{"id":6518,"date":"2021-10-27T13:56:29","date_gmt":"2021-10-27T11:56:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6518"},"modified":"2021-11-26T11:55:58","modified_gmt":"2021-11-26T10:55:58","slug":"o-trabalho-contratado-africano-na-ilha-da-reuniao-no-seculo-xix","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/abolicao-da-escravatura\/apos-a-abolicao\/o-trabalho-contratado-africano-na-ilha-da-reuniao-no-seculo-xix\/","title":{"rendered":"O trabalho contratado africano na ilha da Reuni\u00e3o no s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"<h2>A aboli\u00e7\u00e3o progressiva do com\u00e9rcio de escravos e da escravatura nas col\u00f3nias europeias est\u00e1 na origem de novas migra\u00e7\u00f5es de trabalhadores em todo o mundo, particularmente durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6518-1\" width=\"525\" height=\"295\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/virginie_chaillou-PORT_SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/virginie_chaillou-PORT_SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/virginie_chaillou-PORT_SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>A fim de atender \u00e0s necessidades de uma economia de planta\u00e7\u00e3o \u2013 que ami\u00fade exigia quantidades consider\u00e1veis de m\u00e3o de obra \u2013 ou para construir as principais infraestruturas das suas col\u00f3nias, os Europeus recorriam a m\u00e3o de obra estrangeira \u00ablivre\u00bb sob contrato de trabalho para substituir gradualmente a m\u00e3o de obra servil condenada ao desaparecimento. O argumento de que os antigos escravos n\u00e3o seriam capazes de trabalhar sem coa\u00e7\u00e3o era novamente utilizado para justificar o recurso a uma pol\u00edtica estatal de introdu\u00e7\u00e3o de trabalhadores oriundos do estrangeiro. Neste sentido, javaneses, tonquineses, africanos, mas especialmente chineses e indianos deixariam a sua terra natal, alistando-se e indo trabalhar, em troca de um sal\u00e1rio, nas antigas col\u00f3nias da Am\u00e9rica e do Oceano \u00cdndico, mas tamb\u00e9m nos territ\u00f3rios recentemente conquistados pelas pot\u00eancias imperiais na \u00c1frica, na \u00c1sia e no Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>As medidas tomadas pelo Congresso de Viena, bem como a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura promulgada em 1848 pela Assembleia Constituinte da Segunda Rep\u00fablica poderiam levar a crer que uma p\u00e1gina dolorosa da hist\u00f3ria da Fran\u00e7a estava a ser definitivamente virada. Contudo, na col\u00f3nia francesa da Reuni\u00e3o, o sistema de contrata\u00e7\u00e3o africano nada mais fez do que prolongar os tormentos do tr\u00e1fico, resumindo-se ao sistema antigo disfar\u00e7ado por uma h\u00e1bil maquina\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e isso, com o \u00fanico intuito de satisfazer as necessidades do cultivo da cana-de-a\u00e7\u00facar e da ind\u00fastria a\u00e7ucareira. Com efeito, o sistema produtivo, que fomentou o tr\u00e1fico de escravos durante s\u00e9culos, continuava a depender de um fornecimento externo de m\u00e3o de obra cujas consequ\u00eancias dram\u00e1ticas eram id\u00eanticas. Por um lado, o tr\u00e1fico de escravos havia sido condenado desde 1815, devido ao facto de as pot\u00eancias o considerarem como contr\u00e1rio \u00e0 moralidade e \u00e0 dignidade humana, mas por outro lado, este com\u00e9rcio de seres humanos continuava a figurar como a \u00fanica forma de aprovisionar as col\u00f3nias com m\u00e3o de obra. Muitos historiadores t\u00eam vindo a destacar \u00ab<em>o fosso que existia, desde a ado\u00e7\u00e3o das f\u00f3rmulas de responsabilidade civilizadora (das na\u00e7\u00f5es europeias), entre a teoria e os factos<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9527456376438665\" aria-label=\"JOUBERT L., Le fait colonial et ses prolongements Em Le Monde non Chr\u00e9tien, 15, 1950, p. 265\">&nbsp;<\/span>.