{"id":6039,"date":"2021-09-07T09:27:56","date_gmt":"2021-09-07T07:27:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6039"},"modified":"2021-11-26T11:33:58","modified_gmt":"2021-11-26T10:33:58","slug":"os-homens-livres-de-cor-em-bourbon","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/condicao-e-vida-quotidiana-do-escravo\/os-homens-livres-de-cor-em-bourbon\/","title":{"rendered":"Os Homens livres de cor em Bourbon"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00abSer\u00e1 o esquecimento por aliena\u00e7\u00e3o, ignor\u00e2ncia ou<br \/>\nJact\u00e2ncia, a causa de feridas profundas por cicatrizar? \u00bb<br \/>\n(Edouard Glissant : \u00ab Tous les jours de mai \u00bb, 2008)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A hist\u00f3ria do grupo a que se chama \u00abHomens Livres de Cor\u00bb \u00e9 a de uma longa categoriza\u00e7\u00e3o. No que diz respeito ao estatuto, de acordo com uma pan\u00f3plia de leis coloniais e outros regulamentos, este grupo era constitu\u00eddo pelos seguintes subgrupos sucessivos:<br \/>\n&#8211; os trabalhadores contratados<br \/>\n&#8211; os nascidos Livres<br \/>\n&#8211; os Brancos ou Livres de cor emancipados<br \/>\n&#8211; finalmente, a 20 de dezembro de 1848, era suposto a cor desaparecer, sendo que haveria apenas \u00abirm\u00e3os\u00bb franceses e estrangeiros.<\/h2>\n<h2>Claramente, esta hist\u00f3ria jur\u00eddica n\u00e3o conta a verdade sobre a cor e a liberdade.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6039-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/poster-bessiere.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/BESSI\u00c8RE-PORT_SUB-1.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/BESSI\u00c8RE-PORT_SUB-1.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/BESSI\u00c8RE-PORT_SUB-1.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<h3>O direito e a cor em total desfasamento: Porqu\u00ea?<\/h3>\n<p>Porque a uma dist\u00e2ncia de pelo menos tr\u00eas meses de navega\u00e7\u00e3o e dada a baixa propor\u00e7\u00e3o de s\u00fabditos dos reis de Bourbon entre a popula\u00e7\u00e3o local, \u00e9 verdade que Versalhes elaborava as leis, por\u00e9m n\u00e3o era capaz de as impor. Da\u00ed a cria\u00e7\u00e3o crioula de um costume mais ou menos codificado. Assim, os mission\u00e1rios lazaristas possu\u00edam o seu pr\u00f3prio costume<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6342053920638889\" aria-label=\"\u00abDirectoire des paroisses de l\u2019isle de Bourbon pour l\u2019isle de France\u00bb por Pierre-Joseph TESTE prefeito apost\u00f3lico, de 1 de outubro de 1763, 30 p. dactilografadas e conservadas nos arquivos dos lazaristas em Paris. \">&nbsp;<\/span>. Os soldados dispunham das suas derroga\u00e7\u00f5es, tal como revelado pela inspe\u00e7\u00e3o da mil\u00edcia \u00abbranca\u00bb por um oficial rec\u00e9m-desembarcado: \u00ab<em>De entre os oficiais e fuzileiros, a quantidade daqueles que s\u00e3o contaminados com cor \u00e9 t\u00e3o consider\u00e1vel que n\u00e3o h\u00e1 forma de fazer uma triagem sem causar o maior cisma e o maior infort\u00fanio nesta col\u00f3nia.<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4120359868875515\" aria-label=\"A.D.R. : L93, n\u00ba 10, carta do tenente-geral ao capit\u00e3o-geral, em Saint-Denis a 30\/03\/1788, citada na minha disserta\u00e7\u00e3o no Anexo XVI.\">&nbsp;<\/span>. O recurso aos not\u00e1rios era muito comum mesmo entre os mais humildes. Tal como Claude Wanquet escreveu: \u00ab<em>Em suma, a ilha foi invadida por processos. (&#8230;) Num tal clima, os homens da lei proliferaram desmesuradamente. \u2018O n\u00famero de not\u00e1rios multiplicou-se a um ponto indecente\u2019<\/em>\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.17508901616580452\" aria-label=\"Claude WANQUET Histoire d\u2019une r\u00e9volution. La R\u00e9union (1789-1803), volume I, Marselha, Jeanne Laffitte, 1980, p. 127.