{"id":6202,"date":"2021-09-13T12:01:59","date_gmt":"2021-09-13T10:01:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6202"},"modified":"2022-12-14T11:56:18","modified_gmt":"2022-12-14T10:56:18","slug":"o-maronage-na-ilha-bourbon-no-seculo-xviii","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/a-escravatura\/resistencias-a-escravatura\/o-maronage-na-ilha-bourbon-no-seculo-xviii\/","title":{"rendered":"O <em>maronage<\/em> na Ilha Bourbon no s\u00e9culo XVIII"},"content":{"rendered":"<h2>Embora a hist\u00f3ria da escravatura e do tr\u00e1fico de escravos no Oceano \u00cdndico estejam agora bem documentados, gra\u00e7as \u00e0 pesquisa dos historiadores, o <em>maronage<\/em> (o fen\u00f3meno da fuga de escravos para as montanhas) como um ato de resist\u00eancia \u00e0 abomina\u00e7\u00e3o da escravatura permanece desconhecido e relativamente desvalorizado no seio das estruturas culturais da Reuni\u00e3o.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6202-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/poster-Pignon.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Pignon_sub_PORT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Pignon_sub_PORT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Pignon_sub_PORT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Com efeito, n\u00e3o existe atualmente um centro de interpreta\u00e7\u00e3o inteiramente dedicado \u00e0 transmiss\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do <em>maronage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.90646692000196\" aria-label=\"O Comit\u00e9 Cient\u00edfico e curador da exposi\u00e7\u00e3o Maronages : Refuser l'esclavage \u00e0 l'\u00eele Bourbon au XVIIIe si\u00e8cle, decidiu adotar as ortografias maron\/maronage, ao inv\u00e9s do uso geral atual que defende os dois \u00abr\u00bb e \u00abn\u00bb. Acrescentamos igualmente o feminino marone e os plurais marons \/marones para o substantivo e o adjetivo. No mesmo esp\u00edrito, a express\u00e3o crioula da Reuni\u00e3o que encontramos nos documentos \u00abpartir maron\u00bb no caso do escravo fugitivo assume a mesma ortografia. Portanto, acreditamos que, para al\u00e9m do importante fator patrimonial, \u00e9 prefer\u00edvel manter a antiga ortografia com um \u00fanico \u00abr\u00bb: maron e poder aplic\u00e1-la ao feminino e ao plural. Estamos perante eventos e factos cuja import\u00e2ncia at\u00e9 hoje nos tem sido alheia. O maronage reflete um aspeto humano consider\u00e1vel que devemos destacar e n\u00e3o diminuir com um vocabul\u00e1rio confuso. Propomos a ado\u00e7\u00e3o desta ortografia original consagrada a uma realidade hist\u00f3rica ainda desconhecida.\">&nbsp;<\/span> e \u00e0 exist\u00eancia do Reino do Interior, que durou quase 185 anos, baseado numa organiza\u00e7\u00e3o social pr\u00f3xima da dos chefes malgaxes.<\/p>\n<h3>A emerg\u00eancia de um campo de investiga\u00e7\u00e3o sobre o <em>maronage<\/em><\/h3>\n<p>Na ilha da Reuni\u00e3o, o ano de 1998 ficou marcado pela celebra\u00e7\u00e3o do 150\u00ba anivers\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Esta comemora\u00e7\u00e3o permitiu, atrav\u00e9s de uma importante exposi\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica designada \u00abRegards crois\u00e9s sur l\u2019esclavage : La R\u00e9union 1794-1848\u00bb, apresentada no Museu L\u00e9on Dierx, em Saint-Denis, elaborar um estado de conhecimento e das fontes dispon\u00edveis sobre a hist\u00f3ria da escravatura e o tr\u00e1fico de escravos na Reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Este evento deu visibilidade a muitas fontes hist\u00f3ricas. Para al\u00e9m dos textos, destacou a exist\u00eancia de uma iconografia consider\u00e1vel, bem como documentos cartogr\u00e1ficos pouco explorados at\u00e9 \u00e0 data, especialmente os anteriores a 1794. Al\u00e9m disso, estas festividades permitiram dar in\u00edcio a uma reflex\u00e3o, muitas vezes apoiada pelo setor associativo, em torno da quest\u00e3o dos lugares de mem\u00f3ria da escravatura. Em mar\u00e7o de 2007, ao varrer a praia de Saint-Paul, o ciclone Gamede destruiu parte do muro envolvente do cemit\u00e9rio marinho, revelando a presen\u00e7a de restos humanos na praia. Os servi\u00e7os estatais enviaram um arque\u00f3logo para dirigir as escava\u00e7\u00f5es no local. A an\u00e1lise arqueol\u00f3gica caracteriza estes ossos como pertencentes a escravos, alguns dos quais \u00abrec\u00e9m-chegados\u00bb, tal como evidenciado pelo exame da denti\u00e7\u00e3o que teria sido alvo de pr\u00e1ticas rituais como o corte na ponta dos incisivos e caninos. Apenas os rec\u00e9m-chegados escravizados, oriundos de popula\u00e7\u00f5es africanas da costa e do interior do continente, apresentavam estes vest\u00edgios de altera\u00e7\u00f5es corporais e rituais que acabariam por desaparecer com a primeira gera\u00e7\u00e3o de escravos nascidos na ilha, no contexto da sociedade esclavagista e segregacionista de Bourbon.