{"id":6973,"date":"2021-12-01T11:39:04","date_gmt":"2021-12-01T10:39:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=6973"},"modified":"2021-12-01T11:39:04","modified_gmt":"2021-12-01T10:39:04","slug":"moring-a-arte-guerreira-da-reuniao-as-suas-origens-afro-malgaxes","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/expressoes-artisticas\/moring-a-arte-guerreira-da-reuniao-as-suas-origens-afro-malgaxes\/","title":{"rendered":"<em>Moring<\/em>, a arte guerreira da Reuni\u00e3o, as suas origens afro-malgaxes"},"content":{"rendered":"<h2><em>Moring<\/em>, o patrim\u00f3nio cultural esquecido da Ilha da Reuni\u00e3o, \u00e9 uma arte de combate que em tempos foi praticada e faz parte das tradi\u00e7\u00f5es da Reuni\u00e3o que foram gravemente prejudicadas pela hist\u00f3ria colonial e pela popula\u00e7\u00e3o da Reuni\u00e3o do s\u00e9culo XX. No entanto, este legado dos nossos antepassados, que combina ritmo musical, express\u00e3o f\u00edsica e pr\u00e1ticas m\u00e1gicas de modo semelhante a certas artes marciais asi\u00e1ticas, \u00e9 de uma riqueza cultural incompar\u00e1vel.<\/h2>\n<p>Praticada no segredo das planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 e de cana-de-a\u00e7\u00facar nos s\u00e9culos XVIII e XIX, diminuiu no s\u00e9culo XX por raz\u00f5es ainda obscuras, so\u00e7obrando no esquecimento e na indiferen\u00e7a dos intelectuais da Reuni\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9166825355429429\" aria-label=\"Poirier (J.). - Le Temps, l'Espace et les Rythmes, in Histoire des moeurs, Paris, setembro de 1990, encyclop\u00e9die de la Ple\u00efade, T.1, 1788 p., pp. 3-7.\">&nbsp;<\/span>. A cultura oficial ignora-a, e embora alguns raros defensores da civiliza\u00e7\u00e3o crioula se mostrem indignados pelo seu desaparecimento, n\u00e3o se levou a cabo qualquer a\u00e7\u00e3o s\u00e9ria com vista a reavivar e salvaguardar a arte guerreira dos antepassados da Reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Quer seja uma vergonha de um passado marcado pela escravatura ou uma rutura na sociedade devido \u00e0 c\u00e9lere ocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo crioulo, o debate permanece em aberto e o questionamento da pr\u00e1tica da <em>moring<\/em> est\u00e1 na origem da nossa reflex\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.36298592278645603\" aria-label=\"Fuma (S.), Poirier (J.). - Dynamique socio-culturelle et r\u00e9cits de vie cr\u00e9oles r\u00e9unionnais, col\u00f3quio internacional dos estudos crioulos, Reuni\u00e3o, Saint-Denis, avril 1986, 11 p., p.1: Na Reuni\u00e3o, est\u00e1 um curso um processo de mudan\u00e7a total; diz respeito tanto \u00e0s t\u00e9cnicas como \u00e0s formas de pensar. Dos anos 50 a 1986, a Ilha da Reuni\u00e3o mudou muito mais do que havia mudado desde o in\u00edcio do seu povoamento. A consequ\u00eancia \u00e9 que os jovens e jovens adultos se encontram inseridos num mundo radicalmente novo, o da p\u00f3s-modernidade, e est\u00e3o quase radicalmente isolados do passado...\">&nbsp;<\/span>. \u00c9 verdade que no s\u00e9culo XX, entre os anos 50 e 90, a Reuni\u00e3o conheceu um fen\u00f3meno social ainda pouco conhecido mas de grande import\u00e2ncia: a muta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-econ\u00f3mica e sociocultural dos anos que se seguiram \u00e0 divis\u00e3o administrativa da Fran\u00e7a em departamentos, que mergulhou a ilha numa sociedade de consumo e lazer. J\u00e1 fora da norma em termos culturais, a <em>moring<\/em>, como a <em>maloya<\/em>, sobrevive apenas no inconsciente coletivo do povo da Reuni\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.22489803436498468\" aria-label=\"Chaudenson (R.). - Le lexique du parler cr\u00e9ole \u00e0 La R\u00e9union, Paris, H. Champion, 2 t., 1974, 1249 p., p.126. Segundo este universit\u00e1rio, a pr\u00e1tica da moring desapareceu por volta dos anos 50. A constitui\u00e7\u00e3o dos arquivos orais da Ilha da Reuni\u00e3o, um programa de investiga\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria iniciado em 1975 por J. Poirier, H. Gerbeau e S. Fuma, confirma esta an\u00e1lise (ver Arquivos do departamento da Reuni\u00e3o, r\u00e9cits de vie, acervo J. Poirier, S. Fuma e H. Gerbeau).\">&nbsp;<\/span>. Transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era mais do que uma imagem distorcida e fantasmag\u00f3rica. Os detentores do conhecimento, pessoas idosas ultrapassadas pelo ritmo das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, dificilmente ousaram transmitir este patrim\u00f3nio cultural, que era muito diferente da cultura racional do s\u00e9culo XX. Tal como todas as regi\u00f5es do mundo ocidental que viveram na era p\u00f3s-industrial, a Ilha da Reuni\u00e3o perdeu o contacto com a sua hist\u00f3ria cultural<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.058143139490923756\" aria-label=\"Gerbeau (H.). - Les traces de l'esclavage dans la m\u00e9moire collective des Mascareignes, col\u00f3quio hist\u00f3ria, Maur\u00edcias, fevereiro de 1985. O autor sublinhou as profundas consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas da escravatura. Ele escreve: O subconsciente dos indiv\u00edduos (escravos), a sua l\u00edngua e a sua literatura trazem muitos tra\u00e7os destes dois mitos (o da cor negra que desvaloriza e o da pregui\u00e7a transmitida ao alforriado). Fuma (S) - Le syndrome de l'esclave, fiction ou r\u00e9alit\u00e9 \u00e0 La R\u00e9union, La R\u00e9union, Saint-Denis, c\u00edrculo geneal\u00f3gico de Bourbon, A.D.R., boletim trimestral, N\u00b0 8, janeiro de 1988\">&nbsp;<\/span>\u00a0no s\u00e9culo XX. As gera\u00e7\u00f5es dos anos sessenta desconheciam totalmente a <em>moring<\/em>, o seu significado guerreiro e a sua pr\u00e1tica porque as gera\u00e7\u00f5es ascendentes tinham deixado de estar em comunica\u00e7\u00e3o com as gera\u00e7\u00f5es descendentes. Atualmente, a consci\u00eancia deste \u201cdiv\u00f3rcio\u201d, o regresso \u00e0s fontes ligadas \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o dos modelos contempor\u00e2neos pelos jovens, e a necessidade de identidade numa sociedade sufocada por modelos ocidentais d\u00e3o uma segunda oportunidade \u00e0 <em>moring<\/em> e a outros valores culturais crioulos ocultados pela hist\u00f3ria colonial. A investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e etnogr\u00e1fica permite assim aos jovens assumir a responsabilidade de ouvir a sua tradi\u00e7\u00e3o e torna-se indispens\u00e1vel para compreender o sentido dos valores enterrados no inconsciente coletivo da popula\u00e7\u00e3o da Reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a <em>moring<\/em>? Como podemos situ\u00e1-la na hist\u00f3ria do povo da Reuni\u00e3o? Como se desenvolveu e porque caiu no esquecimento no s\u00e9culo XX?