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Acima de tudo, os habitantes de Bourbon outorgaram-se a si pr\u00f3prios o direito de distinguir as cores: um direito dentro do direito, por assim dizer. \u00c9 revelador o facto de o artigo V do C\u00f3digo Negro de 1723, que previa que as crian\u00e7as nascidas de uma \u00ab<em>concubinagem com escravos (&#8230;) fossem enviadas para o hospital local, sem nunca terem sido emancipadas<\/em>\u00bb \u2014 artigo que n\u00e3o existia na vers\u00e3o de 1685 \u2014, n\u00e3o ter sido aplicado. O mesmo vale para o artigo LI que proibia as doa\u00e7\u00f5es dos Brancos a favor dos Livres.<\/p>\n<p>Nesta sociedade baseada nas apar\u00eancias<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1442941120502469\" aria-label=\"Rose-May NICOLE, Noirs, cafres et cr\u00e9oles : \u00c9tudes de la repr\u00e9sentation du non blanc r\u00e9unionnais : documents et litt\u00e9ratures r\u00e9unionnaises (1710-1980), Paris, L\u2019Harmattan, 2000, 336 p.\">&nbsp;<\/span> estabeleceu-se um c\u00f3digo de honra em que a hierarquia das cores n\u00e3o era contestada enquanto tal, contudo a sua aplica\u00e7\u00e3o era gerida pelos Crioulos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.09801320120509915\" aria-label=\"Crioulo com mai\u00fascula refere-se aos homens e com min\u00fascula \u00e0 l\u00edngua.\">&nbsp;<\/span>. Eis alguns exemplos mais significativos:<\/p>\n<p>&#8211; O caso das irm\u00e3s Ranga, tr\u00eas irm\u00e3s, tr\u00eas cores: Catarina era \u00abNegra\u00bb porque era escravizada, Ana era \u00abLivre de cor\u00bb e Marie era \u00abBranca\u00bb por se ter casado com um tal de sieur Maillot<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7055181803310143\" aria-label=\"A minha disserta\u00e7\u00e3o de 1996, p. 46. De acordo com a terminologia da \u00e9poca, a denomina\u00e7\u00e3o \u00absieur\u00bb era reservada aos brancos. Anne alforriaria Catarina em 1768: A.D.R.: AJ 25, n\u00ba 9.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>&#8211; O caso da palavra \u00abcrioulo\u00bb no recenseamento de Denis Decottes em Sainte-Marie de 1780, em que esta mesma palavra abrange tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es: Branco, Livre (\u00abfilha ileg\u00edtima alforriada\u00bb) e escravo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7579146642920843\" aria-label=\" A minha disserta\u00e7\u00e3o de 1996, p. 58. N\u00e3o \u00e9 especificado \u00absieur\u00bb ou \u00abdenominado\u00bb e Denis Decottes \u00e9 referido como \u00abpropriet\u00e1rio\u00bb.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>&#8211; A famosa rece\u00e7\u00e3o de Bory de Saint-Vincent em Kerautray em 1801 em Saint-Joseph muitas vezes narrada<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6016468101297044\" aria-label=\"Bory de Saint-Vincent, Voyage dans les quatre principales \u00eeles des mers d\u2019Afrique, vol 3, chapitre XVI : Depuis le Rempart de Tremblet jusqu\u2019au Br\u00fbl\u00e9 de la Basse-Vall\u00e9e, Paris, Buisson, 1804, pp. 297-316.\">&nbsp;<\/span>:<\/p>\n<blockquote><p>Para a sua expedi\u00e7\u00e3o ao vulc\u00e3o, Bory de Saint-Vincent fez-se acompanhar por um carregador chamado Cochinard. Quando procurava uma refei\u00e7\u00e3o para a noite, um dos negros da expedi\u00e7\u00e3o recomendou um \u00abBranco Hospitaleiro\u00bb chamado Kerautray. Em seguida, perguntou a um \u00abMulato\u00bb se conhecia esse cavalheiro, ao que ele responde: \u00abMas sou eu! E convidou-os para sua casa. \u00abAo chegar, O Sr. Kerautrai disse \u00e0 mulher, que se levantou assim que entr\u00e1mos: Olha, minha cara, aqui te apresento uns brancos de passagem, ajuda-os a refrescarem-se, e d\u00e1-lhes o jantar.\u00bb De imediato nos ofereceram rum. Kerautrai ficou muito grato por termos brindado com ele e bebido \u00e0 sua sa\u00fade. Mais tarde, puxou-me pela manga, levou-me para fora como se me fosse contar um grande segredo, e, apontando para Cochinard, perguntou-me se era branco, livre, ou negro? Embora Cochinard fosse apenas livre, e a sua cor fosse muito mais do que escura, respondi, sem hesitar, que era branco. P\u00f5e quatro pratos na mesa, gritou ent\u00e3o Kerautrai para a sua esposa. De seguida, mandou os nossos negros descarregarem e comerem com os seus quatro escravos numa cubata situada a vinte passos da sua casa. <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.18408356706375628\" aria-label=\"(livro citado em nota, pp. 310-311)\">&nbsp;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&#8211; E, finalmente, o relato de uma viagem realizada na d\u00e9cada de 1840: \u00ab<em>Quando observamos com alguma aten\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o escrava de Bourbon, reconhecemos com surpresa que \u00e9 constitu\u00edda n\u00e3o s\u00f3 por negros, mas tamb\u00e9m por malaios, bengalis, malabares e at\u00e9 brancos<\/em>.