{"id":6173,"date":"2021-09-10T12:45:27","date_gmt":"2021-09-10T10:45:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6173"},"modified":"2021-11-26T11:41:21","modified_gmt":"2021-11-26T10:41:21","slug":"a-revolta-dos-escravos-de-saint-leu-novembro-de-1811","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/resistencias-a-escravatura\/a-revolta-dos-escravos-de-saint-leu-novembro-de-1811\/","title":{"rendered":"A revolta dos escravos de Saint-Leu, novembro de 1811"},"content":{"rendered":"<h2>Entre as estrat\u00e9gias implementadas pelos escravos para resistir \u00e0 desumanidade da sociedade e do sistema esclavagista na Ilha da Reuni\u00e3o, existem duas abordagens principais, a revolta e o <em>marronnage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9214910229621993\" aria-label=\"O marronnage define-se como a fuga de escravos para as montanhas. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6173-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/poster_gerard.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/G\u00c9RARD-PORT_SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/G\u00c9RARD-PORT_SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/G\u00c9RARD-PORT_SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o nem antagonismo entre estas duas atitudes, que s\u00e3o o resultado de situa\u00e7\u00f5es complexas espec\u00edficas a cada propriedade, bem como do contexto hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O <em>marronnage<\/em>, de curta ou longa dura\u00e7\u00e3o, era, na maioria das vezes, um ato individual, silencioso, em que o escravo fugia da propriedade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s terras altas da ilha, abrigando-se nas montanhas e nos circos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.46628975053414967\" aria-label=\"O circo \u00e9 uma depress\u00e3o rochosa, em forma de bacia, de paredes com grande inclina\u00e7\u00e3o, situada a elevada altitude mas abaixo das cristas superiores das montanhas. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Ocasionalmente, isso levaria a organiza\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios indiv\u00edduos em acampamentos de <em>marrons<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.32642397990433314\" aria-label=\"Um marron era um escravo fugitivo. (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>. Os arquivos atestam igualmente as incurs\u00f5es de marrons \u00e0s habita\u00e7\u00f5es para encontrar alimentos, ferramentas e, por vezes, companheiras. Presente desde o in\u00edcio do assentamento, o <em>marronnage<\/em> ser\u00e1 uma realidade constante na hist\u00f3ria do Bourbon. Na v\u00e9spera da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1848, ainda havia v\u00e1rias centenas de <em>marrons<\/em>, alguns deles permanecendo-o por mais de 20 anos.<\/p>\n<p>Durante quase dois s\u00e9culos de escravatura em Bourbon, com exce\u00e7\u00e3o de algumas conspira\u00e7\u00f5es urdidas que rapidamente foram reprimidas, a revolta de Saint-Leu, em 1811, foi a \u00fanica a ter sido posta em execu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO estudo desta insurrei\u00e7\u00e3o revela uma estrat\u00e9gia que se caracteriza tanto por uma dimens\u00e3o coletiva como pelo desejo de derrubar o sistema escravo.<br \/>\nCaracterizou-se por uma investida das terras altas, onde os escravos trabalhavam, \u00e0s terras baixas, onde residia uma parte da popula\u00e7\u00e3o Livre. Este movimento desenrolar-se-\u00e1 com \u00absom e f\u00faria\u00bb, resultando numa invers\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o dos comportamentos: o medo instalar-se-ia abertamente entre os Brancos que passavam a fugir da ira dos escravos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a aparente oposi\u00e7\u00e3o entre a revolta e o <em>marronnage<\/em>, a insurrei\u00e7\u00e3o de Saint-Leu mostra-nos os la\u00e7os estreitos e as intera\u00e7\u00f5es entre estes dois comportamentos. Antes, durante ou nos meses ap\u00f3s a revolta, o fen\u00f3meno do <em>marronnage<\/em> estaria sempre presente.