{"id":6471,"date":"2021-10-25T12:29:33","date_gmt":"2021-10-25T10:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6471"},"modified":"2021-11-26T11:57:17","modified_gmt":"2021-11-26T10:57:17","slug":"o-trabalho-contratado-na-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/abolicao-da-escravatura\/apos-a-abolicao\/o-trabalho-contratado-na-reuniao\/","title":{"rendered":"O trabalho contratado na Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>De 1828 a 1933, cerca de duzentos mil contratados foram conduzidos a Bourbon\/Reuni\u00e3o, num fluxo que ficou inscrito como uma das grandes migra\u00e7\u00f5es laborais do s\u00e9culo XIX: migra\u00e7\u00f5es livres como as dos irlandeses que fugiam \u00e0 mis\u00e9ria para a Am\u00e9rica, ou migra\u00e7\u00f5es de trabalho \u00abcoagido\u00bb ou \u00abfor\u00e7ado\u00bb.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6471-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster_marimoutou_1.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Mich\u00e8le-MARIMOUTOU-LEngagisme-PORT_SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Mich\u00e8le-MARIMOUTOU-LEngagisme-PORT_SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Mich\u00e8le-MARIMOUTOU-LEngagisme-PORT_SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>O trabalho contratado ou <em>Indenture<\/em> <em>labour<\/em> ou trabalho a contrato foi o sistema de utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra que veio substituir a escravatura ap\u00f3s as aboli\u00e7\u00f5es de 1833-34 no espa\u00e7o colonial brit\u00e2nico e, a partir de 1848, no espa\u00e7o colonial franc\u00eas.<br \/>\nFoi um fen\u00f3meno mundial que transferiu para cerca de quarenta territ\u00f3rios mais de tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas oriundas essencialmente da \u00c1sia (1,5 milh\u00f5es de indianos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5635348350603439\" aria-label=\" Ou seja, apenas 8 % dos 19,3 milh\u00f5es de indianos que deixaram o subcontinente, entre 1834 e 1915.\">&nbsp;<\/span>, 500 000 chineses) e da \u00c1frica. Um quinto desses contratados foram enviados para as ilhas de explora\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar das Mascarenhas (cerca de 200 000 para a Reuni\u00e3o e 462 800 para as Maur\u00edcias).<\/p>\n<figure id=\"attachment_1305\" aria-describedby=\"caption-attachment-1305\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-1b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1305\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1305 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-1b.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"702\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-1b.jpg 2000w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-1b-300x105.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-1b-768x270.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-1b-1024x359.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1305\" class=\"wp-caption-text\">Acampamento dos coolies trabalhadores antes da partida para as casas.<br \/>Evremond de B\u00e9rard. 1858. Estampa. In <em>L\u2019illustration: journal universel<\/em>. 1858.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk<\/figcaption><\/figure>\n<p>Umas das caracter\u00edsticas do trabalho contratado na Reuni\u00e3o era a sua precocidade numa altura em que a escravatura ainda era legal. Enquanto no espa\u00e7o colonial brit\u00e2nico, as Maur\u00edcias foram as ilhas piloto para a <em>Great Experiment<\/em> a partir de 1834<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.47565567642829454\" aria-label=\"Na verdade, os primeiros contratados do s\u00e9culo XIX foram alguns chineses enviados para Trindade, em 1806.\">&nbsp;<\/span>, a n\u00edvel mundial, foi s\u00f3 na Reuni\u00e3o que se experimentou p\u00f4r mais de 3000 contratados a trabalhar ao lado dos escravos. Em abril de 1828, a pedido dos colonos, a goleta <em>La Turquoise<\/em> desembarcou quinze contratados \u00abtelingas\u00bb, embarcados em Yanaon. Eram os primeiros \u00abcontratados do a\u00e7\u00facar\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.11810021430604634\" aria-label=\"MARIMOUTOU Mich\u00e8le, Les engag\u00e9s du sucre, Editions du Tramail, La R\u00e9union, 1989, 261 p.\">&nbsp;<\/span>.