{"id":8405,"date":"2022-05-31T09:32:30","date_gmt":"2022-05-31T07:32:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=8405"},"modified":"2022-12-14T11:59:53","modified_gmt":"2022-12-14T10:59:53","slug":"oratorio-1998-ombline-ou-o-vulcao-as-avessas-oratorio-de-ahmed-essyad-de-um-libreto-de-boris-gamaleya","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/expressoes-artisticas\/oratorio-1998-ombline-ou-o-vulcao-as-avessas-oratorio-de-ahmed-essyad-de-um-libreto-de-boris-gamaleya\/","title":{"rendered":"<em>Orat\u00f3rio 1998:  Ombline ou o vulc\u00e3o \u00e0s avessas<\/em>,  <br\/>Orat\u00f3rio de Ahmed Essyad de um libreto de Boris Gamaleya"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-8405-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/poster_quillier.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/QUILLIER_Sub_PORT.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/QUILLIER_Sub_PORT.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/QUILLIER_Sub_PORT.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<h3>Algumas datas para situar o <em>Orat\u00f3rio 1998<\/em> na obra<\/h3>\n<h4>1983<\/h4>\n<p>Em 1983, Boris Gamaleya publicou <em>Le Volcan \u00e0 l&#8217;Envers ou Madame Desbassyns, le Diable et le Bondieu<\/em> (<em>O Vulc\u00e3o \u00e0s Avessas ou Madame Desbassyns, Deus e o Diabo<\/em>) (ASPRED, Saint-Leu, 1983). Esta pe\u00e7a de teatro marca tanto um <em>prolongamento<\/em> como um <em>ponto de viragem<\/em> na obra do autor.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6093\" aria-describedby=\"caption-attachment-6093\" style=\"width: 423px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1983-Le-volcan-a\u0300-lenvers-e1631100721926.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-6093 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1983-Le-volcan-a\u0300-lenvers-e1631100721926.jpg\" alt=\"\" width=\"423\" height=\"600\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6093\" class=\"wp-caption-text\"><em>Le Volcan \u00e0 l\u2019Envers ou Madame Desbassyns, le Diable et le Bondieu<\/em> (<em>O Vulc\u00e3o \u00e0s Avessas ou Madame Desbassyns, Deus e o Diabo<\/em>), Saint-Leu, ASPRED, 1983<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Um prolongamento<\/em>, porque o potencial dram\u00e1tico e dramat\u00fargico das duas cole\u00e7\u00f5es de poemas anteriores, <em>Vali Pour une Reine Morte<\/em> (<em>Vali por uma rainha morta<\/em>) (REI, Saint-Andr\u00e9, 1973) e <em>La Mer et la M\u00e9moire \u2013 Les Langues du Magma<\/em> (<em>O Mar e a Mem\u00f3ria \u2013 As L\u00ednguas do Magma<\/em>) (Imprimerie AGM, Saint-Denis, 1978), \u00e9 reiterado e sistematizado numa estrutura teatral que segue as regras.<\/p>\n<p>De facto, os di\u00e1logos que pontuam estas primeiras obras possuem uma respira\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, por vezes com duetos de amor de um intenso lirismo (Rahariane e Cimendef, Anissia e Sangolo), outras vezes com confrontos de um alto conte\u00fado agon\u00edstico entre <em>marrons<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"999999\" aria-label=\"N. da T. \u2013 marron: escravo fugitivo\">&nbsp;<\/span><\/em> (Cimendef, Anchain) e ca\u00e7adores de <em>marrons<\/em> (Mussard, Bronchard).