<br \/>\nEmbora os sentimentos de revolta individual dos escravos contribu\u00edssem para os receios dos senhores de atos de viol\u00eancia, pilhagem ou crimes, era sobretudo a vers\u00e3o coletiva da revolta que alimentava os temores dos propriet\u00e1rios, levando-os a implementar estrat\u00e9gias de prote\u00e7\u00e3o. Neste contexto, a utiliza\u00e7\u00e3o permanente do chicote, a diversifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica nas propriedades, bem como um sistema alimentar e sanit\u00e1rio que pretendia manter os indiv\u00edduos num estado de fraqueza controlado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de m\u00e3o-de-obra na agricultura, seriam os instrumentos de dom\u00ednio sobre a popula\u00e7\u00e3o escrava. A elabora\u00e7\u00e3o, a conce\u00e7\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o de uma revolta coletiva foi, portanto, muito dif\u00edcil de alcan\u00e7ar e dependeu de m\u00faltiplos fatores.<\/p>\n<p>A insurrei\u00e7\u00e3o de Saint-Leu incluiu mais de 200 escravos de v\u00e1rias origens (africanos, malgaxes, crioulos), que exerciam diversas fun\u00e7\u00f5es (Negros de picareta, dom\u00e9sticos, ferreiros, chefes de grupo, etc.)<br \/>\nA revolta foi preparada dia ap\u00f3s dia durante anos; a decis\u00e3o de a concretizar foi, indubitavelmente, determinada pela tomada de posse da ilha pelos ingleses no final de 1810 e pelo desarmamento parcial dos senhores levado a cabo pelos novos governantes. Esta \u00abguerra\u00bb seria marcada por uma viol\u00eancia extrema, tanto por parte dos insurgentes \u2013 dois a tr\u00eas Brancos mortos direta ou indiretamente \u2013 como da feroz repress\u00e3o que recai sobre os eles \u2013 dezenas de rebeldes foram mortos no confronto ou morreram na pris\u00e3o. Dos vinte e cinco condenados \u00e0 morte, sete receber\u00e3o o indulto, tr\u00eas morrer\u00e3o na pris\u00e3o antes da sua execu\u00e7\u00e3o e quinze ser\u00e3o decapitados com um machado em cinco cidades diferentes, para servirem de exemplo.<\/p>\n<p>Apesar da ideia de revolta ser permanente na mente de muitos escravos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.994374664525296\" aria-label=\"Em janeiro de 1799, Bento, um escravo da vi\u00fava do Sr. H. Hibon, foi preso por se ter deixado levar para a guerra com outros escravos. O mesmo Beno\u00eet foi decapitado em Saint-Leu, a 15 de abril de 1812, ap\u00f3s a sua senten\u00e7a de morte pelo seu papel na revolta.\">&nbsp;<\/span>, apenas p\u00f4de materializar-se em Saint-Leu devido a uma particularidade natural; uma permanente escassez de \u00e1gua na comuna obrigava os escravos do sul a encontrarem-se dia ap\u00f3s dia para as tarefas \u00e1rduas de abastecimento de \u00e1gua num reservat\u00f3rio natural permanentemente alimentado por uma nascente localizada acima das propriedades, num pequeno barranco chamado Ravine du Trou.<\/p>\n<figure id=\"attachment_330\" aria-describedby=\"caption-attachment-330\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-bassin-missouk-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-330 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-bassin-missouk-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-bassin-missouk-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-bassin-missouk-web-300x136.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-bassin-missouk-web-768x348.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-330\" class=\"wp-caption-text\">Bassin de l\u2019eau ou bassin misouk, Ravine du Trou. Fotografia de Laurent De Gebhart<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi assim que os escravos de diferentes senhores puderam estabelecer contacto regular e esbo\u00e7ar o primeiro projeto de revolta. Este constituiu o primeiro fator objetivo que espoletou a propaga\u00e7\u00e3o da ideia de revolta.