{"id":6609,"date":"2021-11-09T06:56:39","date_gmt":"2021-11-09T05:56:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6609"},"modified":"2023-08-02T12:47:12","modified_gmt":"2023-08-02T10:47:12","slug":"o-trafico-de-escravos-o-dever-da-memoria-e-o-dever-da-historia-que-lugar-para-o-professoro-exemplo-da-ilha-da-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/memorias\/o-trafico-de-escravos-o-dever-da-memoria-e-o-dever-da-historia-que-lugar-para-o-professoro-exemplo-da-ilha-da-reuniao\/","title":{"rendered":"O tr\u00e1fico de escravos, o dever da mem\u00f3ria e o dever da hist\u00f3ria : que lugar para o professor?<br\/>O exemplo da Ilha da Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>As duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI consagraram o dever de mem\u00f3ria ao mais alto n\u00edvel do Estado franc\u00eas.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6609-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster_gauvin.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/GAUVIN_PT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/GAUVIN_PT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/GAUVIN_PT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Quer se trate da efem\u00e9ride nacional do com\u00e9rcio de escravos, da escravatura e das suas aboli\u00e7\u00f5es desde 2006, ou do centen\u00e1rio da Primeira Guerra Mundial entre 2014 e 2018, a Escola tamb\u00e9m se viu envolvida neste movimento de \u00abcomemora\u00e7\u00e3o\u00bb de que Antoine Prost j\u00e1 falava<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.57539064021633\" aria-label=\"Antoine Prost, Douze le\u00e7ons sur l\u2019histoire, Paris, Points-Seuil, 1996, p. 300.\">&nbsp;<\/span> em 1996 . \u00c9, portanto, neste contexto social, pol\u00edtico e acad\u00e9mico renovado que o quotidiano dos professores se insere h\u00e1 mais de trinta anos.<\/p>\n<h3>O professor e a esfera social<\/h3>\n<p>O trabalho da Escola decorre numa esfera social caracterizada por uma profunda necessidade de refer\u00eancias identit\u00e1rias. Isto leva \u00e0 express\u00e3o de uma pluralidade de mem\u00f3rias que produzem narrativas destinadas a comover ou a indignar. Essas mem\u00f3rias s\u00e3o transmitidas individualmente, atrav\u00e9s de fam\u00edlias ou associa\u00e7\u00f5es. Podem dar origem a comemora\u00e7\u00f5es (um termo originalmente ligado \u00e0 esfera religiosa) de ordem privada ou p\u00fablica. \u00c0s vezes silenciadas, acabam por ressurgir na pra\u00e7a p\u00fablica. Neste sentido, a celebra\u00e7\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura na Ilha da Reuni\u00e3o permaneceu confinada, a partir do ano de 1849, \u00e0 esfera privada devido a uma vontade pol\u00edtica de ofuscar este dia que os propriet\u00e1rios da ilha consideravam perigoso. O dia 20 de dezembro s\u00f3 foi finalmente consagrado em 1983 pelo governo de Fran\u00e7ois Mitterrand.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3664\" aria-describedby=\"caption-attachment-3664\" style=\"width: 839px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2FI50.12-enterrement-de-l-anne-1848-4.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3664 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2FI50.12-enterrement-de-l-anne-1848-4.jpg\" alt=\"\" width=\"839\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2FI50.12-enterrement-de-l-anne-1848-4.jpg 839w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2FI50.12-enterrement-de-l-anne-1848-4-300x215.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2FI50.12-enterrement-de-l-anne-1848-4-768x549.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3664\" class=\"wp-caption-text\">A Lanterna M\u00e1gica n\u00b0 49. Enterro do ano de 1848. Adolphe Pot\u00e9mont. 1848. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A partir do final da d\u00e9cada de 1980, na sequ\u00eancia do processo de descentraliza\u00e7\u00e3o que dinamizou as pol\u00edticas culturais regionais, assistiu-se ao surgimento no panorama p\u00fablico de associa\u00e7\u00f5es, coletivos ou artistas que procuram afirmar a sua identidade em torno do tema da escravatura. A leitura da hist\u00f3ria que dela emana visa reconstituir um mundo bin\u00e1rio dividido entre senhores e escravos, Brancos e Negros, poderosos e fracos, em que frequentemente tentamos explicar as discrimina\u00e7\u00f5es ou as desigualdades sociais contempor\u00e2neas enquanto a realidade hist\u00f3rica \u00e9 mais complexa. Assim, por exemplo, sabemos que 80% dos senhores da Ilha Bourbon viviam na mis\u00e9ria, o que n\u00e3o minimiza a brutalidade e a desumanidade da escravatura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.05035392140189865\" aria-label=\"Prosper Eve, Le Bruit du silence. Parole des esclaves de Bourbon de la fin du XVIIe si\u00e8cle au 20 d\u00e9cembre 1848, St-Andr\u00e9, CRESOI-Oc\u00e9an \u00c9ditions, 2010 ou Le corps des esclaves de l\u2019\u00eele Bourbon. Histoire d\u2019une reconqu\u00eate, Paris, Presses de l\u2019universit\u00e9 Paris-Sorbonne, 2013.