{"id":6188,"date":"2021-09-13T09:11:20","date_gmt":"2021-09-13T07:11:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6188"},"modified":"2021-11-26T11:40:12","modified_gmt":"2021-11-26T10:40:12","slug":"a-resistencia-dos-escravos-em-bourbon-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/resistencias-a-escravatura\/a-resistencia-dos-escravos-em-bourbon-reuniao\/","title":{"rendered":"A resist\u00eancia dos escravos em Bourbon-Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>O escravo deseja viver em liberdade. Embora a lei o definisse como uma pe\u00e7a de mobili\u00e1rio, ele sabia que era livre. A ilha Bourbon era abastecida por cativos importados atrav\u00e9s do com\u00e9rcio realizado em \u00c1frica, Madag\u00e1scar, \u00cdndia e \u00c1sia, sendo que o seu n\u00famero aumentava com os nascimentos dos escravos chamados crioulos, pois era o ventre que outorgava o estatuto \u00e0 crian\u00e7a.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6188-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster-eve1.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PROSPER_EVE_20_ST_2.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PROSPER_EVE_20_ST_2.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PROSPER_EVE_20_ST_2.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Desde logo, para suportar nas profundezas do seu ser o estado que lhes era negado, eles resistiram. Esta resist\u00eancia apresentava duas faces, uma violenta \u2013 o <em>marronnage<\/em> (fuga pela terra), a evas\u00e3o pelo mar ou a revolta \u2013 e a outra n\u00e3o\u2212violenta, a can\u00e7\u00e3o, a recusa em procriar, a dan\u00e7a, os trocadilhos, o riso.<\/p>\n<h3>O <em>marronnage<\/em><\/h3>\n<figure id=\"attachment_598\" aria-describedby=\"caption-attachment-598\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-bib2896-12-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-598 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-bib2896-12-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-bib2896-12-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-bib2896-12-web-300x177.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frad974-bib2896-12-web-768x453.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-598\" class=\"wp-caption-text\">A fuga. Tony de B. del. Em: <em>Les Marrons<\/em>, L.-T. Houat, Paris, Ebrard, 1844.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca administrativa e hist\u00f3rica dos Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<h4>\u00a0A quest\u00e3o da etimologia<\/h4>\n<p>Durante muito tempo, a defini\u00e7\u00e3o aceite por todos, vincula o termo <em>marron<\/em> \u00e0 experi\u00eancia dos espanh\u00f3is no mundo amer\u00edndio. Victor Schoelcher cinge-se ao voc\u00e1bulo \u00ab<em>cimarron<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>Para os medievalistas, esta palavra \u00ab<em>cimarron<\/em>\u00bb, que na verdade significa \u00abmato\u00bb, n\u00e3o \u00e9 adequada para designar o marron, o escravo que, ao fugir, rompeu com a sua condi\u00e7\u00e3o, preferindo estabelecer um elo entre os termos comuns no s\u00e9culo XIV: <em>marron\/marronniers<\/em>: guias de montanha e carregadores do Alpes; <em>marronnier<\/em>: pirata e <em>marronner<\/em>: ser pirata; <em>marron<\/em> e <em>latrone<\/em>: ladr\u00f5es. Os <em>marrons<\/em> foram a primeira gera\u00e7\u00e3o de pioneiros e colonizadores em alguns lugares dos Alpes. A palavra <em>marron<\/em> \u00e9 encontrada na l\u00edngua Romana e, em seguida, na l\u00edngua francesa para designar os animais dom\u00e9sticos que voltaram ao estado selvagem.<\/p>\n<p>Os franceses que se estabeleceram em Bourbon nos s\u00e9culos XVII e XVIII, utilizaram este termo para designar os animais vadios, da\u00ed as express\u00f5es de <em>chat marron<\/em> (gato vadio), <em>cabri marron<\/em> (cabra vadia), <em>porc marron<\/em> (porco vadio) que chegaram at\u00e9 n\u00f3s e que foram alargados aos escravos que fugiam da propriedade do seu senhor, partindo para a montanha. Em 1997, o <em>Dictionnaire du monde rural<\/em> de Marcel Lachiver definiu a palavra <em>marron<\/em> da seguinte forma: animal dom\u00e9stico que se tornou novamente selvagem.<\/p>\n<p>O governador La Hure (1671-1674) foi um dos primeiros governadores autorit\u00e1rios e tir\u00e2nicos. Segundo reza a lenda, mandou fuzilar e esquartejar V\u00e9ron, o seu fiel de armaz\u00e9m. Para escapar \u00e0 sua tirania, alguns escravos fugiram, entrincheirando-se no pico de Grande Anse. Eram designados <em>kivis<\/em>, palavra malgaxe que significa fugitivos. Em novembro de 1674, durante a visita do vice-rei da \u00cdndia, Jacob Blanquet de La Haye, mandou chamar os desertores. Jacques Launay dirigiu-se para a costa sul para soar o <em>ancive<\/em> (uma concha) e os fugitivos regressaram.