{"id":6799,"date":"2021-11-15T12:37:41","date_gmt":"2021-11-15T11:37:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6799"},"modified":"2023-06-07T06:54:49","modified_gmt":"2023-06-07T04:54:49","slug":"o-trafico-e-a-escravatura-o-oceano-indicoa-questao-memorial-nos-artistas-contemporaneos-da-reuniao","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/expressoes-artisticas\/o-trafico-e-a-escravatura-o-oceano-indicoa-questao-memorial-nos-artistas-contemporaneos-da-reuniao\/","title":{"rendered":"O tr\u00e1fico e a escravatura o Oceano \u00cdndico:<br\/>a quest\u00e3o memorial nos artistas contempor\u00e2neos da Reuni\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>Na Reuni\u00e3o, a \u00e9poca colonial n\u00e3o permitiu a emerg\u00eancia de objetos e universos art\u00edsticos dos povos servis na esfera p\u00fablica. Na zona de contacto das m\u00faltiplas express\u00f5es culturais, s\u00f3 tinha direito de cidade a da elite burguesa, desafogada e instru\u00edda, agrupada em sociedades eruditas.<\/h2>\n<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-6799-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/poster_de-bollivier.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Patricia-De-Bollivier_PORT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Patricia-De-Bollivier_PORT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Patricia-De-Bollivier_PORT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>E, embora beneficiassem de uma relativa toler\u00e2ncia quanto \u00e0 pr\u00e1tica dos seus cultos, as comunidades indianas e chinesas n\u00e3o tinham acesso ao reconhecimento e \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o \u00abart\u00edstica\u00bb. O discurso intelectual dominante estava ao servi\u00e7o do poder da Fran\u00e7a e da \u00abciviliza\u00e7\u00e3o de varanda\u00bb, a saber, a dos grandes propriet\u00e1rios rurais, cheia de ambi\u00e7\u00f5es imperiais da metr\u00f3pole<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8187661314600873\" aria-label=\" P. de Bollivier, \u00ab Art contemporain r\u00e9unionnais, art contemporain \u00e0 La R\u00e9union. Construction locale de l'identit\u00e9 et universalisme en art en situation post-coloniale \u00bb, Escola Superior de Ci\u00eancias Sociais, S\/d Jacques Leenhardt, 2005, p. 99.\">&nbsp;<\/span>. S\u00f3 entravam na hist\u00f3ria das artes visuais objetos art\u00edsticos que se inscrevessem na tradi\u00e7\u00e3o da cultura dominante. Como escreve C.A. C\u00e9lius, a inferioriza\u00e7\u00e3o e a desumaniza\u00e7\u00e3o do escravo \u00abimplicam uma nega\u00e7\u00e3o da sua capacidade de criar e uma oculta\u00e7\u00e3o das suas pr\u00e1ticas de cria\u00e7\u00e3o\u00bb\u2026 \u00abO ser sem \u201carte\u201d \u00e9 uma das componentes da figura que o senhor constr\u00f3i do escravo. Essa imagem impregna profundamente a hist\u00f3ria da arte e da est\u00e9tica\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.940166991063571\" aria-label=\" C.A.C\u00e9lius, \u00ab Cr\u00e9ation plastique, traites et esclavages \u00bb, Cadernos dos anais da mem\u00f3ria, n\u00b012, Nantes, 2009, p. 14,15.\">&nbsp;<\/span>. A heran\u00e7a coletiva da sociedade da Reuni\u00e3o tamb\u00e9m integrou poucos objetos de arte e de culto das comunidades servis. \u00c9, ent\u00e3o, com uma dupla aus\u00eancia (de palavras e tra\u00e7os) que os artistas contempor\u00e2neos devem compor, ao abordar a quest\u00e3o memorial do tr\u00e1fico e da escravatura.<\/p>\n<p>\u00abM\u00e9mwar : couler Kr\u00e9ol\u00bb (Mem\u00f3ria: cor crioula), \u00abLes arts d\u00e9cha\u00een\u00e9s\u00bb (As artes desacorrentadas)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.001903618442017696\" aria-label=\"Exposi\u00e7\u00e3o em Jeumon, por ocasi\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o de 20 de dezembro de 1991, organizada pelas associa\u00e7\u00f5es \u00abB\u00e2tissage\u00bb e \u00abLoukanou\u00bb. Aristas apresentados: Jack Beng-Thi, Antoine du Vignaux, Fran\u00e7ois Giraud, Eric Pong\u00e9rard, Wilhiam Zitte e Laurent Segelstein.\">&nbsp;<\/span>, \u00abLes bouts de bois Hurlants \/ au fil de la m\u00e9moire\u00bb (As farpas que gritam\/o fio da mem\u00f3ria), \u00abL\u2019Abolitoire\u00bb (O abolit\u00f3rio)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7208237963925038\" aria-label=\"\u00abO abolit\u00f3rio: m\u00e1quina de fabricar liberdade\u00bb. Exposi\u00e7\u00e3o de Alain Padeau por ocasi\u00e3o do 20 de dezembro de 1992 no Museu Stella Matutina em Saint-Leu.\">&nbsp;<\/span>, \u00abF\u00eat Kaf T\u00eat Kaf Ombline Maloya\u00bb (Festa dos negros, cabe\u00e7as dos negros, Ombline Maloya)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.011738707406095172\" aria-label=\"Exposi\u00e7\u00e3o de Wilhiam Zitte e Antoine du VIGNAUX por ocasi\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o de 20 de dezembro de 1991 no Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le.\">&nbsp;<\/span>,\u00abKaf an tol\u00bb (Negro na pris\u00e3o)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5661744290937427\" aria-label=\"Exposi\u00e7\u00e3o de Wilhiam Zitte no Gabinete do Departamento da Cultura, em 1994.\">&nbsp;<\/span>, \u00abChambre Noire, chants obscurs\u00bb (Quarto escuro, cantos obscuros)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8804036605955126\" aria-label=\"Exposi\u00e7\u00e3o de fotografias antropom\u00e9tricas de D\u00e9sir\u00e9 Charnay (s\u00e9culo XIX), organizada por Sudel Fuma e Wilhiam Zitte no Pal\u00e1cio Rontaunay em 1995 em Saint-Denis.\">&nbsp;<\/span>, \u00abBwad\u00e9b\u00e8ne\u00bb (\u00c9bano)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9665467878068064\" aria-label=\"Estas duas exposi\u00e7\u00f5es foram realizadas por Wilhiam Zitte na Artoteca em 1997 e 1998.\">&nbsp;<\/span>, \u00abRegards crois\u00e9s sur l\u2019esclavage\u00bb (Vis\u00f5es cruzadas da escravatura)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8987519941785779\" aria-label=\"Exposi\u00e7\u00e3o apresentada no Museu L\u00e9on Dierx em 1999.\">&nbsp;<\/span>, \u00abAboli, pas aboli l\u2019esclavage\u00bb (Escravatura abolida ou n\u00e3o abolida)<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7606286484459085\" aria-label=\"Exposi\u00e7\u00e3o de mail art, comissariado: Wilhiam Zitte, Julien Blaine, Andr\u00e9 Robert, Artoteca do Departamento da Reuni\u00e3o 1998, Ventabren Centro de Arte Contempor\u00e2nea. 1999.\">&nbsp;<\/span>, as encomendas p\u00fablicas realizadas por altura dos anivers\u00e1rios da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.523235137384138\" aria-label=\"Por exemplo: em 1989, \u00abO sonho do escravo adormecido\u00bb, conjunto de esculturas, basalto, Gilbert Clain, Piton Rouge. As encomendas do 150.\u00ba anivers\u00e1rio em diversas comunas da ilha em 1998\u2026\">&nbsp;<\/span> \u2026 tantas exposi\u00e7\u00f5es que testemunham o verdadeiro abalo que se operou ao longo dos anos 1990, com o aparecimento, na esfera p\u00fablica, de exposi\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es com abordagens mais profundas ou superficiais \u00e0 escravatura: uma profus\u00e3o que torna ainda mais eloquente o sil\u00eancio generalizado at\u00e9 ent\u00e3o dominante em torno desse doloroso epis\u00f3dio da hist\u00f3ria. Esse despertar est\u00e1 ligado \u00e0 ebuli\u00e7\u00e3o militante que operava na esfera privada desde os anos 70 e que p\u00f4de ir transbordando ao longo dos anos seguintes. A Reuni\u00e3o dos anos 1980 e 1990 viveria uma efervesc\u00eancia cultural muito intensa, impulsionada pela chegada da esquerda ao poder e uma abertura das pol\u00edticas p\u00fablicas relativas \u00e0s quest\u00f5es identit\u00e1rias, em articula\u00e7\u00e3o com um contexto europeu favor\u00e1vel \u00e0 emerg\u00eancia das l\u00ednguas e culturas regionais.<\/p>\n<p>De que maneira se apropriam os artistas pl\u00e1sticos desta quest\u00e3o memorial? Que formas e que linguagem pl\u00e1sticas s\u00e3o ativadas? Que princ\u00edpios est\u00e9ticos? Que posicionamentos pol\u00edticos? A dimens\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica \u00e9 indissoci\u00e1vel da quest\u00e3o memorial do tr\u00e1fico e da escravatura: ela atravessa o conjunto da produ\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica sobre este tema, quer se trate dos esfor\u00e7os dos artistas que fizeram desta quest\u00e3o o epicentro do seu trabalho ou dos esfor\u00e7os dos que o integram na sua produ\u00e7\u00e3o de forma perif\u00e9rica, ou ainda obras surgidas em resposta \u00e0s muitas encomendas feitas nos sucessivos anivers\u00e1rios da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura pelas coletividades a partir dos anos 80. Globalmente, no plano formal, constata-se a exist\u00eancia de um vocabul\u00e1rio pl\u00e1stico de base recorrente nas representa\u00e7\u00f5es (pintura, esculturas): motivos, posturas, figuras gr\u00e1ficas que narram n\u00e3o s\u00f3 a opress\u00e3o e o dom\u00ednio, mais tamb\u00e9m a rebeli\u00e3o, a liberta\u00e7\u00e3o, a evas\u00e3o de cativos com as m\u00e3os presas atr\u00e1s das costas, os esquemas dos pai\u00f3is de navios negreiros, a corrente quebrada, as representa\u00e7\u00f5es de homens e mulheres de p\u00e9, libertados das suas correntes. Al\u00e9m destes elementos caracter\u00edsticos, abre-se um vasto leque de pr\u00e1ticas, onde tanto a transversalidade como a apropria\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas vernaculares ocupam um lugar importante.