<\/p>\n<p>A vontade pol\u00edtica dos insurgentes de escapar \u00e0 servid\u00e3o, mas tamb\u00e9m de derrubar um sistema global, seria refor\u00e7ada por contactos com escravos da comuna de Saint-Louis. Este segundo fator decisivo ocorrer\u00e1 aquando das obras de manuten\u00e7\u00e3o de troncos de \u00e1rvores a serem carregados num navio ingl\u00eas \u2013 o Windham \u2013, na ba\u00eda de Etang Sal\u00e9, em dezembro de 1810.<\/p>\n<figure id=\"attachment_332\" aria-describedby=\"caption-attachment-332\" style=\"width: 318px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-windham3-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-332 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-windham3-web.jpg\" alt=\"\" width=\"318\" height=\"342\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-windham3-web.jpg 318w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-windham3-web-279x300.jpg 279w\" sizes=\"auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-332\" class=\"wp-caption-text\">Navio Lautaro em 1818, anteriormente Windham, constru\u00eddo em 1800. <br \/>Wikip\u00e9dia<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante quase dois meses, os escravos requisitados em cada uma das duas comunas iriam alimentar e amadurecer a ideia de uma revolta comum.<br \/>\nDe acordo com a leitura dos interrogat\u00f3rios dos escravos indiciados, foi aparentemente durante essas trocas que o escravo Figaro afirmou ser capaz de trazer para a revolta muitos escravos de Saint-Louis \u2013 o que se revelaria falso \u2013 desencadeando assim o in\u00edcio da repress\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o prematura da revolta.<\/p>\n<p>Um terceiro fator facilitar\u00e1 a prepara\u00e7\u00e3o desta rebeli\u00e3o. V\u00e1rios escravos de Saint-Leu, incluindo Elie e Gilles, que mais tarde surgir\u00e3o como os l\u00edderes do movimento, partiram em <em>marronnage<\/em> no final das obras de manuten\u00e7\u00e3o no Windham.<\/p>\n<figure id=\"attachment_334\" aria-describedby=\"caption-attachment-334\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-l482etatdesnoirsautravaux1811-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-334 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-l482etatdesnoirsautravaux1811-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"804\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-l482etatdesnoirsautravaux1811-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-l482etatdesnoirsautravaux1811-web-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-l482etatdesnoirsautravaux1811-web-768x772.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-l482etatdesnoirsautravaux1811-web-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-334\" class=\"wp-caption-text\">Lista dos escravos requisitados pertencentes aos propriet\u00e1rios de St Leu, abril de 1811. Manuscrito.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, ADR L482<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com efeito, a partir de 19 de fevereiro de 1811, s\u00e3o assinalados vest\u00edgios da sua presen\u00e7a como <em>marrons<\/em> na pris\u00e3o de Saint-Paul onde ficariam por dois meses. Foi a\u00ed que conheceram outros escravos aprisionados, vindos das propriedades de Saint-Paul, incluindo a da Sra. Desbassayns, geralmente por <em>marronnage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.29961437318671913\" aria-label=\"\u00ab no futuro, o marronnage dos escravos, qualquer que seja a dura\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 sujeito \u00e0 disciplina da pol\u00edcia ordin\u00e1ria: o fugitivo n\u00e3o poder\u00e1 ser acorrentado por mais de dois meses aquando da primeira vez e por mais de quatro meses em caso de reincid\u00eancia.\u00bb ADR BL 226. C\u00f3digo Decaen. A condi\u00e7\u00e3o dos negros na pris\u00e3o de Saint-Paul, em mar\u00e7o de 1811, indica que dos 113 prisioneiros 73 foram presos por marronnage.\">&nbsp;<\/span> . Isto explica a presen\u00e7a de escravos de Saint-Paul e Saint-Louis na lista dos detidos no final da revolta em novembro de 1811, provando, que se tratava, acima de tudo, de confrontar o sistema esclavagista muito al\u00e9m dos limites geogr\u00e1ficos de Saint-Leu.