{"id":6079,"date":"2021-09-08T07:30:40","date_gmt":"2021-09-08T05:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6079"},"modified":"2021-11-26T11:48:06","modified_gmt":"2021-11-26T10:48:06","slug":"na-noite-da-escravatura-a-luz-forte-do-maronage","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/resistencias-a-escravatura\/na-noite-da-escravatura-a-luz-forte-do-maronage\/","title":{"rendered":"Na noite da escravatura, a luz forte do <em>maronage<\/em>"},"content":{"rendered":"<h2>A hist\u00f3ria breve da ilha Bourbon-Reuni\u00e3o, desde a sua coloniza\u00e7\u00e3o at\u00e9 este ano de 2018 \u2013 170.\u00ba anivers\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura \u2013 perfaz 355\u00a0anos, incluindo 185\u00a0anos (mais de metade) sob o regime da escravatura, e consequentemente do <em>maronage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.04067885967056073\" aria-label=\"Maron escrito com um \u00fanico \u00abr\u00bb e um s\u00f3 \u00abn\u00bb, bem como \u00abmarone\u00bb, \u00abmaroner\u00bb e \u00abmaronage\u00bb: esta escolha \u00e9, antes de mais, ditada por uma atitude patrimonial, uma vez que \u00e9 assim que o termo \u00e9 transcrito nos antigos documentos contempor\u00e2neos sobre o fen\u00f3meno. Al\u00e9m disso, parece-nos importante distingui-lo do vegetal\/fruta e da cor hom\u00f3nima e dispor de todo o conjunto substantivo, adjetivo, verbo, que ostentam as marcas de g\u00e9nero e n\u00famero.\">&nbsp;<\/span>. Porque o <em>maronage<\/em> \u00e9 o corol\u00e1rio da escravatura.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6079-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster_rabasahala.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/RABESAHALA-PORT_sub.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/RABESAHALA-PORT_sub.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/RABESAHALA-PORT_sub.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Qualificado como \u00abpequeno\u00bb ou \u00abgrande\u00bb dependendo da dura\u00e7\u00e3o da fuga do escravo da casa do senhor, o <em>maronage<\/em> representa a liberta\u00e7\u00e3o do escravo por si pr\u00f3prio, atrav\u00e9s da revolta, sem aguardar uma poss\u00edvel alforria por parte do senhor.<\/p>\n<p>O <em>maronage<\/em> \u00e9 um fen\u00f3meno com contornos que h\u00e1 muito permanecem turvos, especialmente o grande <em>maronage<\/em>. N\u00e3o obstante, tem vindo a marcar profundamente a sociedade da Reuni\u00e3o, tanto pela produ\u00e7\u00e3o de mitos, fonte de uma f\u00e9rtil imagina\u00e7\u00e3o coletiva, como pela marca\u00e7\u00e3o efetiva do territ\u00f3rio atrav\u00e9s de top\u00f3nimos que assinalam o espa\u00e7o ocupado pelos <em>marons<\/em>. Estes top\u00f3nimos, vinculados a lugares admir\u00e1veis da ilha, tais como Anchain no pico do mesmo nome, ou Dimitile no sul, celebram personagens que muito contribu\u00edram para a hist\u00f3ria de Bourbon-Reuni\u00e3o. Atualmente, no seguimento de estudos recentes efetuados pelo Servi\u00e7o Regional de Invent\u00e1rio, o grande <em>maronage<\/em> revela uma parte importante da hist\u00f3ria da escravatura: a conquista da dignidade por homens e mulheres que, inicialmente, estavam condenados a serem reduzidos a nada.<\/p>\n<p>O <em>maronage<\/em> existe na ilha Bourbon &#8211; Reuni\u00e3o desde a chegada dos primeiros malgaxes, em novembro de 1663. Dez \u00abservos\u00bb, ou mais exatamente escravos, foram trazidos por dois colonos franceses, Louis Payen e Pierre Pau (ou Paul Cauzan?) para viver na Ilha Bourbon, formando o primeiro n\u00facleo de popula\u00e7\u00e3o perene.<br \/>\nUm conflito eclodiu assim que chegaram, tendo o relato sido narrado por Urbain Souchu de Rennefort<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9263815676136198\" aria-label=\"Urbano Souchu De Rennefort (1668) Relation du premier voyage de la Cie des Indes Orientales en l\u2019isle de Madagascar ou Dauphine, chez Pierre Aubouin, Cour du Palais, Paris. Endere\u00e7ada a Monsenhor Colbert, publicada em 1668. \">&nbsp;<\/span>, Secret\u00e1rio de Estado da Fran\u00e7a Oriental:<\/p>\n<blockquote><p>Esta ilha era habitada por dois franceses e dez negros, sete homens e tr\u00eas mulheres trazidos da ilha de Madag\u00e1scar, que se revoltaram contra os franceses, retirando-se para as montanhas onde se tornaram inexpugn\u00e1veis e raramente vis\u00edveis. Acusaram os franceses de terem matado os seus pais e, depois de uma conspira\u00e7\u00e3o v\u00e3 para exterminar estes dois franceses, subtra\u00edram-se da vista e do alcance das suas armas. Seis soldados foram enviados \u00e0 procura deles, mas o seu esfor\u00e7o foi in\u00fatil, visto que se tinham retirado para lugares inacess\u00edveis.