<\/p>\n<p>Wilhiam Zitte, Jack Beng-Thi e Karl Kugel constru\u00edram os seus esfor\u00e7os art\u00edsticos em torno destas quest\u00f5es da mem\u00f3ria, da resili\u00eancia e da reconstru\u00e7\u00e3o do elo.<\/p>\n<h3>Wilhiam Zitte: tornar vis\u00edvel o invis\u00edvel e inverter os olhares<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.32109362502874916\" aria-label=\"Excerto de um artigo j\u00e1 publicado com o t\u00edtulo \u00abL'art revendicatif et identitaire en situation postcoloniale: le travail de Wilhiam Zitte, plasticien r\u00e9unionnais\u00bb, in L\u2019art contemporain \u00e0 l\u2019\u00e9preuve du lieu, s\/d Dominique Berthet, L\u2019Harmattan, Paris, 2004.\">&nbsp;<\/span><\/h3>\n<p>Artista autodidata, alimentado a enciclop\u00e9dias, ap\u00f3s uma passagem pelo semin\u00e1rio, Wilhiam Zitte tornou-se professor prim\u00e1rio. Foi no ensino, junto de alunos de contextos muito carenciados que experimentou t\u00e9cnicas e materiais \u00abpobres\u00bb (papel de jornal, a\u00e7afr\u00e3o, iogurte, terras trituradas, etc.) que formariam a base da sua produ\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica. Militante pelo reconhecimento da identidade da Reuni\u00e3o, Wilhiam Zitte desenvolveu uma vasta produ\u00e7\u00e3o (pinturas, esculturas, desenhos, <em>stencils<\/em> no espa\u00e7o p\u00fablico, interven\u00e7\u00f5es na paisagem, coletas, textos, produ\u00e7\u00e3o e comissariado de exposi\u00e7\u00f5es, etc.) reunida sob o termo gen\u00e9rico \u00ab<em>arcr\u00e9ologie<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.40299816372117436\" aria-label=\"\u00abArcrioulogia\u00bb, jogo de palavras entre \u00abarqueologia\u00bb e \u00abcrioulo\u00bb (N. da T.)\">&nbsp;<\/span>. \u00abDesbastar os campos baldios ou pouco explorados da mem\u00f3ria <em>marronne<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2133352366958189\" aria-label=\"Ozima in Revue Noire, n.\u00b016, edi\u00e7\u00e3o especial dedicada ao Oceano \u00cdndico, abril-maio 1995, p. 40.\">&nbsp;<\/span>, reabilitar a imagem do Negro, restaurar a hist\u00f3ria da ilha e das componentes menos valorizadas da cultura crioula: o projeto pl\u00e1stico de Wilhiam Zitte n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 eminentemente \u00e9tico e pol\u00edtico, como tamb\u00e9m comporta uma dimens\u00e3o profundamente m\u00edstica e religiosa. O artista pl\u00e1stico percorre os arquivos da ilha, tal como as suas paisagens, em busca de vest\u00edgios da evas\u00e3o e da escravatura, colecionando-os e transformando-os para inventar uma linguagem pl\u00e1stica muito sua. Ele pr\u00f3prio cria os rastos que a hist\u00f3ria apagou.<\/p>\n<h4><strong>Os que observamos, os que nos observam<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.21595298765264093\" aria-label=\" Cf. Georges Didi-Huberman, \u00ab Ce que nous voyons, ce qui nous regarde \u00bb, Les \u00e9d. de Minuit, 1992.\">&nbsp;<\/span><\/strong><\/h4>\n<p>Dos arquivos, no in\u00edcio dos anos 1990, exumou uma s\u00e9rie de fotografias antropom\u00e9tricas datadas de 1863, de D\u00e9sir\u00e9 Charnay<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.747790050177295\" aria-label=\"Claude-Joseph Le D\u00e9sir\u00e9 Charnay, chamado D\u00e9sir\u00e9 Charnay, nascido a 2 de maio de 1828 em Fleurie, falecido a 24 de outubro de 1915, era um explorador, arque\u00f3logo e fot\u00f3grafo franc\u00eas.\">&nbsp;<\/span> \u2014 imagens brutais e perturbadoras que apresentam, qual cat\u00e1logo de taxonomia, \u00abtipos raciais\u00bb simplesmente etiquetados \u00abcafres, malgaxes, mesti\u00e7os, \u00e1rabes, chineses, negros crioulos\u00bb\u2026 Homens, mulheres, crian\u00e7as, de frente, de costas e de perfil. Umas vezes, acorrentados nos p\u00e9s, nus ou seminus perante o olhar do fot\u00f3grafo para \u00absatisfazer as necessidades da ci\u00eancia\u00bb da \u00e9poca. Em colabora\u00e7\u00e3o com o historiador Sudel Fuma e o poeta Carpanin Marimoutou, Wilhiam Zitte realizaria uma exposi\u00e7\u00e3o intitulada \u00abQuarto escuro, cantos obscuros\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.19120948985196817\" aria-label=\"\u00abChambre noire, Chants obscurs\u00bb (C\u00e2mara negra, Cantos obscuros), fotografias antropom\u00e9tricas de D\u00e9sir\u00e9 Charnay, \u00abTypes de la R\u00e9union\u00bb, 1863. Cat\u00e1olog da exposi\u00e7\u00e3o, textos de Sudel Fuma, J.C.C. Marimoutou, Comiss\u00e1rio da exposi\u00e7\u00e3o: Wilhiam Zitte. Conseil G\u00e9n\u00e9ral de la R\u00e9union, nov. 1995.\">&nbsp;<\/span>, mostrando ao p\u00fablico essas fotografias h\u00e1 tanto esquecidas no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Saint-Denis. Acompanhada de uma publica\u00e7\u00e3o, a exposi\u00e7\u00e3o foi apresentada no Museu do Homem, em Paris, e no Pal\u00e1cio Rontaunay, em Saint-Denis, em 1995.<\/p>\n<p>O encontro doloroso e salutar com esses terr\u00edveis clich\u00e9s foi fundador no trabalho de Wilhiam Zitte. Como escreve Jean Arrouye, \u00aba sua est\u00e9tica adv\u00e9m toda da escolha destas imagens e do papel emblem\u00e1tico que o artista lhes atribui\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.09903353573094409\" aria-label=\"Jean Arrouye, Kritik 974, cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o, 1995, pp. 23.\">&nbsp;<\/span>. Por um processo de amplia\u00e7\u00f5es sucessivas das fotografias originais utilizando uma fotocopiadora, ele realizou, nomeadamente, uma s\u00e9rie de retratos em grandes formatos em tela de juta, intitulada \u00abOmbline maloya\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5936056535980858\" aria-label=\"Ombline Panon Desbassayns, grande propriet\u00e1ria de escravos, \u00e9 descrita pela tradi\u00e7\u00e3o escrita como uma pessoa de uma grande generosidade e \u00aba segunda provid\u00eancia\u00bb dos escravos. A tradi\u00e7\u00e3o oral, pelo contr\u00e1rio, veicula a imagem de uma mulher cruel para com os seus escravos cuja alma arde no vulc\u00e3o da Fournaise.\">&nbsp;<\/span> : os rostos obtidos ostentam tra\u00e7os duros e contrastados, que o artista transforma com o seu tratamento pl\u00e1stico. S\u00e3o irreconhec\u00edveis de perto, mas, com algum recuo, recomp\u00f5em-se, como que transfigurados, o olhar resoluto e como que habitado por uma nova presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Estas pinturas foram expostas em 1992 por ocasi\u00e3o das festividades de 20 de Dezembro, em colabora\u00e7\u00e3o com Antoine du Vignaux<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6975609223723438\" aria-label=\"Artista pl\u00e1stico, nascido em 1955 em Casablanca, Marrocos. Vive e trabalha na Reuni\u00e3o desde 1985.\">&nbsp;<\/span>, no \u00e2mbito de um estudo pl\u00e1stico sobre a imagem do Negro num local altamente simb\u00f3lico na Reuni\u00e3o: a propriedade Panon Desbassayns (Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le). Wilhiam Zitte prop\u00f4s uma s\u00e9rie de grandes formatos intitulada \u00abOmbline maloya\u00bb pondo em cena uma galeria de retratos de antepassados que, nesse lugar simb\u00f3lico, assumia, segundo Jean Arrouye, \u00abvalor de regresso dos reprimidos\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.48584961401918836\" aria-label=\"Jean Arrouye, Kritik 974, cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o, 1995, pp. 22-25.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1570\" aria-describedby=\"caption-attachment-1570\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ombline-maloya-affiche-exposition2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1570 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ombline-maloya-affiche-exposition2.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ombline-maloya-affiche-exposition2.jpg 495w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ombline-maloya-affiche-exposition2-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 495px) 100vw, 495px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1570\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o Ombline Maloya: cartaz. 1992.<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Wilhiam Zitte pinta em telas soltas, sem moldura nem caixilho. Velhas telas de juta recuperadas, mas tamb\u00e9m bases de barris, chapas met\u00e1licas enferrujadas, suportes que entram em resson\u00e2ncia com as embalagens das mercadorias que viajariam com os escravos\u2026 Materiais que, segundo o artista, ainda estavam habitados pela \u00abmem\u00f3ria dos que estavam encerrados nos por\u00f5es dos navios negreiros\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5529681893942257\" aria-label=\"Jean Arrouye, id.