<\/p>\n<p>Na altura do governador de Orgeret (1674-1678), quando os Negros souberam que em Fort-Dauphin os malgaxes se tinham revoltado contra os franceses, em 27 de agosto de 1674, decidiram massacrar os Brancos exceto as mulheres, o cirurgi\u00e3o e o padre. Os detidos foram enforcados, enquanto os outros fugiram para as montanhas, fazendo incurs\u00f5es noturnas a propriedades isoladas. A principal preocupa\u00e7\u00e3o do governador Vauboulon (1689-1690) era atormentar os propriet\u00e1rios. Neste sentido, mandou prender Brocus por dar cebola e alho a escravos fugitivos, condenando-o a pagar uma multa avultada, a usar uma placa no peito e outra nas costas com a inscri\u00e7\u00e3o \u00ab<em>protetor de pretos fugitivos<\/em>\u00bb e a ser amarrado ao pelourinho.<\/p>\n<h4>As raz\u00f5es do <em>marronnage<\/em><\/h4>\n<p>Os escravos fugiam porque desejavam recuperar a liberdade, n\u00e3o podendo das mostras de afeto a um ente querido, j\u00e1 n\u00e3o suportando serem brutalmente espancados e humilhados, insuficientemente alimentados, acusados de crimes n\u00e3o cometidos. Todavia, inicialmente, tratava-se de uma decis\u00e3o eminentemente cultural. No navio que os levou a Bourbon, os escravos capturados em \u00c1frica e Madag\u00e1scar receavam morrer no mar pensando que as suas almas seriam assim condenadas \u00e0 err\u00e2ncia. Ao chegarem \u00e0 ilha, tinham que superar outro medo, o de morrer longe dos ancestrais. Fugir para resolver a quest\u00e3o do t\u00famulo ancestral era uma necessidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_600\" aria-describedby=\"caption-attachment-600\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-frad974-bib2896-2-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-600 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-frad974-bib2896-2-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"494\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-frad974-bib2896-2-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-frad974-bib2896-2-web-300x185.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-frad974-bib2896-2-web-768x474.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-600\" class=\"wp-caption-text\">A propriedade. Tony de B. del. In <em>Les Marrons<\/em>, L.-T. Houat, Paris, Ebrard, 1844.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca administrativa e hist\u00f3rica dos Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando se instalaram na parte montanhosa da ilha, os fugitivos malgaxes constitu\u00edram reinos, imitando o modelo pol\u00edtico do seu pa\u00eds de origem. O l\u00edder era designado rei e a sua mulher, rainha. O rei era assistido por capit\u00e3es e tenentes. Aquando da sua morte, o rei e os seus chefes militares mereciam um enterro sagrado, o culto que lhes era prestado ficando reconhecido para a posteridade, o que explica o seu peso na topon\u00edmia. Gra\u00e7as a estes t\u00famulos ancestrais, as almas dos escravos falecidos na ilha deixavam de ser condenadas a vaguear. Os acampamentos e chefes que aparecem nos relat\u00f3rios dos ca\u00e7adores de fugitivos refletem um in\u00edcio de organiza\u00e7\u00e3o social que Jean Barassin descreveu como um Estado, Reino ou Rep\u00fablica. \u00ab<em>Estado porque era um Estado dentro de um Estado, sem limites definidos, Reinos pois havia reis e Rep\u00fablica porque que o poder vinha do povo, sendo depositado nos mais poderoso<\/em>s\u00bb.<\/p>\n<p>Os escravos fugitivos nomeavam quase todos os pontos not\u00e1veis das montanhas da ilha: Salazes, Cilaos, Cimendef, B\u00e9noum, Or\u00e8re, Anchaing, Matouta. Dimitil que ocupava o cargo de capit\u00e3o, reinou sobre uma vasta regi\u00e3o que ia das terras altas de Saint-Paul at\u00e9 \u00e0s de Saint-Pierre. Em 1752, o chefe do destacamento militar, Fran\u00e7ois Mussard, soube da exist\u00eancia do rei Laverdure e da sua esposa, a rainha Sarlave. O seu tenente era Sarcemate. Em 1844, o viajante M.C. Lavoll\u00e9e menciona um cemit\u00e9rio numa das vertentes do Piton des Neiges onde escravos africanos enterravam as cabe\u00e7as dos seus companheiros. Em 1846, uma c\u00e2mara sepulcral cheia de ossadas foi assinalada no sop\u00e9 dos picos Salazes.