<\/p><\/blockquote>\n<p>Souchu de Rennefort obteve estas informa\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Payen, que viajava com ele no navio<em> Vierge du Bon Port<\/em>, em 1666.<\/p>\n<p>A revolta levou os malgaxes a fugir para as montanhas em <em>maronage<\/em>. S\u00f3 regressariam muito mais tarde, ap\u00f3s a chegada de Etienne Regnault em 1665, com a promessa de impunidade. O pronome \u00abeles\u00bb que caracteriza os membros do grupo de rec\u00e9m-chegados carece grandemente de precis\u00e3o, posto que nenhum documento especifica as pessoas que regressaram, ou, sobretudo, que n\u00e3o voltaram. Tanto mais que, para al\u00e9m das tr\u00eas raparigas, cujos apelido, nome e idade aproximativa s\u00e3o conhecidos, n\u00e3o foi fornecido qualquer pormenor sobre os sete homens que, manifestamente, n\u00e3o despertaram interesse em muitas pessoas. Este detalhe \u00e9 importante para compreender o que se seguiu e a cria\u00e7\u00e3o do enigm\u00e1tico reino do interior dos marons, fundado no circo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5611200821210423\" aria-label=\"O circo \u00e9 uma depress\u00e3o rochosa, em forma de bacia, de paredes com grande inclina\u00e7\u00e3o, situada a elevada altitude mas abaixo das cristas superiores das montanhas (N. da T.)\">&nbsp;<\/span> de Salazie e mais precisamente no Piton d&#8217;Anchain. Muitos elementos convergem para revelar que um dos homens, aquele que ficar\u00e1 conhecido sob o nome de Anchain em Bourbon, permaneceu <em>maron<\/em>, lan\u00e7ando as bases de uma s\u00f3lida organiza\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica que permitiria que os marons resistissem eficazmente.<\/p>\n<p>A escolha socioecon\u00f3mica da escravatura como meio de produ\u00e7\u00e3o na nova col\u00f3nia assumiu todo o seu significado com o decreto de 28 de agosto de 1670. A pedido do Ministro Colbert, o Conselho de Estado oficializou a pr\u00e1tica da escravatura em Fran\u00e7a, intensificando-a. Apesar de a escravatura j\u00e1 se admitir e praticar em Bourbon, este reconhecimento estatal deu aos colonos brancos os meios para intensificar o tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n<p>Paralelamente, o protesto dos escravos pela sua condi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se intensificou e tomou v\u00e1rias formas individuais e coletivas, incluindo o <em>maronage<\/em> que foi a forma mais desenvolvida de revolta contra a escravatura, tanto em n\u00famero de pessoas envolvidas, como em dura\u00e7\u00e3o. O <em>maronage<\/em> prosseguiu reiteradamente ao longo de todo o per\u00edodo do tr\u00e1fico de escravos, n\u00e3o obstante a repress\u00e3o cada vez mais cruel. Aquando de uma primeira fuga, a puni\u00e7\u00e3o aplicada aos fugitivos consistia em chicoteadas, enquanto os recidivistas eram castigados pela marca\u00e7\u00e3o da flor-de-lis ou a letra \u00abM\u00bb na pele ou pela amputa\u00e7\u00e3o das orelhas ou do p\u00e9. \u00c0 sua terceira tentativa de fuga, o grande <em>maron<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2542054818794266\" aria-label=\"Quando falamos de \u00abmaron\u00bb, especialmente de um grande maron, referimo-nos a um escravo que se libertou por inciativa pr\u00f3pria. Ser\u00e1 que ainda deve ser chamado de escravo? o vocabul\u00e1rio \u00e9 importante e a escolha realizada para este texto recai sobre o respeito da mudan\u00e7a de estatuto: o maron j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um escravo. Em todo o caso, parece-me essencial, atualmente, que se mude a maneira de falar, de descrever a escravid\u00e3o e, acima de tudo, o maronage, que at\u00e9 agora foi apresentado pela vis\u00e3o dos colonos. \">&nbsp;<\/span> recapturado era condenado \u00e0 morte. Contudo, isto n\u00e3o desencorajava de modo algum os homens e mulheres de fugirem, aceitando o pre\u00e7o a pagar pela liberdade e dignidade.