\">&nbsp;<\/span>: toma-os como testemunhas aleg\u00f3ricas, na aus\u00eancia de qualquer outro vest\u00edgio material, exceto as frias listas de contabilidade dos not\u00e1rios.<\/p>\n<p>Assim nasceram os T\u00eat Kaf [Cabe\u00e7as de negros], que se tornaram emblem\u00e1ticos pelo seu trabalho. Umas vezes, retratos imagin\u00e1rios, outras, de amigos ou delineados a partir de fotografias antigas ou imagens recentes encontradas na imprensa, rapidamente ganhariam valor de ponto de liga\u00e7\u00e3o e s\u00edmbolo. O artista disseminava-os sob a forma de <em>stencils<\/em> n\u00e3o s\u00f3 nos muros, no \u00abblack\u00bb (asfalto), na cidade e na paisagem, mas tamb\u00e9m em jornais, <em>post-its<\/em>, cartazes e autocolantes. Perpetuava esse esfor\u00e7o de contamina\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica com o motivo das personagens desviadas dos esquemas dos por\u00f5es dos navios negreiros: transformava os corpos estendidos e espetados em enfiadas de silhuetas livres, a dan\u00e7ar, que encontramos em telas e tamb\u00e9m impressas ou bordadas em tecidos (camisas, napas\u2026), ou em motivos sobre objetos de design de interior (abat-jours em chapa met\u00e1lica recortada ou em cer\u00e2mica). Na s\u00e9rie \u00abDomoun 97.4\u00bb e \u00abAlfab\u00e9 Domoun\u00bb, o artista explora fotografias de grupos de homens, mulheres, m\u00e3es com filhos, que desvia e coloca lado a lado e transforma em pictogramas: as pequenas silhuetas negras tornam-se um alfabeto, dando lugar a textos criptografados em telas de grande formato com motivos repetitivos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1545\" aria-describedby=\"caption-attachment-1545\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1545 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"746\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz-300x280.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz-768x716.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1545\" class=\"wp-caption-text\">Koz langaz. William Zitte. 1999. Acr\u00edlico sobre tela, est\u00eancil. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Artoteca da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O trabalho de mem\u00f3ria \u00e9 prolongado em 1994 pela exposi\u00e7\u00e3o \u00abKaf an Tol\u00bb, que exibe quatrocentos T\u00e8t Kaf no Gabinete do Departamento da Cultura em Champ-Fleuri<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6180626749988851\" aria-label=\"Com textos de Graziella Leveneur, Riel Debars, Carpanin Marimoutou, Danyel Waro, Izabel Testa.\">&nbsp;<\/span>, e um excerto do livro de ouro do museu do genoc\u00eddio em Pnom-Penh. Quatrocentas \u00abrepresenta\u00e7\u00f5es<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7083126101155015\" aria-label=\"No Littr\u00e9, uma representa\u00e7\u00e3o designa uma figura moldada e pintada que, nos obs\u00e9quios, representava o defunto.\">&nbsp;<\/span>, que lan\u00e7am o seu olhar em in\u00fameras exposi\u00e7\u00f5es e in\u00fameros locais, entre eles, o t\u00fanel de Art\u2019S\u00e9nik, na Ravine des Sables, em 2000, por altura da exposi\u00e7\u00e3o \u00abI rogard pa\u00bb. \u00abTra\u00e7ados epif\u00e2nicos, escreve Colette Pounia: muitas cabe\u00e7as num t\u00fanel, como muitas lampadazinhas acesas \u00e0 nossa mem\u00f3ria fraquejante, pela possibilidade de nela enfrentar o grito abafado. (\u2026) O percurso \u00e9 um encadeamento de trajet\u00f3rias, como nos contos, filia\u00e7\u00f5es com os antepassados e cruzamentos de vis\u00f5es\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5939334815729952\" aria-label=\"Colette Pounia, in \u00abArtcr\u00e9ologie\/arkr\u00e9olozi\u00bb, cat\u00e1logo de exposi\u00e7\u00e3o. Wilhiam Zitte, Galerie Gounod, Reuni\u00e3o, 2006.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h4>A arte, o sagrado e o pol\u00edtico<\/h4>\n<p>As interven\u00e7\u00f5es de Wilhiam Zitte na paisagem s\u00e3o antigas: desde finais dos anos 1980, o artista imp\u00f5e-se a demanda de procurar vest\u00edgios da Hist\u00f3ria e investe no local natural de Piton Rouge, cone vulc\u00e2nico elevando-se a 2 397 metros de altura, antigo ref\u00fagio de <em>marronnage<\/em> (fuga de escravos). O Instituto Nacional das Florestas descobriu a\u00ed plantas de batatas e ossadas. Em 1990, por ocasi\u00e3o do bicenten\u00e1rio da comuna de Saint-Leu, a municipalidade encomendou um conjunto de esculturas a Gilbert Clain<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8781682294044295\" aria-label=\"Escultor natural da Reuni\u00e3o. Ler a seu respeito \u00abSituation de l\u2019art \u201ccontemporain\u201d \u00e0 la R\u00e9union: le cas d\u2019un artiste \u201cHors-normes\u201d\u00bb de P. de Bollivier, in Recherches en Esth\u00e9tique n.\u00b07, \u00abMarge(s) et p\u00e9riph\u00e9rie(s)\u00bb, outubro de 2001, Fort-de-France. diretor da publica\u00e7\u00e3o Dominique Berthet. Diffusion: \u00e9ditions Jean-Michel Place.\">&nbsp;<\/span>, a representar um escravo adormecido e o seu sonho de liberdade. As esculturas foram instaladas na antiga cratera do Piton Rouge. Esse \u00abmemorial aos Negros Fugitivos\u00bb n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no vulc\u00e3o extinto que impera sobre o mar. N\u00e3o muito longe dessa encomenda oficial, Wilhiam Zitte instalou discretamente os seus pr\u00f3prios monumentos: conjuntos de pedras, seixos instalados nas \u00e1rvores, \u00abT\u00e8t Kaf\u00bb grafitados no solo e nos pain\u00e9is do Instituo Nacional das Florestas. O artista fabricou os vest\u00edgios dessa civiliza\u00e7\u00e3o <em>marronne<\/em> (de evadidos) de que encontr\u00e1mos t\u00e3o poucos rastos. Criou-lhes t\u00famulos e \u00abrestos\u00bb de cultura. Por esses elementos tang\u00edveis, como provas t\u00e3o aud\u00edveis como ostentativas, a paisagem torna-se habitada, povoada e viva. O artista diz inventar os tra\u00e7os que a hist\u00f3ria apagou: \u00aba nossa mensagem pode consolidar a mem\u00f3ria. E n\u00f3s precisamos disso\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8809571354092621\" aria-label=\"Cf. \u00abLe paysage : entre conservation et cr\u00e9ation\u00bb, P. de Bollivier, AKOZ\/espace public n.\u00b0 4, mar\u00e7o de 1999.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Esse trabalho em Piton Rouge nunca foi \u00abposto em exposi\u00e7\u00e3o\u00bb no sentido est\u00e9tico do termo, nem reproduzido numa publica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1 assinado. \u00c9 uma \u00abobra aberta\u00bb. Os caminhantes juntam muitas vezes a sua pedra, a sua marca\u2026 Estar\u00e3o eles conscientes de que participam numa obra de arte? Estar\u00e1 a sua inten\u00e7\u00e3o carregada de sagrado? Prestar\u00e3o eles uma homenagem ou realizar\u00e3o eles esse gesto como um ritual obscuro ligado ao local e \u00e0 sua aura? Wilhiam Zitte questiona os limites entre sagrado e profano&#8230; Como para esse \u00abTi bon di\u00e9\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9676385280929435\" aria-label=\"Orat\u00f3rios \u00e0 beira da estrada, muito frequentes na Reuni\u00e3o, dedicados ao Santo Expedito.\">&nbsp;<\/span> que o artista inventou \u00e0 beira da estrada e de que a popula\u00e7\u00e3o se apropriou levando-lhes oferendas de flores, velas, incenso, etc. sem saber que eram obra do artista&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1572\" aria-describedby=\"caption-attachment-1572\" style=\"width: 491px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003.11.02-ti-bondie-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1572 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003.11.02-ti-bondie-1.jpg\" alt=\"\" width=\"491\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003.11.02-ti-bondie-1.jpg 491w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003.11.02-ti-bondie-1-227x300.jpg 227w\" sizes=\"auto, (max-width: 491px) 100vw, 491px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1572\" class=\"wp-caption-text\">Ti Bondi\u00e9. 2003. Wilhiam Zitte. Acr\u00edlico, pastel a \u00f3leo grafite, ess\u00eancia de terebentina.<br \/>Col. Artoteca da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A arte de Wilhiam Zitte \u00e9 uma arte f\u00fanebre. Os seus T\u00eat Kaf lutam contra a morte, \u00abneste pa\u00eds\u00bb, escreve Chris Marker, \u00abonde se vai perdendo a mem\u00f3ria\u00bb <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.07839517517594896\" aria-label=\" In \u00abLes statues meurent aussi\u00bb, de Chris Marker e Alain Resnais, curta-metragem da revista Pr\u00e9sence Africaine, 1953.\">&nbsp;<\/span>. O desafio principal, mesmo exposto nos centros de arte contempor\u00e2nea (galerias, institui\u00e7\u00f5es e outros templos da arte), \u00e9, antes de mais nada, de ordem \u00e9tica. \u00c9 uma arte de culto, \u00e0 semelhan\u00e7a das est\u00e1tuas e m\u00e1scaras africanas ou das ef\u00edgies coptas: vetores de for\u00e7a vital, representa\u00e7\u00f5es sagradas, \u00abrostos vitoriosos que reparam o tecido do mundo\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6564529815591097\" aria-label=\"Chris Marker, id.