{"id":9243,"date":"2022-11-10T07:25:22","date_gmt":"2022-11-10T06:25:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/?post_type=documentaire&#038;p=9243"},"modified":"2024-02-16T10:26:50","modified_gmt":"2024-02-16T06:26:50","slug":"a-fabrica-da-identidade-reunionense-perante-a-prova-da-escravatura","status":"publish","type":"documentaire","link":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/documentaires\/memoria-da-escravatura\/memorias\/a-fabrica-da-identidade-reunionense-perante-a-prova-da-escravatura\/","title":{"rendered":"A f\u00e1brica da identidade reunionense perante a prova da escravatura"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 525px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-9243-1\" width=\"525\" height=\"295\" poster=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/poster_serviable.jpg\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/SERVIABLE-PORTUGAIS-SUB.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/SERVIABLE-PORTUGAIS-SUB.mp4\">https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/SERVIABLE-PORTUGAIS-SUB.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<h3>Introdu\u00e7\u00e3o: A criouliza\u00e7\u00e3o como resposta ao racismo de Estado<\/h3>\n<p>\u201cA nossa popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 dividida em duas classes de homens de naturezas t\u00e3o d\u00edspares que parecem ser o produto de duas cria\u00e7\u00f5es diferentes.\u201d Foi com estas palavras que o advogado-general Gillot L&#8217;Etang recebeu, em Bourbon (a futura Reuni\u00e3o), o novo governador Achille-Guy-Marie de Cheffontaines, em 20 de outubro de 1826. O seu discurso d\u00e1 o tom do racismo de Estado da \u00e9poca; marca o compasso do imenso projeto a realizar para uma boa conviv\u00eancia em comunidade na ilha, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n<p>A escravatura, nas col\u00f3nias quentes de renda do s\u00e9culo XVI, \u00e9 um fen\u00f3meno europeu. Inscreve-se na esteira do <em>caminho colombiano<\/em> para as Am\u00e9ricas a partir de 1492, ap\u00f3s a viagem inaugural de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, e do <em>caminho gamiano<\/em> rumo ao oceano \u00cdndico a partir de 1497, ap\u00f3s a chegada a essa regi\u00e3o do Almirante Vasco da Gama. Justifica-se por um duplo determinismo clim\u00e1tico e racial e pelo realismo econ\u00f3mico, ou seja, pela geografia, num fen\u00f3meno comercial que pode ser analisado como a primeira globaliza\u00e7\u00e3o da mercadoria. O Negro tornou-se a for\u00e7a motriz por detr\u00e1s do processo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias coloniais com elevado valor acrescentado para os mercados europeus, sendo comprado e revendido como uma m\u00e1quina-ferramenta, m\u00e3o-de-obra de baixo custo para produzir nas terras ensolaradas. Esse facto \u00e9 sublinhado por Lu\u00eds XIV, o Rei Sol num decreto de 26 de agosto de 1670: \u201c<em>N\u00e3o h\u00e1 nada que contribua mais para o aumento das col\u00f3nias e para o cultivo das terras do que o laborioso trabalho dos negros<\/em>\u201d. A grandeza da Fran\u00e7a assentar\u00e1 ao longo de quase dois s\u00e9culos na escravatura dos negros, at\u00e9 1848. Este fen\u00f3meno foi tardiamente reconhecido como um \u201ccrime contra a humanidade\u201d. Isto \u00e9 o essencial que foi acordado. Mas nem tudo \u00e9 dito. Trata-se do in\u00edcio de uma hist\u00f3ria europeia que coloca a diferencia\u00e7\u00e3o e o ostracismo raciais no centro das ansiedades dos povos e dos estados do Norte, resultando em mais crimes contra a humanidade no s\u00e9culo que se seguiria.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9094\" aria-describedby=\"caption-attachment-9094\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1998-7_scene-of-the-coast-africa-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9094 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1998-7_scene-of-the-coast-africa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"713\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1998-7_scene-of-the-coast-africa-1.jpg 1000w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1998-7_scene-of-the-coast-africa-1-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1998-7_scene-of-the-coast-africa-1-768x548.