<\/p>\n<p>Importa distinguir dois tipos de <em>maronage<\/em>. O primeiro \u00e9 epis\u00f3dico e, de uma certa forma, espont\u00e2neo. O escravo revoltado pela sua condi\u00e7\u00e3o deixa a planta\u00e7\u00e3o por algum tempo e muitas vezes regressa por iniciativa pr\u00f3pria, devido \u00e0s dificuldades de sobreviv\u00eancia impostas pelas montanhas da ilha. Este tipo de partida \u00e9 feito sob o impulso de um evento desencadeador, que, ami\u00fade, consiste numa forma s\u00e9ria de maus-tratos, tal como uma puni\u00e7\u00e3o particularmente cruel ou injusta \u2013 ou simplesmente o receio disso \u2013 uma desnutri\u00e7\u00e3o grave, amea\u00e7as de morte ou tarefas imposs\u00edveis de realizar. Chamavam-lhes \u00abraposas\u00bb. Eram fugitivos que se evadiam sem organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e, por vezes, se cingiam a permanecer nas imedia\u00e7\u00f5es das propriedades. Ocasionalmente, regressavam \u00e0 propriedade por si mesmos devido \u00e0 press\u00e3o das dificuldades encontradas na vida de err\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O segundo tipo de <em>maronage<\/em>, qualificado de \u00abgrande\u00bb (de longa dura\u00e7\u00e3o), \u00e9 cuidadosamente pensado, preparado durante muito tempo e frequentemente levado a cabo em bando, ou pelo menos com a ajuda de um grupo. Este \u00faltimo <em>maronage<\/em> \u00e9 de natureza estrutural e diz respeito a pessoas que, desde o in\u00edcio, rejeitam categoricamente o sistema esclavagista, esfor\u00e7ando-se por evit\u00e1-lo, independentemente dos meios e do pre\u00e7o a pagar. Mencionaremos neste estudo apenas os grandes <em>marons<\/em> cuja exist\u00eancia \u00e9 historicamente atestada no estado da arte da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O grande <em>maronage<\/em> \u00e9 uma busca de autonomia, da constru\u00e7\u00e3o de um mundo livre, n\u00e3o esclavagista. Em Bourbon, tratava-se de um projeto de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, intentado pelos marrons, com vista a estabelecer um estado livre: <em>o reino do interior<\/em>, por oposi\u00e7\u00e3o ao governo do litoral e do resto da ilha.<\/p>\n<p>O ato fundador deste reino parece estar ligado a Anchain que, refugiado no seu piton, acolheu, organizou e coordenou grupos de <em>marons<\/em>, tal como descreve Eug\u00e8ne Dayot:<\/p>\n<blockquote><p>O topo do seu pico era um observat\u00f3rio do qual eram emitidos os sinais acordados com o fito de alertar para a aproxima\u00e7\u00e3o dos brancos&#8230; Frequentemente, quando os bandidos e as suas tropas eram apanhados por um grande grupo de destacados durante a ca\u00e7a \u00e0s cabras selvagens, o sinal de mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m surgia no cume<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2522687726385444\" aria-label=\"Eugene Dayot (1977), Bourbon pittoresque, Ed.Croix-Sud, Nouvelle Imprimerie Dyon\u00e9sienne, Saint-Denis-de-La-R\u00e9union, j\u00e1 publicado a partir de 1839, em parte no Le Cr\u00e9ole, e posteriormente, em 1844 no Courrier de Saint-Paul p.51. Este romance d\u00e1 vida ao grande maronage, celebrizando os ca\u00e7adores de escravos com refer\u00eancias hist\u00f3ricas muito desiguais de acordo com as personagens. Al\u00e9m disso, cria personagens totalmente fict\u00edcios.\">&nbsp;<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_385\" aria-describedby=\"caption-attachment-385\" style=\"width: 580px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-40fi95-salazie-piton-d-enchaine-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-385 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-40fi95-salazie-piton-d-enchaine-web.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"763\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-40fi95-salazie-piton-d-enchaine-web.jpg 580w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-40fi95-salazie-piton-d-enchaine-web-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-385\" class=\"wp-caption-text\">Salazie, Piton d&#8217;Enchaine. Mortier de Tr\u00e9vise, Hippolyte Charles Napol\u00e9on. 1861. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O <em>maronage<\/em> estabelece-se perenemente e definitivamente na ilha com um personagem que se tornou emblem\u00e1tico: Anchain. Fazia parte do primeiro grupo de dez <em>marons<\/em> malgaxes e quando a maioria dos membros do grupo regressou \u00e0 costa, permaneceu nas montanhas, talvez com dois ou tr\u00eas outros companheiros cujo rasto, at\u00e9 hoje, nos escapa. Anchain ou melhor Saina, de seu nome original \u2013 Anchain significando \u00abchez Saina\u00bb (na casa de Saina) \u2013 foi o primeiro grande chefe <em>maron<\/em> de Bourbon-Reuni\u00e3o. A exist\u00eancia deste famoso reino <em>maron<\/em> do interior, inicialmente questionado pela administra\u00e7\u00e3o de Bourbon, foi posteriormente evocado de forma constante para justificar todas as prerrogativas de luta intensa contra o <em>maronage<\/em> pelos colonos assustados com as investidas e pilhagens dos <em>marons<\/em>, cada vez mais numerosos, por\u00e9m encurralados em lugares cada vez mais restritos pela extens\u00e3o das concess\u00f5es dos brancos.<\/p>\n<p>Os escravos n\u00e3o deixaram as propriedades, fugindo da servid\u00e3o, somente para se refugiarem nas montanhas, mas tamb\u00e9m para melhor lutarem e constru\u00edrem um mundo livre e mais favor\u00e1vel ao ideal destes homens e mulheres que nunca abdicaram da sua dignidade e humanidade. At\u00e9 porque, hoje sabemos que havia modelos ancestrais de <em>maronage<\/em> em Madag\u00e1scar, um pa\u00eds que sofreu o jugo do com\u00e9rcio \u00e1rabe-mu\u00e7ulmano pelo menos desde o s\u00e9culo VIII e onde foram desenvolvidos modelos de resist\u00eancia exemplares. Os <em>Bemihimpa, marons<\/em> malgaxes, formaram sociedades independentes, tanto do ponto de vista pol\u00edtico como econ\u00f3mico. Prova disso s\u00e3o os acordos que celebraram com os reinos circundantes a fim de se aliarem ou defenderem ao longo de s\u00e9culos de coexist\u00eancia.<\/p>\n<p>Se o grande <em>maronage<\/em> em Bourbon n\u00e3o resultou na constru\u00e7\u00e3o de uma entidade reconhecida e respeitada como um povo livre independente \u2013 como foi o caso em espa\u00e7os maiores e mais favor\u00e1veis como os Maronis na Guiana ou, num territ\u00f3rio mais pr\u00f3ximo, os <em>Bemihimpa<\/em> de Madag\u00e1scar em Tampoketsa, ou os <em>Betsiriry<\/em>, tamb\u00e9m em Madag\u00e1scar \u2013 \u00e9 porque as circunst\u00e2ncias n\u00e3o o permitiram. Era dif\u00edcil repartir o ex\u00edguo territ\u00f3rio de Bourbon, \u00e0 medida que a popula\u00e7\u00e3o aumentava ao longo dos s\u00e9culos. Todavia, todas as premissas estavam presentes.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria exist\u00eancia deste reino <em>maron<\/em> \u2013 hipot\u00e9tico ou real? \u2013 teve um peso consider\u00e1vel na tens\u00e3o no seio da administra\u00e7\u00e3o colonial, que se valeu disso para justificar uma pol\u00edtica preventiva e repressiva contra o <em>maronage<\/em>, que variava em fun\u00e7\u00e3o do per\u00edodo. Na realidade, os colonos ouviam boatos de uma grande organiza\u00e7\u00e3o secreta nos circos, interpretavam \u00edndices como designa\u00e7\u00f5es de reis e rainhas, mas n\u00e3o penetravam verdadeiramente nestas zonas assustadoras e, de resto, bem protegidas. N\u00e3o obstante, sempre tiveram consci\u00eancia da s\u00e9ria amea\u00e7a que o grande <em>maronage<\/em> representava.<\/p>\n<p>Quando em 1705, um jovem chefe <em>marron<\/em>, Pitsana, (o Rei Pitre, sucessor de Anchain no romance de Dayot&#8230; e na realidade!), foi condenado \u00e0 amputa\u00e7\u00e3o do seu p\u00e9 direito, os ju\u00edzes teceram acusa\u00e7\u00f5es muito claras contra os rebeldes: \u00abap\u00f3s se terem armado, vieram assassinar o governador na sua casa, bem como todos os presentes, para se tornarem Senhores da ilha\u00bb.<\/p>\n<p>O <em>maronage<\/em> aumentou tanto mais que, em 1714, havia 534 escravos em 623 propriet\u00e1rios, pelo que os escravos se sentiram em posi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. Posteriormente, a introdu\u00e7\u00e3o da cultura obrigat\u00f3ria do caf\u00e9 levou a incrementar ainda mais a popula\u00e7\u00e3o servil, necess\u00e1ria para o cultivo de novas superf\u00edcies. Entre 1730 e 1734, somente em Saint-Paul, 349 escravos tornaram-se <em>marons<\/em>.<\/p>\n<p>O <em>maronage<\/em> inclu\u00eda homens, mulheres e crian\u00e7as. O que seriam os grandes chefes sem as suas mulheres? Anchain sem H\u00e9va<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9195923702260069\" aria-label=\"A exist\u00eancia de H\u00e9va ainda n\u00e3o foi comprovada no estado da arte, por\u00e9m a presen\u00e7a de uma mulher junto a Anchain \u00e9 indubit\u00e1vel.