<\/p>\n<h3>Origens afro-malgaxes da <em>moring<\/em> da Reuni\u00e3o<\/h3>\n<figure id=\"attachment_518\" aria-describedby=\"caption-attachment-518\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frb974115201-r13706-98-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-518 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frb974115201-r13706-98-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"804\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frb974115201-r13706-98-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frb974115201-r13706-98-web-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frb974115201-r13706-98-web-768x772.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-1-frb974115201-r13706-98-web-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-518\" class=\"wp-caption-text\">Le morainga. M. C. Mayor. 1933. Gravura. In <em>Un petit continent : Madagascar<\/em>, H. Rusillon, <br \/>Paris, Soc. das Miss\u00f5es evang\u00e9licas, 1933, p. 98.<br \/>Col. Biblioteca do Departamento da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A arte marcial <em>moring<\/em>, como outras tradi\u00e7\u00f5es da Reuni\u00e3o, \u00e9 origin\u00e1ria da \u00c1frica e de Madag\u00e1scar, onde era praticada pelas popula\u00e7\u00f5es destas regi\u00f5es mesmo antes da coloniza\u00e7\u00e3o da Ilha Bourbon, que se tornou a Ilha da Reuni\u00e3o em 1848<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8724665620556453\" aria-label=\"Barat (C.). - A la d\u00e9couverte de La R\u00e9union, rites et croyances vol.8, Cap Town, 1980, 151 p.\">&nbsp;<\/span>. De um ponto de vista estritamente etimol\u00f3gico, o termo <em>moring<\/em> pertence \u00e0 l\u00edngua malgaxe. A \u201c<em>Moraingy<\/em>\u201d \u00e9 uma arte de combate que foi amplamente praticada em Madag\u00e1scar no s\u00e9culo XVII, durante o per\u00edodo do rei Andrianapoimerina. Trata-se de um jogo ritual viril entre homens, que tem lugar em dias de festa ou durante a circuncis\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.04578491639439375\" aria-label=\"Midi Madagasikara, Madag\u00e1scar, Tananarive, 1 de setembro de 1990, Les jeux traditionnels malgaches, le flambeau de l'histoire, pp. 10-11. Trata-se de katra ou katro, moraingy, fanorona, tolon'omby, tolona, daka ou diamanga. \u2013 Albany (M.). - A la d\u00e9couverte de La R\u00e9union, L'art de vivre, vol.9, 143 p., pp.72-73: A palavra moraingue \u00e9 de origem malgaxe (moreng ou moraingy). O moraingue era batido no sul de Sakalave ou no interior de Majunga. \u2013 Sobre a hist\u00f3ria malgaxe, ler: - Labatut (F.), Rahanarivonirina (R), Madagascar, \u00e9tude historique, Paris, Fernand Nathan, 1969, 222 p. \u2013 Idem, Lars Vig (pastor em Madag\u00e1scar de 1875 a 1902). - Croyances et moeurs des Malgaches, fasc\u00edculos I e II, traduzido por E. Fagereng, 79 p. e 64 p. \u2013 Idem, Madagasikara, regards vers le pass\u00e9, \u00e9tudes malgaches, bib. universit\u00e1ria, instituto de estudos superiores de Tananarive, 1960, 162 p. \u2013 Idem, Chandon (B.), Moel. - Vohimasina, village malgache, traditions et changements dans une soci\u00e9t\u00e9 paysanne, Paris, 1972, 222 p., pp. 53 - 80.\">&nbsp;<\/span>. Com um ritual semelhante \u00e0 <em>moring<\/em> da Reuni\u00e3o, difere, contudo, em termos de estilo de combate e dos golpes utilizados pelos combatentes. Na moraingy malgaxe, tal como na <em>moring<\/em> da Reuni\u00e3o ou das Ilhas Comores, a luta come\u00e7a sempre com um desafio. O ritual, id\u00eantico para combatentes pertencentes a zonas geogr\u00e1ficas diferentes &#8211; Madag\u00e1scar, Arquip\u00e9lago das Comores, Ilha da Reuni\u00e3o &#8211; atesta a origem comum desta arte de combate. A mesma cena de desafio pode ser observada nos tr\u00eas pa\u00edses. Um concorrente emerge da multid\u00e3o e desafia um potencial advers\u00e1rio enquanto uma equipa de m\u00fasicos anima o evento ao ritmo de tambores ou, na sua falta, de latas de zinco. O desafio tamb\u00e9m pode ser expresso atrav\u00e9s de gritos de guerra. Em resposta ao desafio, um homem sair\u00e1 da multid\u00e3o para enfrentar o primeiro combatente.<\/p>\n<p>Em Madag\u00e1scar, nas Ilhas Comores e na Ilha da Reuni\u00e3o, os combatentes andam \u00e0 volta do ringue, que \u00e9 marcado por um c\u00edrculo no ch\u00e3o. A luta come\u00e7a ao ritmo do tocador de tambor que anima o evento. As t\u00e9cnicas utilizadas variam de acordo com os costumes do pa\u00eds, consoante o estilo praticado. Em Madag\u00e1scar, os lutadores de &#8220;<em>moraingy<\/em>&#8221; n\u00e3o usam os p\u00e9s e n\u00e3o est\u00e3o autorizados a golpear pontos vitais. De igual modo, nas Ilhas Comores e em Mayotte, a &#8220;<em>Mrengu\u00e9<\/em>&#8221; ou &#8220;<em>Mouringu\u00e9<\/em>&#8221; \u00e9 uma verdadeira luta pugil\u00edstica que decorre \u00e0 noite e por vezes durante uma noite inteira<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9722001806570111\" aria-label=\"Souma\u00efla Boko. - Pugilato em Sada, descri\u00e7\u00e3o de um combate de mouringue, Mayotte, novembro de 1985. O documento foi-nos fornecido pelo Sr. Kanahazi: Um dia, escreve Souma\u00efla Boko, Assisti a um combate de boxe entre dois advers\u00e1rios de for\u00e7a sensivelmente igual. Depois de sair da mesquita, a popula\u00e7\u00e3o reuniu-se na pra\u00e7a p\u00fablica. Os tambores come\u00e7aram a rufar para acompanhar e ritmar as can\u00e7\u00f5es. O autor descreve a cena do desafio: Ma\u00efer, o lutador, exibiu os seus m\u00fasculos para impressionar o p\u00fablico e para ser admirado pelos espectadores. Os dois advers\u00e1rios come\u00e7aram a gesticular