{"id":6537,"date":"2021-10-28T12:03:47","date_gmt":"2021-10-28T10:03:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6537"},"modified":"2021-11-26T11:55:06","modified_gmt":"2021-11-26T10:55:06","slug":"o-trabalho-contratado-chines-na-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/abolicao-da-escravatura\/apos-a-abolicao\/o-trabalho-contratado-chines-na-reuniao\/","title":{"rendered":"O trabalho contratado Chin\u00eas na Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>Em 19 de outubro de 1901, um navio a vapor alem\u00e3o, o \u00c9rica, entrou no porto de Pointe des Galets. A bordo estava a \u00faltima leva de chineses contratados, 808 homens que foram recrutados na prov\u00edncia de Fujian, no sul da China. Este seria o epis\u00f3dio final de uma hist\u00f3ria que havia come\u00e7ado 57 anos antes com o primeiro envio de trabalhadores do mesmo tipo.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6537-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster_wong-hee-kam.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Edith-Wong-Hee-Kam-PORT_SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Edith-Wong-Hee-Kam-PORT_SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Edith-Wong-Hee-Kam-PORT_SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>A hist\u00f3ria da contrata\u00e7\u00e3o chinesa comporta duas fases: a primeira arranca em meados do s\u00e9culo XIX, a segunda no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<h3>Primeira fase da contrata\u00e7\u00e3o chinesa: 1844-1860<\/h3>\n<h4>As circunst\u00e2ncias<\/h4>\n<p>O navio <em>Suffren<\/em> ancorou em Bourbon a 13 de abril de 1844 com 54 chineses a bordo que tinham sido recrutados em Pulo\u2212Pinang na Mal\u00e1sia. Eram aguardados enquanto salvadores da agricultura local. De facto, a ilha passava por um desenvolvimento econ\u00f3mico desde 1815, aquando da introdu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar \u2013 que requeria uma grande quantidade de trabalhadores \u2013, sendo que na v\u00e9spera da Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura (1848), os propriet\u00e1rios e plantadores de Bourbon resolveram procurar m\u00e3o de obra. Tendo em conta a abertura for\u00e7ada da China aos estrangeiros, eles decidiram substituir os trabalhadores indianos pelos chineses, enviando v\u00e1rios pedidos de recrutamento ao governador. O Conselho Colonial aceitou o princ\u00edpio da entrada de <em>coolies<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5021420141844779\" aria-label=\"Trabalhador chin\u00eas ou hindu (N. da T.)\">&nbsp;<\/span> chineses, tendo, para tal, o governador Bazoche assinado um decreto em 10 de novembro de 1843<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5938958698718255\" aria-label=\"ANOM, D 43 C 45 17, Decreto de 10 de novembro de 1843.\">&nbsp;<\/span>. Por conseguinte, foi decidido trazer \u00ab<em>at\u00e9 mil trabalhadores chineses para a ilha<\/em>\u00bb.<\/p>\n<figure id=\"attachment_481\" aria-describedby=\"caption-attachment-481\" style=\"width: 511px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-detail-de-travailleurs-libres-aux-iles-mascareignes-web-e1603365266222.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-481 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-detail-de-travailleurs-libres-aux-iles-mascareignes-web-e1603365266222.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-481\" class=\"wp-caption-text\">Pormenor de <em>Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas<\/em>. G. Bos. S\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>A esta primeira leva seguir-se-iam outras, sendo que os navios que traziam os chineses contratados sucederam-se uns aos outros durante este ano de 1844. No dia 5 de julho, o <em>La Sarcelle<\/em> chegou de Singapura com 69 chineses contratados a<br \/>\nbordo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6435381069422832\" aria-label=\"ANOM, C432 d 4601, Correspond\u00eancia.\">&nbsp;<\/span>, dos quais 59 foram enviados para o Atelier Colonial, onde foram \u00abdestacados para as obras de reten\u00e7\u00e3o do rio des Marsouins, o resto para os trabalhos de prote\u00e7\u00e3o do rio Saint-Denis\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6819591085190302\" aria-label=\"ANOM, C 432 d 4603, Imigra\u00e7\u00e3o Chinesa, Atelier Colonial.