\/p>\n<p>Para o governo central, a col\u00f3nia precisava somente de escolas b\u00e1sicas para os filhos dos pobres. No tocante aos filhos da burguesia, o governo propunha que, ap\u00f3s terem completado a escolaridade b\u00e1sica, \u00e0 custa dos pais, os estudantes prosseguissem os seus estudos em Fran\u00e7a. Opondo-se firmemente a esta proposta, a burguesia crioula for\u00e7ou o poder central a ceder, logrando obter a cria\u00e7\u00e3o de um Coll\u00e8ge Royal que proporcionava aos seus filhos estudos completos, do ensino b\u00e1sico ao secund\u00e1rio, a n\u00edvel local. Relativamente \u00e0s crian\u00e7as desprivilegiadas, filhos dos brancos pobres e livres de cor, foram solicitadas duas congrega\u00e7\u00f5es, a dos Irm\u00e3os das Escolas Crist\u00e3s (para rapazes) e a das Irm\u00e3s de S\u00e3o Joseph de Cluny (para raparigas). A poderosa fam\u00edlia Desbassayns desempenhou um papel preponderante na cria\u00e7\u00e3o e funcionamento desta organiza\u00e7\u00e3o escolar, colocando ao seu servi\u00e7o os seus recursos e compet\u00eancias interpessoais para garantir o bom arranque deste sistema escolar. Assim, recrutou professores de elite para o Coll\u00e8ge Royal, vindos da Ecole Normale Sup\u00e9rieure ou da Ecole Polytechnique (duas grandes universidades francesas) e convenceu as duas Congrega\u00e7\u00f5es a diligenciarem o envio de pessoal docente para a col\u00f3nia, a fim de abrir o mais rapidamente poss\u00edvel as t\u00e3o desejadas escolas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1592\" aria-describedby=\"caption-attachment-1592\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BIB-28721-65-Lycee-imperial.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1592 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BIB-28721-65-Lycee-imperial.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BIB-28721-65-Lycee-imperial.jpg 700w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/BIB-28721-65-Lycee-imperial-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1592\" class=\"wp-caption-text\">Liceu Imperial. Vista do local de descanso erigido no p\u00e1tio principal no dia do Corpo de Deus.<br \/>Louis Antoine Roussin. 1859. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O princ\u00edpio da organiza\u00e7\u00e3o escolar que foi ent\u00e3o implementada em Bourbon assentava, portanto, em duas abordagens distintas, geridas separadamente, para clientelas diferentes. Cada uma delas atendia a objetivos espec\u00edficos, mas ambas aderiam a uma \u00fanica obsess\u00e3o: garantir que a escravatura e o dom\u00ednio colonial perdurassem. Por um lado, havia o Coll\u00e8ge Royal onde era ensinada, desde as primeiras classes at\u00e9 ao fim do secund\u00e1rio, uma cultura de excel\u00eancia destinada a formar a futura elite dominante da col\u00f3nia e onde se inculcava aos jovens de boas fam\u00edlias (de um ponto de vista social e racial) uma mentalidade de colono, sob a vigil\u00e2ncia dos not\u00e1veis \u2014 tal era a miss\u00e3o atribu\u00edda a este estabelecimento. Por outro lado, havia a escolaridade gratuita destinada aos filhos dos pobres, brancos e livres de cor, dispensada pelas duas Congrega\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas, a dos Irm\u00e3os Lasalliens e a das Irm\u00e3s de Saint-Joseph de Cluny. O ensino a ser ministrado por estas Congrega\u00e7\u00f5es a esta categoria do p\u00fablico era intencionalmente rudimentar, com \u00eanfase acrescida nos aspetos morais e pr\u00e1ticos para assegurar a submiss\u00e3o \u00e0 ordem colonial e \u00e0 escravatura. O objetivo era proporcionar uma educa\u00e7\u00e3o \u00fatil e moralizadora, seguindo os princ\u00edpios que eram esperados pela sociedade colonial para este tipo de sistema escolar cujo desenvolvimento vamos passar a examinar mais pormenorizadamente.<\/p>\n<p>Em 1817, os Irm\u00e3os das Escolas Crist\u00e3s foram os primeiros a entrarem em a\u00e7\u00e3o. Eram seis quando desembarcaram em Bourbon, a 15 de maio de 1817, e abriram tr\u00eas estabelecimentos, um primeiro em Saint-Denis, um segundo em Saint-Paul e um terceiro em Saint-Pierre. Nas semanas seguintes, quatro Irm\u00e3s da Congrega\u00e7\u00e3o de Saint-Joseph de Cluny desembarcaram por sua vez na col\u00f3nia. Instalaram-se em Saint-Paul, na propriedade de Madame Desbassayns, abrindo o seu primeiro estabelecimento a 8 de setembro de 1817.