\">&nbsp;<\/span>. A sua principal voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a venda no mercado de arte e a exposi\u00e7\u00e3o num museu ou na parede de uma sala, mas dar uma representa\u00e7\u00e3o aos milhares de homens enterrados no esquecimento para reconstruir o elo entre os vivos e os mortos. \u00abQue documentos\u00bb, pergunta o artista, \u00abpermitem dizer que a escravatura existiu? Salvo alguns atos notariais, onde est\u00e3o os vest\u00edgios? Refa\u00e7o os arquivos. Precisamos dessa mentira\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.12056652027163162\" aria-label=\"Wilhiam Zitte, proposta recolhida por P. de Bollivier, Artoteca, 21 de junho de 1995.\">&nbsp;<\/span>. Ao erguer o retrato de um antepassado m\u00edtico, o projeto de Zitte veio, pois, preencher um vazio, respondendo \u00e0 imperiosa necessidade de dizer, mostrar e dar um rosto \u00e0queles que Carpanin Marimoutou chama \u00abfantasmas\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2331382416478468\" aria-label=\"\u00abA hist\u00f3ria da Reuni\u00e3o fez desde logo do Kaf um fantasma, uma vez que o desproveu do estatuto de sujeito fazendo dele escravo, sem nome, sem hist\u00f3ria, sem cultura, sem terra, sem poder\u2026\u00bb, \u00abQuerer representar o kaf implica, ent\u00e3o, confrontar tanto a quest\u00e3o do fantasma como a quest\u00e3o do que, ao mesmo tempo, restitui e retira um futuro, do que insiste e falta, nesta presenta dolorosa da aus\u00eancia\u2026.(\u2026)\u00bb J-C.Carpanin Marimoutou, cat\u00e1logo Kaf an Tol, 1995.\">&nbsp;<\/span>. Transformar os \u00abKaf\u00bb em observadores, faz\u00ea-los sair do esquecimento, dar-lhes uma presen\u00e7a, uma exist\u00eancia, pois \u00abrepresent\u00e1-los\u00bb era faz\u00ea-los passar do estatuto de espetro ao de antepassado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1586\" aria-describedby=\"caption-attachment-1586\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1991-02-02-marronnage-le-doute-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"attachment noopener wp-att-1586\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1586 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1991-02-02-marronnage-le-doute-1.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1991-02-02-marronnage-le-doute-1.jpg 650w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1991-02-02-marronnage-le-doute-1-300x207.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1586\" class=\"wp-caption-text\">Marronnage: a d\u00favida. Wilhiam Zitte. 1990. Pigmentos, pastel oleoso, tinta sobre papel.<br \/>Col. Artoteca da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A arte de Wilhiam Zitte \u00e9 uma arte pol\u00edtica na sua vontade de construir uma outra imagem do Negro na Reuni\u00e3o de ontem e de hoje. Mostrar o Kaf rebelde, o Kaf de p\u00e9, o Kaf m\u00edstico, \u00e9, por um lado, romper com as representa\u00e7\u00f5es dudu\u00edstas como com a imagem de submiss\u00e3o herdada da hist\u00f3ria. Por outro lado, a recusa de todo e qualquer preconceito ficcional que teria povoado o seu universo de personagens inventadas, em proveito da documenta\u00e7\u00e3o e dos vest\u00edgios com conota\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas, permitia-lhe participar no real, o que era uma forma de enraizar os seres de carne e osso na verdadeira Hist\u00f3ria. \u00ab<em>Nas funda\u00e7\u00f5es da nossa identidade existe um elemento, uma componente que n\u00e3o se incluiu. Incumbe-nos a n\u00f3s a tarefa de fazer com que se inclua. Se falarmos sempre em termos de \u201cmoukatage\u201d, de tro\u00e7a, de cr\u00edtica humanista, se a imagem do Negro passa pelas caricaturas &#8220;Y a bon banania&#8221;\u2026 E, hoje em dia, ainda temos direito \u00e0 imagem do Negro do exterior, \u00e0 imagem americana que \u00e9 surpreendente\u2026 onde est\u00e1 a imagem do Negro na Reuni\u00e3o? Quem faz uma defini\u00e7\u00e3o?<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4006341436418859\" aria-label=\"Wilhiam Zitte, antrevista com P. de Bollivier, 21 de junho de 1995.\">&nbsp;<\/span>. O seu trabalho em torno da imagem do Negro inscreve-se numa reflex\u00e3o mais global sobre a hist\u00f3ria da arte e a quest\u00e3o dos crit\u00e9rios est\u00e9ticos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6122044415404878\" aria-label=\"Fazendo eco \u00e0 publica\u00e7\u00e3o da M\u00e9nil Foundation \u00abL\u2019image du noir dans l\u2019art occidental\u00bb, editada pela Gallimard em 1989.\">&nbsp;<\/span>. N\u00e3o se deixaria de convidar os artistas a trabalhar sobre a quest\u00e3o memorial, nomeadamente, atrav\u00e9s de exposi\u00e7\u00f5es coletivas das quais ele foi comiss\u00e1rio: \u00abBwad\u00e9b\u00e8ne\u00bb em 1997, \u00abAboli pas aboli l\u2019esclavage\u00bb em colabora\u00e7\u00e3o com Julien Blaine e Andr\u00e9 Robert em 1998. Sendo a tomada de consci\u00eancia de uma hist\u00f3ria da arte crioula da Reuni\u00e3o uma das suas maiores preocupa\u00e7\u00f5es, era imperiosamente necess\u00e1rio impedir o seu encerramento por um simples capricho da vis\u00e3o eurocentrada. O seu posicionamento tamb\u00e9m ia ao encontro das correntes culturais e pol\u00edticas mundializadas \u00abBlack is beautifull\u00bb (que traduzia em crioulo da Reuni\u00e3o: <em>Kaf l\u00e9 joli<\/em>) como o da Negritude. O artista expandia-o com um questionamento dos crit\u00e9rios art\u00edsticos e est\u00e9ticos, incluindo os que presidiam \u00e0s representa\u00e7\u00f5es populares associadas aos fen\u00f3tipos: \u00ab<em>Visto que o malbar tem o nariz fino, os cabelos lisos, \u00e9 mais bonito do que o Kaf de l\u00e1bios grossos. Oponho-me a essa est\u00e9tica, em geral<\/em>.\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.24647902464447025\" aria-label=\" Wilhiam Zitte, entrevista com P. de Bollivier, Le Port, le 22\/11\/1999.\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, mais do que uma homenagem ou um memorial a um mundo ancestral que erra sem sepultura, o trabalho \u00abarcrioul\u00f3gico\u00bb de Zitte prop\u00f5e \u00abfiguras que autorizam, por fim, o trabalho do luto\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.08492121267714614\" aria-label=\"J-C. Carpanin Marimoutou \u00abContre la fascination, une anthropologie du regard\u00bb, cat\u00e1logo de exposi\u00e7\u00e3o, Arsenik, 2000.\">&nbsp;<\/span> e, desse modo, constroem as funda\u00e7\u00f5es de uma \u00abciviliza\u00e7\u00e3o reivindicada como portadora de sentido e mitos, postulada\/fantasiada e, ao mesmo tempo, sonhada e real, crioula\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7463125353366887\" aria-label=\" Carpanin marimoutou, \u00abContre la fascination, une anthropologie du regard\u00bb, cat\u00e1logo de exposi\u00e7\u00e3o, \u00abSem olhar\u00bb, Arsenik, 2000.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h3>Jack Beng-Thi: encarnar a hist\u00f3ria, reparar o corpo, habitar o local <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.36917490665021446\" aria-label=\"Excerto de \u00abNo fio da mem\u00f3ria, Farpas que gritam e linha azul-heran\u00e7a\u2026 Esculturas e instala\u00e7\u00f5es de Jack Beng-Thi\u00bb, P. de Bollivier, Cadernos dos anais da mem\u00f3ria, s\/d Carlo A. C\u00e9lius, 2009, p. 153.\">&nbsp;<\/span><\/h3>\n<p>Jack Beng-Thi tinha 28 anos quando regressou \u00e0 Reuni\u00e3o, em 1979, ap\u00f3s 10 anos de aus\u00eancia. Formado na escola de Belas Artes de Toulouse e na Universidade de Paris VIII, viajou muito pela Europa e a Am\u00e9rica Latina. O corte com a ilha e o encontro com outras civiliza\u00e7\u00f5es criaram a consci\u00eancia do vazio e levaram-no, desde ent\u00e3o, a confrontar-se com a problem\u00e1tica da aus\u00eancia, do nada, da falta de mem\u00f3ria da sua sociedade. Quatrocentos anos de hist\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 t\u00e3o pouco, e quando essa hist\u00f3ria se desfia no esquecimento coletivo, sobre que base se podem construir as representa\u00e7\u00f5es de si pr\u00f3prio e do seu povo? N\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios, n\u00e3o h\u00e1 imagens do tr\u00e1fico negreiro, os escritos sobre a escravatura s\u00e3o t\u00e3o poucos e os sil\u00eancios s\u00e3o tantos! Como escreve Chamoiseau, para nunca perdermos a \u00abverdade\u00bb da escravatura, na aus\u00eancia de testemunhos, se ningu\u00e9m pode narrar o horror do tr\u00e1fico, ent\u00e3o, s\u00f3 nos resta mergulhar no inferno do por\u00e3o para sair da noite colonial. O artista vai, qual ponteiro, fazer-se revelador, criador e testemunha direta de uma mem\u00f3ria e testemunha direta de uma mem\u00f3ria a que d\u00e1 vida.<\/p>\n<h4>Arquivos em carne viva<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.36407391194559646\" aria-label=\"Retirado de uma antologia poemas de Jean-Henri AZ\u00c9MA, ADER \u00e9ditions, 1998. Jean-Henri AZ\u00c9MA, ou Jean AZ\u00c9MA, \u00e9 um poeta da Reuni\u00e3o, nascido em Saint-Denis em 1913 e falecido em Buenos Aires em 2000. Foi colaborador na Segunda Guerra Mundial. Em 1990, numa viagem \u00e0 Reuni\u00e3o, reconheceu ter errado e descarrilado durante a guerra (fontes: Wikip\u00e9dia).