<\/p>\n<h4>Vida material do <em>marron<\/em><\/h4>\n<p>Os escravos fugitivos foram os primeiros pioneiros das montanhas da ilha. Viviam em autarcia. Praticavam uma agricultura a pequena escala: principalmente milho, feij\u00e3o, batata-doce, taros. Ca\u00e7avam cabras e porcos selvagens, petr\u00e9is, e pescavam nos rios. Dedicavam-se \u00e0 recolha de mel, <em>andettes<\/em> (larvas que escavam as suas galerias nos troncos de \u00e1rvores mortas) e frutos. Constru\u00edam minuciosamente cabanas feitas de madeira esquadriada ou redonda. Por vezes, contentavam-se com cubatas feitas de folhas chamadas \u00ab<em>ajoupas<\/em>\u00bb, ou de \u00ab<em>barracas<\/em>\u00bb. O acampamento era tamb\u00e9m composto por barrac\u00f5es. Alguns optavam por viver em cavernas a dois ou tr\u00eas. Os acampamentos fortificados por uma pali\u00e7ada, guardados por sentinelas eram implantados em locais \u00edngremes, inacess\u00edveis e f\u00e1ceis de vigiar. Alguns lugares eram rodeados de pedras que os fugitivos empurravam encosta abaixo sobre os atacantes, de modo a atrasar o seu avan\u00e7o. No tocante a armas, inicialmente tinham algumas espingardas e pistolas roubadas durante as razias, mas por falta de p\u00f3lvora estas tornavam-se rapidamente inutiliz\u00e1veis. Tinha, ent\u00e3o, que satisfazer-se com as suas azagaias, pelo que o resultado da luta s\u00f3 podia ser-lhes desfavor\u00e1vel. Os que sonhavam em deixar a ilha pelo mar, fabricavam pirogas ou jangadas no topo das montanhas, at\u00e9 mesmo uma chalupa. A vida era dif\u00edcil para aqueles que n\u00e3o eram auxiliados por fugitivos aguerridos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_602\" aria-describedby=\"caption-attachment-602\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frad974-bib2896-4-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-602 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frad974-bib2896-4-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frad974-bib2896-4-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frad974-bib2896-4-web-300x186.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frad974-bib2896-4-web-768x475.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-602\" class=\"wp-caption-text\">A caverna. Tony de B. del. In <em>Les Marrons<\/em>, L.-T. Houat, Paris, Ebrard, 1844. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca administrativa e hist\u00f3rica dos Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_604\" aria-describedby=\"caption-attachment-604\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-1998-12-3-12-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-604 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-1998-12-3-12-web.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-1998-12-3-12-web.jpg 550w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-1998-12-3-12-web-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-604\" class=\"wp-caption-text\">\u00cele-de-France. Vista da Montanha do Pouce e de um terreno desbravado. Le Brun, desenhador; Jacques G\u00e9rard Milbert, gravurista. 1812. Gravura. Em: <em>Voyage pittoresque \u00e0 l&#8217;Ile-de-France, au Cap de Bonne-Esp\u00e9rance et \u00e0 l&#8217;\u00eele de T\u00e9n\u00e9riffe<\/em>. Estampa n\u00ba 12.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Erigiam o seu acampamento composto por v\u00e1rios tipos de cabanas (\u00ab<em>ajoupas<\/em>\u00bb, \u00ab<em>hangares<\/em>\u00bb). Plantavam e testavam plantas medicinais. As mulheres fabricavam as roupas, porque os chefes usavam os sinais distintivos dos pa\u00edses de origem. Samson, o chefe de Sakalave, estava \u00ab<em>envolto numa vasta tela branca debruada a vermelho brilhante a que os malgaxes chamam \u00absaimbou\u00bb. A sua cabe\u00e7a era encimada por um turbante de tecido adornado com um buqu\u00ea de penas vermelhas e brancas<\/em>\u00bb. O fugitivo de base vestia-se com roupas usadas recuperadas durante as incurs\u00f5es a propriedades costeiras. As mulheres confecionavam roupas quentes com penas de aves usadas por todos os <em>marrons<\/em>. Trocavam de identidade e bebiam no c\u00e1lice da sua cultura ancestral. Em fevereiro de 1801, um escravo fugitivo capturado ouve falar da exist\u00eancia de um campo de quinze a dezasseis <em>marrons<\/em> nas terras altas de Saint-Denis. Os l\u00edderes destes fugitivos, Bastien, Andr\u00e9 e Marie\u2212Louise pertencentes a Ozoux, Valentin e Ferri\u00e8re, autodenominavam-se \u00abJacob (nome do governador), Saint-Perne (como o gestor or\u00e7amental) e Madame Jacob\u00bb: assim se divertiam. De acordo com uma tradi\u00e7\u00e3o oral relatada por J-M Mac\u00a0Auliffe, o local de \u00eelet \u00e0 Cordes teria sido perdido pelos <em>marrons<\/em> durante um agape organizado por ocasi\u00e3o de um casamento. Informado por Fanor, um <em>marron<\/em> malgaxe, um destacamento de 25 homens deu o assalto. Apanhados desprevenidos, os fugitivos foram amarrados sem a menor resist\u00eancia. Por fim, tamb\u00e9m esculpiam.