<br \/>\nO entusiasmo da metr\u00f3pole pelo a\u00e7\u00facar de cana e o fim programado da escravatura foram os dois fatores de atra\u00e7\u00e3o desses novos trabalhadores. Com efeito, a perda da principal col\u00f3nia produtora de a\u00e7\u00facar francesa, S\u00e3o Domingos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6164243192213879\" aria-label=\"Proclamation d\u2019ind\u00e9pendance. 1 de janeiro de 1804.\">&nbsp;<\/span>, e a destrui\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 pelas chuvas torrenciais de 1806-1807 incitavam a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar, que exigia uma m\u00e3o de obra abundante, mas que devia ser barata e, sobretudo, f\u00e1cil de controlar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1133\" aria-describedby=\"caption-attachment-1133\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1133\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1133 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-2.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-2.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-2-300x191.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1133\" class=\"wp-caption-text\">\u00c1lbum da Reuni\u00e3o: F\u00e1brica central K\/V\u00e9guen. Quartier Fran\u00e7ais. Louis Antoine Roussin. 1884. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu L\u00e9on Dierx<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ora, ap\u00f3s 1815-1817, a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos inviabiliza a renova\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra nas planta\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, os ataques das sociedades antiesclavagistas j\u00e1 deixavam antever o fim do sistema.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que se renovou o antigo sistema de trabalho utilizado no s\u00e9culo XVIII pelas Companhias das \u00cdndias<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3305332542206042\" aria-label=\"ANDR\u00c9, Jean-Michel. Les engag\u00e9s de la Compagnie des Indes-Marins et ouvriers (1717-1770). Service historique de la Marine, 2004, 277 pp. Este sistema retomou o que se utilizava no s\u00e9culo XVII para o Canad\u00e1 e as Antilhas.\">&nbsp;<\/span>, para rentabilizar os territ\u00f3rios conquistados, e que permitira enviar para as col\u00f3nias n\u00e3o s\u00f3 europeus com contratos ditos de \u00ab36\u00a0meses\u00bb, mas tamb\u00e9m trabalhadores livres de outras origens. Nas Mascarenhas, os governadores Mah\u00e9 de Labourdonnais e Beno\u00eet Dumas foram buscar centenas de indianos ou \u00abmalabares\u00bb a Pondicheri por causa dos seus conhecimentos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1253\" aria-describedby=\"caption-attachment-1253\" style=\"width: 457px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-3-2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1253\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1253 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-3-2.jpg\" alt=\"\" width=\"457\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-3-2.jpg 457w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-3-2-249x300.jpg 249w\" sizes=\"auto, (max-width: 457px) 100vw, 457px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1253\" class=\"wp-caption-text\">A imigra\u00e7\u00e3o indiana. Todos os dias chegavam grandes transportes de contratados. Castelli; Vintraut.<br \/>In <em>Journal des voyages et des aventures de terre et mer<\/em>, N.\u00ba 563, 22 de abril de 1888, p. 257. Estampa.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le. Acervo Michel Pol\u00e9nyk<\/figcaption><\/figure>\n<p>A emigra\u00e7\u00e3o que vinha da \u00cdndia n\u00e3o foi cont\u00ednua, mas fez-se em tr\u00eas etapas: de 1828 e 1830, os contratados vinham de Yanaon; de 1848 a 1860, foi uma emigra\u00e7\u00e3o dita \u00abdas feitorias francesas\u00bb, essencialmente de Pondicheri e Karaikal; e de 1860 a 1885, o recrutamento alargou-se ao interior brit\u00e2nico, a partir de Calcut\u00e1, depois de Madras, Pondicheri e Karaikal. De cada vez que os fluxos migrat\u00f3rios provenientes da \u00cdndia abrandavam ou cessavam, os recrutadores voltavam-se para as outras regi\u00f5es do mundo: a Chine a partir de 1844 e depois de 1848; a costa oriental africana; Madag\u00e1scar; as ilhas do Pac\u00edfico; a Indochina; as Comores; e da\u00ed por diante. Os \u00faltimos contratados foram recrutados em Rodrigues, em 1933, e o trabalho contratado como tal s\u00f3 desapareceria em 1937.