cruzando-se sem se entreolharem a fim de impressionar a audi\u00eancia. - Sobre a moring em Maiote, ver tamb\u00e9m: - Blanchy Daurel (S.). - La vie quotidienne \u00e0 Mayotte, collection rep\u00e8res pour Madagascar et les \u00eeles de l'oc\u00e9an Indien, Paris, l'Harmattan, 1990. O Mrengue tem lugar durante toda a noite. H\u00e1 muito aparato e poucos golpes durante uma boa parte das trocas. - Fauveau (C.) e (V.). - Mayotte, coutumes et traditions, Saint-Denis, cole\u00e7\u00e3o Anchaing, 107 p., p.62: O murengue ou boxe tam-tam \u00e9 um festival noturno. Uma aldeia desafia outra aldeia. O tambor bate continuamente e o desfile de combatentes come\u00e7a. - Musiques traditionnelles de l'oc\u00e9an Indien, Les Comores, N\u00b0 4, Centro de documenta\u00e7\u00e3o africana, Paris 1988, 73 p., p. 70. Descri\u00e7\u00e3o dos instrumentos que acompanham o Mrengu\u00e9. Trata-se de instrumentos de percuss\u00e3o tais como o Fumba, o Dori, ou o Msindio. O mrenge ainda existe em Maiote e Anjouan\">&nbsp;<\/span>. Tal como em Madag\u00e1scar ou na Reuni\u00e3o, o ritual do desafio realizava-se em torno de um c\u00edrculo, ao ritmo dos tambores. Em Ngazidja, na Grande Comore, uma outra forma de pugilismo, a &#8220;Nkod\u00e9zaitsoma&#8221;, era praticada no 26.\u00ba dia do m\u00eas de jejum do Ramad\u00e3o, sob a forma de uma luta com as m\u00e3os, n\u00e3o codificada. Primeiro, opunha os jovens, depois as mulheres, e por fim os homens a altas horas da noite. Ao contr\u00e1rio da &#8220;<em>Mrengu\u00e9<\/em>&#8221; de Mayotte, onde um \u00e1rbitro intervinha para separar os combatentes ap\u00f3s duas ou tr\u00eas agress\u00f5es violentas, por vezes fatais, as regras da &#8220;Nkod\u00e9zaitsoma&#8221; eram mais confusas e a luta degenerava em verdadeiras batalhas. Os participantes esqueciam ent\u00e3o o significado do 26.\u00ba dia do Ramad\u00e3o ou Noite do Destino, a noite em que o anjo Gabriel transmitiu a revela\u00e7\u00e3o divina a Maom\u00e9. A luta dos cl\u00e3s destinava-se a lembrar aos participantes como as pessoas viviam antes da revela\u00e7\u00e3o divina a Maom\u00e9.<\/p>\n<p>Da fam\u00edlia da <em>moring<\/em> praticada na Reuni\u00e3o, a &#8220;<em>Dakab\u00e9<\/em>&#8221; ou &#8220;<em>Diamanga<\/em>&#8221; \u00e9 perpetuado nos planaltos altos de Madag\u00e1scar. Na &#8220;<em>Diamanga<\/em>&#8221; os praticantes utilizam, como na <em>moring<\/em> da Reuni\u00e3o, essencialmente t\u00e9cnicas de p\u00e9s. Assim, podemos encontrar na <em>moring<\/em> o &#8220;<em>tsipak&#8217;akoh<\/em>o&#8221; \u2013 golpe com a planta do p\u00e9 -, o &#8220;<em>kopola manitra<\/em>&#8221; ou &#8220;<em>miamboho<\/em>&#8221; \u2013 golpe com o lado do p\u00e9 &#8211; ou o &#8220;<em>ambadiha<\/em>&#8221; &#8211; golpe invertido. Tamb\u00e9m outras t\u00e9cnicas, tais como a &#8220;<em>kapa tokana<\/em>&#8221; &#8211; batida da roda &#8211; ou a &#8220;<em>dongomby<\/em>&#8221; &#8211; proje\u00e7\u00e3o de for\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o do peito do advers\u00e1rio &#8211; s\u00e3o semelhantes \u00e0s t\u00e9cnicas da <em>moring<\/em>.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das nuances de estilo, a perten\u00e7a da <em>moring<\/em> \u00e0 fam\u00edlia das artes de combate afro-malgaxe \u00e9 ineg\u00e1vel. Se a <em>moring<\/em> transita por Madag\u00e1scar onde a sua presen\u00e7a \u00e9 antiga, antes de se desenvolver na Ilha da Reuni\u00e3o, o seu ber\u00e7o parece ser a \u00c1frica onde esta arte de combate tem sido praticada desde tempos ancestrais. Os Negros de \u00c1frica, Mo\u00e7ambique ou Angola, tinham tradi\u00e7\u00f5es marciais antes da sua partida for\u00e7ada para as regi\u00f5es colonizadas da Am\u00e9rica ou do Oceano \u00cdndico. A origem da &#8220;capoeira&#8221;, verdadeira <em>moring<\/em> do Brasil, \u00e9 africana. Os Negros de Angola, transportados como escravos para o Brasil, preservaram um rito guerreiro chamado &#8220;<em>Batouk<\/em>&#8220;. Os angolanos lutavam imitando os gestos dos animais. Os golpes tinham nomes figurados como o salto do cavalo, o salto do macaco, o coice do cavalo&#8230; etc.<\/p>\n<p>Tal como a capoeira brasileira, a <em>moring<\/em> \u00e9 um valor cultural transmitido pelos antepassados afro-malgaxes de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o ao longo de v\u00e1rios s\u00e9culos<span style=\"font-size: 1rem;\"><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5949392545428493\" aria-label=\"Sobre a condi\u00e7\u00e3o dos Negros no Brasil, ver a obra de Katia M. De Queiros Mattoso, Etre esclave au Br\u00e9sil, Paris, Librairie Hachette, 1979, 317 p. Do mesmo modo, relativamente \u00e0 capoeira, uma arte marcial pr\u00f3xima do moring, ler o artigo de Fabriziochiesa, em Revue des sports de combats et arts martiaux, setembro de 1986. O autor escreve: Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, a cultura negra desenvolveu-se rapidamente e com ela a capoeira, que foi uma parte importante da mesma. A Capoeira, herdada da escravatura, pratica-se como a moring. - Artigo de Maillet (J.P.), entrevista de Beija Flor, Capoeirista, na revista Karate Buschido, junho de 1989.\">&nbsp;<\/span>. Os escravos africanos, trazidos para Madag\u00e1scar em pequenos navios \u00e1rabes ou para as col\u00f3nias do Oceano \u00cdndico por comerciantes de escravos ocidentais, trouxeram consigo este valor da sua cultura ancestral, uma verdadeira v\u00e1lvula de seguran\u00e7a da identidade<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6431032603710608\" aria-label=\"Deschamps (H.). - Histoire de la traite des Noirs de l'antiquit\u00e9 \u00e0 nos jours, Paris, 1972, 338 p., p.112. No s\u00e9culo XVIII, os franceses das ilhas Mascarenhas adquiriram cativos na costa oriental de Madag\u00e1scar. Os principais pontos de tr\u00e1fico de escravos foram Foulpointe a partir de 1756, e mais tarde Tamatave. As pessoas eram escravizadas no \u00e2mbito das guerras entre os chefes costeiros e, no final do s\u00e9culo, nas do interior com as conquistas do rei Andrianapoinim\u00e9rina, que trocou os seus prisioneiros de guerra por armas; o tr\u00e1fico pode ter ultrapassado os 2000 escravos por ano nos anos mais produtivos. - Ver Filliot (J.M.). - La traite africaine vers les Mascareignes, in Mouvements de populations dans l'oc\u00e9an Indien, Paris, Lib. Champion, 1979, 457 p., pp. 235-241.