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o era ajudado por fugitivos experientes, a jovem <em>marron<\/em> podia morrer de fome, sede, fadiga, frio ou uma queda num precip\u00edcio. Morria sozinho sem ter direito a uma sepultura. Aqueles que por serem mal alimentados pelos seus senhores tinham uma sa\u00fade fr\u00e1gil, um organismo fraco, tinham poucas hip\u00f3teses de sobreviver na sua vida como fugitivo.<\/p>\n<p>Em 20 de dezembro de 1747, Marie Louise e Vao fugiram. Tr\u00eas dias depois, Vao adoeceu, falecendo no dia seguinte. Em 23 de mar\u00e7o de 1778, um escravo guardi\u00e3o em Saint-Leu descobriu uma escrava vinda de Saint-Paul. No dia seguinte, v\u00e1rios escravos receberam a instru\u00e7\u00e3o para lev\u00e1-la para a pris\u00e3o de Saint-Paul. Pelo caminho pediu permiss\u00e3o para descansar. Sentou-se e faleceu. Em 1804, vinte malgaxes escaparam aquando do seu desembarque, subiram o rio des Galets e instalaram-se no topo de um rochedo. Alimentaram-se de <em>fanjan<\/em> (fetos arb\u00f3reos), porque os rebentos desta planta cont\u00eam uma polpa tenra e farinhosa. Os antigos <em>marrons<\/em> que voltavam \u00e0 submiss\u00e3o eram por vezes utilizados como guias para os visitantes da ilha. O erudita Bory de Saint-Vincent foi acompanhado por Philippe, um antigo fugitivo preto, na sua visita \u00e0 extremidade do Br\u00fbl\u00e9 de Saint-Paul. O escravo que decidisse regressar ap\u00f3s alguns dias de fuga recorria ao padre, ou a uma pessoa conhecida pela sua bondade, ou, por vezes, ao governador, pedindo-lhes que intercedessem por ele junto ao seu senhor para que este n\u00e3o o punisse severamente.<br \/>\nA inexist\u00eancia de ferramentas agr\u00e1rias (podadeiras, sachos, enxadas), ferramentas de carpinteiro (martelo, machado, serra, enx\u00f3, plaina, guilherme, cinzel, compasso e ferramentas de medi\u00e7\u00e3o) para organizar as suas vidas, trabalhar a terra para se alimentarem e construir as cubatas e os m\u00f3veis; a falta tamb\u00e9m de utens\u00edlios de cozinha (garfo, colher, copo, jarro), roupas para se proteger do frio; obrigavam-nos inevitavelmente a irem para o litoral. Como n\u00e3o eram bem-vindos, a recupera\u00e7\u00e3o de ferramentas, utens\u00edlios de cozinha e armas, dificilmente era poss\u00edvel sem ast\u00facia e viol\u00eancia. Estas razias eram temidas, sendo que os grandes ataques dos <em>marrons<\/em> ocorreram entre 1730 e 1750.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Cronologia (n\u00e3o exaustiva) das investidas dos \u00ab<em>marrons<\/em>\u00bb de 1735 a 1775<\/strong><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Ano <\/strong><\/td>\n<td><strong>N\u00famero <\/strong><\/td>\n<td><strong>Lugares<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1735<\/td>\n<td>3<\/td>\n<td>2 em Saint-Paul<br \/>\n1 em Saint-Pierre<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1737<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Saint-Leu<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1738<\/td>\n<td>4<\/td>\n<td>3 em Saint-Paul<br \/>\n1 em Saint-Pierre<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1742<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Saint-Beno\u00eet<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1743<\/td>\n<td>3<\/td>\n<td>1 em Bras-Panon<br \/>\n1 em Saint-Denis<br \/>\n1 em Saint-Paul<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1747<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Grande-Chaloupe<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1750<\/td>\n<td>2<\/td>\n<td>1 nas terras altas de Sainte-Marie<br \/>\n1 nas terras altas de Saint-Paul<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1752<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Sainte-Marie<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1758<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Rivi\u00e8re-des-Pluies<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1759<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Rivi\u00e8re-des-Pluies<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1764<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Saint-Denis<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1765<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Saint-Paul<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1766<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Saint-Paul<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>1775<\/td>\n<td>1<\/td>\n<td>Grande Ravine<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os