\u00bb<\/p>\n<p>Mesmo antes de o decreto de aboli\u00e7\u00e3o da escravatura ter sido promulgado, os plantadores da Reuni\u00e3o recorreram aos trabalhadores contratados de origem indiana. Insatisfeitos com esta experi\u00eancia \u2013 nomeadamente devido aos obst\u00e1culos levantados pelos Brit\u00e2nicos \u2013, mas convencidos de que a imigra\u00e7\u00e3o \u00ablivre\u00bb seria a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o da economia a\u00e7ucareira, viraram-se para o continente africano e, em particular, para a costa leste de \u00c1frica, que durante muito tempo havia fornecido os bra\u00e7os necess\u00e1rios para a prosperidade da col\u00f3nia. Os plantadores da Reuni\u00e3o conheciam bem a costa leste de \u00c1frica sob o dom\u00ednio de Zanzibar, e em particular a regi\u00e3o de <em>Kilwa<\/em> (Qu\u00edloa), por ali terem efetuado compras de escravos substanciais durante o s\u00e9culo XVIII<\/p>\n<figure id=\"attachment_582\" aria-describedby=\"caption-attachment-582\" style=\"width: 551px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-2014-1-15-plan-de-l-isle-et-ville-de-quiloa-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-582 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-2014-1-15-plan-de-l-isle-et-ville-de-quiloa-web.jpg\" alt=\"\" width=\"551\" height=\"782\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-2014-1-15-plan-de-l-isle-et-ville-de-quiloa-web.jpg 551w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-2014-1-15-plan-de-l-isle-et-ville-de-quiloa-web-211x300.jpg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 551px) 100vw, 551px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-582\" class=\"wp-caption-text\">Mapa da ilha e cidade de Qu\u00edloa, tirado de Anglois. Jakob van der Schley . Por volta de 1750. Talho-doce.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>A procura por trabalhadores contratados que possu\u00edam as mesmas origens que os escravos constitu\u00eda, inicialmente, uma especificidade da Reuni\u00e3o, sendo que os Antilhanos eram muito mais relutantes a isso. J\u00e1 em 1842, o governador da Reuni\u00e3o atribuiu ao Tenente Le Mauff de Kerdudal, comandante do navio <em>Le Messager<\/em>, a miss\u00e3o de ir a Qu\u00edloa a fim de examinar os recursos que esta parte dos Estados do Im\u00e3 de Mascate tinha para oferecer aos colonos que desejassem obter trabalhadores africanos. O comandante redigiu um relat\u00f3rio, explicando que apenas era poss\u00edvel adquirir cativos, comprando-os aos propriet\u00e1rios \u00e1rabes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5878313107183473\" aria-label=\"ANOM, FM Gen, C 126 D 1096, Notes sur l\u2019immigration africaine dans les colonies anglaises et fran\u00e7aises par le directeur des colonies, Paris, le 9 janvier 1850.\">&nbsp;<\/span>. Mais en 1844, le ministre de la Marine et des Colonies condamne fermement le rachat d\u2019esclaves \u00e0 la c\u00f4te d\u2019Afrique<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.717059084666408\" aria-label=\"Ibidem.\">&nbsp;<\/span>. Por\u00e9m, em 1844, o Ministro da Marinha e das Col\u00f3nias condenou veementemente a compra de escravos na costa de \u00c1frica , pelo que esta tentativa fracassou. Muitos projetos visavam a costa leste, sendo rejeitados pelas autoridades metropolitanas, pelo menos oficialmente. As considera\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter humanit\u00e1rio, mas sobretudo o medo de serem acusados de perpetuar uma forma de tr\u00e1fico humano, levaram as autoridades a serem extremamente prudentes. Em particular, temiam as admoesta\u00e7\u00f5es dos brit\u00e2nicos, com os quais a Fran\u00e7a se tinha comprometido em fazer tudo ao seu alcance para reprimir o tr\u00e1fico de escravos e p\u00f4r um termo \u00e0 escravatura. Com efeito, em 29 de maio de 1845, a Fran\u00e7a assinou uma conven\u00e7\u00e3o com a Inglaterra atrav\u00e9s da qual se comprometeu a suprimir as opera\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico de seres humanos na costa de \u00c1frica. Esta conven\u00e7\u00e3o, v\u00e1lida por dez anos, previa um direito de visita conjunto para os brit\u00e2nicos e os franceses, bem como o controlo m\u00fatuo do tr\u00e1fico. Tendo em conta este compromisso, a Fran\u00e7a n\u00e3o podia autorizar de forma digna o recrutamento de cativos nas costas de \u00c1frica para satisfazer as necessidades da sua economia colonial.