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1299\" aria-describedby=\"caption-attachment-1299\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1299\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1299 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"2000\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1.jpg 2000w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-4b-1-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1299\" class=\"wp-caption-text\">Migra\u00e7\u00f5es laborais para a Reuni\u00e3o: s\u00e9culo XIX e in\u00edcios do s\u00e9culo XX. In<em> Le lazaret de La Grande Chaloupe: quarantaine et engagisme<\/em>, [Mich\u00e8le Marimoutou-Oberl\u00e9], Departamento da Reuni\u00e3o, 2017. P. 94\u00bb.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>A outra grande caracter\u00edstica do trabalho contratado na Reuni\u00e3o era a diversidade das regi\u00f5es de partida dos contratados. De 1828 a 1933, foram oficialmente registados entre 147 000 e 165 000 contratados de todas as origens: 117 000 indianos, 37\u00a0000 africanos, 3556 chineses e vietnamitas, 3630 malgaxes e 3000 da ilha Rodrigues. Se dois ter\u00e7os deles provinham da \u00cdndia, um ter\u00e7o provinha de outras regi\u00f5es. Nas Maur\u00edcias, s\u00f3 10 000 contratados n\u00e3o eram indianos, ou seja, 2 %.<\/p>\n<p>O trabalho contratado foi, pois, um sistema que durou mais de um s\u00e9culo e que deixou marcas duradouras na ilha, n\u00e3o s\u00f3 renovando a composi\u00e7\u00e3o da sua popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m alterando o substrato religioso e cultural existente. Foi um contributo importante que deu forma \u00e0 Reuni\u00e3o dos dias de hoje.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1255\" aria-describedby=\"caption-attachment-1255\" style=\"width: 446px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-5-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1255\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1255 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-5-1.jpg\" alt=\"\" width=\"446\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-5-1.jpg 446w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-5-1-206x300.jpg 206w\" sizes=\"auto, (max-width: 446px) 100vw, 446px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1255\" class=\"wp-caption-text\">Lembran\u00e7a da Ilha da Reuni\u00e3o. [Grupo dos tipos da Reuni\u00e3o]. Az\u00e9ma, Constant. 1871-1877. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu das Artes Decorativas do Oceano \u00cdndico<\/figcaption><\/figure>A natureza desse sistema sempre intrigou os investigadores. Em 1974, na sua obra pioneira, <em>A New System of Slavery : the export of Indian Labour Overseas, 1830-192<\/em>0<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7345560764063531\" aria-label=\"Oxford University Press, 439 p. Reeditado em 1993.\">&nbsp;<\/span> Hugh TINKER compara o trabalho contratado indiano \u00e0 escravatura analisando as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos contratados. Essa tese foi posta em causa logo desde a publica\u00e7\u00e3o da obra, mas continua a dividir os historiados que estudam o trabalho contratado e ainda mais os descendentes dos pr\u00f3prios contratados, cujos antepassados viveram curvados nas planta\u00e7\u00f5es e refinarias de a\u00e7\u00facar. Em que medida podemos n\u00f3s assimilar trabalho contratado e escravatura? Haver\u00e1 uma continuidade ou uma rotura entre os dois sistemas?<\/p>\n<figure id=\"attachment_1145\" aria-describedby=\"caption-attachment-1145\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-6.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1145\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1145 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-6.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-6.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-6-300x221.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1145\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores a chegar \u00e0 obra. Pormenor de <em>Etablissement de sucrerie de Beaufonds<\/em>. Constant Az\u00e9ma. 1872. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os escravos que foram levados para a ilha ficaram marcados pelos violentos traumas ligados, primeiro, \u00e0 captura pelos ca\u00e7adores de escravos e, depois, \u00e0 longa marcha, acorrentados uns aos outros, por caminhos cobertos com os cad\u00e1veres dos que n\u00e3o tinham sobrevivido, at\u00e9 aos grandes mercados de escravos. Seguiam-se a vergonha e a c\u00f3lera impotente face \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o dos corpos durante a venda e, mais uma vez, a caminhada at\u00e9 \u00e0s costas, bordejadas por um oceano que os separava, sem esperan\u00e7a de regressar, \u00e0 terra natal e aos antepassados. Quando desembarcavam, enfraquecidos e exaustos, depois de sobreviverem a uma viagem mort\u00edfera, acorrentados nas entrepontes dos navios negreiros, tornavam-se propriedade de senhores desconhecidos que os rebatizavam e tinham direito de vida e morte sobre eles. Os mais jovens tinham perdido todos os seus pontos de refer\u00eancia; os mais velhos, tentavam guardar na mem\u00f3ria lembran\u00e7as da sua l\u00edngua e dos seus rituais ancestrais. Todos deviam adaptar-se \u00e0 dif\u00edcil vida nas planta\u00e7\u00f5es, porque, se fugissem, arriscavam-se a penas desumanas a cada captura (marca\u00e7\u00e3o com ferro em brasa, orelhas cortadas, jarrete cortado, etc.) ou a morte.<\/p>\n<p>Em contrapartida, a maioria dos contratados escolhia partir para trabalhar al\u00e9m-mar. Com efeito, eram trabalhadores livres. Esse estatuto foi-lhes reconhecido, primeiro, no s\u00e9culo XVIII e, depois, no s\u00e9culo XIX. Enquanto contratados, podiam assinar o contrato escrito que lhes era fornecido para seu conhecimento, logo \u00e0 partida. Tudo era pr\u00e9-estabelecido: a dura\u00e7\u00e3o do trabalho de tr\u00eas anos em 1828 e, depois, de cinco anos; a remunera\u00e7\u00e3o mensal e a obriga\u00e7\u00e3o do contratante de lhes fornecer alojamento, alimenta\u00e7\u00e3o, cuidados de sa\u00fade e vestu\u00e1rio. Acima de tudo, tinham a garantia de poder praticar a sua religi\u00e3o e ser repatriados se assim o desejassem, no t\u00e9rmino do contrato. Todas essas condi\u00e7\u00f5es eram explicitadas a cada grande per\u00edodo do trabalho contratado indiano e eram v\u00e1lidas para os outros contratados, ao abrigo dos artigos das Conven\u00e7\u00f5es franco-brit\u00e2nicas de 1860-61.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1301\" aria-describedby=\"caption-attachment-1301\" style=\"width: 2546px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-7b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1301\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1301 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-7b.jpg\" alt=\"\" width=\"2546\" height=\"2000\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-7b.jpg 2546w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-7b-300x236.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-7b-768x603.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-7b-1024x804.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1301\" class=\"wp-caption-text\">Contrato de trabalho.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como pessoas livres, os contratados mantinham e transmitiam o nome, que era registado nas listas dos navios e \u00e0 chegada nos registos da col\u00f3nia e das comunas: o nome dado \u00e0 partida era geralmente o nome de origem, mas n\u00e3o era obrigat\u00f3rio que assim fosse. O nome do contratado que ficava inscrito no contrato de trabalho poderia ser transmitido aos filhos nascidos na ilha. A maioria dos descendentes de contratados tinha o apelido da progenitora, que era quem declarava o rec\u00e9m-nascido. Segundo a legisla\u00e7\u00e3o francesa, no s\u00e9culo XIX, raros eram os pais casados, ficando-se a maioria dos casais pela cerim\u00f3nia religiosa!<\/p>\n<figure id=\"attachment_1303\" aria-describedby=\"caption-attachment-1303\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-8b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1303\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1303 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-8b.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"3016\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-8b.jpg 2000w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-8b-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-8b-768x1158.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-8b-679x1024.jpg 679w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1303\" class=\"wp-caption-text\">Excerto do Journal de l&#8217;habitation de Desbassayns \u2013 s\u00e1bado 17 de junho de 1865. Manuscrito.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os contratados possu\u00edam o que conseguiam ir acumulando e podiam dar esses bens aos filhos.