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_3632\" aria-describedby=\"caption-attachment-3632\" style=\"width: 598px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2FI43-naturel-de-la-cote-de-mozambique.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3632 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2FI43-naturel-de-la-cote-de-mozambique.jpg\" alt=\"\" width=\"598\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2FI43-naturel-de-la-cote-de-mozambique.jpg 598w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2FI43-naturel-de-la-cote-de-mozambique-256x300.jpg 256w\" sizes=\"auto, (max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3632\" class=\"wp-caption-text\">\u00c1frica Oriental. Nativo da Costa de Mosambique [sic]. Nicolas Martin Petit, desenhador;<br \/>Jacques Milbert, direx; Barth\u00e9my Roger, escultor. [18..]. Gravura.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>Esta revela\u00e7\u00e3o fortuita colocar\u00e1 o Escravo no centro da pesquisa da Reuni\u00e3o, descartando algumas ideias preconcebidas sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida dos escravos em Bourbon. Tal descoberta revela a necessidade de usar a arqueologia como outra fonte hist\u00f3rica para complementar e, por vezes, questionar o conhecimento sobre a hist\u00f3ria da escravatura e o tr\u00e1fico de escravos no oceano \u00cdndico.<\/p>\n<p>Estes dois acontecimentos, com um intervalo de dez anos entre eles, permitiram colocar a quest\u00e3o do <em>maronage<\/em> em perspetiva no contexto da hist\u00f3ria da escravatura na col\u00f3nia. No passado recente, foram frequentemente favorecidas abordagens distintas, que separam a \u00abinvestiga\u00e7\u00e3o\u00bb do \u00abterreno\u00bb, em que os investigadores e atores da sociedade civil se limitam \u00e0s prerrogativas das suas respetivas \u00e1reas, muito pouco ou nada interagindo. Atualmente, acreditamos que \u00e9 necess\u00e1rio cruzar as duas abordagens e convocar outras \u00e1reas das ci\u00eancias humanas, tais como a etnolingu\u00edstica, a onom\u00e1stica, a antropologia, a arqueologia, a literatura comparada, a oralidade, a genealogia e a cartografia antiga e contempor\u00e2nea, que possibilitem acrescentar uma dimens\u00e3o mais abrangente \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do conhecimento do territ\u00f3rio e da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o multidisciplinar levada a cabo de 2013 a 2016 pelo Servi\u00e7o Regional de Invent\u00e1rio(SRI) da Reuni\u00e3o permite-nos agora dar respostas a quest\u00f5es por resolver, como a das condi\u00e7\u00f5es da vida quotidiana dos <em>Marons<\/em>, os seus percursos e assentamentos no interior da ilha, bem como a sua organiza\u00e7\u00e3o social&#8230;<\/p>\n<h3>Documenta\u00e7\u00e3o e marcos hist\u00f3ricos<\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">Para estudar o maronage \u00e9 necess\u00e1rio conhecer o conjunto dos conhecimentos sobre este tema. Esta investiga\u00e7\u00e3o documental e bibliogr\u00e1fica envolve tamb\u00e9m o conhecimento de todo o trabalho de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica divulgado atrav\u00e9s de redes universit\u00e1rias, de locais p\u00fablicos tais como arquivos, bibliotecas, centros de documenta\u00e7\u00e3o especializados e colecionadores privados. Identific\u00e1mos igualmente trabalhos sobre o maronage explorando os campos da investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e do romance. No \u00e2mbito do estudo do maronage, esta abordagem permite elaborar um estado atual desta quest\u00e3o perspetivando no\u00e7\u00f5es importantes como os mitos. Pode-se assim observar a porosidade \u2013 ou a sua inexist\u00eancia \u2013 entre a investiga\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, bem como a sua presen\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e art\u00edstica.<\/span><\/p>\n<p>Na Reuni\u00e3o, os locais que acolhem e preservam a atual lista de conhecimentos documentais cont\u00eam cerca de 600 t\u00edtulos de livros, artigos cient\u00edficos, atas de col\u00f3quios, teses, disserta\u00e7\u00f5es, grava\u00e7\u00f5es sonoras e videogr\u00e1ficas. Apenas 15% destes documentos se focalizam diretamente no maronage. Ser\u00e1 que isto significa que o maronage \u00e9 apenas um epifen\u00f3meno da escravatura, ou que os investigadores n\u00e3o encontraram material hist\u00f3rico suficiente para forjar as suas an\u00e1lises? Ser\u00e1 que o assunto ainda \u00e9 alvo de alguns tabus que conv\u00e9m n\u00e3o evocar?