\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7931570396207687\" aria-label=\"Yvan MELCHIOR-HONOR\u00c9, La Chine et la presqu\u2019\u00eele malaise, relation d\u2019un voyage accompli en 1843, 1844, 1845 et 1846, Paris, Boul\u00e9, 1850, 158 p.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Portanto, a uma nega\u00e7\u00e3o seguiu-se outra nega\u00e7\u00e3o. A primeira nega\u00e7\u00e3o \u2014 a mais grave \u2014 \u00e9 a da nega\u00e7\u00e3o da humanidade dos escravos que eram \u00abtraficados\u00bb e que eram chamados de \u00abpe\u00e7as da \u00cdndia\u00bb. A segunda nega\u00e7\u00e3o \u00e9 a da cor para escapar \u00e0 reifica\u00e7\u00e3o. A l\u00edngua crioula hesita em usar a palavra \u00ab<em>ras<\/em>\u00bb (ra\u00e7a), substituindo-a, na maioria das vezes pela palavra \u00ab<em>nasyon<\/em>\u00bb (na\u00e7\u00e3o). Por\u00e9m, o facto de n\u00e3o se nomear a cor, fez com que fosse dif\u00edcil combater o racismo, sendo que este se tornou profundamente enraizado na sociedade, tal como uma mem\u00f3ria traum\u00e1tica imut\u00e1vel. \u00ab<em>Mwin pa blan<\/em> \/<em> Non<\/em> <em>mwin pa nwar<\/em> \/ <em>Tarz pa mwin si mon listwa<\/em>r\u00bb (N\u00e3o sou branco, n\u00e3o sou preto, n\u00e3o mintam sobre a minha hist\u00f3ria)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2246574711543955\" aria-label=\"www.paroles-musique.com : Dany\u00e8l Waro \/ Batarsit\u00e9. Site consultado a 2019-09-08. .\">&nbsp;<\/span>. Nesta sociedade clivada, o Crioulo tornou-se mestre na arte de julgar e identificar. Por\u00e9m, quem \u00e9 que dissimula e quem \u00e9 que comanda? Compreende-se agora por que raz\u00e3o uma categoria social que, afinal, \u00e9 pouco representativa do ponto de vista demogr\u00e1fico, econ\u00f3mico e pol\u00edtico, levante tantas interroga\u00e7\u00f5es atualmente. A genealogia do povoamento deve ainda ser escrita, para que as fam\u00edlias possam reapropriar-se da sua hist\u00f3ria. Porque no mundo dantesco da escravid\u00e3o h\u00e1 tesouros de humanidade que n\u00e3o temos o direito de deixar submersos na vergonha.<\/p>\n<h3>A pol\u00edtica da cor<\/h3>\n<p>A \u00fanica diferen\u00e7a entre os C\u00f3digos Negros de 1685 para as Antilhas e o de 1723 para as Mascarenhas reside no desejo de limitar o mais poss\u00edvel a categoria jur\u00eddica dos Livres de Cor. As autoridades esclavagistas tinham pressentido que este grupo poderia representar um perigo para a ordem p\u00fablica. E, de facto, Toussaint Louverture, Delgr\u00e8s, Bissette e Houat pertenceriam a esta classe. Em geral, os governadores do per\u00edodo real (e particularmente Bellecombe) foram muito parcimoniosos na concess\u00e3o de alforrias, que s\u00f3 podiam ser outorgadas com a sua autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1844\" aria-describedby=\"caption-attachment-1844\" style=\"width: 636px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/l-esclavage\/condition-et-vie-quotidienne-de-lesclave\/les-libres-de-couleur-a-bourbon\/603_w_0113\/\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1844\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1844 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/603_W_0113.jpg\" alt=\"\" width=\"636\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/603_W_0113.jpg 636w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/603_W_0113-191x300.jpg 191w\" sizes=\"auto, (max-width: 636px) 100vw, 636px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1844\" class=\"wp-caption-text\">Mairie de Saint-Beno\u00eet \u2013 Declara\u00e7\u00e3o de pedido de alforria. 11 de mar\u00e7o de 1837. Manuscrito.