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma estrutura dramat\u00fargica que sustenta em profundidade os dois textos, aliando o ritual \u00e0 inicia\u00e7\u00e3o \u2013 em <em>Vali Pour une Reine Morte<\/em>, uma longa litania de complica\u00e7\u00f5es, seguida de uma queda da qual \u00e9 necess\u00e1rio reerguer-se: \u201ccaio\/a mem\u00f3ria queimada do leite das tuas euf\u00f3rbias\u201d; ou configurando as lutas contempor\u00e2neas inspiradas num profundo conhecimento das lutas passadas \u2013 na segunda cole\u00e7\u00e3o, uma obra dupla, tudo se concentra inicialmente na figura de um \u201chomem que recorda as suas possibilidades devastadas\u201d, \u201cque cai e se levanta\/no clamor incans\u00e1vel\/da hist\u00f3ria\u201d, para depois dinamizar as lutas atuais, homenageando os militantes ca\u00eddos sob os golpes dos bandidos (\u201cbasta que pronuncie um nome, Fran\u00e7ois Coupou\u201d, \u201cbasta que pronuncie um nome, Eliard Laude\u201d, \u201cbasta que pronuncie um nome, Rico Carpaye\u201d), e sobretudo atrav\u00e9s da proje\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de palavras que se tornam \u201caves de uma nova pr\u00e1tica\u201d, de um \u201cgrito irrefut\u00e1vel\u201d: \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 a vida que aos poucos triunfa e n\u00e3o s\u00f3 os nossos mortos\/\/a luta continua\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Vali-pour-une-reine-morte_La-mer-et-la-me\u0301moire-2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale alignnone wp-image-6152 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Vali-pour-une-reine-morte_La-mer-et-la-me\u0301moire-2.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"632\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Vali-pour-une-reine-morte_La-mer-et-la-me\u0301moire-2.jpg 840w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Vali-pour-une-reine-morte_La-mer-et-la-me\u0301moire-2-300x226.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Vali-pour-une-reine-morte_La-mer-et-la-me\u0301moire-2-768x578.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ponto de viragem<\/em>, na medida em que, doravante, \u00e0 semelhan\u00e7a do mar que lhe proporciona um modelo precioso, porque para ele o mar \u00e9 \u201cs\u00edntese para al\u00e9m do homem\u201d, Boris Gamaleya empenha-se em estabelecer na sua obra estruturas dial\u00e9ticas complexas que visam instaurar \u201cuma estranha s\u00edntese\u201d, na supera\u00e7\u00e3o deliberada de todos os impasses da hist\u00f3ria que as diversas oposi\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias (entre os g\u00e9neros, entre as classes, entre os povos e assim por diante) nos imp\u00f5em.<\/p>\n<p>Como tal, o pref\u00e1cio de Gilbert Aubry \u00e9 extremamente \u00fatil para compreender estes novos desafios, especialmente quando estabelece um paralelo entre Boris Gamaleya e Ernst Bloch e o seu \u201cprinc\u00edpio da esperan\u00e7a\u201d: \u201cO espiritual reaparece no campo <em>materialista<\/em> da <em>praxis<\/em>. N\u00e3o como uma quimera, mas como uma din\u00e2mica cultural que passa para o primeiro plano, atrai e cativa, permanecendo, no entanto inacess\u00edvel e fugaz. Este \u00e9 o \u201c<em>Princ\u00edpio da Esperan\u00e7a<\/em>\u201d, um pouco como a imagem da est\u00e1tua que <em>enfeiti\u00e7a<\/em> o escultor e o absorve na realiza\u00e7\u00e3o da sua escultura. \u00c9 isto \u201co que est\u00e1 perante n\u00f3s, em que tanto o \u00e2mago do Homem como o da Natureza, de uma forma ut\u00f3pica, alcan\u00e7a &#8211; ou n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar &#8211; a sua realiza\u00e7\u00e3o final\u201d. (E. Bloch)\u201d<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio Boris Gamaleya inscreveu estas frases no pr\u00f3logo do seu livro: \u201cEste \u00e9 o livro da Reuni\u00e3o gra\u00e7as ao qual poder\u00e1 ver Deus durante a sua vida, assim como o inferno e o purgat\u00f3rio, sem ter de passar pela sua pr\u00f3pria morte. (Segundo uma apresenta\u00e7\u00e3o do<em> liber secretus<\/em>, cf. E. Bloch, <em>O Princ\u00edpio da Esperan\u00e7a<\/em>).