<br \/>\nEntre os escravos encarcerados em Saint-Paul, havia Philibert, escravo de um Livre de Cor, \u00abdetido na pris\u00e3o pelo delito de <em>marronnage<\/em>\u00bb. Morreu a 9 de novembro de 1811, provavelmente devido aos seus ferimentos durante a \u00ab<em>guerra<\/em>\u00bb com os Brancos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_336\" aria-describedby=\"caption-attachment-336\" style=\"width: 603px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-maronstleuavril1811-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-336 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-maronstleuavril1811-web.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"551\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-maronstleuavril1811-web.jpg 603w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-maronstleuavril1811-web-300x274.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-336\" class=\"wp-caption-text\">Lista nominativa dos escravos detidos na pris\u00e3o de St Paul, abril de 1811; Gazette de l\u2019Isle Bourbon.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, ADR L495<\/figcaption><\/figure>\n<p>Verosimilmente, outros escravos que trabalharam no Windham refugiaram-se nesse navio, beneficiando da prote\u00e7\u00e3o, durante algum tempo, dos marinheiros brit\u00e2nicos, sendo neste barco que recuperaram a bandeira que seria brandida durante a revolta.<br \/>\nEmbora em 1810, poucos escravos de Saint-Leu tenham sido presos em Saint-Paul, a partir de fevereiro de 1811, estes seriam muito mais numerosos, incluindo algumas mulheres, ficando encarcerados durante v\u00e1rias semanas. Tamb\u00e9m neste caso, os contactos entre escravos de propriedades diferentes, que n\u00e3o se encontravam necessariamente pr\u00f3ximos do reservat\u00f3rio de \u00e1gua, contribuiriam para a dissemina\u00e7\u00e3o de ideias de rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>A revolta eclodiu a 5 de novembro ap\u00f3s a deten\u00e7\u00e3o, na v\u00e9spera, de escravos de Saint-Louis denunciados por Figaro, alguns dos quais j\u00e1 eram qualificados como <em>marrons<\/em>: Jean desde h\u00e1 alguns dias e Benjamin desde h\u00e1 11 meses.<\/p>\n<figure id=\"attachment_338\" aria-describedby=\"caption-attachment-338\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-farquarstleu10-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-338 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-farquarstleu10-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"638\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-farquarstleu10-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-farquarstleu10-web-300x239.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-farquarstleu10-web-768x612.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-338\" class=\"wp-caption-text\">Lettre du 25 novembre 1811 sur la r\u00e9volte adress\u00e9e au gouverneur anglais Farqhar par son secr\u00e9taire \u00e0 Bourbon\u00a0; <br \/>Archives de Londres CO 167\/19<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando, em 7 de novembro, os insurgentes desceram do reservat\u00f3rio da \u00e1gua em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s propriedades, os testemunhos \u2013 em particular de escravos \u2013 denotam a confus\u00e3o entre \u00abrevoltados\u00bb e \u00abbando de <em>marrons<\/em>\u00bb que vinham saquear as casas:<\/p>\n<blockquote><p>por volta das 7 horas, Paulin, escravo do Sr. Mac\u00e9 veio dizer-lhe que o Sr. Armel Mac\u00e9 tinha acabado de ser cercado por Negros marrons, indo imediatamente avisar o Sr.K\/Lonet; Que o Sr. K\/Lonet lhe disse para n\u00e3o sair do local com o seu grupo pois ele ia buscar refor\u00e7os e voltaria imediatamente&#8230; que tinha visto a Sra. K\/Lonet descer com o marido; que, a seu pedido, lhe tinha concedido dois escravos para a acompanhar&#8230;<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_340\" aria-describedby=\"caption-attachment-340\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-benjamin2-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-340 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-benjamin2-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"571\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-benjamin2-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-benjamin2-web-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-benjamin2-web-768x548.