\">&nbsp;<\/span> ? Manzak sem Reine Fouche, Massaky<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3179873202916519\" aria-label=\"A antiga interpreta\u00e7\u00e3o deformada deste nome, a confus\u00e3o entre o \u00abf\u00bb e o \u00abs\u00bb, fez com que se confundisse a personagem m\u00edtica de Mafate com Massaky (Massack), maron assassinado ao mesmo tempo que a sua mulher, Rahariane.\">&nbsp;<\/span> (Massack) sem Rahariane, Gr\u00e9goire sem Soa (Soya), Z\u00e9lindor sem Kala, Laverdure sem Sarlava (Sarlave), Fanga sem Marianne? E tantas outras m\u00e3es guerreiras e indom\u00e1veis.<\/p>\n<p>As mulheres condenadas eram sujeitas a puni\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s dos homens. Assim, a 20 de dezembro de 1711, um grupo de dezanove escravos de diferentes origens \u00e9tnicas foi condenado por ter roubado um barco com vista a fugir para Madag\u00e1scar. Cinco homens e uma mulher foram considerados como instigadores e sentenciados: dois \u00e0 amputa\u00e7\u00e3o do p\u00e9, tr\u00eas a levarem 200 chicotadas. Marie, de cerca de 30 anos, uma dos insurgentes, \u00abc\u00famplice em alto grau\u00bb, recebeu uma centena de chicotadas, tendo-lhe depois sido cortado o nariz e as orelhas. H\u00e1 tamb\u00e9m o caso de muitas <em>marrones<\/em> que, encurraladas por ca\u00e7adores de escravos que cercaram o seu acampamento \u00e0 beira da ravina, num gesto supremo de desafio, se atiraram para o vazio com o filho nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Fundamentalmente, as mulheres d\u00e3o sentido \u00e0 exist\u00eancia <em>marone<\/em>, dando vida a crian\u00e7as que pertencem aos seus pais e n\u00e3o aos senhores. Futuros <em>marons<\/em>, s\u00e3o chamados de \u00ab<em>crioulos da floresta<\/em>\u00bb. Elas \u00abnormalizam\u00bb, recriam, de uma certa forma, a sua vida na constitui\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, num espa\u00e7o privado, protegido e livre: os acampamentos de <em>marons<\/em>. Todos estes elementos evidentes eram negados aos escravos nas propriedades do senhor.<br \/>\nPor outro lado, permaneciam nos acampamentos enquanto os homens iam para o combate e faziam as investidas aos dom\u00ednios. E quando os homens n\u00e3o regressavam de uma expedi\u00e7\u00e3o, era naturalmente sobre elas que reca\u00eda a sobreviv\u00eancia do acampamento, sobretudo a das crian\u00e7as. Eram, portanto, as garantes de uma longa ocupa\u00e7\u00e3o at\u00e9 que a aldeia fosse descoberta e destru\u00edda pelos ca\u00e7adores de escravos.<\/p>\n<p>Foi o caso quando, em junho de 1751, em \u00celet \u00e0 Corde, em Cilaos, os ca\u00e7adores descobrem com espanto uma instala\u00e7\u00e3o de longa data onde tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de marones viviam com crian\u00e7as. O ca\u00e7ador Edme Cerveau \u00abmata uma velha negra chamada Bonne, cuja filha: Zavelle, de seu nome malgaxe, era a m\u00e3e de Mangalle\u00bb.<\/p>\n<p>Em resposta, o administrador La Bourdonnais, em mar\u00e7o de 1739, ordenou a organiza\u00e7\u00e3o de uma grande \u00abbatida\u00bb, em todos os locais de <em>maronage<\/em> do territ\u00f3rio \u00abpara erradicar o <em>maronage<\/em>\u00bb. Esta opera\u00e7\u00e3o sem precedentes mobilizou e reagrupou praticamente todos os destacamentos de ca\u00e7adores de escravos da ilha que ca\u00e7aram em simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>Os resultados da grande batida foram terr\u00edveis para os <em>marons<\/em>, sem, no entanto, serem aniilados, continuando a luta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_387\" aria-describedby=\"caption-attachment-387\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1995-40-isle-dauphine-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-387 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1995-40-isle-dauphine-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1053\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1995-40-isle-dauphine-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1995-40-isle-dauphine-web-228x300.jpg 228w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1995-40-isle-dauphine-web-768x1011.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1995-40-isle-dauphine-web-778x1024.jpg 778w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-387\" class=\"wp-caption-text\">Isle Dauphine. Guillaume Sanson. 