<br \/>\nMas, acima de tudo, os imigrantes tinham direito, por contrato, a feriados e dias de folga reservados \u00e0 pr\u00e1tica religiosa. Ligadas ao calend\u00e1rio agr\u00edcola em vigor nas propriedades-refinarias, as cerim\u00f3nias religiosas eram todas agrupadas no seu t\u00e9rmino, entre finais de dezembro e princ\u00edpios de janeiro, quando a f\u00e1brica parava de funcionar. Era quando os indianos celebravam o Pongol, que marca o in\u00edcio da ceifa do arroz, e os africanos tinham as festividades conhecidas como a \u00abfesta cafre\u00bb.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1151\" aria-describedby=\"caption-attachment-1151\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-9.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1151\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1151 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-9.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-9.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-9-300x221.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1151\" class=\"wp-caption-text\">Pongal dos indianos. Pormenor de <em>Etablissement de sucrerie de Beaufonds<\/em>. Constant Az\u00e9ma. 1872. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O estatuto jur\u00eddico do contratado era, portanto, muito diferente do estatuto jur\u00eddico do escravo, que era um objeto pertencente a um senhor e, nessa qualidade, n\u00e3o podia possuir nem transmitir nada, nem o apelido, que tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o era seu, mas tinha sido substitu\u00eddo por um simples nome pr\u00f3prio. O escravo j\u00e1 n\u00e3o tinha sequer a sua religi\u00e3o de origem, pois a cristianiza\u00e7\u00e3o era a norma. N\u00e3o podia defender-se a si pr\u00f3prio perante a justi\u00e7a e devia ser representado por um \u00abpatr\u00e3o\u00bb, for\u00e7osamente, um homem livre, que falasse em seu nome.<br \/>\nNo entanto, uma vez que os contratados passaram a trabalhar segundo condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-estabelecidas pelo decreto de 27 de mar\u00e7o de 1852, que os impedia de negociar o que fosse \u2014 nada, nem remunera\u00e7\u00e3o, dura\u00e7\u00e3o ou condi\u00e7\u00f5es do contrato \u2014, o seu trabalho deixou de assentar nos princ\u00edpios do direito comum sobre a subcontrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os em Fran\u00e7a e passou a ser uma forma particular de trabalho assalariado, o chamado \u00abtrabalho assalariado for\u00e7ado\u00bb ou \u00abtrabalho assalariado bridado\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5509704157334391\" aria-label=\"Conceito proposto por MOULIER BOUTANG, Yann. De l\u2019esclavage au salariat, \u00e9conomie historique du salariat brid\u00e9. PUF, Paris 1978, p. 975\">&nbsp;<\/span>.<br \/>\nEm 2001, Sudel Fuma<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9146522746088436\" aria-label=\"FUMA Sudel, \u00ab le servilisme \u00bb, em http:\/\/www.historun.com\/run\/Pub\/Le_servilisme.asp\">&nbsp;<\/span> prop\u00f4s substituir \u00abtrabalho contratado\u00bb por \u00abservilismo\u00bb para definir o estatuto dos alforriados for\u00e7ados a trabalhar como contratados a partir de 1848 e dos trabalhadores imigrados, tendo em conta que esse conceito permitiria mostrar mais claramente que \u00abos trabalhadores em quest\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o livres e est\u00e3o sujeitos a um sistema, mas n\u00e3o s\u00e3o escravos no sentido jur\u00eddico do termo\u00bb. Apesar de n\u00e3o ter tido muito \u00eaxito, este conceito teve o m\u00e9rito de expor \u00abo car\u00e1cter doloso dos contratos\u00bb, que t\u00e3o bem caracteriza o trabalho contratado africano e malgaxe at\u00e9 1860.<\/p>\n<p>Com efeito, o abrandamento dos fluxos migrat\u00f3rios da \u00cdndia para a Reuni\u00e3o, levou a que os contratantes se voltassem para a costa oriental africana. Em 1850, os africanos recrutados deviam ser indiv\u00edduos que n\u00e3o conheciam a escravatura, ditos em estado de \u00abliberdade pr\u00e9via\u00bb. Depois, a partir de 1857, a fachada caiu, e o recrutamento passou a ser feito por \u00abcompra pr\u00e9via\u00bb: os escravos que chegavam \u00e0 costa eram comprados e, depois, libertados, antes de serem contratados por um m\u00ednimo de dez anos.<br \/>\nEm Zanzibar, o \u00faltimo recrutamento foi conduzido pela viscondessa Jurien, a pedido do governador Darricau, em 1858: chegado a 28 de outubro, o <em>Pallas<\/em> fez o embarque noturno de 200 \u00abnegros\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0870166699872923\" aria-label=\"MAL\u00c9COT, Georges. In Revue fran\u00e7aise d\u2019histoire d\u2019outre-mer, n.