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-340\" class=\"wp-caption-text\">Carta sobre a revolta, endere\u00e7ada ao governador ingl\u00eas Farqhar pelo seu secret\u00e1rio em Bourbon, a 25 de novembro de 1811. Manuscrito.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos de Londres, CO 167\/19<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este testemunho de Benjamin confirma igualmente a fuga dos senhores.<br \/>\nParfait, um escravo cafre, seria detido na posse de duas pistolas, declarando terem-lhe sido oferecidas pelo Sr. Caro para acompanhar o destacamento na ca\u00e7a aos marrons. Tamb\u00e9m afirmaria que:<br \/>\n\u00abquando viu aquela multid\u00e3o (os bandos de Negros), n\u00e3o pensava que eram escravos das propriedades, mas que eram marrons.\u00bb<\/p>\n<p>Um dos destaques desta revolta foi a liberta\u00e7\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5507718616934976\" aria-label=\"Na sua obra La r\u00e9volte des oreilles coup\u00e9s ou l'insurrection de Saint-Leu en 1811 \u00e0 Bourbon-Ile de La R\u00e9union, Sudel Fuma, a quem devemos a descoberta, no Arquivo de Londres, do ato de condena\u00e7\u00e3o dos insurgentes, insiste na for\u00e7a simb\u00f3lica deste gesto de Elie que liberta dois escravos condenados \u00e0 corrente por terem fugido. La guerre de 1811 ou la r\u00e9volution des esclaves de Saint-Leu, \u00eele Bourbon \/ Gilles G\u00e9rard. - L'Harmattan, 2016\">&nbsp;<\/span> de v\u00e1rios escravos na propriedade de B. Hibon:<br \/>\n\u00abGilles e Elie tinham vindo com um bando de Negros, explodindo a porta da grande cabana,&#8230; tiraram os grilh\u00f5es a Bastien, Joson, Zephirin e Elie.\u00bb<br \/>\n\u00c0 pergunta do procurador sobre as raz\u00f5es pelas quais tinham sido encarcerados na habita\u00e7\u00e3o, avan\u00e7aram a seguinte resposta: \u00abporque tinham sido fugitivos durante tr\u00eas semanas, estando presos h\u00e1 cerca de um m\u00eas.\u00bb<\/p>\n<p>Haver\u00e1 somente algumas pilhagens de propriedades, nenhum inc\u00eandio de edif\u00edcios e nem qualquer viol\u00eancia contra as mulheres Livres. Apenas dois dos irm\u00e3os Mac\u00e9, que se opuseram \u00e0 entrada dos rebeldes nas suas propriedades, foram assassinados.<br \/>\nO confronto direto entre os insurgentes e um grupo de propriet\u00e1rios armados, Brancos ou Livres de Cor, assistidos por escravos leais, ocorreu no fundo de uma ravina.<\/p>\n<p>Possuindo apenas azagaias, machados e duas espingardas roubadas, os escravos seriam rapidamente dominados pelos Brancos que ainda possu\u00edam um m\u00ednimo de armas de fogo. V\u00e1rias dezenas de escravos morreram durante o confronto, cerca de 150 foram detidos e encarcerados no pr\u00f3prio dia ou nos dias seguintes. O julgamento, a condena\u00e7\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o tiveram lugar em mar\u00e7o de 1812.<\/p>\n<p>No final da revolta e da sua repress\u00e3o, foram assinaladas v\u00e1ria fugas de escravos. No recenseamento de 1812, v\u00e1rios senhores indicaram que alguns dos seus escravos eram \u00abcriminosos\u00bb ou \u00abjulgados\u00bb; houve ainda men\u00e7\u00f5es de escravos \u00ab<em>marrons<\/em> sete meses depois\u00bb, o que corresponde a novembro de 1811.<\/p>\n<p>Na propriedade de C\u00e9lestin Hibon, na qual Elias era escravo e onde a elabora\u00e7\u00e3o, a prepara\u00e7\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o do movimento foram os mais significativos, depois da insurrei\u00e7\u00e3o, seis escravos, cafres ou malgaxes foram declarados \u00ab<em>marrons<\/em> desde a revolta.