<\/p>\n<p>Produzir conhecimento e atualiz\u00e1-lo regularmente \u00e9 um ato de cidadania que permite \u00e0 sociedade melhor se definir coletivamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua hist\u00f3ria e ao seu territ\u00f3rio. No entanto, este conhecimento n\u00e3o serve de nada se permanecer confidencial. \u00c9 por essa raz\u00e3o que, desde 2016, o SRI oferece ao p\u00fablico a exposi\u00e7\u00e3o \u00ab Maronages : Refuser l\u2019esclavage \u00e0 l\u2019\u00eele Bourbon au XVIIIe si\u00e8cle\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0038629472658908703\" aria-label=\"Maronages : Refuser l\u2019esclavage \u00e0 l\u2019\u00eele Bourbon au XVIIIe si\u00e8cle, Exposi\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o Regional de Invent\u00e1rio (SRI) \u2013 Regi\u00e3o Reuni\u00e3o. Centro cultural Sudel Fuma \u2013 Saint-Paul, 2016-2020. Comit\u00e9 cient\u00edfico e curador da exposi\u00e7\u00e3o: Alendroit Eric, Hoarau Loran, Pignon Gilles, Rabesahala Charlotte, Rebeyrotte Jean-Fran\u00e7ois. Cenografia e design gr\u00e1fico: Kamboo. Superf\u00edcie: 200 m\u00b2. Pequena revista da exposi\u00e7\u00e3o em formato A1 com a cartografia do maronage e do Reino do Interior. A exposi\u00e7\u00e3o foi reinventada numa vers\u00e3o itinerante de 20 Kakemonos que circulam nos estabelecimentos escolares e bibliotecas. Site da exposi\u00e7\u00e3o: maronages.re (documenta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, bibliogr\u00e1fica, cartografia do maronage).<br \/>\nSenti\u00e9 maron: visita teatralizada do s\u00edtio de Mare-\u00e0-Poule-d'Eau \u2013 Circo de Salazie, local memor\u00e1vel de maronage. Cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica da Companhia de Teatro Lolita Monga no quadro de uma resid\u00eancia art\u00edstica de territ\u00f3rio em parceria com a Regi\u00e3o Reuni\u00e3o e a cidade de Salazie.\">&nbsp;<\/span> composta por um curso de media\u00e7\u00e3o cultural em cinco sequ\u00eancias.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3634\" aria-describedby=\"caption-attachment-3634\" style=\"width: 515px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/affiche-exposition-marronnages-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3634 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/affiche-exposition-marronnages-1.jpg\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"798\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/affiche-exposition-marronnages-1.jpg 515w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/affiche-exposition-marronnages-1-194x300.jpg 194w\" sizes=\"auto, (max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3634\" class=\"wp-caption-text\">Cartaz da exposi\u00e7\u00e3o \u00abMaronages : refuser l\u2019esclavage \u00e0 l\u2019\u00eele Bourbon au XVIIIe si\u00e8cle\u00bb organizada pelo Servi\u00e7o Regional de Invent\u00e1rio, Regi\u00e3o Reuni\u00e3o.<br \/>Saint-Paul, Espa\u00e7o Cultural Sudel Fuma, setembro 2017-outubro 2020<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 2013, inici\u00e1mos a investiga\u00e7\u00e3o sobre o <em>maronage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4390567167098054\" aria-label=\"Estudo sobre o mar(r)onnage: abordagem etnohist\u00f3rica das fontes escritas; an\u00e1lise etnolingu\u00edstica de top\u00f3nimos e antropon\u00edmicos da Ilha da Reuni\u00e3o; coloca\u00e7\u00e3o em perspetiva do fen\u00f3meno do maronage no Oceano \u00cdndico. Produzido pelo grupo de estudo: Loran Hoarau, historiador; Sylvain Dumont Ah-Line, assistente de pesquisa; Charlotte Rabesahala, antrop\u00f3loga e linguista em malgaxe antigo; Cyril Notter, geom\u00e1tico, administrador de dados geogr\u00e1ficos no Parque Nacional da Ilha da Reuni\u00e3o. Textos e refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas recolhidas por Loran Hoarau e Charlotte Rabesahala. Paleografia e transcri\u00e7\u00e3o de documentos dos arquivos departamentais da Reuni\u00e3o: Sylvain Dumont Ah-Line. Cartografia original de Cyril Notter. Relat\u00f3rio final de dezembro de 2015.