\u201d<\/p>\n<p>Com <em>Le Volcan \u00e0 l&#8217;Envers ou Madame Desbassyns, le Diable et le Bondieu<\/em>, atrav\u00e9s da sua obra futura, Gamaleya apresenta-se como um Dante reunionense ao escrever uma <em>com\u00e9dia divina genuinamente crioula<\/em>, baseada na \u201cestranha s\u00edntese\u201d, em constante evolu\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 sua potencial \u201crealiza\u00e7\u00e3o final\u201d, entre o pensamento marxista e a espiritualidade crist\u00e3, mas tamb\u00e9m entre a crian\u00e7a e o homem que envelhece: \u201cAdeus minhas origens\/ reinventei tudo\u201d, \u201cque eu me entregue a ti\/inalien\u00e1vel\/reconstr\u00f3i em mim esta ilha\/\/A INF\u00c2NCIA CONTINUA\u201d.<\/p>\n<h4>1998<\/h4>\n<p>Em 1998, este livro foi novamente publicado, <em>acrescido pelo Orat\u00f3rio<\/em> de 1998, que dele emana (Oc\u00e9an \u00c9ditions, 1998), uma vez que o cristaliza e aperfei\u00e7oa: \u201cpela Via do abismo aberto\/de ambos os lados\/de reino em reino\/paho\u00e9 oh\u00e9 o\/nada \u00e9 como antes\/nada exceto esta cruz\u201d. O texto do orat\u00f3rio \u00e9 o libreto que Boris Gamaleya devia fornecer a Ahmed Essyad no \u00e2mbito de uma encomenda do Estado por ocasi\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es do 150.\u00ba anivers\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n<h4>1987, 1992, 1995, 1997<\/h4>\n<p>Entre estas duas datas, foram publicados quatro grandes livros: <em>Le Fanjan des Pens\u00e9es \u2013 Zanaar entre les coqs<\/em> (Imprimerie AGM, Saint-Denis, 1987), no qual Gamaleya envereda deliberadamente por uma viragem espiritual inspirado tanto nos grandes m\u00edsticos da hist\u00f3ria, como em Jean-Joseph Rabearivelo e nas tradi\u00e7\u00f5es ancestrais do oceano \u00cdndico; <em>Piton la Nuit<\/em> (\u00c9ditions du tramail\/ILA, Saint-Denis, 1992), onde a montanha sagrada e a noite escura tematizam esta elevada aspira\u00e7\u00e3o, na procura de \u201ccoincid\u00eancias do todo aberto\u201d; <em>Lady Sterne au Grand Sud<\/em> (Azal\u00e9es \u00c9ditions, Saint-Denis, 1995), onde o amor das mulheres, o amor da ilha, o amor \u00e0 liberdade, o amor \u00e0 m\u00fasica, o amor ao poema e o amor \u00e0s eleva\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito, formam um todo radiante; <em>L&#8217;\u00cele du Tsar\u00e9vitch<\/em> (Azal\u00e9es \u00c9ditions, Saint-Andr\u00e9, 1997), <em>ro\u00e8me<\/em>, ou seja, <em>romance-poema<\/em>, onde o relato transfigurado da vida do pai permite a Boris Gamaleya entrela\u00e7ar, com um extraordin\u00e1rio dom\u00ednio, todos os temas anteriormente tratados, como se fosse quest\u00e3o de os juntar num formid\u00e1vel fogo de artif\u00edcio que marca n\u00e3o s\u00f3 o fim de um ciclo, mas tamb\u00e9m o renascimento da obra rumo a novos caminhos altamente prometedores.