1741. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Desde as suas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es, o <em>maronage<\/em> organizado contava, principalmente, com escravos malgaxes. Ali\u00e1s, em muitos documentos antigos, o termo <em>Madagascarins<\/em> designava, geralmente, os escravos <em>marons<\/em> de Bourbon. Embora todos os escravos nutrissem, indubitavelmente, um desejo desenfreado de justi\u00e7a e liberdade (fossem eles indianos, africanos, chineses ou malaios!), os malgaxes apresentavam fatores de incita\u00e7\u00e3o que outros grupos de escravos n\u00e3o possu\u00edam. Os malgaxes de primeira e segunda gera\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 mais (o nome \u00abcrioulo\u00bb oculta a origem \u00e9tnica), comp\u00f5em a maioria dos grandes <em>marons<\/em>, por duas grandes raz\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A primeira raz\u00e3o \u00e9 o seu grande n\u00famero no in\u00edcio da col\u00f3nia, que favorece uma maior coes\u00e3o.<\/strong> S\u00f3 muito mais tarde \u00e9 que a origem \u00e9tnica dos escravos se tornou bem mais diversificada. Inicialmente, a principal fonte de tr\u00e1fico era Madag\u00e1scar e a \u00cdndia em muito menor grau. Al\u00e9m disso, a unidade lingu\u00edstica, de que s\u00f3 os malgaxes gozavam, permitia uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz e espont\u00e2nea. A fuga dos escravos assim que desembarcavam, sem sequer passarem pelas propriedade, \u00e9 uma prova disso: temos o exemplo perfeito de Tsimanandia<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.22738350782542893\" aria-label=\"Tsimanandia \u00e9 um nome de circunst\u00e2ncia, \u00aberrante\u00bb em Malgaxe, bem como o nome do seu filho Tsifanoro \u00abAquele que n\u00e3o se mostra\u00bb \">&nbsp;<\/span> (Simanand\u00e9) e do filho Tsifanoro (Tsifaron) surpreendidos por Lislet Geoffroy nas montanhas. Ela explicou que n\u00e3o conhecia o seu \u00absenhor\u00bb, nunca o tendo visto, nem vivido na ilha sob outra forma que em <em>maronage<\/em>. Desde a sua chegada foi integrada num grupo de <em>marons<\/em>. Alguns escravos fugiram pouco depois da sua chegada \u00e0 ilha, t\u00e3o rapidamente que o seu senhor nem teve a oportunidade de os conhecer.<\/p>\n<p>O mesmo sucedeu com o senhor Morel que declarou, em 29 de julho de 1733, a fuga de Rasiva, uma das suas escravas malgaxes, \u00abrec\u00e9m-chegada de Madag\u00e1scar\u00bb, cujo novo nome franc\u00eas ele ignorava. No mesmo ano, v\u00e1rios dos escravos da Companhia da \u00cdndias que trabalhavam nas suas obras tamb\u00e9m escaparam, pouco tempo ap\u00f3s terem chegado a Bourbon.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua malgaxe, com varia\u00e7\u00f5es regionais certamente, mas em todo o caso perfeitamente compreens\u00edvel para todos os nativos de Madag\u00e1scar durante todo o per\u00edodo da escravatura, permitiu uma compreens\u00e3o e uma cumplicidade fecundas entre os escravos de Madag\u00e1scar. \u00c9 veros\u00edmil que isso tenha contribu\u00eddo em grande medida para o fortalecimento da rede do interior atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o entre <em>marons<\/em> e escravos que tinham permanecido nas propriedades. Constatam-se diversas situa\u00e7\u00f5es em que estes escravos participam ativamente na luta dos grandes <em>marons<\/em>.<\/p>\n<p>Assim, o Capit\u00e3o Dimitile forneceu servi\u00e7os de intelig\u00eancia ao grupo do rei Laverdure e havia, entre os escravos, indiv\u00edduos que circulavam constantemente de uma propriedade para outra a fim de recolher informa\u00e7\u00f5es. Jean, um escravo de Desforges, que durante muito tempo tinha permanecido fugitivo, transmitia informa\u00e7\u00f5es sobre os movimentos dos ca\u00e7adores de escravos e determinou a estrat\u00e9gia do grupo de \u00abn\u00e3o perder tempo a fazer acampamentos, mas continuar em movimento\u00bb durante a persegui\u00e7\u00e3o que durou longos meses. Provavelmente houve muitos outros casos deste tipo na sua organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A segunda raz\u00e3o \u00e9 a proximidade de Madag\u00e1scar<\/strong> &#8211; 800 km de mar &#8211; que favorece a esperan\u00e7a de alcan\u00e7\u00e1-la de barco a um dado momento. Raz\u00e3o que confere um significado estrat\u00e9gico \u00e0 fuga. Sabe-se que