chefes superavam os outros nestes exerc\u00edcios. A partir de 1744, Fran\u00e7ois Mussard realizou as suas grandes incurs\u00f5es durante dez anos no circo de Cilaos, que era ent\u00e3o o centro nevr\u00e1lgico do <em>marronnage<\/em>. Em 1751, matou Mafac e a mulher Rahariane. Mafac ou Mafate tem a sua relev\u00e2ncia hist\u00f3rica (do malgaxe <em>mahafaka<\/em>, que cura \u2013 n\u00e3o s\u00f3 a partir de plantas mas tamb\u00e9m de \u00e1gua sulfurosa (Ran <em>Mafaque<\/em>). Esta hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 fruto da imagina\u00e7\u00e3o dos contadores de hist\u00f3rias. O espa\u00e7o de Bourbon foi domesticado e sacralizado pelos <em>ombiasy<\/em> (curandeiros tradicionais malgaxes). A distribui\u00e7\u00e3o de top\u00f3nimos no circo est\u00e1 ligada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica malgaxe. O mapa astrol\u00f3gico malgaxe sobrep\u00f4s-se ao per\u00edmetro deste circo. O Norte (de Cap Noir at\u00e9 ao Cimendef) e o Leste (do Cimendef a Marla) s\u00e3o as zonas de bons aug\u00farios e o Sul (at\u00e9 Trois Roches) e o Oeste (at\u00e9 ao ponto mais a sul ao longo do Maido) as zonas de maus press\u00e1gios. Quanto aos quatro cantos: o Nordeste ou destino Alahamady \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do poder soberano, o ponto mais poderoso (Cimendef); o canto Sudeste ou destino Asorotany, \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do poder sagrado, o canto dos ancestrais com os t\u00famulos e os monumentos funer\u00e1rios (os Trois Salazes); o canto sudoeste ou destino <em>Adimisana<\/em>, \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o nefasta dos feiticeiros; e o canto noroeste ou destino <em>Adijady<\/em>, a posi\u00e7\u00e3o do profano. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o oral, Fran\u00e7ois Mussard n\u00e3o erradicou o <em>marronnage<\/em> em Cilaos (do malgaxe <em>tsi ilaoza<\/em> (na), o lugar do qual n\u00e3o se parte).<\/p>\n<figure id=\"attachment_606\" aria-describedby=\"caption-attachment-606\" style=\"width: 425px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-frad974-bib2896-3-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-606 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-frad974-bib2896-3-web-e1631515029720.jpg\" alt=\"\" width=\"425\" height=\"700\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-606\" class=\"wp-caption-text\">O marronnage. Tony de B. del In <em>Les Marrons<\/em>, L.-T. Houat, Paris, Ebrard, 1844.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca administrativa e hist\u00f3rica dos Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A \u00faltima grande luta contra os <em>marrons<\/em> teria ocorrido por volta de 1829 em \u00celette \u00e0 Malheur acima da rampa Ferrand, onde viviam cerca de quarenta escravos fugitivos. Para alcan\u00e7\u00e1-lo, era necess\u00e1rio escalar uma encosta quase vertical e passar sobre um tronco de \u00e1rvore lan\u00e7ado sobre um precip\u00edcio. A luta foi dif\u00edcil. O destacamento liderado por L\u00e9onard Guichard perdeu dois homens, tendo vinte e cinco <em>marrons<\/em> sido mortos. Os restantes feridos foram feitos prisioneiros. Em 1849, os t\u00famulos das v\u00edtimas ainda eram vis\u00edveis.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u00abGuerra dos Cem Anos\u00bb, cunhada por Victor Mac-Auliffe para descrever esta ca\u00e7a ao homem, n\u00e3o \u00e9 apropriada. Embora o estado de esp\u00edrito entre os propriet\u00e1rios e os escravos fugitivos fosse b\u00e9lico, a luta n\u00e3o era levada a cabo sob a forma de uma guerra. Os fugitivos n\u00e3o tinham a possibilidade de definir uma estrat\u00e9gia e uma t\u00e1tica face aos Brancos numa batalha campal e com tantos meios materiais como eles. Ao inv\u00e9s, sofriam ataques surpresa durante os quais eram esmagados ou neutralizados sem terem a possibilidade de travar um combate equitativo, nem de retaliar contra os seus advers\u00e1rios. As armas eram desiguais. Os Brancos possu\u00edam espingardas, os escravos t\u00eam apenas azagaias.<\/p>\n<figure id=\"attachment_608\" aria-describedby=\"caption-attachment-608\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-1989-185-fusil-de-mussard-droite-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-608 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-1989-185-fusil-de-mussard-droite-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-1989-185-fusil-de-mussard-droite-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-1989-185-fusil-de-mussard-droite-web-300x63.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-1989-185-fusil-de-mussard-droite-web-768x162.