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00e0 luz desta jornada criativa que devemos compreender a especificidade e a import\u00e2ncia do <em>Orat\u00f3rio de 1998<\/em>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6155\" aria-describedby=\"caption-attachment-6155\" style=\"width: 436px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1998-Ombline-ou-le-volcan-a\u0300-lenvers-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-6155 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1998-Ombline-ou-le-volcan-a\u0300-lenvers-1.jpg\" alt=\"\" width=\"436\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1998-Ombline-ou-le-volcan-a\u0300-lenvers-1.jpg 436w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1998-Ombline-ou-le-volcan-a\u0300-lenvers-1-218x300.jpg 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6155\" class=\"wp-caption-text\">Ombline ou le Volcan \u00e0 l&#8217;Envers (Ombline ou o Vulc\u00e3o \u00e0s Avessas): orat\u00f3rio <br \/>para quatro solistas, coro misto, narrador, seis percuss\u00f5es e conjunto instrumental, <br \/>m\u00fasica de Ahmed Essyad, texto de Boris Gamaleya, fotografias de Thierry Fontaine, <br \/>Saint-Paul, FRAC, Reuni\u00e3o, 1988<\/figcaption><\/figure>\n<h3><em>Orat\u00f3rio 1998<\/em>: o encontro entre duas personalidades fortes<\/h3>\n<p>Em 1998, por ocasi\u00e3o do 150.\u00ba anivers\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura na Reuni\u00e3o, uma encomenda por parte do Estado re\u00fane dois criadores com personalidades fortes, o reunionense Boris Gamaleya e o marroquino Ahmed Essyad. Coube ao primeiro escrever o libreto de um orat\u00f3rio cuja m\u00fasica foi da autoria do segundo.<\/p>\n<p>Catherine Trautmann, Ministra da Cultura, escreveu: \u201cEsta encomenda foi confiada a dois artistas, Ahmed Essyad e Boris Gamaleya, que, cada um \u00e0 sua maneira, celebram no conjunto da sua obra a diversidade de culturas, a liberdade do indiv\u00edduo.\u201d Acrescentando: \u201cregozijo-me particularmente pelo encontro destes dois talentos: Ahmed Essyad, o compositor, indiscut\u00edvel transmissor do melhor da tradi\u00e7\u00e3o oral no cora\u00e7\u00e3o da m\u00fasica mais escrita&#8230; Boris Gamaleya, o poeta, pioneiro e ativista de uma crioulidade aberta ao universal cuja pe\u00e7a <em>Le Volcan \u00e0 l\u2019Envers<\/em> se tornou s\u00edmbolo e refer\u00eancia na Reuni\u00e3o.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_6137\" aria-describedby=\"caption-attachment-6137\" style=\"width: 1400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Boris-Gamaleya-portrait5.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6137 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Boris-Gamaleya-portrait5.jpg\" alt=\"\" width=\"1400\" height=\"927\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Boris-Gamaleya-portrait5.jpg 1400w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Boris-Gamaleya-portrait5-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Boris-Gamaleya-portrait5-768x509.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Boris-Gamaleya-portrait5-1024x678.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6137\" class=\"wp-caption-text\">Boris Gamaleya na Plaine des Palmistes, 1995. Em <em>Le Quotidien de La R\u00e9union<\/em> (jornal). <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca departamental da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com vista a tornar a sua colabora\u00e7\u00e3o o mais frutuosa poss\u00edvel, Ahmed Essyad permaneceu na ilha. O encontro foi caloroso e as sess\u00f5es de trabalho correram bem, n\u00e3o obstante alguns mal-entendidos que os dois homens se empenharam em ultrapassar. Permanece um ponto de discord\u00e2ncia: Boris Gamaleya teria gostado que o seu orat\u00f3rio comum desse a ouvir