algumas tentativas de regresso por mar foram coroadas de \u00eaxito. As que foram bem sucedidas podem ter sido raras, por\u00e9m existiram, e isso basta para alimentar a esperan\u00e7a de pessoas que, de qualquer maneira, teriam agido. Devemos tamb\u00e9m considerar o facto de que um escravo n\u00e3o resignado nada ter a perder ao tentar tudo por tudo. Um barco que o leva de volta ao pa\u00eds ou o faz morrer no mar como num caix\u00e3o &#8211; a piroga faz parte das formas rituais do caix\u00e3o dos malgaxes &#8211; opera uma atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel numa pessoa que, de qualquer forma, n\u00e3o teria as honras de um funeral genu\u00edno. Sabemos que sempre que surgia a oportunidade de adquirir um barco, havia sempre escravos para a aproveitar. At\u00e9 conhecemos o caso de desembarques de escravos <em>marons<\/em> malgaxes oriundos de Ile de France (a atual ilha maur\u00edcia), em tr\u00e2nsito para Madag\u00e1scar, como uma mulher chamada Starige que desembarcou de uma canoa em Bourbon em 22 de fevereiro de 1759<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6940279453425278\" aria-label=\"ADR, C\u00b0 1065. Declara\u00e7\u00e3o de uma escrava marone de \u00cele de France\">&nbsp;<\/span>. Mais uma vez, podemos observar a import\u00e2ncia da utiliza\u00e7\u00e3o comum da l\u00edngua malgaxe, que permite ligar a popula\u00e7\u00e3o escrava das duas ilhas que possu\u00edam a mesma origem. Isto tamb\u00e9m demonstra a possibilidade e a efic\u00e1cia de uma organiza\u00e7\u00e3o central, um \u00abreino\u00bb que promove esses la\u00e7os entre ilhas.<\/p>\n<p>O reino <em>maron<\/em> do interior beneficia muito desta forte presen\u00e7a inicial, cont\u00ednua, ali\u00e1s, de escravos malgaxes, aos quais se vieram juntar indianos e, depois, Mo\u00e7ambicanos.<\/p>\n<h3>Os princ\u00edpios de funcionamento do reino do interior<\/h3>\n<figure id=\"attachment_389\" aria-describedby=\"caption-attachment-389\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-1995-5-grand-de-madagascar-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-389 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-1995-5-grand-de-madagascar-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1080\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-389\" class=\"wp-caption-text\">Ein grosser Herr von Madagascar = Um grande homem de Madag\u00e1scar. 1683. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O reino caracteriza-se, em primeiro lugar, por uma organiza\u00e7\u00e3o social hier\u00e1rquica, \u00e0 imagem do modelo ancestral das sociedades de origem.<\/strong><br \/>\nOs t\u00edtulos de \u00ab<em>rei<\/em>\u00bb, \u00ab<em>rainha<\/em>\u00bb e \u00ab<em>capit\u00e3o<\/em>\u00bb, traduzidos do malgaxe, parecem irris\u00f3rios se n\u00e3o se levar em considera\u00e7\u00e3o a luta pol\u00edtica armada levada a cabo durante muitos anos e vinculando gera\u00e7\u00f5es de guerreiros. Quando um l\u00edder ca\u00eda, um tenente substitu\u00eda-o imediatamente como parece indicar a substitui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e c\u00e9lere dos \u00ab<em>reis<\/em>\u00bb no posto de comando extremo.<\/p>\n<p>Assim, a Laverdure, reconhecido pelo seu povo como \u00ab<em>rei de todos os marons<\/em>\u00bb, morto em Bras de La Plaine em 1752<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.33761525054413455\" aria-label=\"ADR. C0 995. Declara\u00e7\u00e3o de Mussard de 28 de dezembro de 1752. A abreviatura ADR significa Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o\">&nbsp;<\/span>, sucedeu o apropriadamente chamado Manzak \u2013 \u00ab<em>rei<\/em>\u00bb em Malgaxe \u2013 que j\u00e1 era considerado como tal em 12 de agosto de 1754. Foi morto pelo ca\u00e7ador de escravos, Dugain, em 1758.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.799616318556964\" aria-label=\"ADR, C\u00b01000, Declara\u00e7\u00e3o de Dugain de 24 de agosto de 1758\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Nos documentos descobrem-se pistas reveladoras. Ao longo do tempo, estabeleceu-se uma estrat\u00e9gia e disciplina quase militares dentro dos grupos de combatentes.<\/p>\n<p>Quando se soube, em 1799, por um jovem escravo, Henry, que duas vezes por semana, durante a noite, os escravos de uma planta\u00e7\u00e3o se reuniam junto ao mar para treinar para a guerra, tal facto n\u00e3o surpreendeu.