\">&nbsp;<\/span>. Os restantes dez trabalhariam na sericultura para o Sr. Perrichon em Salazie.<\/p>\n<figure id=\"attachment_483\" aria-describedby=\"caption-attachment-483\" style=\"width: 511px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-detail-de-travailleurs-libres-aux-iles-mascareignes-web-e1603365291121.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-483 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-detail-de-travailleurs-libres-aux-iles-mascareignes-web-e1603365291121.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-483\" class=\"wp-caption-text\">Pormenor de <em>Trabalhadores livres nas ilhas Mascarenhas<\/em>. G. Bos. S\u00e9culo XIX. Cromolitografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Assim, os contingentes seguem-se uns aos outros, trazendo sobretudo pessoas da regi\u00e3o de Amoy. Mas esta emigra\u00e7\u00e3o abrandaria. A 2 de julho de 1846, o governador Graeb assinou um decreto com vista a \u00absuspender, exceto para opera\u00e7\u00f5es em curso, qualquer introdu\u00e7\u00e3o adicional de contratados chineses\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7372043667579864\" aria-label=\"ANOM, C 432 4604, Recrutamento de m\u00e3o de obra\">&nbsp;<\/span>. A col\u00f3nia contava ent\u00e3o com 458 trabalhadores deste tipo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8369419628789114\" aria-label=\"D. Durand, Les Chinois de La R\u00e9union, Australe Editions, Capetown, 1981, p. 34.\">&nbsp;<\/span>. O valor inicialmente previsto de mil n\u00e3o foi atingido devido aos problemas encontrados.<\/p>\n<h4>Desilus\u00f5es rec\u00edprocas<\/h4>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1840, a imprensa local evocava os contratados chineses em termos laudativos. Neste contexto, em 1843,<em> La Feuille hebdomadaire de l&#8217;Ile Bourbon<\/em> via-os como \u00ab<em>trabalhadores de elite,<\/em> <em>nativos da \u00c1sia\u00bb, alegando que \u00abnenhuma ra\u00e7a poderia rivalizar com eles<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>Alguns ficariam rapidamente desiludidos e queixar-se-iam oficialmente. Neste sentido, Julien Gillot l&#8217;Etang enviou uma carta ao Conselho de Bourbon em 6 de setembro de 1844 para requerer o repatriamento de dois \u00absujeitos maus, pregui\u00e7osos, incapazes de qualquer servi\u00e7o\u00bb e a quem tinha mandado prender enquanto se aguardava a sua partida<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3041846576518443\" aria-label=\"ADR 16 K 26, Conselho Privado de Bourbon de 6 de setembro de 1844.\">&nbsp;<\/span>. Em 28 de outubro de 1844, um inspetor da pol\u00edcia escreveu uma carta ao diretor do Interior, ecoando as recrimina\u00e7\u00f5es dos contratados que tinham apresentado queixa contra o seu empregador<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.025449223177783864\" aria-label=\"ADR 168 M 2 12 M Imigra\u00e7\u00e3o.\">&nbsp;<\/span>. A situa\u00e7\u00e3o agravou-se ao ponto de, em 2 de julho de 1846, o Conselho ter percebido que \u00ab<em>aflu\u00edam queixas de todos os lados relativamente aos chineses. Em regra geral s\u00e3o maus trabalhadores. Povoam as pris\u00f5es e os ateliers de disciplina<\/em>\u00bb. No ano seguinte, a situa\u00e7\u00e3o continuou a agravar-se.<\/p>\n<p>Os propriet\u00e1rios sentiam uma grande desilus\u00e3o: o recrutamento por contrato era muito mais caro do que estava previsto. Esta era uma das conclus\u00f5es das atas do Conselho Colonial que evocava pre\u00e7os de \u00ab<em>uma exorbit\u00e2ncia desencorajadora<\/em>\u00bb. Al\u00e9m disso, estes rec\u00e9m-chegados n\u00e3o lhes forneceram a ajuda t\u00e3o esperada, sendo muito pouco rent\u00e1veis: \u00ab<em>Eles trabalham lentamente e t\u00eam um car\u00e1ter violento<\/em>\u00bb, escreveu o Sr. F\u00e9ry, um empregador de Sainte-Suzanne em 1849. Esta frase resume todas as queixas dos plantadores. A incapacidade f\u00edsica reflete-se na descri\u00e7\u00e3o de um artigo em <em>La Feuille Hebdomadaire de l&#8217;Ile Bourbon<\/em> que os descreve como \u00abfracos, enfezados e d\u00e9beis\u00bb.