\u00ba 212, 1971, pp. 279-353, \u00abLes voyageurs fran\u00e7ais et les relations entre la France et l\u2019Abyssinie de 1835 \u00e0 1870 \u00bb, cap\u00edtulo IV: Bourbon et l\u2019Abyssinie: les tentatives de recrutement de travailleurs \u2013 Le probl\u00e8me de la main-d\u2019\u0153uvre \u00e0 La R\u00e9union, p. 313.\">&nbsp;<\/span> dos quais s\u00f3 desembarcou metade a 16 de dezembro, tendo os restantes sucumbido durante a viagem.<br \/>\nEssa proximidade com o tr\u00e1fico negreiro era tal que o governo da \u00cdndia inglesa fez do seu decreto um pr\u00e9-requisito para autorizar o recrutamento de indianos, s\u00fabditos brit\u00e2nicos, para as ilhas francesas de explora\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar. Mais de 34 000 africanos e malgaxes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.086222986762159\" aria-label=\"CHAILLOUS-ATROUS Virginie, De l\u2019Afrique orientale \u00e0 l\u2019oc\u00e9an Indien occidental-Histoire des engag\u00e9s africains \u00e0 La R\u00e9union au XIXe si\u00e8cle, Tese de Doutoramento, Universidade de Nantes, 2011, 2 volumes, 621 p. \">&nbsp;<\/span> foram contratados assim.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1153\" aria-describedby=\"caption-attachment-1153\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-10.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1153\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1153 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-10.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-10.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-10-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1153\" class=\"wp-caption-text\">Grupo de Cafres (festa). Pormenor de <em>Etablissement de sucrerie de Beaufonds<\/em>. Constant Az\u00e9ma. 1872. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mesmo nesse caso, os contratados mantinham o apelido, que podiam transmitir, e a possibilidade de praticar os seus cultos.<\/p>\n<p>O estudo das condi\u00e7\u00f5es de vida dos contratados nas propriedades de explora\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar depende de arquivos de todo o tipo. A maioria dos textos a esse respeito, contudo, os relat\u00f3rios, arquivos judici\u00e1rios ou relat\u00f3rios das comiss\u00f5es de inqu\u00e9rito, mais particularmente, centram-se no disfuncionamento do sistema. Essa via importante n\u00e3o permite conhecer a vida quotidiana da maioria dos trabalhadores, pois a maioria dos documentos s\u00f3 mostra a face sombria do trabalho contratado e as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis que alguns contratados deviam enfrentar em determinadas explora\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar. Falta ainda realizar estudos comparativos para ter uma ideia mais concreta das condi\u00e7\u00f5es de vida dos contratados, comparativamente com os outros trabalhadores, e calcular a percentagem da popula\u00e7\u00e3o contratada que foi v\u00edtima do incumprimento dos contratos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.25650907597743056\" aria-label=\"Segundo os relat\u00f3rios da gendarmerie de Saint-Paul, em 1866, 2,8 % dos contratados tamb\u00e9m desertaram. MARIMOUTOU, Mich\u00e8le. Les engag\u00e9s du sucre, op.cit., p. 147. Quanto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, no seu todo, em 18 anos, St\u00e9phanie Marqui registou 280 casos de viol\u00eancia sexual em Crimes sexuels et homicides \u00e0 la R\u00e9union \u00e0 la fin du XIXe si\u00e8cle, (s.d. COMBEAU Yvan, Universit\u00e9 de La R\u00e9union, 1999), ou seja, 15-16 casos por ano. Tivemos alguma dificuldade em calcular o n\u00famero de v\u00edtimas que n\u00e3o apresentaram queixa.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1155\" aria-describedby=\"caption-attachment-1155\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-11.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1155\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1155 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-11.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"547\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-11.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-11-300x214.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1155\" class=\"wp-caption-text\">XXIII, Distribui\u00e7\u00e3o de v\u00edveres aos contratados [Reuni\u00e3o]. Clich\u00e9 Chatel. 