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9094\" class=\"wp-caption-text\">Scene of the Coast Africa. Charles-Edward Wagstaff, gravador; segundo Fran\u00e7ois-Auguste Biard, pintor. <br \/>Entre 1844 e 1850. Gravura com buril. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Museu hist\u00f3rico de Vill\u00e8le<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201c<em>Ele destr\u00f3i, eu volto a ser um homem<\/em>\u201d, declamava uma personagem de Shakespeare (<em>Macbeth<\/em>). Habermas ensinou-nos que em momentos obscuros era necess\u00e1rio analisar a psique europeia: \u201c<em>A psicologia deste tempo \u00e9 dif\u00edcil de explica<\/em>r\u201d. Claro que n\u00e3o se referia \u00e0 escravatura, mas a um outro tempo, por\u00e9m \u00e0 mesma tenta\u00e7\u00e3o tentacular da Europa de inferiorizar os seres-humanos e de derramar \u201co sangue impuro\u201d de Shylock, o Judeu, e Caliban, o Negro, duas outras personagens do teatro de Shakespeare do s\u00e9culo XVII. O apetite de ogre do Rei dos Amieiros dos contos germ\u00e2nicos \u00e9 insaci\u00e1vel. Esta interven\u00e7\u00e3o europeia em \u201cpa\u00edses quentes e azuis\u201d (Baudelaire) gira em torno da \u201ccalibaniza\u00e7\u00e3o\u201d (C\u00e9saire), da conten\u00e7\u00e3o colonial e da civiliza\u00e7\u00e3o, apresentadas como \u201c<em>O Fardo do Homem Branco<\/em>\u201d (<em>The white man\u2019s burden<\/em>, Kipling).<\/p>\n<p>Este texto apresenta duas partes. Num primeiro momento explora o processo de arbitrariedade que exclui uma parte dos seres vivos da humanidade e da hist\u00f3ria. Num segundo momento, aborda o regresso do Homem reunionense \u00e0 sua hist\u00f3ria atrav\u00e9s da elabora\u00e7\u00e3o da criouliza\u00e7\u00e3o, um processo de mesti\u00e7agem dos corpos e dos imagin\u00e1rios. Este texto \u00e9 uma homenagem a Pierre Bourdieu por ocasi\u00e3o do 20.\u00b0 anivers\u00e1rio da sua morte (2002-2022); o soci\u00f3logo aborda a domina\u00e7\u00e3o no campo do g\u00e9nero atrav\u00e9s da \u201cbiologiza\u00e7\u00e3o do social\u201d; procura demonstrar que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas mudan\u00e7a e que, frequentemente, consiste na reprodu\u00e7\u00e3o incessante do mesmo ao longo do tempo: o mesmo olhar para o outro e a mesma vis\u00e3o do outro. Este ponto de vista opressivo e arbitr\u00e1rio pode alimentar um racismo de outra \u00e9poca, porque vem das profundezas do tempo, produzindo os c\u00f3digos e os comportamentos de hoje.<\/p>\n<p>Cada disciplina possui a sua forma epist\u00e9mica que a leva a uma vis\u00e3o do mundo. Fazem parte da \u00e1rea de estudo da Geografia, enquanto ci\u00eancia biopol\u00edtica, as rela\u00e7\u00f5es entre o espa\u00e7o e os seus habitantes.<br \/>\nH\u00e1 muito que partilha com a sociologia de Gabriel Tarde (<em>Monadologie et sociologie<\/em>, 1893) uma identidade funcional feita de \u201cum conhecimento total e universal escrito numa linguagem singular\u201d (Gilles Bastin, <em>Le Monde<\/em>, 6 de abril de 2017).<\/p>\n<h3>O processo de arbitrariedade que exclui uma parte dos seres vivos da humanidade e da hist\u00f3ria<\/h3>\n<p>A ren\u00fancia \u00e0 escravatura em Fran\u00e7a \u00e9 antiga. Foi exigida por Bathilde, rainha de Fran\u00e7a em 649 e ex-escrava redimida, atrav\u00e9s do \u00e9dito de Lu\u00eds X de 3 de julho de 1315. A escravatura negra superou a servid\u00e3o e as formas de sujei\u00e7\u00e3o antiga no s\u00e9culo XVI. Acompanhou a expans\u00e3o europeia nas terras equinoxiais. Tudo est\u00e1 a saque numa economia desenfreada de ca\u00e7a e colheita desviada: o Negro, os filhos do Negro e o territ\u00f3rio do Negro. A pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o colonial instala-se com as suas duas sombras: a calibaniza\u00e7\u00e3o do Negro, ou seja, a submiss\u00e3o natural de acordo com pressupostos de ra\u00e7a, e a civiliza\u00e7\u00e3o do Branco, esta mistura de for\u00e7a, grandeza e artimanha que induziu em erro durante s\u00e9culos.