\">&nbsp;<\/span>, mas que implica uma rela\u00e7\u00e3o entre senhores e escravos mais complexa do que a do rico colono do filme \u00abE Tudo o Vento Levou\u00bb presente no imagin\u00e1rio popular. Esta vis\u00e3o manique\u00edsta tamb\u00e9m omite a exist\u00eancia do grupo de \u00abLivres de cor\u00bb, alforriados ou descendentes de alforriados, entre os quais encontramos propriet\u00e1rios de terras que tamb\u00e9m possu\u00edam escravos. N\u00e3o obstante o facto do decreto de Haia de 1674 proibir \u00abos franceses da ilha de se casarem com negras\u00bb e \u00abos negros de se casarem com brancas\u00bb, as mulheres eram, na realidade, muito poucas para que os colonos tivessem escolha. O caso de Marie Case, uma das tr\u00eas primeiras malgaxes da ilha, \u00e9 revelador desta complexidade hist\u00f3rica. Casou-se uma primeira vez com um malgaxe \u00abao servi\u00e7o\u00bb da Companhia das \u00cdndias, enviuvou, voltando depois a casar com o normando Michel Fr\u00e9mont em 1689. Quando este faleceu, tornou-se propriet\u00e1ria de catorze escravos. Inversamente, os arquivos mostram que h\u00e1 escravos com pele branca nesta sociedade de Bourbon, embora esteja muito longe de ser o fen\u00f3tipo dominante. Prosper Eve revelou assim, num invent\u00e1rio efetuado ap\u00f3s a sua morte em 1840 em Sainte-Suzanne, v\u00e1rias descri\u00e7\u00f5es de escravos resultantes da mesti\u00e7agem<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.24375142212473522\" aria-label=\"Gilles Gauvin, L\u2019esclavage. Id\u00e9es re\u00e7ues, Paris, Le Cavalier Bleu, 2010, p. 35-40.\">&nbsp;<\/span> : \u00abAristide, de 21 anos, crioulo, de cor branca, de cabelo preto e encaracolado, 1,70 m de altura\u00bb; \u00abArnold, filho de M\u00e9lanie, 2 anos, crioulo, cor branca, cabelo loiro\u00bb.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o, especialmente aos alunos mais jovens, requer uma simplifica\u00e7\u00e3o, mas a dificuldade com a qual se depara o pedagogo \u00e9 ter que lutar contra ideias preconcebidas, especialmente quando s\u00e3o transmitidas atrav\u00e9s da docufic\u00e7\u00e3o, um g\u00e9nero cinematogr\u00e1fico impulsionado pela procura da mem\u00f3ria por parte da sociedade. \u00c9 o caso de \u00abElie ou les forges de la libert\u00e9\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8724121244104068\" aria-label=\"Filme produzido por Kapali Studio em 2011.\">&nbsp;<\/span> de William Cally, coescrito com o historiador Sudel Fuma por ocasi\u00e3o do bicenten\u00e1rio da revolta dos escravos em Saint-Leu. Neste contexto, por exemplo, a cena em que o administrador da planta\u00e7\u00e3o ataca de modo selvagem, sem raz\u00e3o aparente, os escravos que j\u00e1 est\u00e3o a trabalhar, transmite a imagem de uma viol\u00eancia gratuita tamb\u00e9m retratada noutra docufic\u00e7\u00e3o consagrada pelos mesmos autores, em 2015, a Madame Desbassayns.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3639\" aria-describedby=\"caption-attachment-3639\" style=\"width: 502px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Film-william-cally.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3639 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Film-william-cally.jpg\" alt=\"\" width=\"502\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Film-william-cally.jpg 502w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Film-william-cally-215x300.jpg 215w\" sizes=\"auto, (max-width: 502px) 100vw, 502px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3639\" class=\"wp-caption-text\">Cartaz do filme \u00abMadame Desbassayns\u00bb de William Cally. 2015.<br \/>Produ\u00e7\u00e3o Est\u00fadios Kapali, France T\u00e9l\u00e9visions<\/figcaption><\/figure>\n<p>Caricatura-se assim uma viol\u00eancia inerente ao sistema esclavagista e que poderia assumir muitas outras formas, esquecendo-se que o interesse do propriet\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 matar os seus escravos no trabalho. No entanto, \u00e9 esta imagem que se repete nas produ\u00e7\u00f5es dos alunos sobre o tema. Al\u00e9m disso, os escravos est\u00e3o todos vestidos com roupas brancas imaculadas para trabalhar nos campos, sendo que \u00c9lie \u00e9 representado vestido com uma camisa e um colete, enquanto na maioria das vezes estavam vestidos com simples cal\u00e7as de tecido azul. A \u00e1gua da Ravine du Trou, situada a v\u00e1rios quil\u00f3metros das propriedades, era transportada por barris, por\u00e9m o filme mostra escravos a carregarem baldes. Mais problem\u00e1tico de um ponto de vista hist\u00f3rico \u00e9 o quadro de Delacroix sobre a revolu\u00e7\u00e3o de 1830 que aparece em ambos os filmes para evocar a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789. Finalmente, o filme sobre a revolta de Saint-Leu levanta quest\u00f5es sobre o prop\u00f3sito da sua mensagem de hero\u00edsmo da personagem de \u00c9lie, ao passo que o estudo de fontes judiciais mostra que tudo indica que o \u00abComandante\u00bb Gilles foi o desencadeador da conspira\u00e7\u00e3o, sem