\">&nbsp;<\/span><\/h4>\n<p>Uma resid\u00eancia no centro urbano Internationale des Arts em Paris, como representante da escola de Belas Artes de Toulouse, permitiu-lhe, em 1977, mergulhar nos arquivos do hotel Soubise, no \u00e2mbito de uma licenciatura e, depois, de um mestrado na Paris VIII. Leu todo o Code Noir. \u00abE foi l\u00e1 que me surgiu a problem\u00e1tica do corpo\u00bb, confessa. \u00ab<em>Aquilo a que o corpo foi sujeito. A problem\u00e1tica f\u00edsica em torno da decad\u00eancia do ser. Esse \u00e9, de facto, o problema fundamental para<br \/>\nmim<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.20620383487454963\" aria-label=\"Jack Beng-Thi, entrevista com P. de Bollivier, 13 de fevereiro de 2001.\">&nbsp;<\/span>. Foi uma verdadeira demanda \u00f3rfica que Beng-Thi encetou: partir em busca dos afogados da hist\u00f3ria, arriscando-se a ser transformado em est\u00e1tua de sal, explorando o inferno do por\u00e3o para trazer de l\u00e1 os fantasmas e reencarn\u00e1-los. \u00ab<em>Durante as minhas investiga\u00e7\u00f5es, descobri um corpo estendido, em situa\u00e7\u00e3o de crise e drama\u2026 estou no interior desta hist\u00f3ria\u2026<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.674851022826866\" aria-label=\"Portrait d\u2019artiste: Jack Beng-Thi, reportagem de Florans F\u00e9lix e Thierry Hoarau, Imago production\/Artoth\u00e8que de La R\u00e9union, 2004.\">&nbsp;<\/span>, diz.<\/p>\n<p>Depois de mergulhar nos arquivos, enfrenta a mat\u00e9ria. \u00ab<em>Comecei a trabalhar o corpo e a posicion\u00e1-lo (\u2026) Como n\u00e3o h\u00e1 escritos, n\u00e3o h\u00e1 livros que contem esta hist\u00f3ria, (\u2026) encaro a minha cria\u00e7\u00e3o como um meio importante que vai cont\u00e1-la.<\/em>\u00bb O artista eleva a sua experi\u00eancia direta, a sua presen\u00e7a ao n\u00edvel dos testemunhos, dando ao imagin\u00e1rio a fun\u00e7\u00e3o primordial de construir no presente a base que a hist\u00f3ria n\u00e3o deixou e sobre a qual se pode erigir o novo homem.<\/p>\n<p>E \u00e9 no atelier que Beng-Thi vai reconstituir o drama e transcend\u00ea-lo. Numa grande tina, um magma de argila que o artista rega com movimentos de chuva. Mergulha as m\u00e3os na terra para dela retirar peda\u00e7os de carne viva. A terra, material primordial, adv\u00e9m de uma escolha fundamental para o artista e permite-lhe ter contacto f\u00edsico com o corpo: \u00ab<em>Ao tocar esta terra, de forma completamente metaf\u00f3rica, toco a pele e o corpo, ao n\u00edvel f\u00edsico. \u00c9 algo t\u00e1til<\/em>.\u00bb <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6081560666649972\" aria-label=\"Portrait d\u2019artiste : Jack Beng-Thi, id.\">&nbsp;<\/span>. Um corpo constitui-se diante dos nossos olhos, ainda estendido, a dormir. Ap\u00f3s uma primeira etapa de secagem, o escultor retira o corpo do seu sarc\u00f3fago de gesso para logo o colocar direito, na vertical: uma personagem que j\u00e1 se mant\u00e9m de p\u00e9. Muito em breve, junta-se-lhe outra e uma terceira\u2026 Depois, o artista pega nelas, uma a uma, e d\u00e1 uma identidade diferente a cada uma dessas formas id\u00eanticas. As suas m\u00e3os escarificam a mat\u00e9ria ainda fresca e encerram as dilata\u00e7\u00f5es acidentais, cicatrizam feridas, reparam as carnes, enxertam a pele, curam as les\u00f5es. Acidentes dos ateliers, acidentes da hist\u00f3ria, o artista anula o tempo e re\u00fane sob os dedos \u00abas aparas de epiderme espalhadas pelo vento\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6244239249545688\" aria-label=\"J.H. AZ\u00c9MA, 1979. Cidado por Michel Beniamino, L\u2019imaginaire r\u00e9unionnais, \u00e9d. du Tramail, Saint-Denis, Reuni\u00e3o, 1992, p.134.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Esta passagem no espa\u00e7o confinado e secreto do <em>atelier<\/em> constitui uma etapa fundamental para compreender a obra de Jack Beng-Thi. \u00c9 nesse preciso momento que o artista repara a hist\u00f3ria e encarna na mat\u00e9ria os fantasmas da trag\u00e9dia oce\u00e2nica para, por fim, poder fazer-se o trabalho do luto. Utiliza naturalmente um vocabul\u00e1rio m\u00e9dico para descrever os seus gestos e explica que a utiliza\u00e7\u00e3o do gesso e das pr\u00f3teses de ferro para manter os corpos de p\u00e9 n\u00e3o \u00e9 ao acaso. Mas ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 m\u00e9dico \u2014 tamb\u00e9m se faz feiticeiro, uma vez que, com uma gestualidade muito pr\u00f3xima de determinados ritos do exorcismo, lan\u00e7a preparados de terra colorida sobre os corpos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4297301721340073\" aria-label=\"O artista repetir\u00e1 esses gestos na atua\u00e7\u00e3o em homenagem aos desaparecidos da ditadura haitiana em 2004.\">&nbsp;<\/span>. Os encantamentos n\u00e3o est\u00e3o muito longe e parecem sair da boca das pr\u00f3prias personagens que despertam de um longo sono. O artista fala <em>de ato fundador, manifesto e transcendente, anunciador de um renascimento mental, de invers\u00e3o das imagens para assegurar a reconstru\u00e7\u00e3o nova, para que a t\u00e3o esperada metamorfose possa surgir<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6665172383693301\" aria-label=\"Jack Beng-Thi, Linha azul-heran\u00e7a \/Territ\u00f3rio interior\/periferia, 2002, in Sobremesa, cat\u00e1logo de exposi\u00e7\u00e3o, Le Port, 2007.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Uma transmuta\u00e7\u00e3o opera-se sob as m\u00e3os, e o <em>atelier<\/em> torna-se a ant\u00edtese do por\u00e3o do navio negreiro: neste atanor <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9366891180608037\" aria-label=\" S\u00edmbolo do cadinho das transmuta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, morais ou m\u00edsticas. Para os alquimistas, o atanor, onde se opera a transmuta\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma matriz em forma de ovo, como o pr\u00f3prio mundo, que \u00e9 um ovo gigantesco, o ovo \u00f3rfico que encontramos na base de todas as inicia\u00e7\u00f5es, tanto no Egito como na Gr\u00e9cia; e tal como o Esp\u00edrito do Senhor, ou Ruah Elohim, flutua sobre as \u00e1guas, o mundo ou o esp\u00edrito da vida, que o alquimista tem de ser muito h\u00e1bil para conseguir subjugar, deve flutuar nas \u00e1guas do atanor. Marcel Griaule, Masques dogons, Paris, 1938. Citado por J. Chevalier e A. Gheerbrandt, Dictionnaire des symboles, R. Laffont, 1982.\">&nbsp;<\/span> de alquimista nasce uma nova ra\u00e7a de homens de p\u00e9, em marcha.<\/p>\n<h4>E n\u00f3s, agora, estamos de p\u00e9, eu e o meu pa\u00eds\u2026<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.382761937390085\" aria-label=\"Aim\u00e9 C\u00e9saire, \u00abCahier d\u2019un retour au pays natal\u00bb, in Volont\u00e9s (revista), n.\u00ba 20, 1939, Paris,1.\u00aa edi\u00e7\u00e3o.\">&nbsp;<\/span><\/h4>\n<p><em>Au fil de la m\u00e9moire<\/em>, <em>Les Bouts de bois hurlants<\/em>, <em>Nostalgique sweet vacoa<\/em>, <em>Arrachement Carg. C12<\/em>, <em>Territoire Ma\u00efdo\/Incision\/arrachement<\/em>, <em>Ligne Bleue-H\u00e9ritage<\/em>, <em>La constellation des manquants<\/em>\u2026 Com t\u00edtulos evocativos, as obras de Beng-Thi colocam a quest\u00e3o do corpo e do(s) seu(s) territ\u00f3rio(s), e \u00e9 atrav\u00e9s da mem\u00f3ria (uma mem\u00f3ria a explorar, esclarecer e reconstruir) que vai criar o elo primordial e gen\u00e9rico que faz de um conjunto de corpos um povo de p\u00e9.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica do corpo e da sua mostra s\u00e3o fundamentais. Depois de, nas suas pr\u00f3prias palavras, os ter feito \u00ab<em>sair dos arquivos<\/em>\u00bb, o artista d\u00e1 por si confrontado com a quest\u00e3o da sua representa\u00e7\u00e3o. Na grande maioria das pe\u00e7as criadas no in\u00edcio dos anos 90, o corpo est\u00e1 fisicamente presente atrav\u00e9s de representa\u00e7\u00f5es semirrealistas em terra cozida. Feitas do mesmo molde para cada s\u00e9rie, t\u00eam a mesma dimens\u00e3o, que varia consoante as instala\u00e7\u00f5es, podendo chegar aos 1,60 m de altura. Aparecem como bustos que o artista teria prolongado desmesuradamente com um corpo monol\u00edtico, sem pernas nem bra\u00e7os, g\u00e9nero m\u00famias ou cris\u00e1lidas enfeitadas com uma cabe\u00e7a. Assim, os corpos s\u00e3o reduzidos \u00e0 sua express\u00e3o mais simples. Essa aus\u00eancia de anatomia e propor\u00e7\u00f5es no sentido ocidental do termo aproxima as esculturas de Beng-Thi de uma boa parte da escultura tradicional da \u00c1frica Negra e do Egito cuja fun\u00e7\u00e3o era servir de apoio ao \u00abduplo\u00bb imortal do antepassado ap\u00f3s a sua morte terrestre. Com efeito, naquilo a que Cheikh Anta Diop<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6293251225298744\" aria-label=\"Intelectual e humanista senegal\u00eas nascido em 1923 e falecido em 1986. Historiador e antrop\u00f3logo, deu \u00eanfase ao contributo da \u00c1frica e, em particular, da \u00c1frica negra, para a cultura e a civiliza\u00e7\u00e3o mundiais. As suas teses ainda hoje s\u00e3o contestadas e pouco referidas na comunidade cient\u00edfica ocidental.