\">&nbsp;<\/span> atrav\u00e9s dos relatos de retorno de \u00abdestacamentos\u00bb da s\u00e9rie C dos Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o (ADR). Uma vez que os relat\u00f3rios s\u00e3o desiguais em termos de densidade da informa\u00e7\u00e3o, pareceu-nos necess\u00e1rio ter um olhar cr\u00edtico sobre os documentos \u2013 a fim de questionar o seu n\u00edvel de precis\u00e3o \u2013 construindo, ao mesmo tempo, um contexto necess\u00e1rio para a compreens\u00e3o destes \u00faltimos. Neste sentido, opt\u00e1mos por explorar o personagem de Fran\u00e7ois Mussard, com vista a situ\u00e1-lo no seu contexto cultural, econ\u00f3mico e pol\u00edtico, j\u00e1 que os seus relat\u00f3rios cont\u00e9m uma maior densidade de informa\u00e7\u00e3o. O objetivo \u00e9 aprofundar o estudo sobre o seu ambiente social, a fim de integrar na an\u00e1lise os outros documentos da s\u00e9rie C que o mencionam (localiza\u00e7\u00e3o dos pedidos de concess\u00f5es que permite compreender a sua apreens\u00e3o do territ\u00f3rio, pagamentos na forma de escravos \u00abpe\u00e7a da \u00cdndia\u00bb colocados nas propriedades). Loran Hoarau, que desenvolveu esta abordagem original, estabeleceu a genealogia de cada um dos membros que compunham os destacamentos, remontando at\u00e9 aos rec\u00e9m-chegados com base, em particular, no Dicion\u00e1rio Geneal\u00f3gico de Bourbon. Esta abordagem permitiu-lhe identificar os la\u00e7os religiosos e c\u00edvicos que uniam os membros dos destacamentos, mas que n\u00e3o constam dos relatos de destacamentos. Os documentos do registo civil tamb\u00e9m fornecem detalhes sobre as ocupa\u00e7\u00f5es e carreiras dos membros dos destacamentos. O m\u00e9todo de Loran Hoarau proporciona uma leitura mais detalhada dos destacamentos e mecanismos que explicam a sua constitui\u00e7\u00e3o, o seu funcionamento hier\u00e1rquico, bem como a sua tremenda efic\u00e1cia no campo.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_3583\" aria-describedby=\"caption-attachment-3583\" style=\"width: 451px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/BIB2896-l-embuscade.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3583 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/BIB2896-l-embuscade.jpg\" alt=\"\" width=\"451\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/BIB2896-l-embuscade.jpg 451w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/BIB2896-l-embuscade-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3583\" class=\"wp-caption-text\">A emboscada. Tauoh del.; F\u00e9lix [sc.]. Gravura. In <em>Les Marrons<\/em>, Louis Timag\u00e8ne Houat, Paris, Ebrard, 1844.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca departamental da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>Os relat\u00f3rios de que dispomos abrangem um per\u00edodo de 26 anos. Por que raz\u00e3o foram escritos? De acordo com Loran Hoarau, que citou a express\u00e3o de Albert Lougnon \u00abPara estimular o zelo dos habitantes de Bourbon\u00bb, o conselho superior prometeu, por delibera\u00e7\u00e3o de 7 de setembro de 1740, conceder a cr\u00e9dito um escravo \u00abpe\u00e7a da \u00cdndia\u00bb por cada fugitivo trazido de volta vivo ou morto. Foi provavelmente esta disposi\u00e7\u00e3o que \u00abgerou\u00bb a necessidade de escrever relat\u00f3rios como base para justificar a reivindica\u00e7\u00e3o da recompensa. A informa\u00e7\u00e3o era importante porque permitia \u00e0 Companhia das \u00cdndias Orientais contabilizar os escravos. Este fen\u00f3meno provoca, portanto, o tr\u00e1fico de escravos. Os relat\u00f3rios permitem, assim, escrever um segundo documento resumindo o n\u00famero de escravos oferecidos como recompensa aos membros dos destacamentos. Os relat\u00f3rios come\u00e7aram a ser redigidos em 1739 por Carron e continuaram em 1740 com o aparecimento de Fran\u00e7ois Mussard que obteve o t\u00edtulo de oficial da Burguesia (ou da mil\u00edcia burguesa dependendo dos documentos).<\/p>\n<p>Tendo em conta o per\u00edodo 1739-1765, a s\u00e9rie \u00e9 cronologicamente coerente. Provavelmente faltam elementos, por\u00e9m a densidade \u00e9, apesar de tudo, elevada e o conjunto constitui uma base de informa\u00e7\u00e3o muito rica.<\/p>\n<p>Aprendemos que as ravinas s\u00e3o a porta de entrada para os espa\u00e7os de <em>maronage<\/em>. Que os diferentes grupos de <em>Marons<\/em> espalhados pela ilha prov\u00eam principalmente do tr\u00e1fico de escravos de Madag\u00e1scar. Apesar das diferen\u00e7as culturais e lingu\u00edsticas das pessoas escravizadas provenientes de diferentes comunidades de Madag\u00e1scar, todas partilham uma linguagem comum que lhes permite construir o projeto da sociedade <em>Marone<\/em> com uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar que amea\u00e7a a col\u00f3nia. Foi devido ao facto de que os <em>Marons<\/em> exerceram uma press\u00e3o militar constante e violenta apoiada pelo tem\u00edvel <em>Tafika Mainty<\/em> (Ex\u00e9rcito Negro ou Secreto) que o governador da \u00e9poca criou os \u00abdestacamentos de ca\u00e7adores de escravos <em>Marons<\/em>\u00bb compostos por colonos visto que a col\u00f3nia n\u00e3o possu\u00eda soldados para a sua defesa.