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Desforges Boucher \u00e9 um caso \u00e0 parte: come\u00e7ou na Reuni\u00e3o como lojista e, quando se tornou governador, construiu um castelo no Gol e alforriou doze dos seus escravos, incluindo um mordomo.<br \/>\nAssim, no final do per\u00edodo real, a percentagem de Livres de Cor entre todos os livres era muito baixa em compara\u00e7\u00e3o com as outras col\u00f3nias francesas, ou seja, 11% do total dos livres em Bourbon contra 43% em S\u00e3o Domingos.<br \/>\nDurante o per\u00edodo revolucion\u00e1rio, a Assembleia colonial usou os Livres de Cor contra a amea\u00e7a abolicionista.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1848\" aria-describedby=\"caption-attachment-1848\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la-milice-creole-a-la-reunionb-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1848\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1848 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la-milice-creole-a-la-reunionb-1.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"519\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la-milice-creole-a-la-reunionb-1.jpg 650w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/la-milice-creole-a-la-reunionb-1-300x240.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1848\" class=\"wp-caption-text\">Cena humor\u00edstica da Reuni\u00e3o: A Mil\u00edcia crioula. Antoine Emile Grimaud (1821 &#8211; 1855).<br \/>c.1845. Pintura, \u00f3leo sobre tela.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o do Museu Quai Branly \u2013 Jacques Chirac<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os ingleses procederam a emancipa\u00e7\u00f5es para formar um Regimento de Bourbon. Segundo Danielle Miloche-Baty, ascenderiam a 653, o que \u00e9 um valor semelhante ao dos soldados mobilizados neste regimento (685 no total, incluindo 28 oficiais e 89 suboficiais) <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9472733197682174\" aria-label=\"Danielle MILOCHE-BATY, \u00ab De la libert\u00e9 l\u00e9gale et ill\u00e9gale des esclaves \u00e0 Bourbon au XIXe si\u00e8cle ou le probl\u00e8me des affranchissements et le ph\u00e9nom\u00e8ne du marronnage dans la soci\u00e9t\u00e9 r\u00e9unionnaise \u00bb, Aix-en-Provence, maio de 1984, p. 206.\">&nbsp;<\/span>. Fizeram-nos marchar at\u00e9 Port-Louis a 4 de outubro de 1812, causando \u00abalvoro\u00e7o\u00bb entre os colonos maur\u00edcios <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1421718284406268\" aria-label=\"Arquivos maur\u00edcios de Coromandel: HA 61.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Restaura\u00e7\u00e3o quase que estacou as alforrias.<br \/>\nA Monarquia de Julho tentou regularizar as situa\u00e7\u00f5es mais chocantes, como as dos filhos ileg\u00edtimos, os chamados \u00ablivres de savana\u00bb ou ainda reden\u00e7\u00f5es gra\u00e7as a poupan\u00e7as. O decreto real de 12 de julho de 1832 concedia um apelido ao alforriado que era ent\u00e3o declarado no Registo Civil como \u00abnascido\u00bb. Os registos eram comuns aos Brancos e Livres. Louis-Philippe desejou normalizar as rela\u00e7\u00f5es sociais e, de modo mais assertivo ap\u00f3s 1840, preparar-se para a aboli\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1862\" aria-describedby=\"caption-attachment-1862\" style=\"width: 488px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/40FI98.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1862\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1862 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/40FI98.jpg\" alt=\"\" width=\"488\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/40FI98.jpg 488w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/40FI98-244x300.jpg 244w\" sizes=\"auto, (max-width: 488px) 100vw, 488px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1862\" class=\"wp-caption-text\">Le Citoyen, prononcez cito-\u00efen. 1865. Hippolyte Charles Napol\u00e9on Mortier de Tr\u00e9vise. 1865. Aguarela.