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-608\" class=\"wp-caption-text\">Espingarda de pederneira. An\u00f3nimo. 2\u00aa metade do s\u00e9culo XVIII.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tampouco era uma guerra civil resultado de um Estado defeituoso, de um Estado fraco. Portanto, na Ilha Bourbon, foi o governador que impulsionou a luta contra os escravos fugitivos, usando a for\u00e7a para restaurar a ordem. Os ca\u00e7adores de escravos agiam a mando de um Estado forte. Numa guerra civil, deixa de haver distin\u00e7\u00e3o entre combatentes e n\u00e3o combatentes. Na ca\u00e7a aos <em>marrons<\/em>, esta distin\u00e7\u00e3o torna-se evidente. Al\u00e9m disso, de ambos os lados, nem todos os membros ambicionavam alcan\u00e7ar uma vit\u00f3ria. Os ataques por parte dos escravos fugitivos eram limitados no espa\u00e7o e no tempo, como uma esp\u00e9cie de guerrilha precursora, visto que o inimigo se sentia amea\u00e7ado em todo o lado, estando o seu estado de esp\u00edrito desgastado pela intimida\u00e7\u00e3o e pela invisibilidade dos combatentes. Quando a guerrilha n\u00e3o logra vencer, ao longo do tempo o objetivo consiste em constituir um corpo de batalha suficientemente poderoso para realizar grandes opera\u00e7\u00f5es decisivas. Por\u00e9m, as incurs\u00f5es dos <em>marrons<\/em> n\u00e3o usufru\u00edam desta configura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>As razias<\/h3>\n<p>Os dados estat\u00edsticos confirmam a raridade das razias ap\u00f3s 1748 reveladas pela tradi\u00e7\u00e3o oral. Os velhos Malgaxes sossegaram; deixaram de acreditar na efic\u00e1cia das incurs\u00f5es, tendo chegado a vez dos Africanos de apoiarem esta solu\u00e7\u00e3o. As investidas dos <em>marrons<\/em> eram muitas vezes consequ\u00eancia dos excessos dos ca\u00e7adores, que vasculhavam o acampamento e levam tudo com eles, matando os c\u00e3es que soavam o alarme. Em junho de 1753, os homens do destacamento de Patrice Droman mataram trinta e um c\u00e3es durante o ataque a um acampamento em Bras de la Plaine. Ao se limitarem a atacar as propriedades, sem atacarem os s\u00edmbolos do poder decis\u00f3rio, os <em>marrons<\/em> n\u00e3o se muniam dos meios necess\u00e1rios para derrotar o inimigo. Como tampouco dispunham do apoio dos escravos das propriedades, a perspetiva destes ataques podia gerar um verdadeiro temor entre os senhores, sem no entanto abalar o sistema.<\/p>\n<p>Mah\u00e9 de La Bourdonnais (1735-1746) organizou opera\u00e7\u00f5es \u00abrel\u00e2mpago\u00bb, optando pelas t\u00e1ticas das grandes batidas. Contudo, os resultados n\u00e3o foram muito encorajadores. Em 20 de mar\u00e7o de 1739, nove destacamentos, incluindo um da Rivi\u00e8re des Remparts, dois da Rivi\u00e8re d&#8217;Abord, um de Sainte-Suzanne, tr\u00eas de Saint-Paul, e dois de Saint-Denis, reuniram-se na Plaine des Cafres, nos arredores de Piton de Villers com vista a aniquilar os acampamentos de escravos fugitivos. Alertados pelos c\u00e3es, os <em>marrons<\/em> fugiram, pelo que os destacados se depararam com 36 cubatas vazias. Optou de seguida ent\u00e3o pela intimida\u00e7\u00e3o, uma opera\u00e7\u00e3o levada a cabo por pequenos grupos de uma d\u00fazia de homens cada, todos habilidosos no tiro, sob a autoridade de um chefe incontest\u00e1vel. .<\/p>\n<p>A ca\u00e7a requeria excelentes capacidades f\u00edsicas para superar os obst\u00e1culos do terreno, da destreza ao tiro. De acordo com Eug\u00e8ne Dayot, tal miss\u00e3o n\u00e3o podia ser realizada sem um m\u00ednimo de treino, mencionando duas modalidades: a <em>loterie<\/em> (um exerc\u00edcio de tiro) e a <em>grimpe<\/em> (um exerc\u00edcio de escalada). A escalada dividia-se em duas submodalidades: a <em>grimpe s\u00e8che<\/em> (escalada simples), imitando a ca\u00e7a aos petr\u00e9is, que consiste em subir ao cimo de uma \u00e1rvore gra\u00e7as a dois grampos; e a <em>grimpe charg\u00e9e<\/em> (escalada com pesos) que simula a ca\u00e7a aos cabritos ou aos Negros, consistindo em subir e descer a mesma \u00e1rvore com um peso de 30 quilos.<\/p>\n<h3>A fuga pelo mar<\/h3>\n<p>Fugir pelo mar, \u00e0 noite, na perspetiva de uma minoria de escravos, era a melhor solu\u00e7\u00e3o para se afastarem o mais poss\u00edvel dos esclavagistas, tornando-se livres novamente. Numa carta endere\u00e7ada ao seu amigo Bertin, a 19 de janeiro de 1775, o poeta Parny, referindo-se este tipo de resist\u00eancia, escreveu o seguinte: \u00ab<em>A sua p\u00e1tria (Madag\u00e1scar) fica a duzentas l\u00e9guas daqui. No entanto, imaginam ouvir o canto dos galos e reconhecer o fumo dos cachimbos dos seus camaradas. Ocasionalmente, fogem em grupos de doze ou quinze, roubando uma piroga que abandonam ao sabor das ondas. Deixam quase sempre a vida nesta empreitada, o que \u00e9 coisa pouca, quando se perdeu a liberdade<\/em>.