com mais clareza os ecos da m\u00fasica dos antigos escravos; Ahmed Essyad, por seu lado, permanece intransigente: a sua m\u00fasica, com um estilo exigente e singular, baseada em transfigura\u00e7\u00f5es tanto eruditas como sens\u00edveis, com caracter\u00edsticas distintas retiradas da m\u00fasica tradicional n\u00e3o s\u00f3 do seu pa\u00eds mas de todo o mundo, acomodar-se-ia com dificuldade a \u201ccita\u00e7\u00f5es\u201d textuais de <em>maloyas<\/em> inseridos no corpo da obra por colagem ou por processos de integra\u00e7\u00e3o mais subtis. Boris Gamaleya, um mel\u00f3mano informado, teria preferido uma obra mais pr\u00f3xima, por exemplo, da de Luciano Berio com as suas <em>Folksongs<\/em>, ou seja, uma realiza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna que resultasse num patchwork musical capaz de transmitir \u201ca estranha s\u00edntese\u201d. Ahmed Essyad, a quem a beleza magm\u00e1tica e metam\u00f3rfica da linguagem <em>gamaleyesca<\/em> fascinava, n\u00e3o cedeu: resolutamente moderna, a sua m\u00fasica \u00e9 tamb\u00e9m uma fus\u00e3o incandescente, na qual os elementos retirados da m\u00fasica tradicional se fundem sem serem sempre reconhec\u00edveis como tal. As discuss\u00f5es entre os dois criadores eram apaixonadas, chegando a formar uma controv\u00e9rsia exemplar, da qual infelizmente restam apenas alguns excertos ou vest\u00edgios. O poeta mencionou-o evasivamente, ao passo que o compositor nada disse sobre isso.<\/p>\n<p>Todavia, alguns anos antes (1991-1994), Essyad tinha composto uma \u00f3pera \u201cleve\u201d, <em>L&#8217;exercice de l&#8217;Amour<\/em>, com base num libreto de Bernard No\u00ebl, com o qual colaborou novamente logo de seguida noutra \u00f3pera, <em>H\u00e9lo\u00efse et Ab\u00e9lard<\/em> (2000). Estamos perante obras que possuem um conte\u00fado espiritual, em que a sua inclina\u00e7\u00e3o para o Sufismo se alia na perfei\u00e7\u00e3o com a teologia negativa da tradi\u00e7\u00e3o medieval ocidental, revisitada com paix\u00e3o por Bernard No\u00ebl. No tocante \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, Essyad e Gamaleya reconhecem serem animados por aspira\u00e7\u00f5es semelhantes. Podemos afirmar que noutras ocasi\u00f5es, o compositor proferiu palavras que poderiam muito bem ser atribu\u00eddas ao poeta: \u201cuma s\u00edntese cultural que n\u00e3o coloca o pensamento dos homens em primeiro plano, que n\u00e3o enriquece o presente com uma nova experi\u00eancia, n\u00e3o pode dar azo ao duplo espanto, de continente a continente, neste territ\u00f3rio onde o ser humano pode finalmente perder-se.\u201d De continente a continente, ou de ilha em ilha&#8230; Gamaleya entende que o seu libreto deve ser a quintess\u00eancia do trabalho que orientaria definitivamente em profundidade a sua obra em dire\u00e7\u00e3o \u201caos servi\u00e7os euf\u00f3ricos da supera\u00e7\u00e3o\u201d, tal como declara no seu \u201cPref\u00e1cio\u201d do <em>Orat\u00f3rio de 1998<\/em>.<\/p>\n<p>Assim, este libreto, intitulado Ombline ou Le Volcan \u00e0 l\u2019Envers, \u00e9 uma vers\u00e3o abreviada ou at\u00e9 transfigurada. Fundado no \u201cvaiv\u00e9m de um espa\u00e7o imagin\u00e1rio infinito, no <em>marronnage<\/em> impl\u00edcito e cont\u00ednuo rumo a um futuro baseado nem em verdades nem em mentiras\u201d, foi concebido para resolver \u201cas diferen\u00e7as\u201d, antes de mais entre os marrons e os propriet\u00e1rios de escravos, \u201cnuma participa\u00e7\u00e3o festiva na s\u00edntese, a obra insular finalmente aberta ao universal.