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, e sob um regime claramente menos aberto aos princ\u00edpios humanistas de 1848, as posi\u00e7\u00f5es do governo evolu\u00edram tornando-se muito amb\u00edguas perante as pr\u00f3prias leis antiescravatura da Fran\u00e7a, embora at\u00e9 1855 \u2013 a Conven\u00e7\u00e3o franco-brit\u00e2nica de 1845 ainda estava em vigor \u2013 a atitude do governo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o africana permanecesse cautelosa e hip\u00f3crita. Para o jovem regime imperial era importante n\u00e3o perder a confian\u00e7a das autoridades de Londres. A atitude do governo resumir-se-ia, portanto, \u00e0 diplomacia, reiterando formalmente as proibi\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es ao recrutamento atrav\u00e9s da aquisi\u00e7\u00e3o. Estas precau\u00e7\u00f5es limitavam-se \u00e0 teoria, uma vez que, na pr\u00e1tica, a Fran\u00e7a daria livre arb\u00edtrio \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de recrutamento dos habitantes da Reuni\u00e3o, fazendo vista grossa \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que se realizavam as opera\u00e7\u00f5es no terreno. De facto, a restri\u00e7\u00e3o de limitar o recrutamento a homens livres por nascimento ou desde h\u00e1 v\u00e1rios anos, parece ter escapado ao governo de Reuni\u00e3o. As ordens foram contornadas por capit\u00e3es de navio que \u00ab<em>ignorando as preconiza\u00e7\u00f5es do governador organizaram um sistema de recrutamento na costa oeste de Madag\u00e1scar de escravos oriundos da costa leste da \u00c1fric<\/em>a\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7230043835059785\" aria-label=\"RENAULT Fran\u00e7ois, Lib\u00e9ration d\u2019esclaves et nouvelles servitudes, Nouvelles \u00e9ditions africaines, 1976, p. 42.\">&nbsp;<\/span>. Para os plantadores da Reuni\u00e3o a prioridade consistia em remediar a perda da for\u00e7a produtiva da ilha, salvando a economia em perigo, nem que para tal fosse necess\u00e1rio ignorar as diretivas governamentais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6534\" aria-describedby=\"caption-attachment-6534\" style=\"width: 1300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6534 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16.jpg\" alt=\"\" width=\"1300\" height=\"911\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16.jpg 1300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16-768x538.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2019-1-16-1024x718.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6534\" class=\"wp-caption-text\">O Canal de Mo\u00e7ambique, a Ilha de Madag\u00e1scar, os Estados de Monomotapa e os Reinos Vizinhos. Rigobert Bonne, cart\u00f3grafo; Andr\u00e9, gravador. 1788. Talho-doce, realce de cor.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Neste contexto, quase 34 000<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4885688427799286\" aria-label=\"Este n\u00famero corresponde aos contratados que desembarcaram na col\u00f3nia da Reuni\u00e3o e n\u00e3o ao n\u00famero real de africanos capturados e embarcados pelos recrutadores. Dada a terr\u00edvel percentagem de perdas, pode-se considerar que este valor corresponde apenas a tr\u00eas quartos dos africanos efetivamente recrutados.