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nO segundo ponto forte do reino \u00e9 a capitaliza\u00e7\u00e3o dos meios e uma constru\u00e7\u00e3o log\u00edstica a longo prazo.<br \/>\n<\/strong>Com base na conscientiza\u00e7\u00e3o da precariedade da sua situa\u00e7\u00e3o e a necessidade de continuar a luta ao lado de pessoas que podiam desaparecer a qualquer momento, foi dada prioridade \u00e0 transmiss\u00e3o de conhecimentos e t\u00e9cnicas adquiridas no <em>maronage<\/em> e \u00e0 sua capitaliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es de <em>marons<\/em>.<\/p>\n<p>Os acampamentos e locais de retirada eram ocupados de um grupo para outro. Assim, o acampamento situado no lugar chamado <strong>Berceau de Pitsana (Pitre)<\/strong>, foi ocupado por um grupo e, 47 anos, por outro. Depois de Pitsana, um grande chefe que tinha sido condenado, por <em>maronage<\/em>, \u00e0 amputa\u00e7\u00e3o do p\u00e9, em fevereiro de 1705, e que subsequentemente desapareceu, Laverdure e o seu grupo, perseguidos por Mussard em agosto de 1752, foram, por sua vez, expulsos.<\/p>\n<p>O mesmo ocorreu no caso do s\u00edtio arqueol\u00f3gico do \u00abvale secreto\u00bb em Cilaos, que, sendo desconhecido dos ca\u00e7adores de escravos, foi utilizado por sucessivas ocupa\u00e7\u00f5es de <em>marons<\/em>.<\/p>\n<p>Uma infraestrutura m\u00ednima (pelo menos discreta) mas eficiente de trilhos ligava os diferentes pontos do reino e facilitava a circula\u00e7\u00e3o. Entre outros exemplos, foram os <em>marons<\/em> que tra\u00e7aram um primeiro caminho de Saint-Beno\u00eet para Saint-Pierre pelas Plan\u00edcies, que foi alargado em 1752, tornando-se uma via oficial.<\/p>\n<p>O sistema topon\u00edmico do espa\u00e7o dos <em>marons<\/em> prova e apoia em grande parte esta capitaliza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos e t\u00e9cnicas acumulados durante os longos anos do <em>maronage<\/em>. Oferece um rico invent\u00e1rio dos recursos do territ\u00f3rio, tanto em termos de abastecimento como de log\u00edstica guerreira, para ajudar \u00e0 sobreviv\u00eancia dos combatentes. Os cerca de cem nomes preservados tra\u00e7am uma verdadeira geografia f\u00edsica, moral e espiritual do reino disponibilizada aos v\u00e1rios grupos e gera\u00e7\u00f5es que se sucederam.<\/p>\n<p>Resta descobrir as modalidades pr\u00e1ticas da transmiss\u00e3o: uma linguagem codificada? Dep\u00f3sitos em lugares secretos aos quais apenas os grandes l\u00edderes iniciados t\u00eam acesso?<\/p>\n<p>O grande <em>maronage<\/em> ainda n\u00e3o acabou de desvendar os seus segredos.<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>O grande <em>maronage<\/em> foi a resposta contundente de homens e mulheres perseguidos como animais de ca\u00e7a, cuja m\u00e3o direita amputada os ca\u00e7adores de escravos traziam de volta como um trof\u00e9u de ca\u00e7a que era pregado a uma \u00e1rvore na grande pra\u00e7a p\u00fablica da cidade.<\/p>\n<p>Foram implementadas estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia not\u00e1veis para combater o sistema esclavagista de Bourbon por <em>marones<\/em> e <em>marons<\/em> que, incapazes de fugir pelo mar, erigiram no cora\u00e7\u00e3o da ilha um espa\u00e7o duradouro de liberdade: o reino do interior. Este \u00faltimo desenvolveu-se \u00e0 medida que chegavam escravos oriundos de todas as regi\u00f5es de Madag\u00e1scar, e ocasionalmente de \u00cele de France.<\/p>\n<p>Perante a sua sobreviv\u00eancia discreta e com a menor pegada poss\u00edvel da sua ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o no ambiente, os <em>marons<\/em> desenvolveram t\u00e9cnicas de explora\u00e7\u00e3o dos solos e recursos que hoje poderiam ser muito \u00fateis para a preserva\u00e7\u00e3o da natureza, entre outras atitudes ecol\u00f3gicas.<br \/>\nPara al\u00e9m da li\u00e7\u00e3o de coragem e determina\u00e7\u00e3o na luta pela liberdade que demonstraram, atualmente apenas podemos vislumbrar os outros aspetos do rico patrim\u00f3nio material e imaterial dos grandes <em>marons<\/em> que se encontram ainda por explorar.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6080,"parent":5038,"menu_order":40,"template":"","class_list":["post-6079","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5038"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}