1900. \u2013 Impress\u00e3o fotomec\u00e2nica (ilstr. de livro) : n. et b. In \u00abNotice sur la R\u00e9union\/reed. sob a dir. de A. G. Garsault, J. Andr\u00e9, Paris 1900. Pl. XXIII\u00bb.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>Logo \u00e0 partida, a liberdade para celebrar um contrato de trabalho podia ser fict\u00edcia. Se os indianos fossem, na sua maioria, volunt\u00e1rios ansiosos por concretizar o sonho que lhes propunham, processos como o de Souza em 1853, em Karikal demonstram que o engodo dos ganhos podia conduzir a graves desvios: aqui, tratava-se de jovens que eram raptados e drogados<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6201488204780493\" aria-label=\"WEBER Jacques, \u00ab Les conventions de 1860 et 1861 sur l\u2019\u00e9migration indienne \u00bb in Cahier des Anneaux de la M\u00e9moire, n\u00b02, Esclavage et engagisme dans l\u2019oc\u00e9an indien, Nantes 2000, p.128-168, p.141.\">&nbsp;<\/span>.<br \/>\nOs contratados recrutados nas ilhas do Pac\u00edfico ignoravam totalmente o seu destino<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.47587818997514686\" aria-label=\"GERARD Gilles, \u00ab Engag\u00e9s ou esclaves ? L\u2019histoire de 66 Polyn\u00e9siens \u00e0 La R\u00e9union \u00bb, Journ\u00e9es d\u2019\u00e9tudes sur l\u2019engagisme, Saint-Denis, novembre 2018, actes en cours d\u2019\u00e9dition. \">&nbsp;<\/span>. Quanto aos vietnamitas contratados entre 1863 e 1866, eram mais exilados pol\u00edticos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44825788356859464\" aria-label=\"Para os desembarcados entre 1863 e 1866, ver: VARGA, Daniel. \u00abUn engagisme vietnamien \u00e0 La R\u00e9union\u00bb. Revue historique de l\u2019oc\u00e9an Indien, n.\u00ba, AHIOI, 2007, pp.48-62.\">&nbsp;<\/span>. Outros, foram enganados sobre as condi\u00e7\u00f5es reais do contrato: em 1933, recusando a realidade da sua vida, t\u00e3o diferente da que haviam imaginado, os trabalhadores oriundos da ilha Rodrigues desertaram dos campos, e o governador fez com que fossem repatriados.<br \/>\nCom efeito, o <em>coolie-trade<\/em>, ou seja, o recrutamento e transporte dos contratados, era um com\u00e9rcio altamente rent\u00e1vel que fazia as fortunas dos armadores, das sociedades de emigra\u00e7\u00e3o e imigra\u00e7\u00e3o, das ag\u00eancias de recrutamento nos portos de embarque, etc.<br \/>\nA n\u00edvel local, uma legisla\u00e7\u00e3o abundante, nomeadamente, o decreto de 13 de fevereiro de 1852, ditava os direitos e deveres de contratados e contratantes e estabelecia sindicatos encarregados de limar as arestas. Apesar desta prote\u00e7\u00e3o, eram recorrentes os problemas de n\u00e3o pagamento, de atrasos nos pagamentos ou reten\u00e7\u00f5es significativas mais ou menos legais por parte de alguns contratantes. A partir da d\u00e9cada de 1830, come\u00e7aram a ser feitas queixas pela n\u00e3o transfer\u00eancia do dinheiro devido \u00e0s fam\u00edlias na \u00cdndia; em 1877, o relat\u00f3rio da comiss\u00e3o internacional, que analisa a situa\u00e7\u00e3o dos contratados indianos, demonstra como as diferentes pun\u00e7\u00f5es legais podiam amputar essa remunera\u00e7\u00e3o e levar os contratados a trabalhar quase gratuitamente<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.628639856448819\" aria-label=\"MARIMOUTOU Mich\u00e8le, op.cit., p.86 \u00e0 99.\">&nbsp;<\/span>. Ora, se estes \u00faltimos tinham consentido ser subcontratados durante cinco anos, era certamente para poder acumular o dinheiro necess\u00e1rio para ter uma vida mais decente.<br \/>\nAl\u00e9m disso, os contratados n\u00e3o podiam circular livremente. As explora\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar tinham fronteiras que s\u00f3 podiam ser atravessadas com autoriza\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio: um documento ou um \u00abpasse\u00bb sem o qual o contratado encontrado fora do seu local de trabalho podia ser detido como vagabundo ou desertor e condenado. As penas eram convertidas em dias de trabalho gratuito a realizar no fim do contrato; em acr\u00e9scimo, cada aus\u00eancia, independentemente do motivo, seria compensada com dois dias de trabalho.<br \/>\nAs condi\u00e7\u00f5es de vida dos contratados eram dif\u00edceis, n\u00e3o s\u00f3 porque a aus\u00eancia de mulheres nos campos levava a uma situa\u00e7\u00e3o de insalubridade, mas tamb\u00e9m devido ao facto de os ritmos de trabalho aumentarem ainda mais durante a \u00e9poca do corte da cana e do fabrico do a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1157\" aria-describedby=\"caption-attachment-1157\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-12.