<\/p>\n<h4>A calibaniza\u00e7\u00e3o ou a maldi\u00e7\u00e3o de Cham<\/h4>\n<p>A Primeira Rep\u00fablica em Fran\u00e7a aboliu a escravatura em 4 de fevereiro de 1794 para mais tarde a restabelecer em 20 de maio de 1802, ambas as vezes em nome do povo franc\u00eas. Por vezes, tanto a Rep\u00fablica como a Igreja cederam face aos <em>lobbies<\/em> econ\u00f3micos. A primeira com o pretexto de libertar os homens da selvajaria a fim de os tornar civilizados, a segunda atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de um discurso sobre a salva\u00e7\u00e3o das almas negras. Na enc\u00edclica <em>Sicut dudum<\/em> do Papa Eug\u00e9nio IV de 13 de janeiro de 1435 e, mais tarde, na carta <em>Rubicensem<\/em> de 7 de outubro de 1462 do papa-poeta Pio II ao Bispo da Guin\u00e9, qualificando o tr\u00e1fico de escravos como <em>magnum scelus<\/em> (grande crime), a Igreja posiciona-se contra a escravatura dos negros. Entretanto, a 8 de janeiro de 1454, o Papa Nicolau V, na sua bula <em>Romanus pontifex<\/em>, autoriza Afonso V, rei de Portugal, a comercializar \u201cnegros da Guin\u00e9 e pag\u00e3os\u201d. Neste entremeio de preconceitos, o imagin\u00e1rio europeu cria, em 1611, um ser nascido do Mal e da animalidade: Caliban, personagem da pe\u00e7a de <em>Shakespeare The Tempest<\/em>, filho de uma bruxa, que vivia submisso a um m\u00e1gico branco, Pr\u00f3spero, que encarnar\u00e1, com ambiguidade e ambival\u00eancia, o homem negro incivilizado e a for\u00e7a pura ao servi\u00e7o da intelig\u00eancia branca. \u00c9 um homem-besta tropicalizado, comprado e cess\u00edvel com vista a executar esfor\u00e7os exaustivos sob o sol, tomando em C\u00e9saire a imagem da revolta eterna; C\u00e9saire define o ato de submiss\u00e3o e domestica\u00e7\u00e3o como \u201c<em>calibaniza\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. A submiss\u00e3o \u00e9 marcada pela decad\u00eancia. O lugar do Negro \u00e9 sob as ordens, sob os golpes e sob os corpos de outros.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9098\" aria-describedby=\"caption-attachment-9098\" style=\"width: 569px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/DP828634.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-9098 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/DP828634-e1664447122717.jpg\" alt=\"\" width=\"569\" height=\"700\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9098\" class=\"wp-caption-text\">Caliban (em &#8220;Doze Personagens de Shakespeare&#8221;). John Hamilton Mortimer. 20 de maio de 1775. Gravura. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o do The Metropolitan Museum of Art<\/figcaption><\/figure>\n<p>Assolado pelas aus\u00eancias, o escravo desenraizado descobre o derradeiro estatuto de \u00f3rf\u00e3o, relegado para as caixas negras da imagina\u00e7\u00e3o, com a autopiedade, o luto, os sil\u00eancios mudos e a injusti\u00e7a perp\u00e9tua. Tudo isso confortando a imagem de um ser desprovido de raz\u00e3o.<\/p>\n<h4>A segrega\u00e7\u00e3o legalizada nas terras coloridas, 1724<\/h4>\n<p>O C\u00f3digo Negro franc\u00eas do oceano \u00cdndico foi assinado em dezembro de 1723 em Versalhes por Lu\u00eds XV, rei-crian\u00e7a de 13 anos; foi registado no Conselho Superior de Bourbon a 18 de setembro de 1724, ano de entrada em vigor deste C\u00f3digo. Embora a refer\u00eancia aos judeus e protestantes, ostracizados no C\u00f3digo Negro do Atl\u00e2ntico de 1685, tenha desaparecido, a segrega\u00e7\u00e3o permanece no cerne do sistema social: \u201cProibamos aos nossos s\u00fabditos brancos de ambos os sexos contra\u00edrem matrim\u00f3nio com negros, sob pena de puni\u00e7\u00e3o e multa arbitr\u00e1ria, e a todos os padres, sacerdotes ou mission\u00e1rios seculares ou regulares e at\u00e9 aos capel\u00e3es dos navios de os casarem\u201d (artigo 5.\u00b0). Este artigo retoma a filosofia e a frase do artigo 20.\u00b0 do Grande Decreto de 1 de dezembro de 1674 de Jacob de la Haye: \u201cProibi\u00e7\u00e3o dos franceses de se casarem com negras, pois tal desencorajar\u00e1 os negros de servi\u00e7o, e proibi\u00e7\u00e3o dos negros de casarem com brancas; \u00e9 uma confus\u00e3o para evitar.