\">&nbsp;<\/span>. Sem a <em>moring<\/em> ou a dan\u00e7a <em>Maloya<\/em>, o homem negro que tinha perdido as suas l\u00edngua e religi\u00e3o nativas dava por si desenraizado, sem qualquer refer\u00eancia cultural. Em 1714, com 623 brancos e 534 negros de Madag\u00e1scar e \u00c1frica a viverem na Ilha da Reuni\u00e3o, podemos ser levados a crer que a <em>moring<\/em> ainda n\u00e3o tinha sido desenvolvida. O contexto sociocultural da ilha evoluiu muito rapidamente com a introdu\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de escravos malgaxes e africanos no s\u00e9culo XVII<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5432878450524523\" aria-label=\"Filliot (J.M.)\">&nbsp;<\/span>.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_520\" aria-describedby=\"caption-attachment-520\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1997-4-2-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-520 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1997-4-2-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"574\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1997-4-2-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1997-4-2-web-300x215.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-2-1997-4-2-web-768x551.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-520\" class=\"wp-caption-text\">Lutte betsmitsarakas. An\u00f3nimo. S\u00e9culo XIX, fotografia, preto e branco. <br \/>Col. Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com a aplica\u00e7\u00e3o do <em>Code Noir<\/em> (c\u00f3digo negro) nas ilhas francesas do Oceano \u00cdndico em 1723, o tr\u00e1fico de escravos, particularmente de escravos malgaxes no s\u00e9culo XVIII, que foram mais numerosos do que os africanos at\u00e9 1810, trouxe mais de 160 000 escravos para a ilha entre 1723 e 1810. A economia de planta\u00e7\u00e3o, em particular a necessidade de m\u00e3o de obra para os campos de caf\u00e9 e de especiarias, est\u00e1 na origem da desloca\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de africanos e malgaxes vendidos como escravos na Ilha da Reuni\u00e3o. Embora n\u00e3o fossem oficialmente autorizados a praticar a sua religi\u00e3o, os escravos podiam, no entanto, dan\u00e7ar ou divertir-se fora do hor\u00e1rio de trabalho, desde que n\u00e3o incomodassem os seus senhores. Os vest\u00edgios escritos de dan\u00e7as ou lutas de <em>moring<\/em> s\u00e3o raros, e s\u00f3 a tradi\u00e7\u00e3o oral nos permite tra\u00e7ar as caracter\u00edsticas das formas de express\u00e3o corporal dos antigos escravos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5108548166706015\" aria-label=\"Arquivos do departamento da Reuni\u00e3o, relatos de vida, J. Poirier, H. Gerbeau e S. Fuma.\">&nbsp;<\/span>. Como arte codificada, sujeita a um ritual preciso, n\u00e3o parece que a <em>moring<\/em> tenha evolu\u00eddo muito nas suas formas e estilo desde a sua implanta\u00e7\u00e3o na Ilha da Reuni\u00e3o. Todavia, dependendo da localidade ou do per\u00edodo em quest\u00e3o, as nuances de estilo marcaram a vida da <em>moring<\/em> da Reuni\u00e3o. Assim, em 1839, o relato de um viajante d\u00e1 algumas explica\u00e7\u00f5es vagas sobre a luta dos escravos. Segundo o autor, o escravo \u201cexp\u00f5e os problemas da sua vida atrav\u00e9s do canto\u201d. \u201c<em>Depois das dan\u00e7as<\/em>\u201d, diz ele, \u201c<em>h\u00e1 sempre rixas, mas \u00e9 quase sempre com golpes na cabe\u00e7a e com punhos que os advers\u00e1rios se atacam uns aos outros. A audi\u00eancia excita os combatentes pois deseja assistir a uma luta o mais sangrenta poss\u00edvel. A luta n\u00e3o para enquanto n\u00e3o houver um combatente ca\u00eddo no ch\u00e3o<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7757424343233679\" aria-label=\"Arago (J.). - Souvenirs d'un aveugle, voyages autour du monde, Paris t.I, Horlet e Ozanne, 1839, 398 p., pp. 217\">&nbsp;<\/span><em>\u201d<\/em>. A ilustra\u00e7\u00e3o de um combate em 1839 mostra dois combatentes numa posi\u00e7\u00e3o de luta mais semelhante ao pugilato cl\u00e1ssico do que ao combate de <em>moring<\/em> descrito nos relatos de pessoas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Devem ser feitas reservas sobre as poss\u00edveis origens francesas da <em>moring<\/em> apresentadas por Philippe Bourjon num livro publicado pela Universidade da Reuni\u00e3o em 1988, <em>R\u00f4le et enjeux, approche anthropologique g\u00e9n\u00e9ralis\u00e9e<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.08420289454702856\" aria-label=\"Ghasarian (G.) e Cambefort (J.P.). - R\u00f4le et enjeux, approche et anthropologie g\u00e9n\u00e9ralis\u00e9e, Reuni\u00e3o, Saint-Denis, servi\u00e7o de publica\u00e7\u00f5es da Universidade, 1988, ver art. de Bourjon (J.), pp. 57 a 89\">&nbsp;<\/span> (Papel e desafios, a abordagem antropol\u00f3gica generalizada). Embora seja prov\u00e1vel que os marinheiros da marinha francesa, que eram adeptos da savate ou do boxe franc\u00eas, tenham organizado lutas improvisadas nos cais \u201cpara esvaziar os abcessos que apareciam durante as travessias\u201d, \u00e9 contest\u00e1vel afirmar que estas pr\u00e1ticas influenciaram a arte de combate dos escravos malgaxes e africanos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.1524106073314362\" aria-label=\"Idem, op. cit.