dem\u00e9rito para a import\u00e2ncia de \u00c9lie no movimento. O problema \u00e9 que a revolta dos escravos de Saint-Leu se tornou a revolta de \u00c9lie. Ser\u00e1 que a Reuni\u00e3o teria finalmente encontrado este \u00abEsp\u00e1rtaco negro\u00bb em torno dos discursos memoriais que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinham conseguido encarnar as resist\u00eancias \u00e0 escravatura, contrariamente ao que poderia ter existido nas Antilhas? Outros erros hist\u00f3ricos tamb\u00e9m podem levar os espectadores, incluindo os estudantes, a contrassensos hist\u00f3ricos. Neste sentido, o filme sobre Madame Desbassayns apresenta escravos a trabalharem arduamente nos campos de cana-de-a\u00e7\u00facar, contudo a cena \u00e9 totalmente anacr\u00f3nica porque, embora Laisn\u00e9 de Beaulieu tenha feito experi\u00eancias de planta\u00e7\u00e3o em 1785, a cana s\u00f3 seria generalizada muito mais tarde<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.41243228067594084\" aria-label=\"Jean-Fran\u00e7ois G\u00e9raud, Xavier Le Terrier, Atlas historique du sucre \u00e0 l\u2019\u00eele Bourbon-La R\u00e9union (1810-1914), St-Andr\u00e9, CRESOI-Universidade da Reuni\u00e3o, 2010.\">&nbsp;<\/span>. Se a necessidade de hist\u00f3ria assumida por associa\u00e7\u00f5es, por um cineasta e por um historiador inclinados para a populariza\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o levou \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, \u00e9 evidente que tais materiais pedag\u00f3gicos requerem um acompanhamento para ajudar os alunos a exercer um olhar cr\u00edtico e a distanciarem-se de um discurso, que por vezes \u00e9 claramente guiado por reivindica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias.<\/p>\n<p>O desejo de mem\u00f3ria est\u00e1 igualmente presente no mundo art\u00edstico. A pe\u00e7a \u00abMarie Dessembre\u00bb estreada a 12 de dezembro de 1981 no Grand March\u00e9 em Saint-Denis por Emmanuel Genvrin e o Teatro Vollard teve, e com raz\u00e3o, um impacto significativo. O trabalho realizado pelo escultor Marco Ah-Kiem sobre o tema da escravatura \u00e9 outro bom exemplo. Seja a est\u00e1tua de Madame Desbassayns, que est\u00e1 no jardim do Museu Vill\u00e8le em Saint-Paul, ou a do escravo Mario no local da Virgem Negra<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4612468574119615\" aria-label=\"A est\u00e1tua deste lugar importante de peregrina\u00e7\u00e3o deve a sua cor apenas a uma camada de tinta que foi colocada para proteg\u00ea-la, mas o apego a esta Virgem Negra mostra a forte necessidade relacionada com as mem\u00f3rias dilaceradas da escravatura.\">&nbsp;<\/span> em Sainte-Marie, este artista participa na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da mem\u00f3ria da ilha atrav\u00e9s das suas obras<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8816457176738202\" aria-label=\"Podemos encontrar no site da Academia da Ilha da Reuni\u00e3o (www.leboucan.fr), v\u00eddeos com fins educativos em que Marco Ah-Kiem explica v\u00e1rias das suas esculturas.\">&nbsp;<\/span>. Baseada na lenda do escravo Mario<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5446963465810952\" aria-label=\"Reza a lenda que um jovem escravo da propriedade de Charles Desbassayns, na Rivi\u00e8re des Pluies, fugiu e, refugiando-se sob uma buganv\u00edlia, protegeu-se sob uma pequena estatueta de madeira da Virgem que tinha esculpido. Foi assim que teria conseguido escapar aos ca\u00e7adores negros.\">&nbsp;<\/span>, a est\u00e1tua encomendada pela associa\u00e7\u00e3o<em> Racine et basalte<\/em>, no \u00e2mbito do cent\u00e9simo quinquag\u00e9simo anivers\u00e1rio em 1998, tornou-se mesmo um objeto de devo\u00e7\u00e3o, um verdadeiro intermedi\u00e1rio entre a popula\u00e7\u00e3o e a Virgem.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3645\" aria-describedby=\"caption-attachment-3645\" style=\"width: 433px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Mario-et-le-vierge-noire-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3645 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Mario-et-le-vierge-noire-1.jpg\" alt=\"\" width=\"433\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Mario-et-le-vierge-noire-1.jpg 433w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Mario-et-le-vierge-noire-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3645\" class=\"wp-caption-text\">O escravo Mario e a Virgem negra. Marco Ah-Kiem. 2008. Escultura de basalto.<br \/>Fotografia de Ibrahim Mullin. Todos os direitos reservados.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A est\u00e1tua intitulada \u00aba carregadora de \u00e1gua\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8566577071744774\" aria-label=\"Instalado na rotunda da ponte da Rivi\u00e8re des Pluies, em Saint-Denis. A g\u00e9nese desta est\u00e1tua \u00e9 explicada por Marco Ah-Kiem neste v\u00eddeo.