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do seu desapontamento, os patr\u00f5es n\u00e3o escondem a sua preocupa\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0 viol\u00eancia dos contratados chineses que n\u00e3o hesitavam em tornar-se agressivos, o que \u00e9 uma novidade para estes propriet\u00e1rios habituados a uma maior obedi\u00eancia e passividade. Gabriel de Kerv\u00e9guen escreveu ao Diretor do Interior em 1848:<\/p>\n<blockquote><p>Hoje, a insubordina\u00e7\u00e3o est\u00e1 no seu auge: amea\u00e7am os administradores, matam-nos e ateiam fogo a tudo sempre que surge a oportunidade (&#8230;) No meu estabelecimento em Les Casernes, tentaram assassinar o Sr. Ernest Lallemand, um empregado meu; um Chin\u00eas, empregado na bateria, agarrou um dos meus negros, para o levar para uma caldeira cheia de xarope a ferver; foi impedido de o fazer por outros negros da bateria, etc&#8230;<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44743838354292964\" aria-label=\"ADR, 166 M 1, Carta de Gabriel de K\/veguen ao diretor do Interior, 16 de fevereiro de 1848.\">&nbsp;<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quanto aos contratados chineses, estavam exasperados pelo tratamento que lhes era reservado. No dia 28 de outubro de 1844, um inspetor da pol\u00edcia enviou uma carta ao diretor do Interior, transmitindo as recrimina\u00e7\u00f5es dos trabalhadores contratados que tinham vindo apresentar uma queixa contra o seu empregador<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6752001328085335\" aria-label=\"ADR 168 M 2 12 M Imigra\u00e7\u00e3o.\">&nbsp;<\/span> :<\/p>\n<blockquote><p>Onze chineses do Sr. Lacour que vivem em Saint-Andr\u00e9 vieram queixar-se de que o contrato que tinham assinado com este propriet\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 a ser cumprido&#8230; -1\u00ba) As ra\u00e7\u00f5es alimentares n\u00e3o s\u00e3o respeitadas -2\u00b0) O administrador espanca-os -3\u00ba) Come\u00e7am o trabalho \u00e0s sete da manh\u00e3, terminando apenas \u00e0 uma da noite<br \/>\n-4\u00b0) N\u00e3o recebem os cuidados necess\u00e1rios quando est\u00e3o doentes, sendo que um dos seus, Assiov, faleceu ontem \u00e0 noite\u00bb; acrescentando: Estas pessoas parecem-me cheias de boa vontade e cumprem os seus compromissos religiosamente.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ra\u00e7\u00f5es alimentares insuficientes, hor\u00e1rios excessivos, agress\u00f5es e ferimentos, est\u00e3o entre os temas habituais de descontentamento aos quais acresciam as reivindica\u00e7\u00f5es relativas ao pagamento de sal\u00e1rios: assim, os trabalhadores chineses do Sr. P\u00e9richon exigem, em 1847, os seus sal\u00e1rios n\u00e3o pagos.<\/p>\n<p>Em 1962, jornalistas vindos de Taiwan levaram a cabo uma investiga\u00e7\u00e3o aprofundada publicada em 1966 com o t\u00edtulo <em>Liuniwangdao Huaqiaozhi<\/em> \u7559\u5c3c\u65fa\u5cf6\u83ef\u50d1\u5fd7 \u00abMonografia sobre os chineses da di\u00e1spora na ilha da Reuni\u00e3o\u00bb. Apresentando o ponto de vista chin\u00eas, os autores evocam este per\u00edodo nos seguintes termos: \u00ab<em>Quando desembarcaram na ilha, foram obrigados a realizar dois tipos de trabalho, a abertura de estradas e a cria\u00e7\u00e3o de bichos-da-seda. Pouco tempo depois, um pequeno grupo recusou tais condi\u00e7\u00f5es, fugindo para as montanhas<\/em>\u00bb.<\/p>\n<h4>As consequ\u00eancias<\/h4>\n<p>Estava-se a assistir \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o de muitas pessoas contratadas, que ca\u00edam na mendicidade ou na vagabundagem, ou at\u00e9 na delinqu\u00eancia. Os trabalhadores da Brigada dos Chineses ilustraram este facto. No Conselho Colonial de 17 de fevereiro de 1846, um dos membros, Patu de Rosemont, declarou que certo n\u00famero andava pelas ruas e \u00ab<em>v\u00e3o para as propriedades em bandos, roubando canas-de-a\u00e7\u00facar e tudo o que podem levar; e quando os guardas v\u00eam afugent\u00e1-los, s\u00e3o insultados e repelidos com pedras<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9710786704741834\" aria-label=\"ADR, N, Conselho Colonial, 17 de fevereiro de 1846, pp. 65-66.