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1723\" aria-describedby=\"caption-attachment-1723\" style=\"width: 647px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/documentaires\/l-esclavage\/condition-et-vie-quotidienne-de-lesclave\/esclavage-et-scolarisation-a-bourbon\/1992-70-6-etablissement-des-soeurs-de-st-joseph\/\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1723\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1723 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1992-70-6-etablissement-des-soeurs-de-st-joseph.jpg\" alt=\"\" width=\"647\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1992-70-6-etablissement-des-soeurs-de-st-joseph.jpg 647w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1992-70-6-etablissement-des-soeurs-de-st-joseph-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 647px) 100vw, 647px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1723\" class=\"wp-caption-text\">Estabelecimento das Irm\u00e3s de St-Joseph. Joseph Barr\u00e8re . 1843. Gouache, pedra negra, goma ar\u00e1bica.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>No dia seguinte chegou \u00e0 col\u00f3nia uma segunda leva de Irm\u00e3s que se instalaram em Saint-Denis e abriram a sua escola a 2 de janeiro de 1818. O estabelecimento e o desenvolvimento de escolas congreganistas foram pontuados por diversas dificuldades, de v\u00e1rios tipos e organizadas em dois per\u00edodos principais.<\/p>\n<p>O primeiro per\u00edodo, que vai desde a cria\u00e7\u00e3o das Congrega\u00e7\u00f5es, em 1817, at\u00e9 \u00e0 Monarquia de Julho, em 1830, foi marcado por muitas dificuldades inerentes a qualquer nova escola \u2014 Bourbon n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o devido \u00e0 falta de locais ou alojamento dispon\u00edveis, a aberturas postergadas, etc. \u2014, mas tamb\u00e9m pela natureza da sociedade colonial e respetiva organiza\u00e7\u00e3o. Dois conflitos espec\u00edficos foram particularmente significativos. O primeiro diz respeito \u00e0 sala de aula: a oferta limitada de escolas na col\u00f3nia e a gratuidade dos estabelecimentos levaram a uma mistura racial nas primeiras escolas criadas, tanto as dos Irm\u00e3os como as das Irm\u00e3s. Devido \u00e0 complexidade da sociedade colonial, as mesmas salas de aula acolhiam tanto os brancos, n\u00e3o exclusivamente os mais desfavorecidos, como os livres de cor. Esta coabita\u00e7\u00e3o social e racial decorreu com grande dificuldade.<\/p>\n<p>Todavia, as quest\u00f5es raciais n\u00e3o eram as \u00fanicas preocupa\u00e7\u00f5es da sociedade esclavagista. Tamb\u00e9m a pedagogia devia estar de acordo com a ordem vigente. No entanto, na base da pedagogia implementada, a emula\u00e7\u00e3o no caso dos Irm\u00e3os e o m\u00e9todo m\u00fatuo no caso das Irm\u00e3s, estava subjacente a vontade das Congrega\u00e7\u00f5es de promover uma ordem meritocr\u00e1tica. Embora limitada, a mobilidade ascendente seria assim poss\u00edvel na escola, mas isto foi considerado totalmente subversivo pela sociedade colonial que repreendeu as duas Congrega\u00e7\u00f5es que se viram obrigadas a disponibilizar espa\u00e7os separados para os diferentes grupos raciais, e o m\u00e9todo m\u00fatuo foi banido da col\u00f3nia.<\/p>\n<p>O segundo conflito op\u00f4s as autoridades coloniais \u00e0s autoridades superiores da Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s de S\u00e3o Joseph de Cluny. Tudo come\u00e7ou em 1821 quando, ap\u00f3s a morte do chefe dessa institui\u00e7\u00e3o em Bourbon, o governador de Freycinet teceu intrigas para selecionar a sua pr\u00f3pria substituta da sua elei\u00e7\u00e3o. Este golpe de for\u00e7a, que violava todas as prerrogativas da Congrega\u00e7\u00e3o, foi denunciado pela Superior-geral, Anne-Marie Javouhey, que acabou por ganhar o caso face ao governo central, recobrando a sua autoridade sobre a comunidade de Bourbon e confiando a dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria irm\u00e3, Rosalie Javouhey.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1725\" aria-describedby=\"caption-attachment-1725\" style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la_venerable_Anne-Marie_Javouhey.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1725 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la_venerable_Anne-Marie_Javouhey.jpg\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la_venerable_Anne-Marie_Javouhey.jpg 475w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la_venerable_Anne-Marie_Javouhey-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1725\" class=\"wp-caption-text\">A Vener\u00e1vel Anne-Marie Javouhey. In <em>L&#8217;oeuvre de la v\u00e9n\u00e9rable Anne-Marie Javouhey, fondatrice de la Congr\u00e9gation de Saint-Joseph de Cluny : un centenaire \u00e0 Brest, 1er octobre 1826-1er octobre 1926<\/em>, abb\u00e9 Louis Saluden, impresso por La Presse lib\u00e9rale (Brest), 1926.