\">&nbsp;<\/span>. \u00c9 preciso lembrar que o contexto social da \u00e9poca proibia as trocas entre Brancos e Negros, mesmo que fossem marinheiros do rei, e punia \u00e0 chicotada qualquer reuni\u00e3o de pessoas negras na via p\u00fablica. Qualquer praticante de uma arte marcial, independentemente do estilo, sabe que uma t\u00e9cnica de luta s\u00f3 pode ser dominada ap\u00f3s uma longa aprendizagem e v\u00e1rias observa\u00e7\u00f5es cuidadosas dos gestos a serem imitados. Na altura, por\u00e9m, o <em>Code Noir<\/em> separava as pessoas negras das brancas e impedia formalmente as trocas culturais entre estes dois grupos populacionais. Embora as t\u00e9cnicas do boxe franc\u00eas fa\u00e7am lembrar as da <em>moring<\/em>, designadamente a &#8220;viragem invertida&#8221;, a semelhan\u00e7a n\u00e3o implica necessariamente uma troca inicial de t\u00e9cnicas de combate. Portanto, a <em>moring<\/em> \u00e9, acima de tudo, uma arte marcial de origem afro-malgaxe. A sua presen\u00e7a ancestral em Madag\u00e1scar pode ser explicada pela proximidade geogr\u00e1fica da Grande Ilha com o continente africano. O interc\u00e2mbio de popula\u00e7\u00f5es (Sakalaves de origem africana) explica a forte presen\u00e7a dos costumes africanos em Madag\u00e1scar. Neste contexto, posto que sabemos que os escravos transportados para a Ilha da Reuni\u00e3o eram principalmente Sakalaves, podemos deduzir que tentaram legitimamente preservar as suas tradi\u00e7\u00f5es ancestrais no seu novo pa\u00eds de ado\u00e7\u00e3o<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4165344934625217\" aria-label=\"Fuma (S.) e Poirier (J.). - M\u00e9tissages, h\u00e9t\u00e9roculture et identit\u00e9 culturelle, le d\u00e9fi r\u00e9unionnais. Reuni\u00e3o, Saint-Denis, 1990. Neste artigo, escrevemos: a an\u00e1lise da literatura oral, o estudo de pr\u00e1ticas m\u00e1gicas e divinat\u00f3rias, bem como o da cozinha, permitiriam identificar refer\u00eancias \u00e0 Grande Ilha. O Moring faz parte desta heran\u00e7a malgaxe, uma heran\u00e7a que L.S. Senghor prop\u00f4s denominar malegassitude ou malagassit\u00e9 para ilustrar a maneira de ser malgaxe. Ao praticar a moring, o combatente vivia a sua malagassit\u00e9.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<h3>A pr\u00e1tica e o significado da moring da Reuni\u00e3o<\/h3>\n<p>Original, a moring, permitiu \u00e0s pessoas negras da ilha afirmarem a sua identidade cultural. Tratando-se de uma arte africana foi praticada principalmente por pessoas negras, de origem malgaxe ou cafre, exceto no s\u00e9culo XX, quando foi adotada por toda a popula\u00e7\u00e3o da ilha. De facto, antes da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1848, a <em>moring<\/em> era considerada a atividade de lazer privilegiada dos escravos, uma atividade degradante para a sociedade colonial, e nenhuma pessoa branca ou mesmo um crioulo pobre de cor a teria praticado sob pena de ser visto como inferior. Ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o oficial da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura a 20 de dezembro de 1848, a <em>moring<\/em> permaneceu ainda durante algumas d\u00e9cadas patrim\u00f3nio exclusivo dos Alforriados de 1848, sendo a sua integra\u00e7\u00e3o na sociedade colonial muito imperfeita<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.7643631093269156\" aria-label=\"Fuma (S.). - Esclaves et citoyens, le destin de 62.000 R\u00e9unionnais, Reuni\u00e3o, Saint-Denis, F.R.D.O.I., collection documents et recherches, 2nd edition, 1982, A.N.I.D., 174 p.\">&nbsp;<\/span>.<\/p>\n<p>Todavia, nos anos 1880-1900, as condi\u00e7\u00f5es de vida dos antigos escravos e da popula\u00e7\u00e3o crioula, especialmente dos brancos das terras altas e dos crioulos de cor, tornaram-se praticamente id\u00eanticas. \u00c9 verdade que os Cafres, os Malgaxes e os Indianos imigrantes ainda formavam a m\u00e3o de obra privilegiada das grandes planta\u00e7\u00f5es, mas o seu contacto com a velha popula\u00e7\u00e3o colonial j\u00e1 n\u00e3o era regulado por uma legisla\u00e7\u00e3o severa em mat\u00e9ria de escravatura baseada na discrimina\u00e7\u00e3o racial. Do mesmo modo, alguns &#8220;<em>novos cidad\u00e3os tornaram-se pequenos propriet\u00e1rios das suas casas localizadas na periferia das cidades da col\u00f3nia<\/em>&#8220;<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4121248643961277\" aria-label=\"Idem, pp. 86-94.\">&nbsp;<\/span>. Em Saint-Denis, a capital da ilha, antigos escravos constru\u00edram as suas casas em lugares chamados &#8220;les Lantani\u00e9s&#8221;, &#8220;Camp-Ozoux&#8221;, &#8220;Camp-Calixte&#8221;, &#8220;Patate \u00e0 Durand&#8221;, &#8220;le Butor&#8221;. O mesmo fen\u00f3meno pode ser encontrado nas zonas rurais, onde os Negros constru\u00edam as suas cabanas nas imedia\u00e7\u00f5es de grandes planta\u00e7\u00f5es ou junto aos barrancos, explorando, como os Brancos menos abastados, pequenas parcelas de terra, muitas vezes n\u00e3o cultivadas. Esta analogia das condi\u00e7\u00f5es de vida permitiu que a moring se tornasse conhecida e at\u00e9 praticada por certos crioulos de cor ou Brancos pobres. Esta categoria de praticantes permaneceu limitada em compara\u00e7\u00e3o com a dos descendentes afro-malgaxes da col\u00f3nia. A nova ordem social resultante da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura tinha assim contribu\u00eddo para a propaga\u00e7\u00e3o da <em>moring<\/em> noutros estratos da sociedade colonial. At\u00e9 \u00e0 Primeira Guerra Mundial, as lutas moring continuavam a ser a principal atividade de lazer da popula\u00e7\u00e3o crioula da Ilha da Reuni\u00e3o. Os combates de moring eram perfeitamente codificados e decorriam de acordo com regras aceites por todos os combatentes. \u00c9 inconveniente afirmar que a <em>moring<\/em> \u00e9 semelhante a uma dan\u00e7a sob o pretexto de que a luta \u00e9 ritmada por um verdadeiro tambor, um <em>rouleur<\/em> (tambor tubular) ou um tambor improvisado, &#8220;fer blanc \u00e0 p\u00e9trole&#8221; (ferro branco de petr\u00f3leo) ou &#8220;fer blanc la graisse&#8221; (ferro branco a \u00f3leo), como nas partes altas de Trois-Bassins ou em Ligne Paradis<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.6563321367321409\" aria-label=\"Macarty (J.). - Quand la capoeira rencontre le Moring, in Journal T\u00e9moignages, Saint-Denis, 8 de outubro de 1986, p.5: Henri Lagarrigue, um dos \u00faltimos moringueurs de Ligne Paradis (Saint-Pierre) enfrentou um capoeirista brasileiro numa demonstra\u00e7\u00e3o. O jornalista transcreve as impress\u00f5es dos \u00faltimos moringueurs da ilha.