\">&nbsp;<\/span>. Num tal contexto, gera-se logicamente o desenvolvimento da delinqu\u00eancia. Assim, muitos chineses encontraram-se perante os tribunais para serem julgados pelos seus delitos, de modo que,<br \/>\n\u00ab<em>de 27 de outubro de 1847 a 26 de janeiro de 1848, a justi\u00e7a julgar\u00e1 38 chineses por atos criminosos, inc\u00eandios, roubos e assassinatos<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2508694840347263\" aria-label=\"D. Durand, op. cit., p. 36.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>As expuls\u00f5es constituiriam um meio cl\u00e1ssico usado pela sociedade colonial para solucionar estes problemas. Em setembro de 1844 foi apresentado um pedido por Julien Gillot l&#8217;Etang com vista ao repatriamento de dois contratados. Houve uma profus\u00e3o deste tipo de requerimento. Em novembro de 1845, o Conselho Privado iniciou um debate sobre o reenvio dos trabalhadores da Brigada dos Chineses: o engenheiro da institui\u00e7\u00e3o Ponts et Chauss\u00e9es exigiu a demiss\u00e3o de quinze deles, \u00abgente que n\u00e3o serve para nada\u00bb. Em 6 de mar\u00e7o de 1847, foi assinado o decreto do governador formalizando a expuls\u00e3o de trinta deles para Singapura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8943339458716701\" aria-label=\"ANOM, 432 d 4607 Organiza\u00e7\u00e3o do Protetorado de Imigrantes, Conselho Privado de Bourbon de 6 de mar\u00e7o de 1846.\">&nbsp;<\/span>. Outras partidas tiveram lugar, sem contudo assumirem tais formas coercivas.<\/p>\n<p>Assiste-se assim \u00e0 suspens\u00e3o da contrata\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de m\u00e3o de obra chinesa: durante muito tempo os plantadores recusaram a eventualidade de recorrer a ela, sendo necess\u00e1rio esperar at\u00e9 ao final do s\u00e9culo para que as importa\u00e7\u00f5es de <em>coolies<\/em> chineses fossem retomadas. Al\u00e9m disso, tinha-se forjado uma imagem negativa dos chineses, marcada tanto pelo desapontamento dos agricultores como pelo medo gerado pela sua viol\u00eancia inesperada.<\/p>\n<p>A longo prazo, assistiu-se aos primeiros passos do com\u00e9rcio chin\u00eas. Os contratados lan\u00e7aram-se no com\u00e9rcio ambulante e na venda de produtos alimentares. Os contratados de Bourbon emularam a experi\u00eancia dos das ilhas Maur\u00edcias, sobre os quais foi dito em 1843: \u00ab&#8230; <em>Disseram-me que na Maur\u00edcia, a maioria dos chineses, assim contratados, tinha abandonado o cultivo da cana-de-a\u00e7\u00facar. Alguns tornaram-se vendedores ambulantes, uma profiss\u00e3o que lhes proporcionava mais benef\u00edcios. Outros, que porventura possu\u00edam mais fundos, teriam estabelecido pequenas lojas<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.31697124709933444\" aria-label=\"ADR, Relat\u00f3rio do Sr. Favin l'Ev\u00eaque, capit\u00e3o de corveta, comandante do navio Hero\u00edna, 17 de junho de 1843.\">&nbsp;<\/span>. Certains de ceux qui restent \u00e0 l\u2019expiration de leur contrat s\u2019int\u00e9ressent \u00e0 la vente d\u2019aliments et de boissons \u00e0 proximit\u00e9 des usines. C\u2019est ce que r\u00e9v\u00e8le le compte-rendu d\u2019une s\u00e9ance du Conseil Priv\u00e9 de mars 1858<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.48503569550021775\" aria-label=\"ANOM C 383 d 3350, R\u00e9glementation, Conseil priv\u00e9 de Bourbon.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_485\" aria-describedby=\"caption-attachment-485\" style=\"width: 432px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-adr-4m207-chane-tong-web-e1603365318783.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-485 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-adr-4m207-chane-tong-web-e1603365318783.jpg\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"650\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-485\" class=\"wp-caption-text\">Chane Yong, 7 de novembro de 1900, ajudante. Em Registo do imposto tur\u00edstico.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_3518\" aria-describedby=\"caption-attachment-3518\" style=\"width: 432px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.4-ADR-4M207-Chane-Tu.