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca nacional de Fran\u00e7a<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1830, restava apenas um estabelecimento dos Irm\u00e3os na Col\u00f3nia, o de Saint-Denis, que tinha 183 alunos. Quanto \u00e0s Irm\u00e3s, conseguiram manter as suas tr\u00eas escolas, com 114 alunos nas aulas pagas, 97 nas aulas gratuitas reservadas \u00e0s raparigas brancas pobres e 132 nas reservadas \u00e0s raparigas de cor.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1727\" aria-describedby=\"caption-attachment-1727\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/R14935.108-Cour-d-entree-de-l-etablissement-des-Freres-des-Ecoles-Chretiennes-a-St-Denis.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1727\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1727 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/R14935.108-Cour-d-entree-de-l-etablissement-des-Freres-des-Ecoles-Chretiennes-a-St-Denis.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/R14935.108-Cour-d-entree-de-l-etablissement-des-Freres-des-Ecoles-Chretiennes-a-St-Denis.jpg 700w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/R14935.108-Cour-d-entree-de-l-etablissement-des-Freres-des-Ecoles-Chretiennes-a-St-Denis-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1727\" class=\"wp-caption-text\">P\u00e1tio de entrada do estabelecimento dos Irm\u00e3os da Escolas Crist\u00e3s em Saint-Denis. A. Francine. 1861. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o biblioteca departamental da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O segundo per\u00edodo, que come\u00e7ou com a Monarquia de Julho, e terminou com o advento da Segunda Rep\u00fablica, foi marcado por convuls\u00f5es muito profundas que terminaram com a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Foi neste contexto que surgiram as medidas tomadas para escolarizar os escravos, a \u00faltima \u00abclientela\u00bb da sociedade de Bourbon, com uma cronologia, ritmo e gravidade, que refletiam claramente a natureza de uma sociedade colonial profundamente afetada pela transi\u00e7\u00e3o da sociedade francesa para um sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>De facto, depois de ter dado um importante impulso ao desenvolvimento econ\u00f3mico das metr\u00f3poles europeias, o sistema esclavagista acabou por se tornar um entrave. Iniciada por Adam Smith, a partir do final do s\u00e9culo XVIII, a cr\u00edtica a este sistema vigorava agora em Fran\u00e7a, tendo os seus dirigentes concordado com os argumentos dos economistas liberais. Neste contexto foi aprovada a lei de 4 de mar\u00e7o de 1831, pondo termo ao tr\u00e1fico de escravos em Fran\u00e7a, e levando ao desenvolvimento de a\u00e7\u00f5es abolicionistas, incluindo a cria\u00e7\u00e3o, em 1834, da Sociedade francesa para a Aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Os seus principais instigadores, de Tocqueville, Passy e de Broglie, publicaram numerosos relat\u00f3rios que demonstravam a impossibilidade da manter a escravatura e v\u00e1rias medidas foram ent\u00e3o tomadas pelas autoridades centrais com vista a reformar o sistema esclavagista. N\u00e3o obstante, estas medidas, embora reformistas, espoletaram a hostilidade da sociedade esclavagista e da administra\u00e7\u00e3o colonial, como ilustrado pela sua conduta face \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es destas leis em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas leis inclu\u00edam uma consider\u00e1vel componente educativa, o que constitu\u00eda uma novidade radical para a \u00e9poca. Para o compreender \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que os escravos nunca tinham recebido qualquer instru\u00e7\u00e3o anteriormente. A pr\u00f3pria instru\u00e7\u00e3o religiosa foi acolhida com hostilidade por parte dos colonos. Em 1839, foi criado um fundo para a instru\u00e7\u00e3o religiosa e b\u00e1sica das crian\u00e7as escravas. Tal dispositivo n\u00e3o foi implementado na col\u00f3nia devido \u00e0s retic\u00eancias do governador de Hell que declarou em termos inequ\u00edvocos \u00e0s autoridades governamentais que \u00abo momento em que ser\u00e1 apropriado proporcionar aos negros o benef\u00edcio do ensino b\u00e1sico ainda vem longe\u00bb.