\">&nbsp;<\/span> chama \u00abo c\u00e2none negro\u00bb, pouco importava o realismo da representa\u00e7\u00e3o, que os bra\u00e7os ou o busto fossem demasiado compridos ou curtos, uma vez que n\u00e3o passava de um s\u00edmbolo do antepassado de regresso entre os vivos.<\/p>\n<p>De um modo geral, a parte superior (os ombros, o pesco\u00e7o, a cabe\u00e7a) \u00e9 modelada com realismo. O resto do corpo funde-se num tronco cuja forma varia consoante as instala\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Levantar a cabe\u00e7a, p\u00f4r-se de p\u00e9<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9094768925150173\" aria-label=\"\u00abErguer a cabe\u00e7a\u00bb que, em seguida, se tornou \u00abp\u00f4r-se de p\u00e9\u00bb, s\u00e3o as tradu\u00e7\u00f5es dos t\u00edtulos em wolof do jornal criado pelo Rassemblement National D\u00e9mocratique (RND) fundado por Cheikh Anta DIOP em 1976. Fontes:\u00abCheikh Anta Diop, restaurateur de la conscience noire\u00bb, de Fabrice Hervieu Wan\u00e9, Le Monde diplomatique, janeiro de 1998 \u2014 pp 24-25.\">&nbsp;<\/span>\u2026 Se, por vezes, est\u00e1 estendido (como em <em>Mira Slum<\/em>, <em>Extra\u00e7\u00e3o Carg. C12<\/em>), o corpo \u00e9 mais frequentemente colocado na vertical, numa posi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica. Os corpos t\u00eam os p\u00e9s e as m\u00e3os atados, est\u00e3o amarrados, enfeixados e, ao mesmo tempo, conseguem p\u00f4r-se de p\u00e9 e emanar uma forte sinergia. Dessas impress\u00f5es contradit\u00f3rias de paralisia e movimento nasce a ideia de um combate, de uma luta. Como se aquelas cabe\u00e7as, que s\u00e3o como que dotadas de linguagem, emergissem do seu inv\u00f3lucro e se soltassem dos seus ferros. Muito utilizado por Beng-Thi, o fio contribui para essa ambival\u00eancia: a corda, a r\u00e1fia natural e colorida, o fio de ferro, o fio de nylon dos pescadores, a fibra \u00f3tica&#8230; o fio prende ou liberta, liga, suspende, ornamenta e d\u00e1 ritmo gr\u00e1fico \u00e0s superf\u00edcies.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o corpo raramente se apresenta sozinho, mas em instala\u00e7\u00f5es com capacidade para entre duas e trinta personagens. O artista passa da estatu\u00e1ria \u00e0 instala\u00e7\u00e3o e o conjunto dos corpos posicionados no espa\u00e7o vai dar o movimento. A dimens\u00e3o coletiva est\u00e1 muito presente na obra de Beng-Thi. Lan\u00e7ando-se numa investiga\u00e7\u00e3o das suas origens e das origens da fam\u00edlia, acaba por se dedicar a contar e a construir a hist\u00f3ria do seu povo. \u00ab<em>Falo do meu corpo e, tamb\u00e9m, dos corpos dos outros. Somos n\u00f3s. \u00c9 a nossa hist\u00f3ria. Situo-me no interior dessa hist\u00f3ria<\/em>.\u00bb O que lhe interessa, ent\u00e3o, al\u00e9m das ascend\u00eancias vietnamita e bengalesa da sua fam\u00edlia, \u00e9 essa \u00ab<em>extra\u00e7\u00e3o dos corpos do continente para a ilha<\/em>\u00bb, essa proje\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o que vai estar na origem, num determinado contexto hist\u00f3rico e pol\u00edtico, do nascimento de um povo. Essa ideia de g\u00e9nese de um povo novo e que lhe permite transcender o corpo, esse \u00ab<em>corpo fracionado na sua finitude, no seu desastre e na sua vulnerabilidade<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5772717935865226\" aria-label=\"\u00abFarpas que gritam\/A pir\u00e2mide de esp\u00edritos\u00bb, Jack Beng-Thi, in Sobremesa, cat\u00e1logo de exposi\u00e7\u00e3o, le Port, 2007.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h4>Territ\u00f3rios de reconquista<\/h4>\n<p>A quest\u00e3o do territ\u00f3rio \u00e9, desde logo, fundamental. Trata-se de explorar os espa\u00e7os foragidos da mem\u00f3ria: descer ao inferno do por\u00e3o, percorrer a vastid\u00e3o dos mares onde ainda se arrasta, ao olhar clarividente, o \u00ab<em>fumo dos grandes feitos que a hist\u00f3ria reduz a carv\u00e3o<\/em>\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.2434804479683894\" aria-label=\"Saint-John Perse, Exils, Gallimard, 1960.\">&nbsp;<\/span>, mergulhar aos fundos oce\u00e2nicos em busca do que o sal corroeu; vislumbrar, \u00ab<em>por detr\u00e1s da paisagem<\/em>\u00bb da ilha, as sombras ainda ocultas dos povos a laborar sob o jugo do senhor e pronunciar a melancolia do imposs\u00edvel regresso aos alhures fantasiados que s\u00e3o os seus territ\u00f3rios de origem\u2026 De forma expl\u00edcita, in\u00fameras obras fazem refer\u00eancia a esta problem\u00e1tica do local, inclusive, nos pr\u00f3prios t\u00edtulos. Quer se trate de obras <em>in situ<\/em>, como <em>Territoire Ma\u00efdo\/Incision\/Arrachement<\/em> <span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3854828581707218\" aria-label=\"Obra realizada por ocasi\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o Locais de mem\u00f3ria organizada pelo FRAC-R\u00e9union na zona alta ocidental da Reuni\u00e3o, em 1994.\">&nbsp;<\/span>, ou de instala\u00e7\u00f5es como <em>Ligne bleue-h\u00e9ritage<\/em>, exposta na Bienal de Cuba, em 1997, ou ainda, \u00ab <em>Au fil de la m\u00e9moire<\/em>\u2026 \u00bb, as obras de Beng-Thi narram o apertado elo ambivalente com os territ\u00f3rios, quer sejam as terras de origem, as terras de elei\u00e7\u00e3o, ou o oceano, por um lado, mortalha, barreira l\u00edquida intranspon\u00edvel, por outro, elemento sagrado com virtudes purificadoras. O trabalho de Jack Beng-Thi inscreve-se num processo de \u00abreconquista\u00bb dos territ\u00f3rios espoliados pela hist\u00f3ria. \u00ab<em>Pass\u00e1mos muito tempo confinados em espa\u00e7os demasiado pequenos, o por\u00e3o do navio, a propriedade e as proibi\u00e7\u00f5es de todos os tipos<\/em>\u00bb\u2026 e se todas as primeiras obras que ele exp\u00f4s<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.17270422729101642\" aria-label=\"\u00abA escultura na Reuni\u00e3o\u00bb, exposi\u00e7\u00e3o pela inaugura\u00e7\u00e3o do FRAC-R\u00e9union em 1986 (Alken, Jack Beng-Thi, Claude Berlie-Caillat, Gilbert Clain, Marc Lambron, Didier Legall, Alain Padeau, Alain Seraphine).\">&nbsp;<\/span> s\u00e3o pequenos formatos em baixo-relevo, nos anos seguintes, o corpo depressa se posiciona e se amplia no espa\u00e7o, com a utiliza\u00e7\u00e3o da escultura em relevo, por um lado, e pela sua disposi\u00e7\u00e3o nas instala\u00e7\u00f5es. O artista prop\u00f5e igualmente uma abertura num espa\u00e7o transcendente materializado por determinadas obras que convocam o infinito estelar, met\u00e1fora da dimens\u00e3o espiritual, ali\u00e1s, muito presente no seu trabalho: <em>Territ\u00f3rio estelar. 150 guardi\u00f5es no pa\u00eds das estrelas, A constela\u00e7\u00e3o dos ausentes, A pir\u00e2mide de esp\u00edritos<\/em>\u2026 O espa\u00e7o simb\u00f3lico da liberdade e o da consci\u00eancia comp\u00f5em tamb\u00e9m a base para uma nova rela\u00e7\u00e3o na ilha. Abrir o espa\u00e7o de \u00absi pr\u00f3prio\u00bb para permitir a reconstru\u00e7\u00e3o do la\u00e7o gen\u00e9rico e fundar a sociedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1576\" aria-describedby=\"caption-attachment-1576\" style=\"width: 440px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1998-27-03-la-constellation-des-manquants-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1576 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1998-27-03-la-constellation-des-manquants-1.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1998-27-03-la-constellation-des-manquants-1.jpg 440w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1998-27-03-la-constellation-des-manquants-1-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1576\" class=\"wp-caption-text\">A constela\u00e7\u00e3o dos ausentes. Jack Beng-Thi. 1997. Madeira de \u00e9bano, terra cozida, vidro, luz, pregos, tinta vermelha, corda.<br \/>Col. Artoteca da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O trabalho de Beng-Thi pode parecer uma homenagem f\u00fanebre, um rito funer\u00e1rio para as \u00abcabe\u00e7as encrespadas do inomin\u00e1vel, sumidas, sem nome, no precip\u00edcio\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3185956854838402\" aria-label=\"Excerto de um poema de Patrice Treuthardt, poeta contempor\u00e2neo da Reuni\u00e3o: \u00abO mer moire m\u00e9moire du peuple noir\/mer mer plus am\u00e8re que margoze am\u00e8re\/redis-moi les t\u00eates cr\u00e9pues de l\u2019innombrable\/enfouies sans nom dans l\u2019ab\u00eeme\u00bb, texto gravado no adro da mediateca da cidade de Port, 1993.\">&nbsp;<\/span> para que, acedendo ao estatuto de antepassados, possam vir alimentar e sustentar as gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras. \u00c9 o corpo reparado, vertical, o homem de p\u00e9, que funda esta sociedade. E, ao falar das v\u00edtimas do tr\u00e1fico, Beng-Thi diz que \u00abs\u00e3o eles que nos mant\u00eam vivos\u00bb, inserindo-se, assim, num substrato antropol\u00f3gico onde, da costa oriental africana, \u00e0 Nova Caled\u00f3nia, passando pela grande ilha de Madag\u00e1scar, a terra onde repousam os restos mortais dos antepassados \u00e9 o local privilegiado de enraizamento do grupo. A Reuni\u00e3o e o Oceano \u00cdndico constituem esse territ\u00f3rio.