\u201d<\/p>\n<p>A literatura apropriou-se do tema da mulher branca desejada. No seu primeiro romance <em>Bug-Jargal<\/em> (1820), Victor Hugo conta a hist\u00f3ria, que se desenrola na ilha de Santo Domingo em plena insurrei\u00e7\u00e3o, dos amores plat\u00f3nicos de Pierrot, o escravo negro, apaixonado por Maria, filha do seu senhor branco. Renunciar\u00e1 \u00e0 Branca a favor do seu rival branco, L\u00e9opold d&#8217;Auverney, com quem forjou la\u00e7os fraternos. O seu suic\u00eddio sacrificial d\u00e1 origem \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um novo mundo e cria o modelo do Negro rom\u00e2ntico. Houat retomou o mesmo tema em 1844 em <em>Les Marrons<\/em>, considerado o primeiro romance reunionense; Fr\u00eame, o Negro da Oficina Colonial, n\u00e3o renuncia \u00e0 mulher branca e foge com Maria. Ser\u00e3o perseguidos como c\u00e3es. O trabalho excisado da hist\u00f3ria da ilha e da hist\u00f3ria das letras ser\u00e1 reabilitado pelo soci\u00f3logo Raoul Lucas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9102\" aria-describedby=\"caption-attachment-9102\" style=\"width: 1100px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_BIB2896.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9102 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_BIB2896.jpg\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_BIB2896.jpg 1100w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_BIB2896-300x182.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_BIB2896-768x466.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_BIB2896-1024x621.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9102\" class=\"wp-caption-text\">A jovem Branca. Tony de B., del; F\u00e9lix, gravador. 1844. &#8211; Gravura. <br \/>In <em>Les Marrons<\/em> \/ L.-T. Houat. &#8211; Paris: Ebrard, 1844. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>O C\u00f3digo Negro de 1724 n\u00e3o define juridicamente o Branco e faz do escravo uma incerteza. Este \u00faltimo \u00e9 uma pessoa, um filho de Deus gra\u00e7as ao batismo cat\u00f3lico (artigo 1.\u00b0) ou uma pe\u00e7a de mobili\u00e1rio (artigo 39.\u00b0)? Indiretamente, levanta quest\u00f5es sobre a identidade do Branco e cria dois personagens confusos envolvidos no hero\u00edsmo social: o <em>Marron<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.9921122165694394\" aria-label=\"N. da T.: Marron \u2013 Escravo em fuga.\">&nbsp;<\/span> e o padre abolicionista. Este c\u00f3digo acabaria por impulsionar o fen\u00f3meno da <em>marronnage<\/em><span class=\"NOTE_MARKER\" rel=\"0.3389987308019722\" aria-label=\"N. da T.: Marronage \u2013 Fuga de escravos.\">&nbsp;<\/span> como \u00fanica maneira poss\u00edvel de escapar \u00e0 escravatura e reintegrar a humanidade ativa.\u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a inten\u00e7\u00e3o do legislador em 1723 consistia, de facto, em organizar uma sociedade abertamente baseada em considera\u00e7\u00f5es racistas, garantindo o dom\u00ednio do homem branco sobre o homem negro\u201d, afirmou o jurista Laurent Sermet (1998), apontando para a aus\u00eancia de uma defini\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do escravo, reconhecido indiretamente por v\u00e1rias hip\u00f3teses. Escravo \u00e9 aquele que \u00e9 vendido, comprado, subjugado como \u201cobjeto ou propriedade m\u00f3vel\u201d. Deste modo, n\u00e3o tem direitos; \u00e9 <em>a priori<\/em> Negro, se lermos nas entrelinhas, e como resultado, cada Negro na Terra est\u00e1 destinado a ser escravo. O Branco pertence \u00e0 classe de propriet\u00e1rios de terras e homens, que os compram, vendem, cedem e libertam de acordo com a sua vontade. Segundo o Padre Joffard, todos os Negros escravos est\u00e3o destinados a ser Brancos como ele atrav\u00e9s da liberdade (<em>Declara\u00e7\u00e3o de 18 de junho de 1848 em Saint-Philippe<\/em>).