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1833\" aria-describedby=\"caption-attachment-1833\" style=\"width: 1046px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/documentaires\/l-esclavage\/condition-et-vie-quotidienne-de-lesclave\/esclavage-et-scolarisation-a-bourbon\/1_per_007_02\/\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1833\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1833 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1_PER_007_02.jpg\" alt=\"\" width=\"1046\" height=\"1500\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1_PER_007_02.jpg 1046w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1_PER_007_02-209x300.jpg 209w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1_PER_007_02-768x1101.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1_PER_007_02-714x1024.jpg 714w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1833\" class=\"wp-caption-text\">\u00abOrdonnance du roi relative l\u2019instruction morale et religieuse des esclaves dans les colonies fran\u00e7aises ainsi qu\u2019au patronage que doivent exercer les officiers du minist\u00e8re public \u00e0 l\u2019\u00e9gard de la m\u00eame classe de la population\u00bb, In L\u2019Indicateur colonial, feuille politique, litt\u00e9raire et d\u2019annonces de l\u2019\u00eele Bourbon, 13 juin 1840. Por Louis Philippe. 5 de fevereiro de 1840. Impress\u00e3o.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1840, um decreto real levantou claramente a quest\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o dos escravos, por\u00e9m a rea\u00e7\u00e3o a essa lei em Bourbon foi igualmente reveladora. Os dois primeiros artigos deste decreto eram consagrados ao ensino da religi\u00e3o, prevendo sess\u00f5es mensais para a educa\u00e7\u00e3o religiosa nas propriedades e um catecismo semanal para as crian\u00e7as escravas nas igrejas paroquiais. Os dois artigos seguintes abordavam o tema do ensino b\u00e1sico, estipulando que \u00abos escravos de ambos os sexos com mais de quatro anos ser\u00e3o admitidos em todas as escolas gratuitas estabelecidas nas comunas\u00bb, uma medida inicialmente prevista como obrigat\u00f3ria pelo governo e depois tornada facultativa face ao protesto dos Conselhos coloniais, incluindo o de Bourbon, durante a aprecia\u00e7\u00e3o do projeto de lei. Todavia, esta medida, embora sob uma forma dilu\u00edda comparativamente ao projeto original, era ainda inaceit\u00e1vel para os colonos, que estavam ainda mais determinados a opor-se-lhe por terem entre os administradores da col\u00f3nia um apoio incondicional, apesar dos apelos \u00e0 ordem vindos do poder central. Nestas circunst\u00e2ncias o governador Bazoche, que sucedeu a de Hell, apesar de ser seu dever fazer cumprir o decreto, escreveu ao Ministro das col\u00f3nias dizendo que os artigos do decreto eram inoportunos, inadequados, dispendiosos e perigosos para a Col\u00f3nia, admitindo que apenas algumas \u00abli\u00e7\u00f5es de moral b\u00e1sica\u00bb podiam ser previstas e isto de forma oral. Nem em sonhos os colonos poderiam ter tido um melhor defensor para a sua causa. Por conseguinte, quando o Ministro das col\u00f3nias foi questionado sobre a aplica\u00e7\u00e3o deste decreto e a utiliza\u00e7\u00e3o dos fundos destinados \u00e0 sua implementa\u00e7\u00e3o, viu-se obrigado a reconhecer o completo fracasso das mediadas preconizadas, especialmente em Bourbon. Em 1845, nenhuma crian\u00e7a escrava frequentava as escolas da col\u00f3nia. De facto, os fundos foram desviados e a aplica\u00e7\u00e3o do decreto foi sabotada pelos colonos que beneficiaram do apoio zeloso das autoridades locais, governadores e magistrados, apesar das advert\u00eancias do governo. Resultados que revoltaram Victor Sch\u0153lcher e os seus amigos.<\/p>\n<p>A 18 de maio de 1846, foi emitido um novo decreto, desta vez estabelecendo a natureza obrigat\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o dos jovens escravos. De acordo com as instru\u00e7\u00f5es oficiais, o objetivo era propor um programa extremamente b\u00e1sico \u00abtendo em vista conciliar a concretiza\u00e7\u00e3o do ensino escolar com o do cumprimento dos deveres [dos jovens escravos] na propriedade\u00bb, ostentando uma filosofia que procurava moralizar, e at\u00e9 domesticar, em vez de instruir, salientando sobretudo a import\u00e2ncia do trabalho. Por\u00e9m, n\u00e3o obstante a natureza vinculativa do decreto e dos seus limites claramente enunciados, a lei n\u00e3o foi aplicada em Bourbon, uma vez que a administra\u00e7\u00e3o e a sociedade coloniais continuaram a unir esfor\u00e7os para sabotar a sua aplica\u00e7\u00e3o, tal como revelado pelo \u00abcaso Monnet\u00bb.