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o geral de 1848 decorreu de uma forma muito diferente na Martinica e na Reuni\u00e3o. Na Martinica os Livres de cor eram muito influentes. Se bem que Bissette tivesse sido expulso \u2014 apesar da sua legitimidade como abolicionista \u2014 Perrinon (\u00abhomem de cor\u00bb) foi nomeado comiss\u00e1rio da Rep\u00fablica. Na reuni\u00e3o do Conselho Privado de 15 de junho de 1848, declarou: \u00ab<em>Esperava-se que o novo livre pudesse entrar na sociedade nas mesmas condi\u00e7\u00f5es aparentes que os cidad\u00e3os mais antigos (&#8230;). Os apelidos ser\u00e3o, portanto, atribu\u00eddos apenas com o consentimento individual de cada um e pelo cuidado de funcion\u00e1rios ou agentes credenciados em toda a col\u00f3nia<\/em>.\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8654949796000653\" aria-label=\"Guillaume DURAND, Les noms de famille de la population martiniquaise d\u2019ascendance servile. Origine et signification des patronymes port\u00e9s par les affranchis avant 1848 et par les \u2018nouveaux libres\u2019 apr\u00e8s 1848 en Martinique, Pref\u00e1cio de Patrick CHAMOISEAU, Paris Harmattan, 2011, pp. 190-191.\">&nbsp;<\/span>. Na Reuni\u00e3o ningu\u00e9m foi \u00e0s planta\u00e7\u00f5es para efetuar esses registos. N\u00e3o obstante os desejos de Perrinon, n\u00e3o se prop\u00f4s aos escravos que escolhessem um apelido para si mesmos; nem se tomou o tempo para estabelecer os registos, sucedendo por vezes que as pessoas votassem antes de o apelido ter sido oficializado. Aqui, as comiss\u00f5es eram presididas pelos grandes propriet\u00e1rios brancos que agiam com celeridade. Todavia, o dia 20 de dezembro veio p\u00f4r termo \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es dos propriet\u00e1rios que pretendiam marcar a sua influ\u00eancia sobre os \u00abseus\u00bb alforriados.<\/p>\n<p>O poder de nomea\u00e7\u00e3o fazia parte da pol\u00edtica da cor. \u00ab<em>De certa forma, podemos afirmar que com o seu apelido o indiv\u00edduo carrega a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e a das suas origens<\/em>.\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9938560904417132\" aria-label=\"Genevi\u00e8ve PAYET, \u00ab Nom et filiation \u00e0 La R\u00e9union : de l\u2019histoire \u00e0 la clinique \u00bb, Cliniques m\u00e9diterran\u00e9ennes, 2001\/1 (n\u00b0 63), pp. 179-192.\">&nbsp;<\/span>. Este poder foi exercido pelo senhor que o alforriou, assinalando a proximidade com ele ou com o mundo da planta\u00e7\u00e3o. De resto, o conservador do registo civil intervinha de uma forma mais ou menos arbitr\u00e1ria, disputando este poder com os propriet\u00e1rios. Quando recebiam um apelido por este meio, os homens livres passavam a ficar conhecidos como alforriados do senhor ou da senhora tal, ou ainda, de Sarda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1846\" aria-describedby=\"caption-attachment-1846\" style=\"width: 704px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/l-esclavage\/condition-et-vie-quotidienne-de-lesclave\/les-libres-de-couleur-a-bourbon\/3_e_360\/\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1846\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1846 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3_E_360.jpg\" alt=\"\" width=\"704\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3_E_360.jpg 704w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3_E_360-211x300.jpg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 704px) 100vw, 704px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1846\" class=\"wp-caption-text\">TTestamento de Pierre M\u00e9ry Mercier. 12 de dezembro de 1843. Manuscrito.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>At\u00e9 1832, a pessoa alforriada mantinha o seu nome de batismo, caso tivesse recebido um, mas n\u00e3o tinha direito a um apelido. Contudo, tentaria apropriar-se de um. Os recenseamentos do Antigo Regime elucidam-nos sobre este assunto. Foram escritos pelos pr\u00f3prios propriet\u00e1rios ou pelos seus representantes e assinados pelos comandantes distritais. Eram levadas a cabo v\u00e1rias estrat\u00e9gias para \u00abganhar o apelido\u00bb, sendo que a pessoa podia basear-se na sua propriedade e o seu ambiente imediato (port\u00e3o, ponte, ravina, floresta&#8230;) para estabelecer um atributo de identidade. Por\u00e9m, na maioria das vezes, tinha-se por base a fam\u00edlia: o primeiro nome do pai tornava-se apelido, bem como o da m\u00e3e especialmente quando era ela que estava na origem da emancipa\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil escapar \u00e0 preposi\u00e7\u00e3o \u00abde\u00bb que n\u00e3o dizia respeito a um nome nobre, mas indicava apenas aquele ou aquela a quem a pessoa devia o seu apelido.