<\/p>\n<p>Perante a \u201cconfus\u00e3o\u201d na rela\u00e7\u00e3o Negro\/Branco temida por Jacob de la Haye em 1674, os investigadores do s\u00e9culo XIX tentaram dar uma apar\u00eancia de ordem e classifica\u00e7\u00e3o \u00e0 profus\u00e3o da mistura dos corpos, resultante da transgress\u00e3o do Grande Decreto. Assim, William Duckett (<em>Le Dictionnaire de la conversation et de la lecture<\/em>, 1832-1852) prop\u00f5e denomina\u00e7\u00f5es de acordo com a parte de sangue branco do indiv\u00edduo. A escala de valor inclui o <em>terceron<\/em> (3\/4 branco), o mulato (1\/2 branco), o <em>quarteron<\/em>, uma antiga unidade de medi\u00e7\u00e3o (quarto de libra) que designa uma pessoa nascida de um(a) branco(a) com um(a) mesti\u00e7o(a) (1\/8 branco), o <em>quinteron<\/em> (1\/16 branco) e descemos no tom escuro at\u00e9 ao <em>octoron<\/em>. Alguns termos s\u00e3o reservados aos especialistas: <em>griffe<\/em> ou <em>zambo<\/em> (1\/4 branco) ou <em>quarteron saltatras<\/em> para \u201csalto para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Na sua obra <em>Pi\u00e8ges et difficult\u00e9s de la langue fran\u00e7aise<\/em> (1986), Jean Girodet pede para que se distinga entre mesti\u00e7os, mulatos e crioulos. O mesti\u00e7o \u00e9 \u201cuma pessoa nascida de um pai e de uma m\u00e3e pertencentes a duas ra\u00e7as diferentes, independentemente das ra\u00e7as\u201d; o mulato \u00e9 uma pessoa nascida de um progenitor negro e de outro branco; o crioulo \u00e9 \u201cuma pessoa branca nascida nas Antilhas ou na Reuni\u00e3o, sendo que este termo nunca deve designar um mesti\u00e7o ou um mulato.\u201d<\/p>\n<h4>A produ\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as e castas: A doutrina francesa do desenvolvimento separado<\/h4>\n<p>Na sua expans\u00e3o colonial, a Fran\u00e7a ser\u00e1 confrontada com o exotismo, o choque de civiliza\u00e7\u00f5es e homens diferentes. Ter\u00e1 um longo problema negro durante quatro s\u00e9culos, do s\u00e9culo XVII ao s\u00e9culo XX. De acordo com Marcus Rediker (<em>A bord du n\u00e9grier, une histoire atlantique de la traite<\/em>, 2013), \u00e9 a escravatura que forjar\u00e1 a conce\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, que permitir\u00e1 \u00e0 Fran\u00e7a clarificar a sua posi\u00e7\u00e3o e construir a sua teoria de desenvolvimento separada. Primeiro foi necess\u00e1rio resolver as distin\u00e7\u00f5es entre os Negros escravos. A ra\u00e7a torna-se cor! j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de geografia como nas descri\u00e7\u00f5es de Lineu no s\u00e9culo XVIII. Embora a ra\u00e7a de todos os escravos seja \u201cnegra\u201d, o termo casta surge em documentos oficiais de venda, perda, fuga ou emancipa\u00e7\u00e3o para especificar a identidade, remetendo frequentemente para a origem geogr\u00e1fica. Assim, no decreto n.\u00ba\u00a0597, de 27 de outubro de 1844, do <em>Bulletin Officiel<\/em> da Ilha Bourbon, Ragotin \u00e9 de casta yambane, Z\u00e9lina de casta malgaxe e Genevi\u00e8ve de casta crioula, ou seja, nascida na ilha. A palavra vem da palavra portuguesa casta que significa \u201cpura, n\u00e3o misturada\u201d e designa um grupo social hierarquizado, endog\u00e2mico e heredit\u00e1rio.<\/p>\n<p><figure id=\"attachment_9128\" aria-describedby=\"caption-attachment-9128\" style=\"width: 1100px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_98FI8.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9128 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_98FI8.jpg\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"702\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_98FI8.jpg 1100w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_98FI8-300x191.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_98FI8-768x490.jpg 768w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FRAD974_98FI8-1024x653.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9128\" class=\"wp-caption-text\">Mulher Paria; Negra Crioula; Yambane; Negro Crioulo; Negra de picareta [V\u00e1rias personagens e uma ave]. Jean Baptiste Louis Dumas, del.. [1827-1830]. Desenho, l\u00e1pis, aguarela, a cores. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Arquivos Departamentais da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>A doutrina colonial francesa do desenvolvimento separado das ra\u00e7as \u00e9 recordada no pre\u00e2mbulo do Decreto de Richepance de 17 de julho de 1802, em Guadalupe: \u201cAs col\u00f3nias n\u00e3o passam de estabelecimentos formados pelos Europeus, que para l\u00e1 levaram os Negros como \u00fanicos indiv\u00edduos id\u00f3neos para a explora\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses; que entre estas duas classes fundamentais dos colonos e respetivos negros, formaram-se ra\u00e7as de sangue misto, sempre distintas dos brancos que formaram os assentamentos.