<\/p>\n<h3>Karl Kugel: corpo\/territ\u00f3rio\/mem\u00f3ria\u2026 o elo que faz obra<\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">Karl Kugel \u00e9 fot\u00f3grafo e criador visual. Bolseiro, nomeadamente, de Villa M\u00e9dicis Hors les Murs para um projeto na China, foi cofundador do grupo de fot\u00f3grafos BKL que, de 1990 a 1994 acompanhou, na Reuni\u00e3o, a evolu\u00e7\u00e3o de tr\u00eas zonas em muta\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de um projeto de cria\u00e7\u00e3o de edi\u00e7\u00e3o intitulado \u00abEntre Mitologias e pr\u00e1ticas\u00bb, reunindo fot\u00f3grafos, soci\u00f3logos, artistas, fil\u00f3sofos\u2026 Instalou-se na ilha e iniciou um trabalho fortemente inspirado nos territ\u00f3rios do Oceano \u00cdndico (nomeadamente, Mo\u00e7ambique e \u00c1frica do Sul). No epicentro da sua obra est\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o com o corpo, o sagrado e os territ\u00f3rios atrav\u00e9s de uma abordagem po\u00e9tica e art\u00edstica de contornos etnogr\u00e1ficos e fortes resson\u00e2ncias pol\u00edtico-simb\u00f3licas: \u00abRecita\u00e7\u00f5es dos corpos\u00bb (1997-2002), \u00abCampo Calixte\u00bb (2003), \u00abE os motores v\u00e3o Revolver a terra\u00bb (2004), \u00abMakwal\u00e9\u00bb e, por fim, \u00abO jardim da mem\u00f3ria\u00bb que criou na Ilha de Mo\u00e7ambique, no \u00e2mbito do programa UNESCO \u00abA Rota do Escravo\u00bb.<\/span><\/p>\n<p>Restabelecer o di\u00e1logo, unir as pr\u00e1ticas e os territ\u00f3rios, criar elos: o trabalho de Karl Kugel encontra a subst\u00e2ncia exatamente onde germina e cresce a aventura humana e art\u00edstica. No centro do seu trabalho, o elo, que se tece como resposta vitoriosa \u00e0 viol\u00eancia da hist\u00f3ria, ao ex\u00edlio dos grupos humanos desarreigados e deportados. O elo que nos une ao corpo, o elo que nos une ao sagrado, o elo que nos une \u00e0 terra e aos territ\u00f3rios de origem: o elo que funda o local e que coloca a Reuni\u00e3o no interior de um espa\u00e7o partilhado n\u00e3o s\u00f3 com o pa\u00eds Makwa, mas tamb\u00e9m com Madag\u00e1scar, Mayotte, a \u00c1frica do Sul\u2026 O Oceano \u00cdndico \u00e9 um vasto pa\u00eds, e Karl Kugel explora-o pelos caminhos da mem\u00f3ria, do di\u00e1logo das culturas e dos encontros f\u00e9rteis.<\/p>\n<p>Comum aos descendentes de escravos, o seu trabalho em torno da tradi\u00e7\u00e3o das dan\u00e7as de combate leva-o a colaborar com fot\u00f3grafos de Mo\u00e7ambique (Ricardo Rangel, Kok Nam\u2026) e a fazer interc\u00e2mbios regulares entre os dois pa\u00edses. Assim, nascer\u00e1 um fluxo regular de imagens, posteriormente reunidas numa edi\u00e7\u00e3o intitulada \u00abSaudade da esperan\u00e7a\u00bb, que, nas palavras do artista, \u00aboscila entre o testemunho de um per\u00edodo surdo da hist\u00f3ria de Mo\u00e7ambique \u2014 o da coloniza\u00e7\u00e3o e o seu sistema social do <em>apartheid<\/em>, seguido de perto de 15 anos de guerra civil \u2014 e a emo\u00e7\u00e3o face \u00e0 beleza profunda da<br \/>\nvida\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.21142846638480806\" aria-label=\"Karl Kugel, \u00abSaudade da esperan\u00e7a\u00bb, Oc\u00e9an Edition, 2003.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6815\" aria-describedby=\"caption-attachment-6815\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/2001-12-20-danse-de-combat-a-la-reunion.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6815 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/2001-12-20-danse-de-combat-a-la-reunion.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"553\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/2001-12-20-danse-de-combat-a-la-reunion.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/2001-12-20-danse-de-combat-a-la-reunion-300x207.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/2001-12-20-danse-de-combat-a-la-reunion-768x531.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6815\" class=\"wp-caption-text\">Dan\u00e7a de combate Na Reuni\u00e3o, bairro do Chaudron, St. Denis (t\u00edtulo fact\u00edcio). Karl Kugel. Entre 1997 e 2000. Papel baritado; processo arg\u00eantico, preto e branco.<br \/>Col. Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Criada num vai-e-vem regular entre Mo\u00e7ambique e a Reuni\u00e3o, Makwal\u00e9<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6999955197263414\" aria-label=\"O \u00abServi\u00e7o Makwal\u00e9\u00bb (ou servi\u00e7o Makwala) \u00e9 um rito de origem Makwa que permite, ao fim de 18 meses ap\u00f3s a morte, o acesso do defunto ao estatuto de antepassado. J\u00e1 n\u00e3o era celebrado na Reuni\u00e3o ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Fran\u00e7ois Dumas-Champion, \u00abLe mariage des cultures \u00e0 La R\u00e9union\u00bb. Karthala, Paris 2008.\">&nbsp;<\/span> \u00e9 uma \u00abcerim\u00f3nia laica\u00bb, que Karl Kugel recusa definir como \u00abespet\u00e1culo\u00bb. \u00c9 uma obra proteiforme e recorrente que mescla imagens, canto, poesia, m\u00fasica e dan\u00e7as de combate. Ela convoca marcadores culturais comuns \u00e0s duas culturas: \u00abdo \u201cjako\u201d da Reuni\u00e3o, personagem misteriosa do culto malbar, ao \u201cwanalombo\u201d mo\u00e7ambicano, mediador \u201cdivino\u201d, chave dos ritos de inicia\u00e7\u00e3o no pa\u00eds makond\u00e9\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9713256067433479\" aria-label=\"Pascale David, T\u00e9moignages, 28 de setembro de  2004. Cf. tamb\u00e9m Clicanoo,15\/12\/1998 https:\/\/www.clicanoo.re\/node\/413439\">&nbsp;<\/span>. Com mais de quatrocentas fotografias, um filme sobre o \u00faltimo Jako Prom\u00e8s e um c\u00edrculo de intervenientes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.32563883973921737\" aria-label=\"Os artistas Nathalie Natiemb\u00e9 e Dany\u00e8l Waro, o poeta Christian Floyd Jalma, os bailarinos Wanalombo, os percussionistas da Companhia Nacional de Dan\u00e7a de Mo\u00e7ambique, bem como Jean-Ren\u00e9 Dreinaza (o primeiro natural da Reuni\u00e3o campe\u00e3o da Fran\u00e7a de Savate, criador e (em 1994) cocoordenador do Comit\u00e9 de moraingy (em 2004) e dos praticantes de moraingy da Reuni\u00e3o\u2026\">&nbsp;<\/span> que se alarga a cada nova experi\u00eancia p\u00fablica, Makwal\u00e9 \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o visual e viva que, como escreve Karl Kugel, \u00abexplora os caminhos da hist\u00f3ria, do universo m\u00edstico e do imagin\u00e1rio em torno das dan\u00e7as de combate. Dando a volta ao centro da aldeia humana, Makwal\u00e9 evoca o ex\u00edlio e a sua viol\u00eancia, a amn\u00e9sia mas tamb\u00e9m a esperan\u00e7a, os sonhos e a cren\u00e7a na beleza\u00bb.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1578\" aria-describedby=\"caption-attachment-1578\" style=\"width: 436px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-4-jako-male-et-jako-femelle-danser-zako-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1578 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-4-jako-male-et-jako-femelle-danser-zako-1.jpg\" alt=\"\" width=\"436\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-4-jako-male-et-jako-femelle-danser-zako-1.jpg 436w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-4-jako-male-et-jako-femelle-danser-zako-1-201x300.jpg 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1578\" class=\"wp-caption-text\">Dan\u00e7arino e dan\u00e7arina de jako \u2014 danser zako. Karl Kugel. 1999. Processo arg\u00eantico, digigrafia.<br \/>Col. Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_1580\" aria-describedby=\"caption-attachment-1580\" style=\"width: 442px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-5-wanalombo-village-makonde-de-Nampula-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1580 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-5-wanalombo-village-makonde-de-Nampula-1.jpg\" alt=\"\" width=\"442\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-5-wanalombo-village-makonde-de-Nampula-1.jpg 442w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2017-1-5-wanalombo-village-makonde-de-Nampula-1-204x300.jpg 204w\" sizes=\"auto, (max-width: 442px) 100vw, 442px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1580\" class=\"wp-caption-text\">Wanalombo, aldeia makond\u00e9 de Nampula. Karl Kugel. 1998. Processo arg\u00eantico, digigrafia.<br \/>Col. Museu Hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>No seguimento deste trabalho de conex\u00e3o e impulsionado pelo historiador Sudel Fuma, Karl Kugel lan\u00e7a-se, em 2003, na cria\u00e7\u00e3o de um jardim da mem\u00f3ria em Mo\u00e7ambique<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5918655565132658\" aria-label=\"No \u00e2mbito do projeto \u00abA Rota do Escravo\u00bb da Unesco.