\">&nbsp;<\/span> tamb\u00e9m \u00e9 testemunho das singularidades do uso da mem\u00f3ria. Realizada por Marco Ah-Kiem, em mem\u00f3ria da sua m\u00e3e que tinha de ir buscar \u00e1gua com um balde para utilizar no dia-a-dia, foi comprada pelo munic\u00edpio de Saint-Denis devido ao facto de remeter para a escravatura. Por fim, o pr\u00f3prio escultor foi questionado por uma pessoa cuja casa se encontra junto ao local da instala\u00e7\u00e3o porque, apesar de achar a escultura magn\u00edfica, n\u00e3o teria aceitado que se tratasse de uma refer\u00eancia ao per\u00edodo da escravatura! O escultor, por sua vez, garantiu n\u00e3o ser esse o caso, uma vez que se tratava do trabalho di\u00e1rio efetuado pela sua m\u00e3e&#8230; De qualquer forma, a visita da exposi\u00e7\u00e3o de esculturas de Marco Ah-Kiem permite compreender como a escravatura pode inspirar um artista da<br \/>\nReuni\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.39274119821382847\" aria-label=\"Gr\u00e9gory Ah-Kiem, Jean-Fran\u00e7ois Samlong, Les Portes de la m\u00e9moire, St-Denis, UDIR, 2011. \">&nbsp;<\/span>. A m\u00fasica \u00e9 outro campo art\u00edstico que tamb\u00e9m pode servir de apoio aos professores<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0772257439380255\" aria-label=\"Jean-Pierre La Selve, Musiques traditionnelles de La R\u00e9union, St-Denis, Kreolart, 2015.\">&nbsp;<\/span>, os textos de Davy Sicard podem, al\u00e9m disso, constituir um suporte pedag\u00f3gico. Um exemplo \u00e9 \u00abMarianne\u00bb, uma can\u00e7\u00e3o em que o autor frisa o seu orgulho em deixar-se inspirar tanto pela mem\u00f3ria da Marianne republicana como pela escrava rebelde Marianne<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4732906938267003\" aria-label=\"Can\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum Mon p\u00e9i, 2012.\">&nbsp;<\/span>. A dificuldade reside, numa abordagem cr\u00edtica que caracteriza a hist\u00f3ria, no facto de n\u00e3o ser involuntariamente transmissor de ideias pr\u00e9-concebidas atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de todas as formas de express\u00e3o art\u00edsticas baseadas nas mem\u00f3rias da escravatura.<\/p>\n<h3>\u00a0O professor e a esfera pol\u00edtica<\/h3>\n<p>O trabalho da Escola tamb\u00e9m se insere numa esfera pol\u00edtica onde o dever da mem\u00f3ria se tornou imperativo. Como representantes do Estado republicano, os professores s\u00e3o envolvidos neste dever de mem\u00f3ria concebido como a vontade de recordar a fim de construir uma sociedade democr\u00e1tica baseada nos princ\u00edpios da inclus\u00e3o e da toler\u00e2ncia. A a\u00e7\u00e3o do Estado foi afirmada em 2001 atrav\u00e9s do reconhecimento do tr\u00e1fico de escravos e da escravatura, praticados pelos europeus, como um crime contra a Humanidade. A primeira consequ\u00eancia direta desta lei foi a nomea\u00e7\u00e3o de um Comit\u00e9 para a Mem\u00f3ria da Escravatura (CPME) em 2004, com a miss\u00e3o de propor medidas destinadas a restabelecer o tema na hist\u00f3ria nacional.<\/p>\n<figure id=\"attachment_778\" aria-describedby=\"caption-attachment-778\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/habitation_web_16.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-778 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/habitation_web_16.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"813\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/habitation_web_16.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/habitation_web_16-295x300.jpg 295w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/habitation_web_16-768x780.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-778\" class=\"wp-caption-text\">Escravos. Mohamedi Wasia Charinda. 1998. Pintura a laca.<br \/>cole\u00e7\u00e3o Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>O trabalho do Comit\u00e9 marcou um ponto de viragem no ensino, como mostram os programas do terceiro ciclo do ensino b\u00e1sico reescritos em 2010. Como consequ\u00eancia concreta destes avan\u00e7os, desde 2006 no ensino do ultramar franc\u00eas h\u00e1 agora duas datas para a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Na Ilha da Reuni\u00e3o, o dia 20 de dezembro, que j\u00e1 \u00e9 objeto de v\u00e1rias atividades pedag\u00f3gicas, foi destacado em 2011 pelo concurso acad\u00e9mico \u00abTr\u00e1fico, escravatura, aboli\u00e7\u00e3o\u00bb, que se integrou em 2016 no concurso nacional \u00abA Chama da Igualdade\u00bb levada a cabo pelo Comit\u00e9 Nacional para a Mem\u00f3ria e a Hist\u00f3ria da Escravatura (CNMHE) que veio assegurar a continuidade do CPME<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.02839700951689128\" aria-label=\"http:\/\/www.cnmhe.fr\">&nbsp;<\/span>. As duas datas enriquecem, sem entrarem em concorr\u00eancia entre elas, o potencial do trabalho pedag\u00f3gico: a data que pertence \u00e0 hist\u00f3ria da Reuni\u00e3o \u00e9 o dia 20 de dezembro, ao passo que o dia 10 de maio permite abrir o olhar a outros espa\u00e7os que tamb\u00e9m foram marcados pela escravatura colonial. Os Antilhanos est\u00e3o muito pouco cientes da hist\u00f3ria da escravatura no Oceano \u00cdndico, mas ser\u00e1 que os habitantes da Reuni\u00e3o conhecem a hist\u00f3ria de Cyrille Bissette ou Louis Delgr\u00e8s?