\u201d O Decreto nacional de 2 de julho de 1802 (13 messidor ano X) havia organizado a proibi\u00e7\u00e3o de \u201cpessoas de cor\u201d entrarem no territ\u00f3rio europeu da Fran\u00e7a: \u201c\u00c9 proibido a todos os estrangeiros trazerem para o territ\u00f3rio continental da Rep\u00fablica, qualquer negro, mulato ou outras pessoas de cor de ambos os sexos\u201d (artigo 1.\u00b0). Este quadro ideol\u00f3gico de segrega\u00e7\u00e3o permitir\u00e1 \u00e0 Fran\u00e7a administrar os seus dois imp\u00e9rios: o primeiro do s\u00e9culo XVI ao Tratado de Viena de 1815, e o segundo sobre os restos desmantelados do primeiro, enriquecido pela expans\u00e3o colonial civilizadora da Terceira Rep\u00fablica e caracterizado pelo <em>Code de l\u2019Indig\u00e9nat<\/em>.<\/p>\n<h3>O regresso do Homem reunionense \u00e0 sua Hist\u00f3ria<\/h3>\n<p>O regresso do Homem reunionense \u00e0 sua hist\u00f3ria foi teorizado por \u00c9ric Boyer, Presidente do Conselho Geral da Reuni\u00e3o a partir de 1988. Compreende-se atrav\u00e9s do \u201cdever da mem\u00f3ria\u201d, por meio da criouliza\u00e7\u00e3o, ou seja, da occis\u00e3o da calibaniza\u00e7\u00e3o em prol da inaugura\u00e7\u00e3o de uma nova era chamada \u201cde n\u00f3s mesmos\u201d, de acordo com a f\u00f3rmula de C\u00e9saire. Este rev\u00e9s permite moldar uma sociedade reunionense mais justa. Esta mudan\u00e7a na hist\u00f3ria deve ser analisada \u00e0 luz do discurso do Presidente Sarkozy, de 27 de julho de 2007, na Universidade Anta Diop, em Dakar, que postulava que \u201ca trag\u00e9dia de \u00c1frica \u00e9 que o homem africano n\u00e3o entrou suficientemente na hist\u00f3ria\u201d &#8211; uma posi\u00e7\u00e3o que foi v\u00e1rias vezes saudada.<\/p>\n<h4>O dever da lembran\u00e7a, uma quest\u00e3o de Estado<\/h4>\n<p>O dever da mem\u00f3ria \u00e9 uma f\u00f3rmula feliz! Tornando-se um termo fundamental na pol\u00edtica comemorativa do Estado, abrindo as portas e gavetas da lembran\u00e7a. S\u00e9bastien Ledoux (<em>Le Devoir de m\u00e9moire, une formule et son histoire<\/em>, 2016) data o uso da operacionalidade do termo como alavanca para uma pol\u00edtica de mem\u00f3ria em finais da d\u00e9cada de 1990. Decorrente do discurso acad\u00e9mico, o termo tem permeado os meios de comunica\u00e7\u00e3o social, os pensamentos e os discursos pol\u00edticos com a garantia mec\u00e2nica da evid\u00eancia e relev\u00e2ncia. A Lei n.\u00ba 83-550, de 30 de junho de 1983, relativa \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e em homenagem \u00e0s suas v\u00edtimas, decretou \u201cum feriado p\u00fablico nos departamentos de Guadalupe, Guiana Francesa, Martinica e Reuni\u00e3o, bem como na coletividade territorial de Maiote\u201d. O Decreto n.\u00ba 83-1003, de 23 de novembro de 1983, estabelece um dia de comemora\u00e7\u00e3o para cada uma destas comunidades, pois nenhuma data foi un\u00e2nime; optando-se pelo dia 20 de dezembro para a Reuni\u00e3o. Embora haja uma unidade de a\u00e7\u00e3o no reconhecimento da escravatura colonial francesa, n\u00e3o h\u00e1 unidade relativamente ao momento e lugar nas geografias dos territ\u00f3rios distantes para o exerc\u00edcio da comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pela Lei n.\u00ba 2001-434, de 21 de maio de 2001, a Rep\u00fablica Francesa reconhece que o tr\u00e1fico de escravos e a escravatura \u201cperpetrados a partir do s\u00e9culo XV nas Am\u00e9ricas, nas Cara\u00edbas, no oceano \u00cdndico e na Europa contra as popula\u00e7\u00f5es africanas, amer\u00edndias, malgaxes e indianas constituem um crime contra a humanidade\u201d (artigo 1.\u00b0). Um pedido de reconhecimento junto ao Conselho da Europa e \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas (artigo 3.\u00b0) e a inclus\u00e3o nos curr\u00edculos escolares (artigo 2.\u00b0) completam este dispositivo legislativo. Al\u00e9m disso, a Lei de 29 de julho de 1881 \u00e9 alterada no seu artigo 48-1.\u00b0 com vista a incluir doravante a men\u00e7\u00e3o \u201cpara defender a mem\u00f3ria dos escravos e a honra dos seus descendentes\u201d.