\">&nbsp;<\/span> cativos oriundos da costa leste de \u00c1frica foram levados para a Reuni\u00e3o atrav\u00e9s da contrata\u00e7\u00e3o africana, desde a v\u00e9spera da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura at\u00e9 1859, com vista a saciar as necessidades de uma economia a\u00e7ucareira cada vez mais ambiciosa. Capturados nas suas aldeias, entregues por chefes \u00e1rabes a comerciantes franceses nas costas africanas, os chamados africanos \u00abcontratados\u00bb n\u00e3o eram mais do que meros objetos de neg\u00f3cio cuja vida pouco valia<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.793825268335629\" aria-label=\"AMAE, Arquivos repatriados de Lisboa, s\u00e9rie A, C37, Carta de S\u00e1 da Bandeira endere\u00e7ada ao governador da Reuni\u00e3o, no dia 5 de maio de 1857\">&nbsp;<\/span>, a n\u00e3o ser um valor real de mercado. As opera\u00e7\u00f5es de recrutamento eram feitas \u00e0 pressa, em desordem e frequentemente em total ilegalidade. O trabalho contratado africano reabastecia os circuitos e o tr\u00e1fico existentes, visto que para a Reuni\u00e3o o trabalhador contratado africano n\u00e3o passava de um escravo recrutado cuja origem n\u00e3o era a que os recrutadores declaravam. A natureza fraudulenta e imoral das opera\u00e7\u00f5es foi encoberta pelo tr\u00e1fico realizado a montante, bem como pela inexist\u00eancia de controlos por parte das autoridades, ou at\u00e9 com a cumplicidade das autoridades. Assim, os africanos recrutados nas costas malgaxes ou comorianas eram na sua maioria escravos origin\u00e1rios de Mo\u00e7ambique, Zanzibar ou da regi\u00e3o controlada pelo Sult\u00e3o de Mascate<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.45552753383509703\" aria-label=\"Arquivos do Episcopado, ilha da Reuni\u00e3o, Saint-Denis, 21 de outubro de 1858\">&nbsp;<\/span>. As possess\u00f5es francesas de Madag\u00e1scar e das Comores eram simultaneamente recetores e transmissores de m\u00e3o de obra, sendo, ali\u00e1s, muitas vezes os mesmos indiv\u00edduos que a transitavam. As ilhas francesas de Mayotte, mas tamb\u00e9m de Nossi-b\u00e9, tornaram-se, assim, locais de tr\u00e2nsito, de trocas e de tr\u00e1fico de seres humanos. As opera\u00e7\u00f5es e os contratos eram regularizados e encobertos na maior serenidade. O contrato a que estavam vinculados n\u00e3o representava, de modo algum, um \u00abacordo com o livre consentimento das duas partes\u00bb e os agentes da imigra\u00e7\u00e3o estavam mais dispostos a disfar\u00e7ar a verdade do que a controlar a legalidade das opera\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, durante esse per\u00edodo n\u00e3o foi assinado qualquer acordo franco-portugu\u00eas que autorizasse os cidad\u00e3os mo\u00e7ambicanos a partir para a ilha de Reuni\u00e3o. Devido aos abusos, aos maus tratos e \u00e0 mortalidade a bordo dos navios, o recrutamento e o transporte de imigrantes africanos assemelhavam-se mais a opera\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico do que ao com\u00e9rcio coolie indiano. O governo franc\u00eas e as autoridades locais fecharam os olhos a este tr\u00e1fico, portanto conhecido, contentando-se de prodigalizar recomenda\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias e hip\u00f3critas. As \u00fanicas tentativas de protesto contra este com\u00e9rcio hediondo emanaram de pot\u00eancias estrangeiras que, sob falsas pretens\u00f5es filantr\u00f3picas, defendiam os seus pr\u00f3prios interesses comerciais e pol\u00edticos. Pior ainda, os obst\u00e1culos ao recrutamento franc\u00eas em \u00c1frica, em nome da moralidade e da inexist\u00eancia de um quadro preciso por parte do Governo franc\u00eas, pareciam apenas acentuar a natureza criminosa e b\u00e1rbara das opera\u00e7\u00f5es. Os recrutadores \u2013 pressionados pelos plantadores da Reuni\u00e3o e \u00e1vidos de lucro \u2013 infringiam todas as proibi\u00e7\u00f5es a fim de obterem contratados em grande n\u00famero, alistando apressadamente, desordeiramente, e nas piores