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_3579\" aria-describedby=\"caption-attachment-3579\" style=\"width: 790px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/26J18-Rivi\u00e8re-du-M\u00e2t.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3579 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/26J18-Rivi\u00e8re-du-M\u00e2t.jpg\" alt=\"\" width=\"790\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/26J18-Rivi\u00e8re-du-M\u00e2t.jpg 790w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/26J18-Rivi\u00e8re-du-M\u00e2t-300x266.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/26J18-Rivi\u00e8re-du-M\u00e2t-768x681.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3579\" class=\"wp-caption-text\">[Rivi\u00e8re du M\u00e2t]. Jean-Joseph Patu de Rosemont]. [1813]. Aguarela.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>Este espa\u00e7o interior, desconhecido para os colonos, \u00e9 governado por um rei e uma rainha que reinam nas aldeias sob a autoridade de capit\u00e3es e tenentes. O grande <em>maronage<\/em> (o <em>marronage<\/em> de longa dura\u00e7\u00e3o) n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de resist\u00eancia. \u00c9 tamb\u00e9m o projeto de cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade aut\u00f3noma e independente, \u00e0 margem da col\u00f3nia, baseada em modelos ancestrais malgaxes. Em Bourbon, foi um projeto de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social que se organiza com vista a estabelecer um Estado livre: o Reino do Interior em oposi\u00e7\u00e3o ao poder colonial oficial do litoral sob press\u00e3o militar de <em>Marone<\/em>. Assim, as incurs\u00f5es, meticulosamente preparadas pelos <em>Marons<\/em>, destinam-se a aterrorizar as popula\u00e7\u00f5es da costa, saqueando a comida, os objetos e as ferramentas de que precisam. Tamb\u00e9m destroem as m\u00e1quinas cujas partes dispersam e queimaram as habita\u00e7\u00f5es e as colheitas para prejudicar a economia da ilha, a fim de empurrar os colonos de volta para o mar e tomar posse da ilha. Trata-se de uma guerra que n\u00e3o diz abertamente o seu nome, mas que toma a forma de uma guerrilha constante: o medo e a viol\u00eancia prevalecem de ambos os lados.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3593\" aria-describedby=\"caption-attachment-3593\" style=\"width: 1400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Stele-trois-marrons-legendaires.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3593 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Stele-trois-marrons-legendaires.jpg\" alt=\"\" width=\"1400\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Stele-trois-marrons-legendaires.jpg 1400w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Stele-trois-marrons-legendaires-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Stele-trois-marrons-legendaires-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Stele-trois-marrons-legendaires-1024x512.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3593\" class=\"wp-caption-text\">Dimitile le guetteur, Laverdure le roy, Sarlave la reine. Pormenores da estela do Camp Dimitil\u2019 &#8211; Entre-Deux. Ibrahim Mulin. 2018. Fotografia. Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, o relat\u00f3rio de regresso do destacamento de Fran\u00e7ois Mussard de 31 de outubro de 1751 menciona: No rio Saint-Etienne, \u00abo lugar denominado Commencement L&#8217;islette \u00e0 Corde (&#8230;) O dito Mussard perguntou ao dito Gr\u00e9goire, que estava ferido, se havia nas proximidades v\u00e1rios outros <em>marons<\/em> e se estavam separados do seu grupo. Ele ter-lhes-ia respondido que havia dois acampamentos do outro lado do pequeno planalto, um dos quais era precisamente aquele que o destacamento tinha avistado e para onde se dirigiam quando se encontraram com esses tr\u00eas negros. Haveria 50 <em>marons<\/em> tanto negros como negras ou crian\u00e7as e que no outro acampamento, que era mais pequeno e situado a uma l\u00e9gua acima do primeiro, haveria 10 <em>marons<\/em> tanto negros como negras e crian\u00e7as.(&#8230;) Declara o dito Mussard que haveria no referido campo 30 cabanas feitas de toros de madeira, em algumas das quais viveriam, aparentemente, 3, 4 ou 6 negros, como foi relatado pelo supracitado Gr\u00e9groire.