\">&nbsp;<\/span>. A viol\u00eancia das agress\u00f5es e as regras de combate eliminam imediatamente esta falsa imagem da <em>moring<\/em>. A arte da <em>moring<\/em> era praticada durante todo o ano, mas os momentos privilegiados eram os feriados e a \u00e9poca de 20 de dezembro ou os festivais indianos. As reuni\u00f5es tinham lugar nas casas de particulares de entusiastas de <em>moring<\/em>, por vezes comerciantes que aproveitavam a ocasi\u00e3o para vender rum, a bebida preferida dos lutadores, ou num &#8220;Rond&#8221; (c\u00edrculo), uma verdadeira zona de luta num caminho de terra que os entusiastas de <em>moring<\/em> frequentavam regularmente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_522\" aria-describedby=\"caption-attachment-522\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frihoi-15p1-du1-41-web.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-522 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frihoi-15p1-du1-41-web.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"549\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frihoi-15p1-du1-41-web.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frihoi-15p1-du1-41-web-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ill-3-frihoi-15p1-du1-41-web-768x527.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-522\" class=\"wp-caption-text\">A Moringue na Reuni\u00e3o. &#8211; PORT. Octave Du Mesgnil. 1905. Impress\u00e3o fotomec\u00e2nica (postal). <br \/>Acervo privado Jean-Fran\u00e7ois Hibon de Frohen. Direitos Reservados<\/figcaption><\/figure>\n<p>A luta <em>moring<\/em> \u00e9 espetacular tanto em termos de encena\u00e7\u00e3o teatral como de sequ\u00eancias t\u00e9cnicas. Os espectadores rodeiam um c\u00edrculo de tr\u00eas metros de di\u00e2metro e esperam impacientemente pelo in\u00edcio de uma luta que come\u00e7a sempre com o ritual da provoca\u00e7\u00e3o. O ritual da <em>moring<\/em> \u00e9 de facto um momento chave em torno do qual toda a cerim\u00f3nia \u00e9 organizada<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.06013550597288608\" aria-label=\"Idem, Lagarrigue recorda que os golpes desferidos na moring n\u00e3o eram fingimento e que por vezes se deixava a roda deixando dois dentes no ch\u00e3o. Os golpes eram violentos, mas sem maldade. - Idem, op. cit, Relatos de vida, arquivos orais da Reuni\u00e3o: Relato do Sr Dejean nascido a 26 de setembro de 1920 em Trois Bassins: A moring estava no corpo e no sangue e praticava-se com seriedade.<br \/>\n\">&nbsp;<\/span>. Um tocador de tambor, geralmente um velho <em>moringer<\/em>, dava a partida come\u00e7ando a tocar o seu instrumento<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5211033642793861\" aria-label=\"Idem.\">&nbsp;<\/span>. A batida era inicialmente lenta e silenciosa, como um pr\u00f3logo da luta, convidando os combatentes a aproximarem-se e a entrarem no c\u00edrculo. O papel do baterista, que era de facto o \u00e1rbitro da manifesta\u00e7\u00e3o, era crucial porque o ritmo e a intensidade da luta dependiam dele<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9380440371218548\" aria-label=\"Bont\u00e9 (P.) et Izard (M.). - Dictionnaire de l'ethnologie et de l'anthropologie, Paris, P.U.F., 1991, 755 p., p. 633.\">&nbsp;<\/span>. Joseph Pitou, nascido em 1910 em Saint-Beno\u00eet, insiste no papel essencial do baterista: \u201c<em>O tambor d\u00e1 ritmo \u00e0 luta. Faz os advers\u00e1rios andarem \u00e0 roda e estarem alerta. Utiliza outro ritmo para a batalha. Os lutadores usam os p\u00e9s e os calcanhares, mas n\u00e3o os punho<\/em>s<em>&#8220;<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.4148976829915618\" aria-label=\"Manglou (T.). - Dossiers sur le folklore \u00e0 La R\u00e9union, Saint-Denis, 24 p. dactilografados, s.d.,: O houleur ou rouleur \u00e9 um tant\u00e3 encontrado em quase toda a parte do mundo. Note-se a sua semelhan\u00e7a com os instrumentos de percuss\u00e3o africanos e malgaxes. Sobre este assunto, ler: Madagasiraka, regards vers le pass\u00e9, op. cit., p. 106. - Idem, Ambario, les instruments malgaches sur cylindre, Tananarive, 207 p., p. 117\">&nbsp;<\/span>. Segundo Joseph Pitou, o baterista poderia at\u00e9 distorcer a luta se quisesse, alterando o ritmo para diminuir ou aumentar a intensidade dos golpes. Da mesma forma, poderia impedir o in\u00edcio da luta se houvesse uma despropor\u00e7\u00e3o de for\u00e7a entre os lutadores ou impedi-la se sentisse que as regras estavam a ser falseadas e que um lutador corresse o risco de morrer.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns minutos de tambor, um praticante habitual de <em>moring<\/em>, mais ou menos encorajado pela audi\u00eancia e excitado pelo rum e pela atmosfera do &#8220;c\u00edrculo&#8221; alimentada pelo tambor, acabaria por entrar no c\u00edrculo de combate. O lutador que assim fazia a sua entrada girava duas ou tr\u00eas vezes enquanto anunciava a sua idade ou a idade dos homens que estava disposto a combater. Ao contr\u00e1rio das artes de combate atuais, a <em>moring<\/em> n\u00e3o assumia categorias de peso, sendo os pr\u00f3prios lutadores a avaliar as suas hip\u00f3teses de vit\u00f3ria de acordo com o advers\u00e1rio que os desafiava. Quando um lutador encontrava um advers\u00e1rio \u00e0 altura do seu desafio, este, por sua vez, entrava no &#8220;c\u00edrculo&#8221; e tamb\u00e9m come\u00e7ava a girar.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o desafio, a segunda fase da <em>moring<\/em> seguiria com um ritmo mais r\u00e1pido e sons mais curtos e secos do tambor. Inicialmente provocavam-se mutuamente com gestos intimidat\u00f3rios, observando-se, ao mesmo tempo, para encontrar o \u00e2ngulo de ataque ideal, e de seguida, os combatentes envolver-se-iam numa luta impiedosa e violenta. Dependendo da idade dos lutadores, o tocador de tambor marcaria o ritmo da luta com mais ou menos rapidez. Se os combatentes fossem muito jovens, o ritmo era r\u00e1pido, se fossem mais velhos, o som era mais entorpecido e mais lento.