condi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, esta preciosa mercadoria humana. As proibi\u00e7\u00f5es e as barreiras tornavam os recrutas ainda mais raros e, como em qualquer com\u00e9rcio il\u00edcito, a especula\u00e7\u00e3o disparou. Perante as dificuldades de recrutamento e sob press\u00e3o de plantadores nas Antilhas e na Reuni\u00e3o, o imperador Napole\u00e3o III autorizou, em outubro de 1856, a \u00abaquisi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via\u00bb dos escravos em todos os pontos da costa africana. Tratava-se de autorizar oficialmente o que h\u00e1 j\u00e1 v\u00e1rios anos se realizava \u00e0 vista de todos e, assim, p\u00f4r fim a uma ambiguidade facilitando a sua execu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 feita qualquer publica\u00e7\u00e3o oficial sobre esta decis\u00e3o, que poderia ser facilmente repreens\u00edvel. O Ministro da Marinha e das Col\u00f3nias, Hamelin, chegou a pressionar os governadores das Antilhas e da Reuni\u00e3o para que mantivessem a imprensa local sob controlo, de modo a garantir que n\u00e3o se debru\u00e7assem demasiado sobre temas relativos \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6641455896501389\" aria-label=\"Fran\u00e7ois Renault, Lib\u00e9ration d\u2019esclaves et nouvelles servitudes, op.cit., p.48 et 57.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_586\" aria-describedby=\"caption-attachment-586\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-2002-4-53-3-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-586 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-2002-4-53-3-web-e1603363770590.jpg\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-586\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas, pormenor. G. Gos. 2.\u00aa metade do s\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_588\" aria-describedby=\"caption-attachment-588\" style=\"width: 461px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-2002-4-53-4-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-588 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-4-2002-4-53-4-web-e1603363799755.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-588\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas, pormenor. G. Gos. 2.\u00aa metade do s\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Devido a v\u00e1rios esc\u00e2ndalos prejudiciais, o governo j\u00e1 n\u00e3o podia continuar a ocultar os v\u00edcios profundos desse sistema: recrutar em zonas onde a escravatura n\u00e3o era proibida e autorizar a aquisi\u00e7\u00e3o dos cativos, permitindo a realiza\u00e7\u00e3o de grandes lucros, equivalia a \u00abavalizar\u00bb uma nova forma de tr\u00e1fico. O sistema de contrata\u00e7\u00e3o africana assim revelado falhou claramente no pr\u00f3prio princ\u00edpio da sua ess\u00eancia, sendo alvo de fortes cr\u00edticas por parte das autoridades brit\u00e2nicas que n\u00e3o deixariam de acusar a Fran\u00e7a de perpetuar o tr\u00e1fico. O trabalhador contratado africano, comprado e depois alforriado como mera quest\u00e3o de forma, n\u00e3o beneficiava de qualquer considera\u00e7\u00e3o e nenhuma assist\u00eancia uma vez na col\u00f3nia. O seu estatuto de escravo no seu pa\u00eds de origem, bem como a falta de prote\u00e7\u00e3o por parte de uma pot\u00eancia estrangeira distingue\u2212o, de facto, do seu hom\u00f3logo indiano. Sujeito \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o colonial comum aos trabalhadores contratados da col\u00f3nia, era, no entanto, v\u00edtima de uma maior discrimina\u00e7\u00e3o e de uma escravid\u00e3o mais duradoura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5451980459096895\" aria-label=\"Em 1858, um decreto do governador Darricau fixou o m\u00e1ximo da dura\u00e7\u00e3o do contrato dos africanos a dez anos, ou seja, um contrato duas a tr\u00eas vezes mais longo do que o do trabalhador indiano, ADR, 8 K 44, decreto de 10 de maio de 1858.