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1840\" aria-describedby=\"caption-attachment-1840\" style=\"width: 509px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1984-07-04-lislet-geoffroy.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1840\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1840 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1984-07-04-lislet-geoffroy.jpg\" alt=\"\" width=\"509\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1984-07-04-lislet-geoffroy.jpg 509w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1984-07-04-lislet-geoffroy-235x300.jpg 235w\" sizes=\"auto, (max-width: 509px) 100vw, 509px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1840\" class=\"wp-caption-text\">\u00c1lbum da Reuni\u00e3o: Lislet Geoffroy. Nascido na ilha Bourbon [Saint-Pierre] a 13 de abril de 1755 e falecido na ilha Maur\u00edcia [Port-Louis] a 9 de fevereiro de 1836. Vice-capit\u00e3o de Engenharia militar e civil, Membro correspondente da Academia de Ci\u00eancias e do Instituto Real de Fran\u00e7a.<br \/>Louis Antoine Roussin. 1881. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure>Existe, no entanto, o caso excecional de Lislet Geoffroy que p\u00f4de usar o apelido do seu pai. Este \u00faltimo tinha deixado a \u00cele de France para se instalar em Saint-Pierre, certamente porque, ali, a pol\u00edcia racial era mais branda. Vivia com a sua princesa-escrava Niama arrancada ao Galam. Para que o seu filho nascesse livre, Jean-Baptiste Geoffroy alforriou a<br \/>\nm\u00e3e<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.012691717643276479\" aria-label=\"Baseio-me no relato de Shenaz PATEL que trabalhou em resid\u00eancia nos Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o. Todavia, ainda resta fazer uma pesquisa sobre esta fam\u00edlia porque Niama tinha v\u00e1rios filhos. Por outro lado, h\u00e1 quem estabele\u00e7a um elo com a fam\u00edlia Houat que residia na mesma \u00e9poca na \u00cele de France. \">&nbsp;<\/span>. Assegurou a educa\u00e7\u00e3o do seu filho, a quem chamou Jean-Baptiste como ele. Quando as leis da Revolu\u00e7\u00e3o lho permitiram, adotou \u00abJean Baptiste Lislet nascido a 23 de agosto de 1755, filho de Marie Genevi\u00e8ve Niaman\u00bb <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8588725765943215\" aria-label=\"A.D.R. : 3E 1549, de 20 de junho de 1794.\">&nbsp;<\/span>. Se a sua influ\u00eancia na Ilha Bourbon do s\u00e9culo XIX foi limitada, o seu legado \u00e9 hoje uma fonte de orgulho para o povo da Reuni\u00e3o.<\/p>\n<h3>Legado<\/h3>\n<blockquote><p>A 23 de agosto de 1786, pelos seus trinta e um anos, foi eleito membro correspondente da Academia das Ci\u00eancias de Paris, sendo o primeiro homem de cor a receber esta honra. O seu padrinho era o Duque de La Rochefoucauld-Liancourt, primo do Rei. A Academia das Ci\u00eancias reconheceu o seu valor cient\u00edfico, claro, por\u00e9m quis sobretudo destacar, atrav\u00e9s desta distin\u00e7\u00e3o, a sua f\u00e9 nos novos valores transmitidos pela Enciclop\u00e9dia. Este foi o in\u00edcio da luta pelos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o e pela Aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Lislet foi um s\u00edmbolo para os c\u00edrculos intelectuais progressistas, tr\u00eas anos antes do in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Toda a sua vida Lislet trabalhou para elaborar mapas cada vez mais precisos, prosseguindo e completando o trabalho de Rochon e do abade de Lacaille em particular. Foi em grande parte respons\u00e1vel pelos contornos definitivos das Mascarenhas e a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Ba\u00eda de Sainte Luce que marca verdadeiramente o in\u00edcio da carreira de Jean-Baptiste Lislet como engenheiro ge\u00f3grafo e cart\u00f3grafo: 1793, mapa das Seychelles; 1797, mapa das Ilha Bourbon e de \u00eele de France; 1814, mapa do nordeste de Madag\u00e1scar (publicado em Londres); 1819, mapa geral da Grande \u00eele.