<\/p>\n<p>A repara\u00e7\u00e3o exigida em nome do atentado \u00e0 humanidade segue, por vezes, um rumo surpreendente: um novo texto procede \u00e0 eros\u00e3o expiat\u00f3ria. Assim, a Lei de 27 de janeiro de 2017 sobre igualdade e cidadania, no seu artigo 219.\u00b0 revoga a Lei n.\u00ba 285 de 30 de abril de 1849 sobre a indemniza\u00e7\u00e3o concedida aos colonos no seguimento da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. \u00c9 muito prov\u00e1vel que estas repetidas excis\u00f5es impe\u00e7am um dia, numa nova era, de compreender a realidade de uma era anterior.<\/p>\n<h4>O renascimento de si mesmo num novo verbo<\/h4>\n<p>Isolado dos seus mortos e das suas palavras, o escravo em perdi\u00e7\u00e3o, passando dos pequenos veleiros \u00e1rabes ao fundo dos por\u00f5es de outros navios negreiros, teve de restabelecer o di\u00e1logo na Reuni\u00e3o e renovar totalmente o modo de s\u00faplica e ora\u00e7\u00e3o. Era o pre\u00e7o a pagar para voltar \u00e0 vida. Porque aqui, nem todos falavam a mesma l\u00edngua, tendo, no entanto, que viver juntos. As l\u00ednguas nunca s\u00e3o permut\u00e1veis e sempre geram climas civilizacionais diferentes. Assim, quando o di\u00e1logo se torna h\u00e9ctico e pobre na linguagem do outro, a tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 viver de empr\u00e9stimos, cada um contratando d\u00edvidas figuradas de ado\u00e7\u00e3o, ao sabor das tend\u00eancias e da intelig\u00eancia emocional de cada um, at\u00e9 ao desenvolvimento de um organismo org\u00e1smico: a linguagem crioula.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1545\" aria-describedby=\"caption-attachment-1545\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-1545 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"746\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz.jpg 800w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz-300x280.jpg 300w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/2003-11-01-koz-langaz-768x716.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1545\" class=\"wp-caption-text\">Koz langaz. William Zitte. 199. Acr\u00edlico sobre tela, stencil. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Artoteca da Reuni\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A criouliza\u00e7\u00e3o \u00e9 todo o processo de mistura de corpos e imagin\u00e1rios, resultando em metamorfoses e novas realidades metam\u00f3rficas, produzidas pelo contacto, o toque e a intrus\u00e3o. \u00c9 atrav\u00e9s do toque que o apego a uma nova terra ocorre. Na Reuni\u00e3o, o verbo crioulo tornou-se carne numa aventura coexistencial. Nesta recorda\u00e7\u00e3o de vidas desconhecidas, atrav\u00e9s dos interst\u00edcios da hist\u00f3ria oficial do tr\u00e1fico de escravos, salientemos no regresso dos nossos mortos, pelos quais a tristeza que sentimos nunca ser\u00e1 apagada, o renascimento de si mesmo num novo verbo. \u00c9 assim que as popula\u00e7\u00f5es protagonistas, incluindo as que s\u00e3o origin\u00e1rias do tr\u00e1fico de escravos, \u201cfalar\u00e3o mais alto do que os desastres\u201d segundo C\u00e9saire.<\/p>\n<h4>Organizar \u201co tempo de n\u00f3s mesmos\u201d aqui<\/h4>\n<p>C\u00e9saire proclama, numa carta de rutura a Maurice Thorez, l\u00edder do Partido Comunista franc\u00eas, a fim de se libertar das defici\u00eancias da Quarta Rep\u00fablica face \u00e0s suas antigas periferias escravas: \u201cChegou a hora de n\u00f3s mesmos\u201d. Ele prop\u00f4s erigir o \u201cn\u00f3s\u201d na liberdade de todos os \u201ceu\u201d; prop\u00f4s construir a Na\u00e7\u00e3o francesa com as aur\u00e9olas do distante, no sentido de manchas vergonhosas e incontinentes na cama do passado, e com a aura do prestigiado centro, no sentido de Walter Benjamin, representado pela Rep\u00fablica. Simbolicamente, C\u00e9saire, poeta que falava na arena pol\u00edtica, considerava que as margens s\u00e3o essenciais como li\u00e7\u00e3o de humanidade, porque s\u00e3o elas que permitem enquadrar a p\u00e1gina. Para este novo pacto republicano, era necess\u00e1rio permanecer insens\u00edvel \u00e0s m\u00e1goas do passado, reprimir o rancor, reconstruir o conceito e os reflexos de autonomia e responsabilidade e perdoar a Rep\u00fablica pelas suas imperfei\u00e7\u00f5es. Porque, segundo ele, \u201codiar \u00e9 depender de novo\u201d.