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3518 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.4-ADR-4M207-Chane-Tu.jpg\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.4-ADR-4M207-Chane-Tu.jpg 432w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.4-ADR-4M207-Chane-Tu-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3518\" class=\"wp-caption-text\">Chane Tu, 30 de junho de 1897, gerente. Em Registo do imposto tur\u00edstico.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A Maur\u00edcia tornou-se um ref\u00fagio para aqueles que n\u00e3o conseguiam integrar-se em Bourbon e um polo de atra\u00e7\u00e3o para aqueles que pretendiam ganhar algum dinheiro antes de regressarem \u00e0 \u00c1sia. Por outro lado, os contratados que optaram por ficar na ilha tornaram-se os pioneiros de uma di\u00e1spora est\u00e1vel.<\/p>\n<h3>Segunda tentativa de contrata\u00e7\u00e3o chinesa:<br \/>\n1901 -1908<\/h3>\n<p>Esta tentativa diz respeito aos 808 alistados que chegaram em outubro \u00e0 Pointe-des-Galets a bordo do navio <em>L&#8217;Erica<\/em> que havia zarpado em 21 de setembro de 1901 de Fuzhou. Aparentemente n\u00e3o houve outras chegadas desde ent\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_491\" aria-describedby=\"caption-attachment-491\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-livret-d-engage-adr-12m53-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initaile wp-image-491 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-livret-d-engage-adr-12m53-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"728\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-livret-d-engage-adr-12m53-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-livret-d-engage-adr-12m53-web-300x273.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-6-livret-d-engage-adr-12m53-web-768x699.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-491\" class=\"wp-caption-text\">Documento de identifica\u00e7\u00e3o de um trabalhador contratado. 1901.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_3516\" aria-describedby=\"caption-attachment-3516\" style=\"width: 1031px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.6-Livret-dengag\u00e9-ADR-12M53.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3516 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.6-Livret-dengag\u00e9-ADR-12M53.jpg\" alt=\"\" width=\"1031\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.6-Livret-dengag\u00e9-ADR-12M53.jpg 1031w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.6-Livret-dengag\u00e9-ADR-12M53-300x204.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.6-Livret-dengag\u00e9-ADR-12M53-768x521.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ill.6-Livret-dengag\u00e9-ADR-12M53-1024x695.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3516\" class=\"wp-caption-text\">Documento de identifica\u00e7\u00e3o de um trabalhador contratado. 1901.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com a retomada da imigra\u00e7\u00e3o de trabalhadores contratados chineses repetir-se-ia uma longa s\u00e9rie de conflitos resultantes da revolta destes homens. Entre 1901, a data de chegada, e 1907, que marcou o regresso de muitos \u00e0 China, nem um ano passaria sem que houvesse um movimento de revolta. O primeiro ocorreu em dezembro de 1901, envolvendo os incidentes ocorridos nas propriedades de Colson e Kerv\u00e9guen em Saint-Louis. Numa carta datada de 11 de dezembro de 1901, o brigadeiro Dufossey informou o seu chefe de esquadr\u00e3o da pol\u00edcia de Saint-Denis do seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>Hoje, dia onze deste m\u00eas, por volta da uma hora da noite, fui avisado por um funcion\u00e1rio do Sr. de Kerv\u00e9guen, que os imigrantes chineses, recentemente chegados \u00e0 col\u00f3nia, se recusaram terminantemente a trabalhar. Fui imediatamente acompanhado por um gendarme ao referido estabelecimento localizado em La Rivi\u00e8re (Saint\u2212Louis) (&#8230;). Dos quarenta imigrantes empregados pelo estabelecimento, metade tinha declarado, de manh\u00e3, estar doente com o \u00fanico prop\u00f3sito de ausentar-se do trabalho. A outra metade come\u00e7ou o dia de trabalho da melhor forma poss\u00edvel, se bem que resmungando, mas quando chegou a hora da refei\u00e7\u00e3o, avan\u00e7aram o pretexto de que n\u00e3o tinham comida suficiente, e resolveram, apesar das repetidas insist\u00eancias dos empregados, n\u00e3o continuar a sua tarefa \u00e0 tarde<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.40643760648074956\" aria-label=\"ADR, 12 M, 168 M2, Carta de 11 de dezembro de 1901.