\u201d<\/p>\n<h3><em>Orat\u00f3rio 1998<\/em>: apresenta\u00e7\u00e3o do libreto<\/h3>\n<p>Pierre Gervasoni proporciona-nos um resumo eficaz: a hist\u00f3ria, \u201csituada no <em>Volcan de la Fournaise<\/em> onde muitos escravos fugitivos se refugiaram, divide-se em quatro partes de comprimento desigual. A primeira retrata v\u00e1rias figuras (Simangavole, Matout\u00e9, Sankoutou) relacionadas com as cren\u00e7as dos reinos <em>marrons<\/em>. A segunda narra, de maneira el\u00edptica, o destino de dois amantes (Sarah e Sinacane) no al\u00e9m ardente. A terceira descreve o aparecimento de Ombline Desbassyns, uma esclavagista devota mas impiedosa, convidada a ter ideias mais abertas no mundo dos mortos do que no dos vivos. A quarta deleita-se, finalmente, com a esperada convers\u00e3o da aristocrata, louvando o fruto da sua uni\u00e3o consumada com Sankoutou num vulc\u00e3o que se tornou o para\u00edso.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_6096\" aria-describedby=\"caption-attachment-6096\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Ombline_ou_le_volcan_a_l_envers-e1631164369451.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-6096 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Ombline_ou_le_volcan_a_l_envers-e1631164369451.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"547\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6096\" class=\"wp-caption-text\"><em>Ombline ou le Volcan \u00e0 l&#8217;Envers (Ombline ou o Vulc\u00e3o \u00e0s Avessas): <br \/>orat\u00f3rio para quatro solistas, coro misto, narrador, seis percuss\u00f5es e conjunto instrumental<\/em>, <br \/>m\u00fasica de Ahmed Essyad, texto de Boris Gamaleya, Saint-Gilles-les-Hauts, <br \/>Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le, 2005.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Cada parte come\u00e7a com a interven\u00e7\u00e3o de um narrador, a primeira com estas palavras: \u201cFinalmente, podemos ser\/tudo isto.\u201d Esta reivindica\u00e7\u00e3o de uma pluralidade de seres baseia-se numa evoca\u00e7\u00e3o da <em>Plaine des Sables<\/em>, nos arredores do <em>Piton de la Fournaise<\/em>, uma esp\u00e9cie de pequeno deserto, um lugar prop\u00edcio \u00e0 ascese que predisp\u00f5e necessariamente ao verdadeiro acesso \u00e0 euforia da supera\u00e7\u00e3o: \u201co vento gelado\u201d, com a sua prociss\u00e3o de \u201cvozes de fundo\u201d, cria uma estrutura que murmura resson\u00e2ncias e ecos que desencadeiam a propaga\u00e7\u00e3o, \u201cde chama em chama\u201d e \u201cde ponta a ponta\u201d, de uma vibra\u00e7\u00e3o que une tudo no seu caminho: \u201cecos kolokolok \u2013 magma escarlate\u201d, \u201cmarulhar no ber\u00e7o das conchas\u201d, \u201cgr\u00e3os de flauta encantados pelas veias da \u00e1gua\u201d&#8230;<\/p>\n<p>A segunda parte \u00e9 a evoca\u00e7\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o de tudo com tudo atrav\u00e9s do casal exemplar composto pelos <em>marrons<\/em> Sarah e Sinacane. Gamaleya transforma um termo de vulcanologia origin\u00e1rio do havaiano (pahoehoe: \u201crio de cetim\u201d), que designa uma lava muito fluida \u2013 como a do vulc\u00e3o da Reuni\u00e3o \u2013, numa onomatopeia que retrata tanto os assobios mordazes do magma bas\u00e1ltico descendo as encostas, como uma esp\u00e9cie de apelo \u00e0 uni\u00e3o das diversidades: \u201cPaho\u00e9 o Paho\u00e9 o\u00e9 o\u00e9 \u00e9&#8221;&#8230; E Sarah em \u00eaxtase com o surgimento de uma harmonia generalizada: \u201cOu\u00e7o uma orquestra tomar ao c\u00e9u todo o ouro da noite\u201d&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_6140\" aria-describedby=\"caption-attachment-6140\" style=\"width: 1206px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1990-96-4-58.