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1731\" aria-describedby=\"caption-attachment-1731\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/alexandre-monnetb.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1731\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1731 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/alexandre-monnetb.jpg\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/alexandre-monnetb.jpg 458w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/alexandre-monnetb-211x300.jpg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1731\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Monnet, \u00abPadre dos Negros\u00bb na Reuni\u00e3o de 1840 a 1847. Pintura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Episcopado da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Chegado a Bourbon em junho de 1840, o Abade Monnet dedicou-se \u00e0 instru\u00e7\u00e3o religiosa dos escravos e lan\u00e7ou as bases para uma nova pastoral, conhecida como a \u00abMiss\u00e3o dos Negros\u00bb. Trabalhando de acordo com as diretrizes do governo, Monnet deparou-se com a hostilidade da maioria dos colonos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da poderosa fam\u00edlia Desbassayns, que, ocupando um lugar singular na hist\u00f3ria colonial francesa, lhe proporcionou confian\u00e7a e apoio. Em 1846, aquando de uma estadia na Europa, o Abade Monnet foi condecorado Cavaleiro da Legi\u00e3o de Honra pelo governo franc\u00eas e, em Roma, a sua obra valeu-lhe ser recibo pelo Papa Pio IX que o nomeou Vice-prefeito Apost\u00f3lico de Bourbon. Todavia, ao regressar a Bourbon, a 12 de setembro de 1847, Monnet foi recebido por manifestantes hostis que o acusaram \u00abde estar na origem de op\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas contra a escravatura\u00bb, antes de ser expulso pelo governador Gra\u00ebb apenas quinze dias depois, \u00abno interesse superior da col\u00f3nia\u00bb.<\/p>\n<p>Estes factos, dos quais a alian\u00e7a dos administradores da col\u00f3nia com os colonos foi uma constante, revelam a incapacidade de reformar o sistema esclavagista, qualificado por Victor Sch\u0153lcher como uma \u00abrede de a\u00e7o\u00bb. Na v\u00e9spera da Aboli\u00e7\u00e3o, a col\u00f3nia somava sete escolas dirigidas pelos Irm\u00e3os, quatro dos quais acolhiam um total de 232 crian\u00e7as escravas. Entre estes estabelecimentos, encontrava-se o de Saint-Leu, cujo diretor era o Irm\u00e3o Scubilion. Quanto \u00e0s Irm\u00e3s de S\u00e3o Joseph de Cluny, apenas tr\u00eas estabelecimentos acolhiam crian\u00e7as escravas, num total de 380.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1733\" aria-describedby=\"caption-attachment-1733\" style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/frere-scubilionb.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1733\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1733 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/frere-scubilionb.jpg\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/frere-scubilionb.jpg 490w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/frere-scubilionb-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1733\" class=\"wp-caption-text\">[Irm\u00e3o Scubilion]. Dujardin. Heliogravura. In <em>Le Fr\u00e8re Scubilion de l&#8217;Institut des Fr\u00e8res des \u00e9coles chr\u00e9tiennes<\/em>, pelo abade H. Chassagnon,&#8230; Procure g\u00e9n\u00e9rale des fr\u00e8res, 1902. Frontisp\u00edcio<\/figcaption><\/figure>Que conclus\u00f5es podemos tirar? Em primeiro lugar, h\u00e1 o facto de que a escravatura n\u00e3o era um caso isolado da sociedade, j\u00e1 que toda a comunidade era afetada pelo sistema esclavagista. Depois, h\u00e1 o facto de que as quest\u00f5es escolares n\u00e3o podem ser consideradas de forma isolada, sem ter em conta a rela\u00e7\u00e3o que a Escola, enquanto sistema, tem com outros sistemas sociais. Por \u00faltimo, \u00e9 evidente que na col\u00f3nia esclavagista de Bourbon, havia uma vontade total da sociedade colonial de controlar a educa\u00e7\u00e3o e, com a cumplicidade das autoridades locais, foi decidido ignorar qualquer lei que fosse considerada uma amea\u00e7a \u00e0 sua ordem. Contudo, isto n\u00e3o significa que as Congrega\u00e7\u00f5es ou certos l\u00edderes da Igreja alguma vez se tenham deixado instrumentalizar pelo sistema esclavagista.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6026,"parent":5036,"menu_order":10,"template":"","class_list":["post-6023","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}