(&#8230;) Gra\u00e7as \u00e0 sua longa experi\u00eancia, o dito Mussard sabia que os <em>marons<\/em> escondem os seus despojos nas cavernas e no ch\u00e3o, tendo ordenado aos negros que acompanhavam o destacamento que vasculhassem o dito acampamento e os arredores. Teriam encontrado numa pequena gruta duas espingardas em bom estado, carregadas com balas, e no buraco de uma \u00e1rvore uma espingarda de dois canos com balas e cerca de tr\u00eas punhados de p\u00f3lvora numa caixa, 11 panelas, de diferentes tamanhos, v\u00e1rios machados e podadeiras em forma de picareta\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6895331481749196\" aria-label=\"Relat\u00f3rio de Fran\u00e7ois Mussard, oficial da mil\u00edcia burguesa e chefe do destacamento de ca\u00e7adores de Marons, no registo do distrito de Saint-Paul, de 31 de outubro de 1751. Composi\u00e7\u00e3o do destacamento: Fran\u00e7ois Grosset, Antoine Mussard, Gaspard Lautrec, Henry Hoareau, Sylvestre Grosset, Joseph Hoareau (pai), Jacques Hoareau filho de No\u00ebl, Louis Lauret, Antoine Cerveau, Claude Garnier. Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o (ADR) C 994.\">&nbsp;<\/span>.<br \/>\nDestacamento: Fran\u00e7ois Grosset, Antoine Mussard, Gaspard Lautrec, Henry Hoareau, Sylvestre Grosset, Joseph Hoareau (pai), Jacques Hoareau filho de No\u00ebl, Louis Lauret, Antoine Cerveau, Claude Garnier.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4441\" aria-describedby=\"caption-attachment-4441\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.10b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4441 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.10b.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"575\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.10b.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.10b-300x216.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.10b-768x552.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4441\" class=\"wp-caption-text\">N\u00b010 \u2013 Os nossos antepassados Gauleses \u2013 A repress\u00e3o. Herv\u00e9 Masson (1919-1990). 1972. Desenho.<br \/>Acervo privado Herv\u00e9 Masson (1919-1990). Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao ler estes relat\u00f3rios de regresso da \u00abca\u00e7a aos Grandes <em>Marons<\/em>\u00bb descobrimos que as aldeias de Marons s\u00e3o particularmente bem organizadas, sendo o lar de uma popula\u00e7\u00e3o de adultos e crian\u00e7as nascidos livres em <em>maronage<\/em>, descritos como \u00abcrioulos da floresta\u00bb, bem como alguns velhos. Alguns escravos preferem suicidar-se, \u00abatirando-se do precip\u00edcio\u00bb para escapar aos seus perseguidores. As crian\u00e7as s\u00e3o capturadas ao passo que os pais s\u00e3o mortos nos confrontos com os destacamentos. Alguns campos de Marons s\u00e3o ocupados por um n\u00famero consider\u00e1vel de indiv\u00edduos; as cabanas de madeira s\u00f3lidas, as ferramentas, os utens\u00edlios da vida quotidiana, os campos plantados com milho, \u00abbatatas do perroux\u00bb e outras leguminosas, atestam a durabilidade ao longo do tempo destas aldeias. Os prisioneiros dizem viver em <em>maronage<\/em> h\u00e1 j\u00e1 vinte anos. Alguns fugiram de Ile de France, localizada a 200 km da costa de Bourbon, na esperan\u00e7a de chegar mais facilmente a Madag\u00e1scar por mar! H\u00e1 acampamentos destinados \u00e0 retirada em caso de ataque de mil\u00edcias&#8230;<\/p>\n<p>As aldeias localizadas nos pequenos planaltos formadas pela eros\u00e3o, geralmente situadas perto de um ponto de \u00e1gua, s\u00e3o por vezes protegidas por uma pali\u00e7ada de ramagens protegidas em baixo por valas plantadas com estacas de madeira cuja ponta \u00e9 endurecida pelo fogo. Estas armadilhas cobertas de vegeta\u00e7\u00e3o causam ferimentos graves aos ca\u00e7adores dos destacamentos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9442955255574443\" aria-label=\"O top\u00f3nimo B\u00e9louve, que significa \u00abcom muitas armadilhas\u00bb, atesta este sistema de defesa passiva em torno das aldeias marons.\">&nbsp;<\/span>. Estes pequenos planaltos s\u00e3o parte integrante da estrat\u00e9gia dos Marons: movem-se de um planalto para o outro para escapar aos destacamentos de ca\u00e7adores e para poder beneficiar de um espa\u00e7o protegido com reservas alimentares e esconderijos para as armas. Esta rede de pequenos planaltos era objeto de manuten\u00e7\u00e3o regular para servir esta estrat\u00e9gia. As ravinas, as encostas e passagens estreitas s\u00e3o os caminhos que ligam estes ilh\u00e9us que formam o arquip\u00e9lago do Reino do Interior. Os Marons t\u00eam c\u00e3es que os alertam para qualquer presen\u00e7a suspeita, causando ferimentos graves aos ca\u00e7adores.