<\/p>\n<p>A escolha pol\u00edtica de reafirmar, a n\u00edvel nacional, o tema da educa\u00e7\u00e3o revela, no entanto, o lugar menor dado ao Oceano \u00cdndico. Na verdade, nas edi\u00e7\u00f5es de 2011, todos os manuais escolares do terceiro ciclo do ensino b\u00e1sico dedicam cerca de dez p\u00e1ginas ao tema, mas nenhum proporciona uma documenta\u00e7\u00e3o relacionada com esse espa\u00e7o. Assim, todos os alunos da Fran\u00e7a podem compreender que a escravatura tem um lugar importante na hist\u00f3ria da Fran\u00e7a, descobrindo, ao mesmo tempo uma documenta\u00e7\u00e3o que associa a quest\u00e3o ao espa\u00e7o caribenho, do mesmo modo que os jovens das Antilhas e da Guiana podem identificar-se com esses manuais escolares. Contudo os alunos da Ilha da Reuni\u00e3o n\u00e3o encontram em lado nenhum a evoca\u00e7\u00e3o do seu territ\u00f3rio, apesar de todos os manuais escolares oferecerem um mapa do tr\u00e1fico de escravos com setas que tamb\u00e9m apontam para o Oceano \u00cdndico&#8230; A deputada da Reuni\u00e3o Huguette Bello decidiu intervir, questionando o ministro da Educa\u00e7\u00e3o em 30 de maio de 2011<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2810783654643618\" aria-label=\"\u00ab L\u2019esclavage \u00e0 La R\u00e9union oubli\u00e9 dans les manuels scolaires \u00bb, Journal de l\u2019\u00eele, 3 de junho de 2011.\">&nbsp;<\/span>. N\u00e3o seria complicado falar do com\u00e9rcio transoce\u00e2nico de escravos em vez de transatl\u00e2ntico, mas sem d\u00favida que esta mudan\u00e7a \u00e9 dif\u00edcil de efetuar devido ao peso que as Cara\u00edbas representam nas mem\u00f3rias da escravatura em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi, ali\u00e1s, em Guadalupe que o Estado decidiu abrir, em maio de 2015, um Centro caribenho sobre o Tr\u00e1fico e a Mem\u00f3ria do Tr\u00e1fico de Escravos e da Escravatura. Atrav\u00e9s do tratamento da escravatura na sua totalidade, desde a antiguidade at\u00e9 aos dias de hoje, o Memorial ACTe destaca as resist\u00eancias \u00e0 escravatura e \u00e0 rota dos escravos com a assun\u00e7\u00e3o, para atrair o p\u00fablico em geral, de uma encena\u00e7\u00e3o onde \u00aba emo\u00e7\u00e3o ganha vantagem sobre a hist\u00f3ria\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.19262754196515175\" aria-label=\"\u00ab Cinq choses \u00e0 savoir sur le M\u00e9morial ACTe, en Guadeloupe \u00bb, lemonde.fr de 10 de maio de 2015, atualizado a 12 de maio de 2015.\">&nbsp;<\/span>. Al\u00e9m disso, pretende ser um centro de express\u00e3o cultural e art\u00edstica contempor\u00e2nea. Embora possa parecer necess\u00e1rio instaurar em cada territ\u00f3rio ultramarino centros de investiga\u00e7\u00e3o din\u00e2micos sobre o assunto, constatamos que, ao contr\u00e1rio da Inglaterra, a Fran\u00e7a n\u00e3o optou por ancorar no seu territ\u00f3rio continental um museu e um espa\u00e7o de investiga\u00e7\u00e3o da magnitude do que pode ser encontrado, por exemplo, em Liverpool<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5081303627309066\" aria-label=\"http:\/\/www.liverpoolmuseums.org.uk\/ism\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do pr\u00f3prio Estado, os partidos pol\u00edticos desempenham, naturalmente, um papel nesta quest\u00e3o. Na Reuni\u00e3o, o reconhecimento da escravatura tem vindo a ser fomentado pelos comunistas desde 1945, com um car\u00e1ter acentuado a partir de 1959. O bloqueio da autonomia democr\u00e1tica e popular defendida pelo PCR levou os seus opositores a evitarem mencionar o assunto. A instaura\u00e7\u00e3o do dia 10 de maio em Fran\u00e7a continental, a partir de 2006, tamb\u00e9m deu origem a controv\u00e9rsias relacionadas com a quest\u00e3o identit\u00e1ria. Por ocasi\u00e3o do dia 10 de maio de 2014, o presidente da c\u00e2mara de Villers-Cotter\u00eats \u2013 afiliado ao partido de extrema direita Front National \u2013 recusou-se, por exemplo, a organizar uma manifesta\u00e7\u00e3o oficial, em que denunciava uma \u00abpermanente mea culpa\u00bb. Se nos anos 60 descobrimos que n\u00e3o fal\u00e1vamos o suficiente sobre o assunto, cinquenta anos depois, falar\u00edamos demasiado sobre ele. A vontade de n\u00e3o permitir que a comemora\u00e7\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura se desenvolvesse correspondia, de facto, a um per\u00edodo em que o Estado republicano tinha feito a escolha de construir a na\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da omiss\u00e3o das partes mais sombrias da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, ocultando assim certas mem\u00f3rias. A descentraliza\u00e7\u00e3o, levada a cabo desde a d\u00e9cada de 1980, com a profus\u00e3o cultural dela resultante, permitiu romper com esta atitude, acompanhada, por\u00e9m, paralelamente, de um aumento consider\u00e1vel das reivindica\u00e7\u00f5es vitim\u00e1rias que v\u00eam acrescer as controv\u00e9rsias sobre a identidade nacional<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6505744072131936\" aria-label=\"Vincent Martigny, Dire la France. Culture(s) et identit\u00e9s nationales (1981-1995), Paris, Les Presses de SciencesPo, 2016.