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1157\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1157 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-12.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"564\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-12.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-12-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1157\" class=\"wp-caption-text\">Campo dos trabalhadores. Pormenor de <em>Etablissement de sucrerie de Beaufonds<\/em>. Constant Az\u00e9ma. 1872. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em finais do s\u00e9culo XIX, o trabalho contratado na Reuni\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o cativante. Calcula-se que 25 % dos contratados indianos tenham morrido na ilha e 25 %, tenham sido repatriados, muitos deles, pessoas que, por j\u00e1 n\u00e3o terem capacidade de trabalhar, a col\u00f3nia simplesmente reconduzia para os portos de embarque para n\u00e3o ter de se encarregar delas. Quanto aos contratados africanos chegados ap\u00f3s 1848, apenas 4,7 % retornaram.<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5455411404818997\" aria-label=\"CHAILLOU-ATROUS Virginie, op.cit., p.271.\">&nbsp;<\/span><br \/>\nA maioria dos mo\u00e7ambicanos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5085888150326292\" aria-label=\"id., p.356 : 70%.\">&nbsp;<\/span> de finais do s\u00e9culo XIX, dos chineses chegados em 1901 no <em>Erica<\/em>, dos malgaxes de 1922 e dos trabalhadores da ilha Rodrigues de 1933 n\u00e3o quis prolongar os seus contratos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1159\" aria-describedby=\"caption-attachment-1159\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-13.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1159\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1159 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-13.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"537\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-13.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/fig-13-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1159\" class=\"wp-caption-text\">Repatriamento de indianos no Natal cerca de 1900. Fotografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para os que ficaram, e cujos filhos nascidos na ilha podiam tornar-se franceses, de acordo com a lei de 1889, deixar o trabalho contratado dependia da sua moralidade e da sua capacidade de satisfazer as suas necessidades\u2026 Apesar de alguns indianos terem ganhado muito com a divis\u00e3o das propriedades e a aquisi\u00e7\u00e3o das terras, a maioria dos contratados, por sua vez, continuou a fazer trabalho agr\u00edcola ou em regime de colonato em parceria, a viver miseravelmente, at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O trabalho contratado n\u00e3o \u00e9 escravatura: a lei Taubira de 10 de maio de 2001, estabelece que s\u00f3 o tr\u00e1fico negreiro nos oceanos Atl\u00e2ntico e \u00cdndico e a imposi\u00e7\u00e3o da escravatura nesses espa\u00e7os \u00e0s \u00abpopula\u00e7\u00f5es africanas, amer\u00edndias, malgaxes e indianas\u00bb, constitui um crime contra a humanidade. No entanto, no seu artigo 4.\u00ba, a mesma lei aborda as condi\u00e7\u00f5es do trabalho contratado, a saber, que o feriado que celebra a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, celebra tamb\u00e9m \u00ab<em>o fim de todos os tipos de trabalho contratado que se seguiram a essa aboli\u00e7\u00e3o<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1709952303410769\" aria-label=\"Artigo 4.\u00ba: A comemora\u00e7\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura pela Rep\u00fablica Francesa e a do fim de todos os tipos de trabalho contratado subscritos no seguimento dessa aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 objeto de um dia feriado nos departamentos da Guadalupe, da Guiana, da Martinica e da Reuni\u00e3o, bem como na coletividade territorial de Maiote.\">&nbsp;<\/span>\u00bb. Atualmente, ningu\u00e9m associa o dia 10 de maio, a n\u00edvel nacional, nem o 20 de dezembro, a n\u00edvel local, ao fim do trabalho contratado.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6472,"parent":5042,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6471","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6472"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}