<\/p>\n<h3>A import\u00e2ncia da onom\u00e1stica<\/h3>\n<p>A vida dos <em>Marons<\/em> levou-os a uma domestica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o prop\u00edcias a uma vida itinerante, embora alguns lugares como Ilet-\u00e0-Cordes pare\u00e7am ter reunido tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de <em>Marons<\/em> de forma perene, de acordo com um relat\u00f3rio de destacamento de 1752. A topon\u00edmia pretendia satisfazer determinados requisitos de elevado valor informativo <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9773169762785495\" aria-label=\"Ambranle \u00abonde h\u00e1 branle\u00bb: branle \u00e9 uma variedade de urze que queima sem emitir fumo. B\u00e9toune \u00ablugar vasto onde se pode fazer grelhados\u00bb (sem se ser visto!). Piton B\u00e9rane \u00abonde a \u00e1gua \u00e9 abundante\u00bb (e localizada em altitude). B\u00e9male \u00abf\u00e9rtil em enguias\u00bb. Ta\u00efbit \u00ablugar em forma de excrementos de coelho\u00bb.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4439\" aria-describedby=\"caption-attachment-4439\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.9-noirs-marrons.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4439 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.9-noirs-marrons.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"570\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.9-noirs-marrons.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.9-noirs-marrons-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/FRIHOI_30P1.9-noirs-marrons-768x547.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4439\" class=\"wp-caption-text\">N\u00b09 &#8211; Os nossos antepassados Gauleses \u2013 Os escravos marrons. Herv\u00e9 Masson (1919-1990). 1972. Desenho.<br \/>Acervo privado Herv\u00e9 Masson (1919-1990). Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>A onom\u00e1stica aplicada ao <em>maronage<\/em> desenvolveu-se na Reuni\u00e3o desde 2005 com o trabalho de Charlotte Rabesahala, permitindo encontrar as palavras de pessoas escravizadas atrav\u00e9s de top\u00f3nimos e antropon\u00edmicos que ainda hoje se encontram nos mapas da ilha, mas cuja ortografia e pron\u00fancia foram transformadas pelo tempo at\u00e9 perderem o significado original<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.03081582762771007\" aria-label=\"Um exemplo evidente \u00e9 o top\u00f3nimo da cascata Biberon, localizada na Plaine-des-Palmistes, que n\u00e3o \u00e9 derivado do nome de um colonizador, mas do malgaxe Biby rano que se pronuncia bibrane e designa os Esp\u00edritos da \u00c1gua invocados no sop\u00e9 das cascatas durante as cerim\u00f3nias religiosas. O top\u00f3nimo malgaxe foi afrancesado a favor do franc\u00eas \u00abbiberon\u00bb.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise e interpreta\u00e7\u00e3o dos resultados da investiga\u00e7\u00e3o multidisciplinar tamb\u00e9m permite identificar e localizar melhor os termos derivados do <em>maronage<\/em>, venham eles da linguagem dos \u00abdestacamentos dos ca\u00e7adores de escravos\u00bb ou dos pr\u00f3prios <em>Marons<\/em>. Um espa\u00e7o aparece ent\u00e3o dentro da ilha \u2013 o Reino do Interior<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.06346862976176981\" aria-label=\"Os top\u00f3nimos caverne \u00e0 Manzac; Piton de feux \u00e0 Manzac, localizados no topo das encostas do Pays br\u00fbl\u00e9, comprovam a exist\u00eancia do rei Manzac cujo nome e ortografia s\u00e3o as formas creolizadas de Mpanjaka que designa em malgaxe \u00abo Rei\u00bb. Em 24 de agosto de 1758, Manzac foi morto pelo destacamento de Jean Dugain. A sua mulher, rainha Fouche, foi capturada com a filha de tr\u00eas meses algumas semanas antes, a 9 de junho de 1758. Ela assume o seu estatuto de rainha: \u00ab(...) A negra diz que \u00e9 crist\u00e3 e que se chama Fran\u00e7oise, que faz cerca de vinte anos desde que partiu marone, que antes de partir era casada (...) mas que desde ent\u00e3o mudou de nome no mato, passando a chamar-se Reine Fouche e era casada com o dito Manzac\u00bb. ADR C 1000 Relat\u00f3rio de Jean Dugain \u00e0 secretaria judicial do distrito de Saint-Beno\u00eet. Reine Fouche: \u00abA rainha branca\u00bb (de tez?); fotsy: branca.