\u00bb<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outro elemento que indica o elo entre a revolta e o <em>marronnage<\/em>. Trata-se da natureza da repress\u00e3o. Os <em>marrons<\/em> perseguidos e capturados eram muitas vezes sumariamente executados e n\u00e3o trazidos de volta para as propriedades. Para justificarem as suas a\u00e7\u00f5es, os ca\u00e7adores de negros traziam como prova uma orelha ou a m\u00e3o direita dos escravos fugitivos.<\/p>\n<p>Este desmembramento do corpo humano, estas amputa\u00e7\u00f5es, violavam a integridade f\u00edsica do defunto. Com a decapita\u00e7\u00e3o dos condenados da revolta de 1811, o desmembramento voltava a ser praticado, com uma translada\u00e7\u00e3o de partes do corpo. As cabe\u00e7as de Jasmin e G\u00e9r\u00e9on, executados em Saint-Denis, foram decepadas e, provavelmente, expostas em Saint-Leu, indubitavelmente com o prop\u00f3sito de intimidar os escravos.<br \/>\nPor \u00faltimo, nota-se que a presen\u00e7a das mulheres, na revolta ou nas fugas, sempre foi muito minorit\u00e1ria, transparecendo que as formas de resist\u00eancia que privilegiavam diziam respeito \u00e0 estrutura familiar.<\/p>\n<p>Elie e tr\u00eas dos seus irm\u00e3os foram decapitados, tendo a m\u00e3e sido detida e interrogada. Gilles e o pai morreram no seguimento da revolta; a m\u00e3e e a irm\u00e3 tamb\u00e9m foram aprisionadas, por\u00e9m posteriormente libertadas.<\/p>\n<p>O facto de ter havido uma \u00fanica revolta durante quase dois s\u00e9culos de opress\u00e3o, enquanto as partidas em <em>Marronnage<\/em> perfazem milhares, sublinha o controlo total dos senhores sobre os seus escravos, sendo as a\u00e7\u00f5es individuais, tal como o <em>marronnage<\/em>, mais facilmente concretiz\u00e1veis.<br \/>\nNo final, a revolta fracassou e o <em>marronnage<\/em> assumia frequentemente um car\u00e1ter tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Embora a sua dura\u00e7\u00e3o se tenha cingido a apenas alguns dias no in\u00edcio de novembro de 1811, e a uma \u00e1rea bastante limitada \u2013 as vertentes de Saint-Leu \u2013 esta rebeli\u00e3o deve ser analisada sob a perspetiva da dura\u00e7\u00e3o dos preparativos e da extens\u00e3o geogr\u00e1fica inicialmente visada. Al\u00e9m disso, teve um impacto substancial na popula\u00e7\u00e3o livre, alimentando, durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, as ansiedades dos senhores e mais tarde, ap\u00f3s a emancipa\u00e7\u00e3o, sendo objeto de nega\u00e7\u00e3o e distor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Seriam os pr\u00f3prios Brancos a evocar, referindo-se a esta revolta, os termos guerra e revolu\u00e7\u00e3o dos Negros, atestando assim o trauma vivido pela popula\u00e7\u00e3o Livre e a relev\u00e2ncia pol\u00edtica deste movimento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_342\" aria-describedby=\"caption-attachment-342\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-revolutionmarronentier-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-342 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-revolutionmarronentier-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"580\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-revolutionmarronentier-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-revolutionmarronentier-web-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-revolutionmarronentier-web-768x557.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-342\" class=\"wp-caption-text\">Interrogat\u00f3rio de Benjamin, escravo pertencente a Mac\u00e9 (pai), dia 21 de novembro de 1811. Manuscrito.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, ADR BL 274<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6174,"parent":5038,"menu_order":10,"template":"","class_list":["post-6173","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5038"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}