<\/p>\n<p>Nos an\u00fancios publicit\u00e1rios franceses, persistiu durante muito tempo a imagem de um negro hilariante, feliz e subordinado com um barrete turco vermelho, como uma vers\u00e3o condensada da hist\u00f3ria colonial francesa. Ningu\u00e9m via mal\u00edcia nem maldade na publicidade que representava o negro da Banania. Os soci\u00f3logos Bourdieu e Luc Boltanski, no seu livro Production de l\u2019id\u00e9ologie dominante (1976), tinham-nos contudo alertado contra uma condescend\u00eancia adulterada. O MRAP instaurou uma a\u00e7\u00e3o judicial contra o uso da imagem do Negro da Banania pelo grupo Nutrimaine, considerado \u201cracista e violador da dignidade humana\u201d. Ganhou o seu caso em 20 de maio de 2011 pois a imagem e o slogan (Y a bon Banania) foram considerados como sendo o ve\u00edculo de um clich\u00e9 esgotado do Negro, eternamente \u00e0 porta do mundo civilizado. \u201cUm homem negro s\u00f3 sabe falar um franc\u00eas simplificado\u201d, havia destacado David Marty, o advogado do MRAP.<\/p>\n<figure id=\"attachment_9110\" aria-describedby=\"caption-attachment-9110\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Banania_ya_bon___affiche.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"taille-initiale wp-image-9110 size-full\" src=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Banania_ya_bon___affiche.jpg\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Banania_ya_bon___affiche.jpg 520w, https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Banania_ya_bon___affiche-223x300.jpg 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9110\" class=\"wp-caption-text\">Banania y&#8217;a bon: [cartaz]. 1915. Litografia a cores. <br \/>Cole\u00e7\u00e3o Biblioteca nacional de Fran\u00e7a, departamento Estampas e fotografia, <br \/>ENT DN-1 (CAMIS)-GRAND ROUL<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Conclus\u00e3o : A resolu\u00e7\u00e3o da identidade no cora\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa<\/h3>\n<p>Qual pode ser a finalidade do debate atual sobre a escravatura? Para al\u00e9m do exerc\u00edcio da transmiss\u00e3o, pode contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa cujos dois grandes princ\u00edpios s\u00e3o os seguintes: o direito \u00e0 liberdade e o direito \u00e0 diferen\u00e7a. O <em>princ\u00edpio de liberdade<\/em> confere a todos um direito id\u00eantico baseado na igualdade entre todos os indiv\u00edduos. O <em>princ\u00edpio da diferen\u00e7a<\/em> \u00e9 justificado pela exist\u00eancia, no mesmo conjunto pol\u00edtico, de homens e mulheres que n\u00e3o possuem as mesmas hist\u00f3ria e geografia, que n\u00e3o partilham o mesmo passado, o mesmo mar, a mesma culin\u00e1ria e a mesma l\u00edngua. Nem todos os franceses t\u00eam a mesma identidade. A identidade \u00e9 sempre o resultado do que acontece entre si e os outros atrav\u00e9s do toque; este caminho refere-se \u00e0 imagem da \u00e1gua, inodora e incolor, que assume o sabor e a cor daquilo que encontra. E no calor tropical, longe das neves de outrora e dali, os homens e as mulheres fizeram outros encontros aqui, na Reuni\u00e3o, nos meandros de outras situa\u00e7\u00f5es: a escravatura e a utopia crioula, termo este que acreditamos significar <em>ilus\u00e3o<\/em> mas que, na verdade, designa a <em>esperan\u00e7a<\/em>. Para que a troca vingue o fil\u00f3sofo Georges Didi-Huberman exorta-nos a repensarmos juntos o passado, o presente e o futuro, a fim de ter \u00eaxito neste perigo pedag\u00f3gico que \u00e9 qualquer transmiss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9126,"parent":5044,"menu_order":30,"template":"","class_list":["post-9243","documentaire","type-documentaire","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/9243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/documentaire"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/documentaire\/5044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9126"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portail-esclavage-reunion.fr\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}