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3647\" aria-describedby=\"caption-attachment-3647\" style=\"width: 1253px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1984.07.04.27-Danse-des-noirs-le-s\u00e9ga-au-bord-de-la-mer.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3647 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1984.07.04.27-Danse-des-noirs-le-s\u00e9ga-au-bord-de-la-mer.jpg\" alt=\"\" width=\"1253\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1984.07.04.27-Danse-des-noirs-le-s\u00e9ga-au-bord-de-la-mer.jpg 1253w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1984.07.04.27-Danse-des-noirs-le-s\u00e9ga-au-bord-de-la-mer-300x192.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1984.07.04.27-Danse-des-noirs-le-s\u00e9ga-au-bord-de-la-mer-768x490.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1984.07.04.27-Danse-des-noirs-le-s\u00e9ga-au-bord-de-la-mer-1024x654.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3647\" class=\"wp-caption-text\">A S\u00e9ga, Dan\u00e7a dos Negros \u00e0 beira-mar (em St. Denis). Louis Antoine Roussin. 1860. Litografia.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>No panorama internacional, esta quest\u00e3o \u00e9 defendida pela UNESCO que, em 1994, em Uid\u00e1, no Benim, iniciou o projeto \u00abA Rota do Escravo: resist\u00eancia, liberdade, patrim\u00f3nio\u00bb. Este trabalho sobre diversos lugares de mem\u00f3ria, leva por vezes a discursos mais mitol\u00f3gicos do que hist\u00f3ricos, como \u00e9 o caso da Casa dos Escravos na Goreia<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.466568866695968\" aria-label=\"Gilles Gauvin, \u00ab Tous les esclaves africains ont \u00e9t\u00e9 d\u00e9port\u00e9s \u00e0 partir de Gor\u00e9e \u00bb, em L\u2019esclavage. Id\u00e9es re\u00e7ues Op. cit. pp. 41-47.\">&nbsp;<\/span>. No entanto, h\u00e1 que reconhecer que \u00e9 tamb\u00e9m gra\u00e7as \u00e0 encena\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria que se pode estabelecer o di\u00e1logo intercultural e que a hist\u00f3ria pode retomar o seu lugar. A UNESCO foi tamb\u00e9m um apoio \u00e0 Ilha da Reuni\u00e3o ao classificar o Maloya como patrim\u00f3nio imaterial da humanidade em 2009. Este reconhecimento, apoiado politicamente pelo Conselho Regional da Reuni\u00e3o presidido na altura pelo comunista Paul Verg\u00e8s, foi impulsionado pela a\u00e7\u00e3o do acad\u00e9mico da Reuni\u00e3o Sud Fumael, diretor da cadeira universit\u00e1ria UNESCO sobre a Escravatura e o Com\u00e9rcio de Escravos no Oceano \u00cdndico. Este \u00faltimo fomentou, a partir de 2004, uma rota do escravo e do trabalhador contratado no Oceano \u00cdndico cujo objetivo era, segundo as suas palavras, desenvolver \u00abuma terap\u00eautica da mem\u00f3ria para servir uma identidade crioula indoce\u00e2nica\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8755240388911132\" aria-label=\"Sudel Fuma defende este termo indoce\u00e2nico em vez de Indianoce\u00e2nico. https:\/\/oceanindien.revues.org\/1937. \">&nbsp;<\/span>. De acordo com a sua abordagem, a mem\u00f3ria constitui um intermedi\u00e1rio que permite, com o apoio de marcos hist\u00f3ricos, alcan\u00e7ar um projeto pol\u00edtico baseado na no\u00e7\u00e3o de identidade. Nesse sentido, usou a hist\u00f3ria ao servi\u00e7o de um objetivo: o reconhecimento do povo da Reuni\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3651\" aria-describedby=\"caption-attachment-3651\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_7095b-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3651 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_7095b-1.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_7095b-1.jpg 650w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_7095b-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3651\" class=\"wp-caption-text\">Est\u00e1tuas da Rota dos Escravos. C. Rabemanjara; Dolaine Courtis Fuma. 2005. Escultura.<br \/>Fotografia de Ibrahim Mullin. Todos os direitos reservados<\/figcaption><\/figure>\n<h3>O professor e a esfera cient\u00edfica<\/h3>\n<p>A hist\u00f3ria pertence ao campo das ci\u00eancias humanas. Neste sentido, \u00e9 uma pr\u00e1tica cient\u00edfica que segue um m\u00e9todo de an\u00e1lise cr\u00edtica, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma pr\u00e1tica social que faz parte de uma determinada sociedade e cujos paradigmas evoluem. A n\u00edvel nacional, a quest\u00e3o da escravatura e do tr\u00e1fico de escravos tornou-se parte do debate que divide a comunidade hist\u00f3rica entre aqueles que, em torno do coletivo <em>Libert\u00e9 pour l\u2019histoire<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4288768754550265\" aria-label=\"O seu nome vem da peti\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada em dezembro de 2015 por 19 historiadores reunidos em torno de Pierre Vidal-Naquet.