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6140 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1990-96-4-58.jpg\" alt=\"\" width=\"1206\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1990-96-4-58.jpg 1206w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1990-96-4-58-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1990-96-4-58-768x509.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1990-96-4-58-1024x679.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6140\" class=\"wp-caption-text\">Vista panor\u00e2mica do vulc\u00e3o, para compreender a carta do Sr. Hubert. Desenhado por Jean-Baptiste Genevi\u00e8ve Marcellin Bory de St. Vincent; gravado por B. Tardieu. 1804. Litografia. <br \/>Em <em>Voyage dans les quatre principales \u00eeles des mers d&#8217;Afrique<\/em>&#8230;, J.-B.-G.-M. Bory de St-Vincent, pl. 56<br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu Vill\u00e8le,<\/figcaption><\/figure>\n<p>No in\u00edcio da terceira parte, a mais desenvolvida por ser a mais crucial, o vulc\u00e3o \u00e9 definido pelo narrador como \u201ccratera de embriaguez\u201d, e pelo coro como \u201cconcha anunciadora do Outro Reino!\u201d Ombline, ap\u00f3s a sua morte, chega ao vulc\u00e3o, reino dos <em>marrons<\/em>, onde \u201ccai sobre [as suas] estranhas nega\u00e7\u00f5es\u201d&#8230; O seu primeiro reflexo est\u00e1 em conformidade com a sua classe e a sua hist\u00f3ria: \u201cVenham a mim os meus mosqueteiros! Aniquilem este lugar de indisciplina!\u201d Por\u00e9m, Sankoutou tem \u201cum melhor papel a oferecer[-lhe]!\u201d: \u201cOu te juntas \u00e0 nossa festa \u2013 ou voltas para ao teu leito p\u00fatrido\u201d&#8230; Trata-se de sair do determinismo hist\u00f3rico repleto de ru\u00eddo, f\u00faria e ressentimento, para aceder ao \u201ctesouro jubilante\u201d realizado pelas \u201cs\u00ednteses\/puro pensamento do todo\u201d&#8230; Sankoutou argumenta e finalmente convence Ombline: \u201cN\u00e3o h\u00e1 outra hist\u00f3ria que n\u00e3o a do verbo que te chama. Entre a morte e a tua imagem recalibrada, a escolha \u00e9 evidente para uma alma para sempre livre&#8230; Nenhum futuro de tirania a amea\u00e7a. Recomecemos de uma forma diferente! A respira\u00e7\u00e3o de tudo com tudo \u00e9, desde logo, animada pelos \u201cmagmas de todos os sopros!\u201d, e Ombline rende-se (\u201cdespoja-me deste peso\u201d), exclamando: \u201cTerra em cima! C\u00e9u em baixo!\u201d A s\u00edntese est\u00e1 em andamento e o vulc\u00e3o \u00e0s avessas.<\/p>\n<p>O ep\u00edlogo, constitu\u00eddo pela quarta e muito curta parte, entoa a \u201ccolheita de epifanias\u201d agora poss\u00edvel porque os \u201cenxames cicl\u00f3nicos\u201d da hist\u00f3ria consumiram \u201ca sua viol\u00eancia\u201d, e assim, emergimos de um \u201ccaos de falsidade\u201d para caminhar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cVia do abismo aberto de ambos os lados\u201d&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6123,"parent":5046,"menu_order":40,"template":"","class_list":["post-8405","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/8405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5046"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}