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.933254719646942\" aria-label=\"http:\/\/aphgreunion.free.fr\/Lislet_Geoffroy.html consultado em 12 de outubro de 2019, artigo de Christian Landry\">&nbsp;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>Os Livres de cor marcaram muito menos a topon\u00edmia do que os marrons (escravos desertores) ou a nomenclatura urbana dominada pelos brancos, na medida das suas pegadas hist\u00f3ricas. Um dos mais abastados descobriu uma fonte em Le Tampon que ostenta o seu nome. Reihlac possu\u00eda 84 escravos em 1848 em Saint-Pierre. Da fam\u00edlia Lacaussade, tamb\u00e9m ela pr\u00f3spera, preferimos reter Auguste que nos deixou estes pequenos versos antes de partir:<\/p>\n<blockquote><p>\u00d3 servid\u00e3o dura! \u00d3 destino! \u00d3 leis cru\u00e9is!<br \/>\nSob o jugo do homem, o homem assim se deve curvar<br \/>\nAh! Longe destes quadros pungentes, abramos as nossas asas!<br \/>\nFujamos, doce bengali! Fujamos para esquecer<br \/>\n(\u00abOs trabalhadores\u00bb, em Po\u00e8mes et paysages)<\/p><\/blockquote>\n<p>Quanto a C\u00e9lim\u00e8ne, a \u00abMusa de Trois Bassins\u00bb como p\u00f4de ela ser elevada a exemplo depois de ter dito que \u00ab<em>o cavalo enobrece a mula<\/em>\u00bb?<\/p>\n<figure id=\"attachment_1838\" aria-describedby=\"caption-attachment-1838\" style=\"width: 501px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1990-47-celimene.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1838\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1838 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1990-47-celimene.jpg\" alt=\"\" width=\"501\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1990-47-celimene.jpg 501w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/1990-47-celimene-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1838\" class=\"wp-caption-text\">C\u00e9lim\u00e8ne, a Musa de Trois Bassins. Francine. 1881. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Devemos deduzir que nenhum destes \u00abLivres\u00bb lutou contra a pol\u00edtica da cor? Seria uma grande injusti\u00e7a afirm\u00e1-lo. Em primeiro lugar, estas pessoas eram de longe as mais ativas no que toca a alforriar escravos: os homens livres de cor eram quatro vezes mais numerosos do que os homens brancos, e as mulheres livres de cor quinze vezes mais do que as mulheres brancas!<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4544617772836266\" aria-label=\"Ver a minha disserta\u00e7\u00e3o de 1996, p. 36.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que as autoridades coloniais criaram uma pol\u00edtica da cor implac\u00e1vel. Desde a \u00e9poca de Mah\u00e9 de La Bourdonnais, um Livre que capturasse ou matasse um escravo fugitivo, recebia um escravo como recompensa; um escravo que denunciasse uma conspira\u00e7\u00e3o (imagin\u00e1ria ou n\u00e3o) tornava-se Livre&#8230; e assim por diante. Os primeiros a erguer a cabe\u00e7a nesta atmosfera de terror foram v\u00edtimas de uma repress\u00e3o sem piedade. Durante as convuls\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, Jean-Jacques Ramalinga e Guillou Dubertin foram banidos, o primeiro sem julgamento, o \u00faltimo sem acusa\u00e7\u00f5es comprovadas contra ele.<\/p>\n<p>Depois, houve o caso de Furcy. Apoiado pelo seu direito de n\u00e3o ser mantido como escravo por Lory, e com o apoio de Sully Brunet, instaurou um processo contra o seu senhor que durou de 1817 a 1843. Houve ainda mais dois julgamentos em Bourbon em 1845. O que \u00e9 revelador \u00e9 que Lory teve receio, n\u00e3o obstante o apoio que recebeu do cl\u00e3 Desbassayns que era quem realmente governava a ilha na \u00e9poca. Preferiu enviar Furcy para a Maur\u00edcia para que este n\u00e3o se tornasse um exemplo para os outros, um l\u00edder capaz de provocar a mudan\u00e7a. Livre de facto na ilha irm\u00e3, Furcy exerceu a sua profiss\u00e3o de confeiteiro, capaz de enviar correspond\u00eancia