\">&nbsp;<\/span>(Liberdade para a Hist\u00f3ria), a partir de dezembro de 2005, acreditam que as leis \u00abmemoriais\u00bb constituem obst\u00e1culos \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e aqueles que, pelo contr\u00e1rio, acreditam que sem uma vontade pol\u00edtica forte a investiga\u00e7\u00e3o nunca tratar\u00e1 uma s\u00e9rie de assuntos relacionados com as \u00abp\u00e1ginas sombrias\u00bb da hist\u00f3ria. O resultado destas controv\u00e9rsias medi\u00e1ticas entre historiadores de renome n\u00e3o veio ajudar o professor na constru\u00e7\u00e3o do seu trabalho.<\/p>\n<p>Na Ilha da Reuni\u00e3o, o Professor Hubert Gerbeau <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9393179886046297\" aria-label=\"Na Reuni\u00e3o, foi Vice-Presidente, at\u00e9 1980, da universidade da Reuni\u00e3o e introduziu o estudo da hist\u00f3ria local nos programas. De seguida, foi nomeado para o IEP de Aix-Marseille, onde dirigiu, de 1985 a 2002, o Centro de Estudos e Investiga\u00e7\u00e3o em Sociedades do Oceano \u00cdndico. Obteve o primeiro pr\u00e9mio de tese do CPME em 2005 pela sua tese L\u2019esclavage et son ombre \u00e0 Bourbon.\">&nbsp;<\/span>, que chegou \u00e0 ilha em 1968, desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento da investiga\u00e7\u00e3o sobre a escravatura. Foi ele que formou Sudel Fuma e Prosper Eve, que foram os dois principais acad\u00e9micos que se debru\u00e7aram sobre o tema desde a d\u00e9cada de 1980 at\u00e9 \u00e0 primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. Houve pol\u00e9micas, como as que est\u00e3o ligadas \u00e0 abordagem proposta pela polit\u00f3loga Fran\u00e7oise Verg\u00e8s<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.02335923878830415\" aria-label=\"Presidiu o CPME a partir de 2008, posteriormente o CPMHE (2009-2013) e esteve \u00e0 frente do MCUR at\u00e9 \u00e0 mudan\u00e7a da maioria regional em 2010, o que marcou o fim do projeto.\">&nbsp;<\/span> atrav\u00e9s do projeto Maison des Civilisations et de l&#8217;Unit\u00e9 R\u00e9unionnaise(MCUR), ou com a sucess\u00e3o de Sudel Fuma, que morreu em 2014, o que levou a um confronto judici\u00e1rio entre acad\u00e9micos locais e da metr\u00f3pole<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0833225266928539\" aria-label=\"A substitui\u00e7\u00e3o de Sudel Fuma \u00e9 alvo de pol\u00e9micas violentas e at\u00e9 de um recurso no tribunal administrativo entre um candidato local e um candidato da universidade de Nantes.\">&nbsp;<\/span>. Apesar disso, existem muitas produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ligadas, em particular, ao dia tem\u00e1tico organizado durante a semana da hist\u00f3ria pela AHIOI<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.29214748209061314\" aria-label=\"http:\/\/www.ahioi.org\">&nbsp;<\/span>. Tamb\u00e9m outros centros universit\u00e1rios realizaram novas pesquisas, como o trabalho realizado na literatura por Marie-Ange Payet sobre as mulheres no <em>marronnage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.369847047600965\" aria-label=\"Marie-Ange Payet, Les femmes dans le marronnage \u00e0 l\u2019\u00eele La R\u00e9union de 1662 \u00e0 1848, Paris, L\u2019Harmattan, 2013.\">&nbsp;<\/span>, o trabalho efetuado em hist\u00f3ria por Bruno Maillard sobre as<em> Palavras dos escravos<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.584274354399599\" aria-label=\"Bruno Maillard, Gilda Gonfier, Fr\u00e9d\u00e9ric R\u00e9gent, Libre et sans fers. Paroles d\u2019esclaves, Paris, Fayard, 2015.\">&nbsp;<\/span> ou por Anne-Laure Dijoux no campo da arqueologia, onde ainda resta muito por fazer<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8783309886414747\" aria-label=\"Anne-Laure Dijoux, Recherche et \u00e9tude de sites arch\u00e9ologiques de marronage \u00e0 l\u2019\u00eele de La R\u00e9union, Tese de Doutoramento, Paris 1, 2016.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros trabalhos que permitem que os professores enrique\u00e7am os seus recursos. Foi neste contexto que o trabalho de escrut\u00ednio das atas de alforria levou a uma not\u00e1vel exposi\u00e7\u00e3o, denominada<em> Les noms de la libert\u00e9<\/em> (Os Nomes da Liberdade), apresentada nos arquivos departamentais de 2013 a 2015 e acompanhada por um dossier pedag\u00f3gico<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6657903980253075\" aria-label=\"Ficheiro online sobre o servi\u00e7o educativo dos Arquivos departamentais.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3653\" aria-describedby=\"caption-attachment-3653\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/noms-liberte.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-3653 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/noms-liberte.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"615\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/noms-liberte.jpg 450w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/noms-liberte-220x300.jpg 220w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3653\" class=\"wp-caption-text\">Cartaz da exposi\u00e7\u00e3o <em>Os nomes da liberdade, 1664-1848: do escravo ao cidad\u00e3o<\/em>.