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_590\" aria-describedby=\"caption-attachment-590\" style=\"width: 498px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-engagisme-africain-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-590 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-5-engagisme-africain-web-e1603363824254.jpg\" alt=\"\" width=\"498\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-590\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas, pormenor. G. Gos. 2.\u00aa metade do s\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Abandonado em 1859 a favor de um sistema menos critic\u00e1vel, mas alvo de um maior controlo Brit\u00e2nico, o trabalho contratado africano na Reuni\u00e3o serviu como moeda de troca para obter indianos em massa, bem como a subsequente assinatura de uma conven\u00e7\u00e3o franco-brit\u00e2nica em 1860. Neste contexto, a Fran\u00e7a preferiu substituir \u00ab<em>o recrutamento de indianos livres sobre os quais n\u00e3o pode recair qualquer suspeita de tr\u00e1fico de escravos ao dos negros <\/em>(sic)<em> africanos, cujos baixo n\u00edvel social e not\u00f3rio estatuto de minoria podem levar mais facilmente os filantropos ingleses a consideram-nos como v\u00edtimas de um verdadeiro tr\u00e1fico de escravos<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5430742996039448\" aria-label=\"CAOM, FM G\u00e9n\u00e9ralit\u00e9s, C 118 D 1030, Extrait du Moniteur de la Martinique, Journal officiel de la colonie, 9 de janeiro de 1859.\">&nbsp;<\/span>. Todavia, durante as duas d\u00e9cadas seguintes, os colonos da Reuni\u00e3o reclamaram incansavelmente a reabertura desta fonte de imigra\u00e7\u00e3o, preferindo de longe as qualidades do trabalhador africano \u00e0s do seu hom\u00f3logo indiano. Estes plantadores fundamentavam o seu pedido num paradoxo gritante: a retomada destas opera\u00e7\u00f5es em nome da humanidade e no pr\u00f3prio interesse dos africanos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_592\" aria-describedby=\"caption-attachment-592\" style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-engagisme-africain-web-e1603363849407.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"Taille-initiale wp-image-592 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-engagisme-africain-web-e1603363849407.jpg\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-592\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas, pormenor. G. Gos. 2.\u00aa metade do s\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>No final do s\u00e9culo, a den\u00fancia da conven\u00e7\u00e3o franco-brit\u00e2nica pelo governo ingl\u00eas, em 1881, p\u00f4s definitivamente em causa o recrutamento de trabalhadores de origem indiana, mergulhando novamente os plantadores numa situa\u00e7\u00e3o delicada. Desamparados, os plantadores da Reuni\u00e3o reavivaram a ideia, nunca totalmente abandonada, de um recome\u00e7o oficial da imigra\u00e7\u00e3o africana. A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura nas col\u00f3nias portuguesas em 1869 e o encerramento do mercado de escravos de Zanzibar em 1873 levaram inevitavelmente a novas formas de recrutamento, sendo que o restabelecimento da imigra\u00e7\u00e3o africana estava sujeito \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um acordo franco-portugu\u00eas assinado em 1887. Limitado a alguns portos de Mo\u00e7ambique, o relan\u00e7amento da imigra\u00e7\u00e3o africana assentava no recrutamento de volunt\u00e1rios livres em busca de um pouco de dinheiro. Sem eliminar completamente os abusos do sistema em si, a nova legisla\u00e7\u00e3o e o controlo das autoridades portuguesas legalizaram uma imigra\u00e7\u00e3o que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o passava de um tr\u00e1fico disfar\u00e7ado. De condi\u00e7\u00e3o livre, estes contratados n\u00e3o se estabeleceram na col\u00f3nia, exigindo