<br \/>\nDe um modo geral, os lutadores tinham uma boa condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, combinando flexibilidade, for\u00e7a e agilidade. Os seus movimentos e esquivas acrob\u00e1ticas contavam com a admira\u00e7\u00e3o dos entusiastas da <em>moring<\/em>. O lutador movia-se com fluidez, sem movimentos bruscos e podia, a qualquer momento, atacar o seu advers\u00e1rio como um animal selvagem ataca a sua presa. As t\u00e9cnicas permitidas eram conhecidas de todos e a multid\u00e3o observava atentamente o desenrolar dos acontecimentos, tomando partido caso o jogo fosse distorcido. Qualquer irregularidade levava a que a luta fosse interrompida e a multid\u00e3o intervinha para separar os lutadores que n\u00e3o aceitavam as regras do jogo. Se, por exemplo, um lutador usasse os seus punhos, o tambor parava de tocar para assinalar o fim da luta. Na realidade, esta situa\u00e7\u00e3o ocorria raramente e os lutadores respeitavam as regras do jogo porque a sua reputa\u00e7\u00e3o disso dependia. Al\u00e9m disso, a pr\u00e1tica da <em>moring<\/em> tinha um car\u00e1ter sagrado e nenhum lutador genu\u00edno se rebaixaria ao ponto de usar as suas capacidades de luta para se vingar de um concidad\u00e3o. A <em>moring<\/em> n\u00e3o era, portanto, uma alterca\u00e7\u00e3o e os combatentes respeitavam-se mutuamente antes e depois da luta, independentemente do resultado do encontro. Como Georges Fourcade t\u00e3o bem expressa, a <em>moring<\/em> &#8220;era vivida como um jogo e um rito transportado por um esp\u00edrito&#8221;.<\/p>\n<p>Durante o combate, os protagonistas permaneciam leais e respeitavam as regras. N\u00e3o se batia num homem ca\u00eddo no ch\u00e3o ou ferido caso este n\u00e3o desejasse continuar a luta. No romance de Marius e Ary Leblond, Ulysse Cafre luta de acordo com os pap\u00e9is tradicionais da moring. O autor salienta tamb\u00e9m que &#8220;<em>estes filhos de Negros, criados pelos seus pais ou que cresceram junto aos seus senhores, n\u00e3o lutavam como selvagens, mas como camaradas. Mesmo no calor da batalha, mantinham os modos<\/em>&#8220;<span style=\"font-size: 1rem;\"><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5747068070075705\" aria-label=\"Leblond (M. e A.). - Ulysse Cafre ou l'histoire dor\u00e9e d'un Noir, Paris, 1924, pp. 183-191: estes filhos de Negros n\u00e3o lutavam como selvagens, mas como camaradas.\">&nbsp;<\/span>. Um combate n\u00e3o tinha dura\u00e7\u00e3o limitada e podia durar tanto tempo quanto os advers\u00e1rios tivessem for\u00e7a para lutar. Poderiam at\u00e9 parar de comum acordo, beber um copo de rum e recome\u00e7ar a luta depois de descansar. Antes de combaterem, alguns dos lutadores consultavam um feiticeiro que por vezes lan\u00e7ava um feiti\u00e7o sobre um advers\u00e1rio que era considerado invenc\u00edvel, &#8220;falseado&#8221;, dizia-se, por outro feiticeiro. Nesse caso, a luta era muitas vezes fatal porque os lutadores, convencidos da sua for\u00e7a, iam at\u00e9 ao fim das suas capacidades. A tradi\u00e7\u00e3o oral conta a proeza dos prestigiados <em>moringueurs<\/em> que marcaram a hist\u00f3ria da ilha. Nomes c\u00e9lebres tais como &#8220;Laurent le diable&#8221;, &#8220;Coco l&#8217;enfer&#8221;, &#8220;Henri la fl\u00e8che&#8221;, &#8220;Cadine&#8221;, &#8220;Chou-fleur&#8221;, &#8220;La Marc Caf\u00e9&#8221; s\u00e3o frequentemente mencionados em relatos. Estas alcunhas coloridas impressionavam o p\u00fablico, que tinha uma verdadeira admira\u00e7\u00e3o pelos lutadores.<\/span><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos combates de moring, as t\u00e9cnicas de p\u00e9s eram fundamentais e os murros proibidos. No in\u00edcio do s\u00e9culo, o murro era por vezes tolerado. No livro do Leblond, Ulysse Cafre vence o seu advers\u00e1rio, B\u00e9b\u00e9, com os punhos<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.5788175390931181\" aria-label=\"Idem, p. 191: Os Cafres escreve o autor t\u00eam duas qualidades de murros: o murro cheio e o murro picado, um pode matar, o outro pode fazer somente o cora\u00e7\u00e3o falhar.\">&nbsp;<\/span>. As t\u00e9cnicas de p\u00e9 s\u00e3o, no entanto, essenciais nesta arte de <em>moring<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8538284420458113\" aria-label=\"Poirier (J.), Fuma (S.). \u2013 Constitui\u00e7\u00e3o dos arquivos orais da Reuni\u00e3o. Saint-Denis, Arquivos departamentais. A maioria dos relatos de vida evocam a pr\u00e1tica da moring e mostram que as t\u00e9cnicas com o p\u00e9 s\u00e3o fundamentais nesta pr\u00e1tica. - Idem, ver a descri\u00e7\u00e3o de um combate moring por J.V. Payet, em R\u00e9cits et traditions de La R\u00e9union, Paris, l'Harmattan, 210 p., pp. 119-124.\">&nbsp;<\/span>. Vestidos com cal\u00e7as ou &#8220;<em>mauresque<\/em>&#8220;, grandes cal\u00e7as de lona que v\u00e3o at\u00e9 aos joelhos, os combatentes lutavam descal\u00e7os a maior parte do tempo. Os antigos lutadores lembram-se das diferentes t\u00e9cnicas que utilizavam para praticar a sua arte. Assim, o <em>bourrante<\/em>, simples ou duplo, que \u00e9 um pontap\u00e9 de ca\u00e7ador realizado de frente com o calcanhar numa trajet\u00f3ria retil\u00ednea, o &#8220;<em>talon zirondelle<\/em>&#8220;, o &#8220;<em>talon malgas<\/em>&#8220;, o &#8220;<em>coup pied zizo<\/em>&#8220;, o &#8220;<em>kas kou san tous<\/em>&#8220;, tamb\u00e9m chamado &#8220;san tous&#8221;, o &#8220;talon la roue&#8221;, o &#8220;coup de t\u00eate cinq m\u00e8tres&#8221; eram conhecidos de todos os <em>moringueurs<\/em>. Todas estas t\u00e9cnicas foram aprendidas no terreno pelos praticantes da <em>moring<\/em>, que conservavam ciosamente o seu segredo e s\u00f3 as transmitiam aos iniciados.<\/p>\n<p>Um combate de <em>moring<\/em> era um verdadeiro momento de celebra\u00e7\u00e3o para os espectadores<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8952277132624396\" aria-label=\"Sobre este tema, ver Balandier (G.). - Anthro-pologiques, Paris, 1985, Librairie g\u00e9n\u00e9rale fran\u00e7aise, 319 p., pp. 236-235.