\">&nbsp;<\/span>. O projeto ganha forma na Ilha de Mo\u00e7ambique, na regi\u00e3o de Nampula, num terreno oferecido pelo minist\u00e9rio da Cultura. Ponto nevr\u00e1lgico no com\u00e9rcio do tr\u00e1fico dos escravos, a ilha de Mo\u00e7ambique assistiu \u00e0 partida for\u00e7ada de dezenas de milhares de mulheres e homens para diferentes destinos do mundo (Oceano \u00cdndico, Golfo P\u00e9rsico, Am\u00e9rica do Sul, Cara\u00edbas, Am\u00e9rica do Norte). Situada no cruzamento das civiliza\u00e7\u00f5es, foi a capital do pa\u00eds at\u00e9 aos finais do s\u00e9culo XIX e desempenhou um papel importante no com\u00e9rcio da regi\u00e3o oriental da \u00c1frica. Dessa \u00e9poca, preserva ainda uma magn\u00edfica heran\u00e7a arquitet\u00f3nica e passaria a inscrever-se como \u00abPatrim\u00f3nio Mundial da Unesco\u00bb em 1992.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1582\" aria-describedby=\"caption-attachment-1582\" style=\"width: 542px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1-vue-ge\u0301ne\u0301rale-jardin-de-la-me\u0301moire-\u00a9KKUGEL-1-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1582 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1-vue-ge\u0301ne\u0301rale-jardin-de-la-me\u0301moire-\u00a9KKUGEL-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"542\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1-vue-ge\u0301ne\u0301rale-jardin-de-la-me\u0301moire-\u00a9KKUGEL-1-1.jpg 542w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/1-vue-ge\u0301ne\u0301rale-jardin-de-la-me\u0301moire-\u00a9KKUGEL-1-1-250x300.jpg 250w\" sizes=\"auto, (max-width: 542px) 100vw, 542px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1582\" class=\"wp-caption-text\">Vista geral do jardim da mem\u00f3ria. Karl Kugel. 2007. Fotografia.<br \/>(Direitos reservados)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Karl Kugel estrutura este jardim da mem\u00f3ria segundo uma tipologia ligada \u00e0s dan\u00e7as de combate, com uma s\u00e9rie de \u00abron\u00bb \u2014 c\u00edrculo tradicionalmente tra\u00e7ado pelos dan\u00e7arinos de morainguy \u2014 com diferentes fun\u00e7\u00f5es: um primeiro \u00abron\u00bb dedicado ao passeio; um segundo pensado como espa\u00e7o de inicia\u00e7\u00e3o, rodeado de bustos realizados por escultores mo\u00e7ambicanos (Elias Joao Mungus e Manuel Jos\u00e9 Rita) e da Reuni\u00e3o (Sophie Bazin e Johary Ravaloson); o terceiro abre-se sobre o mar com uma perspetiva de espa\u00e7o vazio a que cada um pode dar o sentido que desejar. O jardim inscreve-se numa vontade de revelar e consolidar uma mem\u00f3ria comum aos povos do Oceano \u00cdndico, \u00abrecordando \u00e0s popula\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses do Oceano \u00cdndico os elos que os uniram na hist\u00f3ria e que, atrav\u00e9s do que elas criaram nas respetivas culturas, podem hoje ajudar a tra\u00e7ar um destino comum\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8249411251796077\" aria-label=\"Pascale David, T\u00e9moignages, 8 de fevereiro de 2007.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>Wilhiam Zitte, Jack Beng-Thi e Karl Kugel apresentam, cada um \u00e0 sua maneira e atrav\u00e9s de uma obra comprometida, propostas de releitura do presente invadida por uma mem\u00f3ria reconstru\u00edda e f\u00e9rtil.<br \/>\nAo abordarem a quest\u00e3o da escravatura e do tr\u00e1fico, os artistas da Reuni\u00e3o comp\u00f5em com um substrato feito de sil\u00eancio e de vazio memorial que alimenta o conjunto da cria\u00e7\u00e3o, gerando a necessidade n\u00e3o s\u00f3 de dizer, revelar e denunciar, mas tamb\u00e9m de reparar o corpo e restaurar a imagem para se reapropriar da hist\u00f3ria e reconstruir uma base comum. \u00abDar nome e construir com a mem\u00f3ria que nos falta\u00bb, escreve Patrick Chamoiseau<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8752830672527558\" aria-label=\"Patrick Chamoiseau, \u201cUn dimanche au cachot\u201d, Gallimard, 2007, p.315\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>De um modo geral, o ato art\u00edstico apresenta-se como um ato pol\u00edtico de reconquista simb\u00f3lica dos territ\u00f3rios espoliados pelo tr\u00e1fico: a come\u00e7ar pelo corpo, na sua decad\u00eancia e transcend\u00eancia, a representa\u00e7\u00e3o, o movimento, a l\u00edngua, a palavra, mas tamb\u00e9m o elo que nos une a n\u00f3s pr\u00f3prios, aos outros, aos territ\u00f3rios de origem e ao territ\u00f3rio da ilha. Tamb\u00e9m pode ser apresentado como um ato sagrado, f\u00fanebre e ritualizado, que permite unir os mortos ao presente e elevar os desaparecidos ao estatuto de antepassados para se gerar uma resili\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es da evas\u00e3o e da insubmiss\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o recorrentes tanto nas tem\u00e1ticas como nos posicionamentos dos artistas. \u00c9 o caso do trabalho de Christian Jalma ou Pink-Floyd \u2014 mais tarde, Floy Dog \u2014, que, ali\u00e1s, exp\u00f4s com W. Zitte, J.\u00a0Beng-Thi e K. Kugel. Segundo Aude-Emmanuelle Hoareau, o seu trabalho \u00abreativa uma esperan\u00e7a e um temor que ultrapassam o \u00e2mbito hist\u00f3rico da escravatura, do corpo n\u00e3o domesticado, livre pela sua capacidade de revolta\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3168965783431903\" aria-label=\"Aude-Emmanuelle Hoareau, \u00ab La koif en transe\/Christian Jalma \u00bb, in Koif, le Corridor bleu Lerka \u00e9d., 2018, p. 36.\">&nbsp;<\/span>. Atrav\u00e9s de uma obra proteiforme e tentacular (v\u00eddeos, atua\u00e7\u00f5es, romances, poesias, composi\u00e7\u00f5es musicais, entre as quais, uma \u00f3pera), o poeta e artista pl\u00e1stico prop\u00f5e uma teoria apaixonante sobre a integra\u00e7\u00e3o do Cafre na sociedade da Reuni\u00e3o e a sua err\u00e2ncia identit\u00e1ria para as origens hipot\u00e9ticas<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7500478896490402\" aria-label=\" \u00ab Les tribulations d'un Cafre amn\u00e9si - Retour en Afrique \u00bb, vid\u00e9o, 3'31'', 4\/3 SD, \u00a9 Christian Jalma dit Pink Floyd.\">&nbsp;<\/span>, sobre as quest\u00f5es da amn\u00e9sia e da mem\u00f3ria, da \u00abcrioulidade\u00bb e da fabrica\u00e7\u00e3o do conceito de criouliza\u00e7\u00e3o que considera uma armadilha: vai ao ponto de inventar uma l\u00edngua que s\u00f3 ele conhece e a reivindicar o direito a escrever um franc\u00eas cheio de erros<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.29790090660713586\" aria-label=\"Christian Jalma (Pink Floyd), Le pouvoir \u00e9ph\u00e9m\u00e8re des lapsus, \u00c9d. Grand Oc\u00e9an, Saint Denis (La R\u00e9union), 1997.\">&nbsp;<\/span>. Al\u00e9m disso, lan\u00e7a uma leitura contracorrente da hist\u00f3ria, fazendo da <em>N\u00e9n\u00e8ne<\/em> o eixo central na constru\u00e7\u00e3o da cultura e da sociedade da Reuni\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.44547164163292186\" aria-label=\"Cf ses performances-lectures autour du tableau d\u2019Auguste Biard (1798-1882), nomm\u00e9 \u00ab l\u2019abolition de l\u2019esclavage \u00bb peint en 1848.\">&nbsp;<\/span>. Mais forte que a amn\u00e9sia, a figura do antepassado est\u00e1 omnipresente em Floy Dog, \u00abeste antepassado a quem perdemos o rasto, escravo esquecido pela Hist\u00f3ria mas vivo nos nossos \u201ccromossomas-mem\u00f3ria\u201d\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7165961003666271\" aria-label=\"Aude-Emmanuelle Hoareau, \u00ab La koif en transe\/Christian Jalma \u00bb, in Koif, le Corridor bleu Lerka \u00e9d., 2018, p. 36. Leia tamb\u00e9m: \u00ab Christian Jalma dit Floyd Dog, Un artiste de l'indignation \u00bb, par Aude-Emmanuelle Hoareau, http:\/\/lautremusique.net\/lam3\/deambule\/christian-jalma-dit-floyd-dog.html\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Como escreve Marie-Jos\u00e9e Matiti-Picard, enquanto os poetas, escritores e, neste caso em concreto, os artistas pl\u00e1sticos, oferecem uma rememora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria tr\u00e1gica da ilha a trav\u00e9s das tem\u00e1ticas da escravatura e do tr\u00e1fico, \u00abcom efeito, o que se oferece \u00e9 toda uma representa\u00e7\u00e3o das origens\u00bb<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5733410955972212\" aria-label=\"Marie-Jos\u00e9e Matiti-Picard, \u00ab L\u00e9gendes r\u00e9unionnaises : lieux de l\u2019imaginaire, lieux des origines \u00bb, Francofonia 53 \u2013 automne 2007, Les litt\u00e9ratures r\u00e9unionnaises, p. 27-50.\">&nbsp;<\/span>. A emerg\u00eancia de um imagin\u00e1rio da Reuni\u00e3o tem ra\u00edzes firmes, uma inscri\u00e7\u00e3o do discurso na hist\u00f3ria e o local insulares. A Reuni\u00e3o n\u00e3o tem mito fundador, mas sim um povo fundador.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6800,"parent":5046,"menu_order":0,"template":"","class_list":["post-6799","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6799","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5046"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6800"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}