\u00bb Fugir pelo mar preocupa o poder civil e os senhores, n\u00e3o por causa do seu poder desestabilizador, mas pelas perdas que causa aos propriet\u00e1rios. A col\u00f3nia viu-se confrontada com este problema j\u00e1 em 1704. O Conselho Superior punia de forma exemplar aqueles que eram apanhados em plena execu\u00e7\u00e3o do seu plano, a fim de desencorajar os demais escravos a cometerem este delito funesto. Embora estas iniciativas fossem bastante raras, desde 1750 at\u00e9 \u00e0s v\u00e9speras do per\u00edodo revolucion\u00e1rio em Bourbon, os projetos, esses, n\u00e3o faltaram.<\/p>\n<h3>A revolta<\/h3>\n<figure id=\"attachment_610\" aria-describedby=\"caption-attachment-610\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-frb974115201-843lal-081-la-re-volte-des-ne-gres-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-610 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-frb974115201-843lal-081-la-re-volte-des-ne-gres-web-e1631514475566.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"700\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-610\" class=\"wp-caption-text\">A revolta dos negros. 1848. Gravura. Em: <em>Deux prix de vertu<\/em>, Edouard de Lalaing, A. Mame et fils, 1898, p. 81.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca departamental da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os escravos tinham apenas uma aspira\u00e7\u00e3o: viver em liberdade. Em Bourbon, enquanto alguns tentavam fugir da ilha por mar, outros fugiam da tirania da propriedade para se refugiarem no interior da ilha. A revolta era uma forma de resist\u00eancia muito mais radical. De 1705 at\u00e9 ao Primeiro Imp\u00e9rio, todas as tentativas de revolta para conquistar a liberdade atrav\u00e9s da for\u00e7a fracassaram, porque eram denunciadas por algu\u00e9m de dentro. Em 1705, em Saint-Paul, S\u00e9bastien, escravo de Pierre L\u00e9ger; Samban, escravo de Jacques Del\u00e2tre; e Mathieu escravo de Pierre Bachelier foram condenados a serem queimados vivos, por terem pretendido assassinar todos os Brancos para se tornarem senhores das armas e da ilha. No mesmo distrito, no dia 1 de junho de 1719, Louis Ponnant, escravo de Antoine Cadet foi condenado \u00e0 forca pelo crime de rebeli\u00e3o. Entre fevereiro e maio de 1730, Claude, Simayet, Cambon e Fran\u00e7ois primeiro; Barbe, S\u00e9bastien e Jacques depois, passaram pelo tormento da roda antes de serem estrangulados e expostos em pra\u00e7a p\u00fablica por terem planeado matar os seus senhores e todos os Brancos sem exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os administradores da \u00e9poca real (1767-1789) n\u00e3o levaram a s\u00e9rio os planos de conspira\u00e7\u00e3o infundados. O representante do rei Louis XV na col\u00f3nia, Bellecombe, estava convencido disso em rela\u00e7\u00e3o aos tumultos de 1769, e admitiu prontamente que a suposta revolta de 1779 \u00ab<em>n\u00e3o passava de uma quest\u00e3o de terror, tendo os propriet\u00e1rios acrescentado um ponto \u00e0 hist\u00f3ria<\/em>\u00bb, sendo que os escravos culpados queriam somente roubar, ou talvez atear fogo a uma ou outra cabana ou galinheiro; um escravo guardi\u00e3o foi esfaqueado simplesmente porque se op\u00f4s a um ladr\u00e3o de cana-de-a\u00e7\u00facar. O projeto de conluio denunciado era, na sua opini\u00e3o, lament\u00e1vel, j\u00e1 que os supostos l\u00edderes tinham como armas apenas um peda\u00e7o de baioneta partida e algumas lan\u00e7as<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6267667022263099\" aria-label=\"AN, Col. C 4\/100, Lettre de Saint-Maurice et Courcy aux administrateurs g\u00e9n\u00e9raux du roi du 9 ao\u00fbt 1779\">&nbsp;<\/span>. N\u00e3o obstante, a repress\u00e3o foi terr\u00edvel<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8366122119402986\" aria-label=\"AN, Col. C3\/13, Carta ao ministro de 12 de janeiro de 1770.\">&nbsp;<\/span>. produzindo os efeitos desejados, visto que durante os \u00faltimos dez anos do Ancien R\u00e9gime, n\u00e3o houve mais vest\u00edgios de revolta servil. O \u00fanico epis\u00f3dio perturbador eclodiu em outubro de 1788 em Saint-Louis, aquando da evas\u00e3o de uma centena de escravos da propriedade de Grimaud<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3449204422725798\" aria-label=\"ADR, L 82, Carta de 13 outubro 1788 de Cossigny a Enault\">&nbsp;<\/span>.