\">&nbsp;<\/span>. O rufar de tambores fazia-os participar ativamente na luta. Tal como nas lutas de galos que se desenrolavam em &#8220;rodas&#8221;, a multid\u00e3o vibrava ao som dos tambores e a atmosfera na &#8220;roda&#8221; era tensa. A multid\u00e3o encorajava, desafiava e criticava os combatentes. Cada comuna da ilha tinha as suas pr\u00f3prias &#8220;rodas de <em>moring<\/em>&#8220;, que geralmente se situavam em bairros pobres, predominantemente africanos. Com &#8220;Coeur-saignant&#8221; em Le Port, a &#8220;Barrage&#8221; em La Saline, &#8220;le Butor&#8221;, a &#8220;Petite-Ile&#8221;, o &#8220;Lantani\u00e9s&#8221; em Saint-Denis, o bairro de &#8220;Rivi\u00e8re de l&#8217;Est&#8221; em Sainte-Rose, &#8220;La Mare&#8221; em Sainte-Marie, &#8220;Trois-Mares&#8221; em Le Tampon, a &#8220;Ligne Paradis&#8221; em Saint-Pierre, as &#8220;rodas de <em>moring<\/em>&#8221; estavam presentes em toda a ilha. Maurice Poleya, um antigo membro da roda Le Br\u00fbl\u00e9, que atualmente j\u00e1 n\u00e3o existe, contou apaixonadamente a sua pr\u00e1tica de <em>moring<\/em> na sua aldeia: &#8220;<em>Le Br\u00fbl\u00e9<\/em>&#8220;, dizia ele, &#8220;<em>era uma Meca do moring. Costum\u00e1vamos encontrar-nos num campo de relva e praticar moring batendo numa caixa que servia como um tambor. Dependendo do dia, pratic\u00e1vamos na brincadeira ou para lutar a s\u00e9rio. Muitas vezes o sangue flu\u00eda, mas quando se tornava demasiado duro, os combatentes eram separado<\/em>s&#8221;<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.34159257318678926\" aria-label=\"Op. cit. Poirier (J.) e Fuma (S.). - Arquivos orais da Reuni\u00e3o. - Ver tamb\u00e9m Durand (D.). - Les structures anthropologiques de l'imaginaire, Paris, Dunod, 1984. - Caillois. - L'homme et le sacr\u00e9, Paris, Gallimard, collection folio essais, 1988.\">&nbsp;<\/span>. Flavien Lacoudray, nascido em 1915, confirma esta vers\u00e3o: &#8220;<em>O meu pai, o meu cunhado, e alguns homens velhos das terras altas praticavam seriamente a moring. Qualquer pessoa podia participar. A moring era praticada em qualquer lugar, mesmo na berma da estrada. N\u00e3o \u00e9ramos pagos para lutar. Quando a luta terminava, compr\u00e1vamos um litro de rum e todos bebiam um copo&#8221;<\/em>. A luta de <em>moring<\/em> tinha, portanto, um verdadeiro significado para os seus praticantes. O ritual, o sagrado, ao som do rufar do tam-tam (tambor), dava \u00e0 <em>moring<\/em> um car\u00e1cter m\u00e1gico que impressionava a popula\u00e7\u00e3o crioula. Marius e Ary Leblond, no seu romance Ulysse Cafre, retratam her\u00f3is da <em>moring<\/em> que lutam entre si, enfeiti\u00e7ados pela paix\u00e3o quase sobrenatural da <em>moring<\/em>. Em particular, Ulysse Cafre for\u00e7a B\u00e9b\u00e9, o seu advers\u00e1rio, a entrar no &#8220;c\u00edrculo&#8221;, apesar da relut\u00e2ncia deste \u00faltimo. Quando B\u00e9b\u00e9 lhe pergunta porque o provoca, Ulysse Cafre responde simplesmente duas vezes com uma \u00fanica palavra &#8220;<em>moreng<\/em>&#8220;&#8230; E o som r\u00edtmico do tambor, uma composi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria lancinante e hipnotizante, atrai B\u00e9b\u00e9 para uma luta violenta que lhe ser\u00e1 fatal. O <em>moring<\/em>, m\u00e1gico, desempenha um papel importante na vida do crioulo de cor. Como terapia, permitia evacuar os problemas di\u00e1rios acumulados ao longo da semana. Libertava, assim, a mente do corpo martirizado pelos problemas sociais. Durante a dura\u00e7\u00e3o do combate, o <em>moringueur<\/em> restabelecia os la\u00e7os com os seus antepassados e a sua cultura guerreira. Ao penetrar na \u00e1rea de combate, o guerreiro estava em simult\u00e2neo perante si e o outro, um parceiro indispens\u00e1vel para exorcizar a viol\u00eancia da vida quotidiana. O objetivo inconsciente do combate era, como nas sociedades africanas tradicionais, a restaura\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da viol\u00eancia controlada e ritualizada, de uma ordem social que tinha sido abalada ao privar um povo das suas ra\u00edzes<span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.8191208106618328\" aria-label=\"Jornal Le Peuple, Saint-Denis, 16 de abril de 1950. Cita os nomes dos \u00faltimos moringueurs tais como Caf tabac, Cinq-cinq ou Soufleur.\">&nbsp;<\/span>. A <em>moring<\/em> era assim uma forma de transferir e expulsar os fardos de uma ordem social traum\u00e1tica e r\u00edgida.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do seu car\u00e1cter desportivo, a arte da <em>moring<\/em>, atrav\u00e9s do seu aspeto m\u00e1gico e ritual, tem influenciado fortemente a hist\u00f3ria cultural da Ilha da Reuni\u00e3o. Uma cultura da noite, uma cultura afro-malgaxe herdada da escravatura, uma cultura ocultada e denegrida pela cultura oficial, a <em>moring<\/em> tem vindo a marcar a tradi\u00e7\u00e3o popular da Ilha da Reuni\u00e3o h\u00e1 quase dois s\u00e9culos. Uma arte marcial praticada exclusivamente por pessoas negras no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o, propagou-se \u00e0s outras faixas da popula\u00e7\u00e3o colonial para se tornar uma verdadeira tradi\u00e7\u00e3o do pequeno povo no s\u00e9culo XX. O seu decl\u00ednio, depois a sua extin\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960, continua a ser um enigma. A viol\u00eancia dos combates n\u00e3o \u00e9 suficiente para explicar o seu desaparecimento do patrim\u00f3nio cultural da Reuni\u00e3o. Com efeito, durante dois s\u00e9culos, os violentos combates de <em>moring<\/em> haviam atra\u00eddo multid\u00f5es e exercido um fasc\u00ednio quase m\u00e1gico sobre os praticantes. Ent\u00e3o porque \u00e9 que a <em>moring<\/em> desapareceu de repente? Porque \u00e9 que os mais velhos ainda falam desta pr\u00e1tica com temor e paix\u00e3o, mas sem, no entanto, a transmitirem \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais novas?<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida da sociedade da Reuni\u00e3o e as mudan\u00e7as t\u00e9cnicas e sociais resultantes da divis\u00e3o administrativa em departamentos parecem ter sido parcialmente respons\u00e1veis pelo desaparecimento da <em>moring<\/em>. Rejeitada, por recordar demasiado a escravatura e a coloniza\u00e7\u00e3o, seria substitu\u00edda por outras atividades de lazer que n\u00e3o tinham o mesmo significado cultural. A hist\u00f3ria da <em>moring<\/em> ainda n\u00e3o foi escrita e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que esta sensibilidade do passado poder\u00e1 recuperar o seu lugar no espectro cultural da sociedade crioula.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6977,"parent":5046,"menu_order":20,"template":"","class_list":["post-6973","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/6973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5046"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6977"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}