\">&nbsp;<\/span> \u2013 acess\u00edvel apenas aos iniciados (os <em>Marons<\/em>) que transmitem oralmente uns aos outros o mapa mental das \u00e1reas montanhosas com o intuito de poderem orientarem-se, reagruparem-se, protegerem-se dos ca\u00e7adores e organizarem-se noutra vida ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise e o cruzamento de todas estas informa\u00e7\u00f5es permitem, finalmente, elaborar um mapa do <em>maronage<\/em> no s\u00e9culo XVIII com os acampamentos conhecidos dos Grandes <em>Marons<\/em>. O mapa do <em>maronage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.15284406929350725\" aria-label=\"Mapa para descarregar no site da exposi\u00e7\u00e3o Maronages : Refuser l\u2019esclavage \u00e0 l\u2019\u00eele Bourbon au XVIIIe si\u00e8cle. Site: maronages.re\">&nbsp;<\/span>inclui os top\u00f3nimos encontrados nos documentos em todos os per\u00edodos, sendo que aqueles que foram atribu\u00eddos pelos <em>Marons<\/em> s\u00e3o de origem malgaxe. A estes acrescem, em franc\u00eas, os que foram atribu\u00eddos pelos ca\u00e7adores de <em>Marons<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6539282990663652\" aria-label=\"Os top\u00f3nimos Le Bloc, Piton de Bloc, Camp de Bloc s\u00e3o referenciados seis vezes no mapa do maronage. Localizados, na sua maioria, na orla do Reino do Interior, s\u00e3o locais de aprisionamento dos marons atrav\u00e9s de um colete-de-for\u00e7as composto por dois peda\u00e7os de madeira colocados um em cima do outro para \u00abbloquear\u00bb os tornozelos, os pulsos e a cabe\u00e7a dos cativos.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3581\" aria-describedby=\"caption-attachment-3581\" style=\"width: 948px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ME-2009-01-300.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3581 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ME-2009-01-300.jpg\" alt=\"\" width=\"948\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ME-2009-01-300.jpg 948w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ME-2009-01-300-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ME-2009-01-300-768x527.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3581\" class=\"wp-caption-text\">O pico Piton d&#8217;Enchein : vista da Mare \u00e0 Poule d&#8217;Eau. An\u00f3nimo. 1876.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para Charlotte Rabesahala, \u00aba topon\u00edmia do espa\u00e7o do <em>maronage<\/em> oferece um rico invent\u00e1rio dos recursos do territ\u00f3rio, tanto em termos de abastecimento, como de log\u00edstica de guerra e resist\u00eancia. Tra\u00e7a uma verdadeira geografia f\u00edsica, moral e espiritual de um &#8216;Reino do Interior&#8217; disponibilizada a diferentes grupos e transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o\u00bb.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5860192210901569\" aria-label=\"\u00c9tude sur le mar(r)onnage : approche ethnohistorique des sources \u00e9crites ; analyse ethnolinguistique des toponymes et anthroponymes de La R\u00e9union ; mise en perspective des marronnages dans l'oc\u00e9an Indien. Relat\u00f3rio Final 2a parte, conclus\u00e3o geral, p\u00e1gina 66.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o fim do grande <em>maronage<\/em> avizinhava-se \u00e0 medida que este territ\u00f3rio diminu\u00eda proporcionalmente \u00e0 extens\u00e3o dos colonos que ocupavam cada vez mais as terras alturas da ilha a partir do s\u00e9culo XIX, dando in\u00edcio \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o oficial dos tr\u00eas circos. O protesto dos Negros foi ent\u00e3o sufocado sem, no entanto, desaparecer. Embora os documentos nos informem pouco sobre o assunto, alguns grupos de <em>marons<\/em> persistiram nesta a\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1848.<\/p>\n<p>A recente atualiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o da <em>maronage<\/em> na Reuni\u00e3o revela informa\u00e7\u00f5es cruciais que ainda precisam de ser aprofundadas. Por \u00faltimo, temos de levar em considera\u00e7\u00e3o o profundo desejo da popula\u00e7\u00e3o de compreender melhor a hist\u00f3ria deste ato de resist\u00eancia que \u00e9 o <em>maronage<\/em>, a fim de poder dar-lhe o seu lugar de direito no seio da nossa hist\u00f3ria local e nacional.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/maronages.re\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ler mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6204,"parent":5038,"menu_order":50,"template":"","class_list":["post-6202","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5038"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}