\u00a0Dez anos depois, os atos daqueles que eram tidos como inimigos do interior n\u00e3o foram relativizados. Neste contexto, em outubro de 1799, em Sainte-Rose, de acordo com as confid\u00eancias feitas pelo escravo malgaxe Adonis ao seu senhor, Levillan-Desrabines, quase quinhentos escravos planeavam ir a Saint-Denis para adormecer ou levar \u00e0 loucura, por meio de uma esp\u00e9cie de raiz, todos os brancos reunidos no teatro.<\/p>\n<p>Sob o Imp\u00e9rio, o receio de um ataque ingl\u00eas levou os propriet\u00e1rios a deixarem de negligenciar a sua seguran\u00e7a. Os ingleses decidiram desarm\u00e1-los com o intuito de torn\u00e1-los inofensivos e evitar gestos hostis ap\u00f3s o juramento de lealdade. Consequentemente, os propriet\u00e1rios encontravam-se impotentes perante a amea\u00e7a que os escravos representavam, n\u00e3o por aqueles que fugiam para as montanhas, mas pelos que permaneciam nas propriedades.<\/p>\n<p>Uma vez que os revolucion\u00e1rios de 1789 n\u00e3o tinham instaurado a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, durante a conquista da ilha em 1810 pelos ingleses, ao verem os colonos serem desarmados, os escravos julgavam que estes novos governantes seriam mais generosos do que os franceses. Quando compreenderam que a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura n\u00e3o estava na ordem do dia, os escravos da regi\u00e3o do Gol e de Saint-Leu decidiram revoltar-se, em novembro de 1811. Pela primeira vez, um projeto seria executado. Para defender os seus interesses, os colonos desta localidade n\u00e3o esperaram pela chegada das for\u00e7as inglesas. Organizaram-se entre eles, resolvendo tomar a situa\u00e7\u00e3o nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Cento e trinta e cinco rebeldes foram detidos e encarcerados em Saint-Denis, dos quais vinte e cinco foram condenados \u00e0 morte pelos tribunais ingleses, pois a justi\u00e7a era feita em nome do Rei de Inglaterra, George III. Em 1832, outra conspira\u00e7\u00e3o denunciada em Saint-Beno\u00eet, cujo l\u00edder nasceu na Maur\u00edcia, preocupou os governantes, por\u00e9m n\u00e3o foi executada. A 7 de novembro de 1836, Guillaume e Augustin, os reveladores da \u00faltima maquina\u00e7\u00e3o em Saint-Andr\u00e9, receberam a liberdade e uma pens\u00e3o anual de 360 francos.<\/p>\n<h3>A recusa de procriar<\/h3>\n<p>Este tipo de resist\u00eancia diz respeito a uma s\u00e9rie de escravas, que, j\u00e1 que n\u00e3o conseguiam quebrar os grilh\u00f5es, recusaram a responsabilidade de escravizar outro ser humano. A escrava casada limitava os seus nascimentos atrasando a conce\u00e7\u00e3o do primeiro filho. Na \u00e9poca real, Bellecombe e Cr\u00e9mont tentaram encorajar a fecundidade dos escravos atrav\u00e9s de gratifica\u00e7\u00f5es. O seu projeto de conceder a emancipa\u00e7\u00e3o a casais negros que teriam dado dez escravos aos seus senhores, ilustrava a sua vontade de lutar contra a resist\u00eancia dos escravos, por\u00e9m foi um plano falhado. O autor de uma disserta\u00e7\u00e3o sobre Bourbon em 1785, atribui o fracasso da pol\u00edtica de natalidade principalmente ao seguinte facto: \u00ab<em>A principal causa \u00e9 que a maioria destas mulheres destr\u00f3i os seu frutos n\u00e3o desejando dar \u00e0 luz crian\u00e7as t\u00e3o infelizes quanto elas<\/em>.\u00bb A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorou durante a Restaura\u00e7\u00e3o quando o Estado decidiu abolir o tr\u00e1fico de escravos em 1817, caso contr\u00e1rio, os habitantes n\u00e3o teriam recorrido ao contrabando de escravos antes de apelarem a trabalhadores importados munidos de um contrato de trabalho. A quantidade de fam\u00edlias reconstitu\u00eddas que surgiram aquando da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura n\u00e3o deve levar-nos a erigir o parto de crian\u00e7as por mulheres escravas a um ato supremo de resist\u00eancia.<\/p>\n<h3>Outras formas de resist\u00eancia<\/h3>\n<p>O canto, a dan\u00e7a, a inven\u00e7\u00e3o de <em>sirandanes<\/em> (adivinhas), o riso s\u00e3o estrat\u00e9gias inventadas pelos escravos para emergir inc\u00f3lumes da noite da escravatura e n\u00e3o serem esmagados pelo stress provocado pelo sistema econ\u00f3mico em vigor. Gra\u00e7as a estes artif\u00edcios, sentem-se livres e alheios \u00e0s considera\u00e7\u00f5es da sociedade em que vivem.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6197,"parent":5038,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6188","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6188","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5038"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}