e pagar as custas judiciais necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Timag\u00e8ne Houat \u00e9 ainda mais instrutiva. Hist\u00f3ria essa que permaneceu escondida durante um s\u00e9culo, antes da reedi\u00e7\u00e3o na Reuni\u00e3o do seu livro <em>Les marrons<\/em>, o primeiro romance da ilha, publicado inicialmente em Paris. Todavia, este livro \u00e9 mais do que simples literatura, tendo sido o seu personagem principal o primeiro verdadeiro abolicionista de Reuni\u00e3o. Eis a hist\u00f3ria que gostamos de contar e que d\u00e1 esperan\u00e7a \u00e0 nossa ilha<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5244634364605691\" aria-label=\"Ler as p\u00e1ginas 334 a 342 do livro de Prosper EVE, , Le corps des esclaves de l\u2019\u00eele Bourbon. Histoire d\u2019une reconqu\u00eate, PUPS, 2013.\">&nbsp;<\/span>. Nascido em Bas de la Rivi\u00e8re Saint-Denis a 12 de agosto de 1809, Timag\u00e8ne manteve o seu nome africano. O pai, que tinha vindo de Port-Louis, trabalhava na institui\u00e7\u00e3o <em>Ponts et Chauss\u00e9es<\/em>. Aos dezoito anos, Timag\u00e8ne pretendia abrir uma escola no seu distrito de La Rivi\u00e8re, contudo levou com uma recusa do diretor do Interior. \u00ab<em>Em 1830, numa casa localizada na esquina da rua des Limites e da rua du Grand Chemin, Louis-Timag\u00e8ne Houat geria uma escola gratuita para todos os jovens da vizinhan\u00e7a e iniciou na m\u00fasica (guitarra ou violino) aqueles que para isso eram dotados<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7358952473602965\" aria-label=\"Prosper EVE.\">&nbsp;<\/span>.\u00bb Juntamente com Carlos de Sigoyer candidatou-se em 1834 a delegado de Bourbon em Fran\u00e7a. Em setembro de 1835 quis organizar uma manifesta\u00e7\u00e3o na capital com o objetivo de exortar o governador a abolir a escravatura: \u00ab<em>Vamos impor a nossa vontade pelo conjunto numeroso que somos e n\u00e3o julgo que isto constitua um crime contra os brancos<\/em>.\u00bb Denunciada, esta manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de ser realizada. Em vez disso, foi efetuado um julgamento contra uma pretensa conspira\u00e7\u00e3o. Eis o crime de Houat: trocar correspond\u00eancia com Cyrille Bissette, receber o seu di\u00e1rio e l\u00ea-lo aos escravos em seu redor. Em 10 de setembro de 1835, Timag\u00e8ne foi detido em sigilo e condenado \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o, a 3 de agosto de 1836, juntamente com outros tr\u00eas indiv\u00edduos. Al\u00e9m disso, tr\u00eas outros Livres foram condenados a cinco anos de pris\u00e3o, quatro escravos \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua e expulsos para a \u00cele Sainte-Marie. Embora o rei Louis-Philippe lhe tivesse concedido o indulto a 18 de junho de 1837, o ac\u00f3rd\u00e3o foi executado e Timag\u00e8ne foi enviado para Paris. O Tribunal de Cassa\u00e7\u00e3o iria, no entanto, ilib\u00e1-lo desta senten\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O trabalho geneal\u00f3gico que descreve as hist\u00f3rias familiares revela que as fam\u00edlias de \u00ab1848\u00bb foram constantemente humilhadas e esmagadas nas suas tentativas de progredir. Tendo sido privadas da sua hist\u00f3ria, devem agora ter a possibilidade de a reconstruir. Todavia, tamb\u00e9m se viram obrigadas a entender que n\u00e3o \u00e9 negando a sua ascend\u00eancia e vitimando-se perante o senhor que poderiam recuperar a sua honra. Os seus antepassados n\u00e3o eram escravos, mas homens e mulheres, pura e simplesmente. A sua dignidade deve ser-lhes devolvida sempre que poss\u00edvel. A quest\u00e3o dos patron\u00edmicos e das atribui\u00e7\u00f5es de apelidos em espa\u00e7os p\u00fablicos e institui\u00e7\u00f5es \u00e9, portanto, de grande relev\u00e2ncia. O departamento e os seus museus n\u00e3o podem esquivar esta quest\u00e3o: que nome dar ao \u00fanico museu dedicado \u00e0 hist\u00f3ria da escravatura da ilha?<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6048,"parent":5036,"menu_order":20,"template":"","class_list":["post-6039","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5036"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}