\">&nbsp;<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tamb\u00e9m na zona leste ocorreram problemas semelhantes a 8 de janeiro de 1902: um motim eclodiu nos estabelecimentos de Bois-Rouge<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.08312343279715262\" aria-label=\"ADR, 12 M 168 M2, Carta de 8 de janeiro de 1902.\">&nbsp;<\/span>. A situa\u00e7\u00e3o agravou-se com o tempo<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2199249437159787\" aria-label=\"ADR, gabinete do prefeito, pagamento 2111-63-1-498, Carta de 8 de junho de 1904 do protetor dos imigrantes ao procurador-geral de Saint-Denis.\">&nbsp;<\/span>. Em 11 de junho de 1905, uma nova queixa foi apresentada por treze contratados pelos estabelecimentos Bellier<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9199769075157893\" aria-label=\"ADR, idem, carta de 11 de junho de 1905. Resposta: Caso encerrado..\">&nbsp;<\/span>. Em 1906, o descontentamento generalizara-se: a leste, organizavam-se movimentos, sendo que os chineses pretendiam marchar sobre a capital. Durante o mesmo ano, a agita\u00e7\u00e3o crescente propagou-se para o sul. Em dezembro, a propriedade dos Kerv\u00e9guen em Saint-Louis ainda era palco de motins. Ali, empregavam h\u00e1 tr\u00eas anos antigos contratados da propriedade Chabrier. Quando o contrato expirou em setembro de 1906, os contratados reivindicaram ao seu empregador aquilo que lhes era devido. O Sr. de Kerv\u00e9guen informou-os de que lhe deviam um n\u00famero exorbitante de dias de trabalho! Revoltados com esta forma de proceder, enviaram a 25 de setembro de 1906 uma delega\u00e7\u00e3o de 25 homens ao governador de Saint-Denis para explicar o seu caso e pedir prote\u00e7\u00e3o. Obtiveram promessas e garantias por parte do conselho para que voltassem ao trabalho, regressando a St. Louis por caminho-de-ferro. Nenhuma promessa seria cumprida, tendo mesmo sido sujeitos a san\u00e7\u00f5es aquando do seu regresso regressarem. Um contabilista dos Kerv\u00e9guen mandou bater-lhes. Alguns ficaram feridos, outros foram apresentados ao ju\u00edz da paz de Saint-Pierre e enviados para a pris\u00e3o da cidade. A 18 de dezembro, 25 contratados recusaram-se a ir trabalhar. Em 14 de janeiro de 1907, o \u00abrepresentante dos chineses\u00bb Foctiev foi obrigado a escrever ao governador a fim de obter a liberta\u00e7\u00e3o de \u00ab21\u00a0chineses que foram presos em Saint\u2212Pierre por terem deixado o estabelecimento sem autoriza\u00e7\u00e3o para irem apresentar as reivindica\u00e7\u00f5es ao S\u00edndico\u00bb . Uma carta coletiva datada de 9 de fevereiro de 1907 foi enviada ao governador, na qual constavam as queixas dos reclusos, bem como a explica\u00e7\u00e3o da sua situa\u00e7\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.05037827475445811\" aria-label=\"ADR, 12 M 165 M 5, Carta do representante do chin\u00eas Foctiev ao governador da Reuni\u00e3o de 14 de janeiro de 1907.\">&nbsp;<\/span>. Uma carta coletiva datada de 9 de fevereiro de 1907 foi enviada ao governador, na qual constavam as queixas dos reclusos, bem como a explica\u00e7\u00e3o da sua situa\u00e7\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.08516001006414431\" aria-label=\"ADR, carta coletiva de 9 de fevereiro de 1907 ao governador da Reuni\u00e3o.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Problemas relativos a sal\u00e1rios, maus tratos e condi\u00e7\u00f5es de trabalho: as raz\u00f5es de recrimina\u00e7\u00e3o dos trabalhadores contratados estavam ligadas \u00e0s regras ferozes da rela\u00e7\u00e3o dominante\/dominado que regiam o mundo da m\u00e3o de obra estrangeira na sociedade de Planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6538,"parent":5042,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6537","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}