unanimemente o seu repatriamento. Eram pouco numerosos, facto esse que estava em contradi\u00e7\u00e3o com o sistema de imigra\u00e7\u00e3o em massa que parecia assimil\u00e1-los gradualmente a simples trabalhadores imigrantes. Apenas 3000 trabalhadores africanos viriam para a Reuni\u00e3o de 1887 at\u00e9 \u00e0s v\u00e9speras da Primeira Guerra Mundial. Embora, em 1887, todas as esperan\u00e7as dos plantadores se baseassem na retomada da imigra\u00e7\u00e3o africana, este sistema de trabalho livre revelar-se-ia insuficiente para satisfazer as necessidades de m\u00e3o de obra, sendo gradualmente abandonado no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<figure id=\"attachment_594\" aria-describedby=\"caption-attachment-594\" style=\"width: 498px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-engagisme-africain-web-e1603363872873.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-594 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-7-engagisme-africain-web-e1603363872873.jpg\" alt=\"\" width=\"498\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-594\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas, pormenor. G. Gos. 2.\u00aa metade do s\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>L\u2019engagisme africain a prolong\u00e9, raviv\u00e9, maintenu une forme de domination qui n\u2019est pas sans cons\u00e9quence. Les st\u00e9r\u00e9otypes et l\u2019assimilation \u00e0 l\u2019esclave &#8211; c\u2019est-\u00e0-dire au statut de non libre &#8211; ont un r\u00f4le fondamental dans le processus de construction des pr\u00e9jug\u00e9s. Le statut de l\u2019engag\u00e9 africain li\u00e9 \u00e0 une l\u00e9gislation coloniale d\u2019exception et \u00e0 son origine influe sur son insertion sociale. La fronti\u00e8re entre engag\u00e9 et esclave est d\u2019autant plus perm\u00e9able et fluctuante pour l\u2019engag\u00e9 d\u2019origine africaine que la m\u00e9moire continue de l\u2019assimiler \u00e0 un esclave \u00e0 part enti\u00e8re.<\/p>\n<p>Atualmente, os descendentes dos africanos contratados n\u00e3o formam um grupo social por si s\u00f3, como \u00e9 o caso, por exemplo, dos descendentes dos contratados indianos ou \u00ab<em>Malbars<\/em>\u00bb. Ao inv\u00e9s, misturam-se na massa dos outros habitantes da Reuni\u00e3o de origem africana, descendentes de escravos ou dos novos imigrantes. S\u00e3o vulgarmente referidos como \u00ab<em>Cafre<\/em>\u00bb ou \u00ab<em>Kaf<\/em>\u00bb, um termo que abrange todos os nativos da Reuni\u00e3o de origem africana e, mais amplamente, todos aqueles que apresentam a tipologia f\u00edsica do \u00ab<em>Cafre<\/em>\u00bb. Al\u00e9m disso, a sua hist\u00f3ria ainda \u00e9 pouco conhecida pelos habitantes da Reuni\u00e3o, ou mesmo negada no sentido em que a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o da ilha pensa que o \u00ab<em>Cafre<\/em>\u00bb s\u00f3 pode ser descendente de um escravo, reservando maioritariamente o termo \u00abcontratados\u00bb aos trabalhadores de origem asi\u00e1tica. A hist\u00f3ria dos contratados africanos na Ilha da Reuni\u00e3o est\u00e1 condenada a permanecer uma \u00abhist\u00f3ria de sil\u00eancio\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4030900764516274\" aria-label=\"Gerbeau Hubert, Les esclaves noirs : pour une histoire du silence, Les Indes Savantes, Paris, 2013.\">&nbsp;<\/span> para citar a express\u00e3o do historiador Hubert Gerbeau. Importa, portanto, devolver a estes descendentes de trabalhadores africanos um passado que seja seu, uma hist\u00f3ria distinta (mesmo que contenha em si o estigma) do tr\u00e1fico de escravos e da escravatura e plenamente integrada \u2013 com as suas singularidades \u2013 na hist\u00f3ria global do trabalho contratado.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6526,"parent":5042,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6518","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}