<br \/>Saint-Denis, Arquivos departamentais da Reuni\u00e3o, 14 de dezembro de 2013 &#8211; 13 de julho de 2016<\/figcaption><\/figure>\n<p>Muitas produ\u00e7\u00f5es com fins educativos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44946915237872087\" aria-label=\"Ver por exemplo CCEE, De la servitude \u00e0 la libert\u00e9 : Bourbon des origines \u00e0 1848, Regi\u00e3o da Reuni\u00e3o, 1988.\">&nbsp;<\/span>tiveram lugar aquando do 140.\u00b0 anivers\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o, em 1988, ou no 150.\u00b0 anivers\u00e1rio, em 1998<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.37117282042902766\" aria-label=\"Alberto Jauze, Esclave, esclavage, soci\u00e9t\u00e9. Facettes multiples d\u2019un syst\u00e8me fond\u00e9 sur l\u2019esclavage (Des origines \u00e0 l\u2019abolition de 1848), St-Denis, CRDP, 1998. Este trabalho foi revisto e colocado on-line desde 2016 no site dos arquivos departamentais.\">&nbsp;<\/span>, e depois com a publica\u00e7\u00e3o a partir de 2001 de livros de hist\u00f3ria local<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.0029478146252686077\" aria-label=\"Cole\u00e7\u00e3o Hatier International. 2\u00b0 e 3\u00b0 ciclos do ensino b\u00e1sico publicado em 2001 e 2002 respetivamente, ensino secund\u00e1rio em 2003 e 1\u00b0 ciclo do ensino b\u00e1sico publicado em 2006.\">&nbsp;<\/span>. H\u00e1 tamb\u00e9m exposi\u00e7\u00f5es sobre a tem\u00e1tica disponibilizada pela Biblioteca Departamental de Reuni\u00e3o. A prolifera\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es editoriais relacionadas com a instaura\u00e7\u00e3o do dia de 10 de maio resultou em publica\u00e7\u00f5es que permitem abordar a quest\u00e3o no contexto da Reuni\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.48801888586173203\" aria-label=\"Durante muito tempo, os \u00fanicos suportes foram os romances de Daniel Vaxelaire, Chasseurs de Noirs reeditado desde 1982 e En haut la libert\u00e9 publicado desde 1999. Outros surgiram desde ent\u00e3o, mesmo em banda desenhada: Laetitia Larralde, Gilles Gauvin, Tambour battant, Fran\u00e7a, Orphie, 2010-2011 (o primeiro volume gira em torno da primeira aboli\u00e7\u00e3o de 1794 e o segundo volume \u00e9 dedicado \u00e0 revolta de St-Leu em 1811) ou ainda Denis Vierge, Un marron, B\u00e9lgica, Des bulles dans l\u2019oc\u00e9an, 2 volumes, 2014-2015 que trata a quest\u00e3o do marronnage (fuga de escravos). A n\u00edvel regional podemos usar Savoia, Les esclaves oubli\u00e9s de Tromelin, Fran\u00e7a, Dupuis, 2015.\">&nbsp;<\/span>. Por \u00faltimo, a utiliza\u00e7\u00e3o da Internet faculta aos docentes diversos suportes que v\u00e3o desde a investiga\u00e7\u00e3o de universit\u00e1rios ou eruditos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2004577261031344\" aria-label=\"Ver por exemplo trabalho publicado online por Robert Bousquet da sua pesquisas sur Les esclaves et leurs ma\u00eetres \u00e0 Bourbon, au temps de la Compagnie des Indes. 1665-1767.\">&nbsp;<\/span> at\u00e9 produ\u00e7\u00f5es em memoriais comprometidas com o tema. A quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o inicial, mas ainda mais da forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos professores sobre o assunto est\u00e1, portanto, no centro dos debates, bem como a adapta\u00e7\u00e3o dos programas oficiais locais.<\/p>\n<p>O papel do professor \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, levar os alunos, ao longo do seu percurso escolar, para o dom\u00ednio de um conhecimento ao qual se deve acrescentar um olhar cr\u00edtico, mais baseado no questionamento e na d\u00favida do que na apresenta\u00e7\u00e3o de respostas \u00abacad\u00e9micas\u00bb. Tudo isto est\u00e1 inserido numa abordagem de investiga\u00e7\u00e3o e projeto que permite tornar o aluno um ator do seu conhecimento. Ao contr\u00e1rio do universit\u00e1rio, o professor n\u00e3o tem \u00e0 sua frente um p\u00fablico destinado a tornar-se professor de Hist\u00f3ria ou historiador. A grande maioria destes jovens continuar\u00e1 submetida a imagens, ideias preconcebidas e press\u00f5es sociais e pol\u00edticas que muitas vezes reproduzem os mesmos comportamentos irracionais. A hist\u00f3ria, tal como \u00e9 ensinada nas escolas prim\u00e1rias e secund\u00e1rias, deve ent\u00e3o contribuir para a forma\u00e7\u00e3o de futuros cidad\u00e3os capazes de compreender que a realidade hist\u00f3rica \u00e9 de uma complexidade muito maior do que os discursos transmitidos pela mem\u00f3ria familiar, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social ou pelo mundo pol\u00edtico, quer se trate de escravatura ou de outras quest\u00f5es vivas.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9323,"parent":5044,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6609","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}