10 de maio: Dia nacional da memória do tráfico de escravos, da escravatura e respetivas abolições
No âmbito do Dia nacional da memória do tráfico de escravos, da escravatura e da abolição, o museu histórico de Villèle apresenta uma exposição que reúne peças inéditas, recentemente adquiridas, e apresentadas ao público pela primeira vez aquando da celebração de 20 de dezembro de 2025. Esta exposição insere-se igualmente no contexto de um ano simbólico que assinala o aniversário da lei Taubira, que reconhece o tráfico de escravos e a escravatura como crimes contra a humanidade.
Instalada no primeiro andar da antiga casa senhorial, a exposição coloca em destaque objetos que atestam a história da escravatura. Adquiridas recentemente, estas peças enriquecem as coleções do museu e contribuem para compreender melhor as realidades históricas, reforçando, ao mesmo tempo, o trabalho de memória realizado pela instituição.
A exposição convida a descobrir designadamente:
uma maquete do navio Le Mercure, que evoca as rotas e as condições do tráfico de escravos;
grilhões, vestígios materiais da submissão;
armas relacionadas com o tráfico;
uma escumadeira de açúcar, artefacto do sistema de produção colonial;
uma aguarela inédita que representa a propriedade de Rivière du Mât, realizada por Xavier Le Juge de Segrais, por volta de 1900.
Através destes objetos, que vieram recentemente incrementar as coleções do museu, a exposição visa dar visibilidade às realidades, amiúde ausentes das narrativas, e alimentar uma reflexão sobre os legados da escravatura na sociedade contemporânea. Insere-se na vontade do museu histórico de Villèle de espoletar um diálogo entre a história, a memória e a cidadania, dando o devido destaque às vozes e aos vestígios do passado.
«Aguardando o museu, revelações inéditas sobre a história da escravatura»
O Mercure
Éric L’Émaillet
2015
Madeira de pereira, metal, algodão
O Mercure era um antigo navio da Companhia das Índias envolvido no tráfico esclavagista. Operava na região do oceano Índico, trazendo 26 escravos da índia para Bourbon. O navio foi objeto de um estudo monográfico de Jean Boudriot, que permitiu ao modelista Éric L’Émaillet realizar uma maquete fiel ao original, sem recurso a peças do comércio, à escala 1/48. O trabalho de construção começou em 2012 e durou três anos.
Bacamarte de tráfico da marinha
Finais do século XVIII
Madeira, metal
Esta arma era usualmente utlizada na marinha aquando de abordagens de outros navios, motins de marinheiros ou revoltas de escravos, que podiam ocorrer durante as operações de tráfico esclavagista.
Grilhões para pés de escravos
Primeira metade do século XIX
Metal
Estes grilhões serviam para entravar os movimentos dos escravos, de modo a que não pudessem dar grandes passadas e correr em caso de fuga. Este objeto pertencia a uma antiga propriedade do Gol, uma das maiores de Bourbon que, antes de 1848, chegou a ter 600 escravos.
Pistola de caça, conhecida como «de Mussard»
Século XVIII, ca. 1730-1750
Madeira, metal
Pistola curta de dois canhões para tiro à queima-roupa, utilizada pelos caçadores de marrons nas florestas onde a manobra de armas de cano longo é difícil devido à densidade da vegetação. Esta arma é conhecida como «de Mussard» (caçador de marrons célebre) por ser da propriedade da família Mussard e é um objeto emblemático do museu.
Cavalo de madeira, brinquedo
Finais do século XIX
Madeira, metal, couro
O cavalo de madeira fazia parte dos brinquedos clássicos que os filhos dos senhores utilizavam para se divertirem. Fabricados em oficinas da metrópole, estes brinquedos eram importados a fim de satisfazer a procura local.
Via Sacra
Segunda metade do século XIX
Terracota pintada, moldura de madeira
Composta por 14 quadros, a Via Sacra foi inicialmente instalada na capela aquando da sua construção, em 1843, contudo vários quadros foram danificados durante o ciclone de 1858. Uma nova Via Sacra foi então encomendada na segunda metade do século XIX, mas também esta foi danificada em 1932 e, depois, em 1936, mais uma vez devido a condições ciclónicas, e continuou a deteriorar-se até à sua classificação como monumento histórico em 2020. Atualmente, restam apenas 10 estações das 14 originais. A Via Sacra foi restaurada em 2024, graças ao apoio da Fundação para a Preservação da Arte Francesa. É a 12.ª estação, «Jesus morre na cruz», que é apresentada ao público.
Kayanmb
Firmin Viry
2018
Semente de conflore, haste da flor da cana, haste da choca, pele de cabrito
Originário de África onde lhe dão o nome de «chiquisti» ou «kaembe» nas províncias do sul de Moçambique, «kayamba» no Quénia e Zanzibar, «raloba» em Madagáscar, e «mkayamba» em Anjuã e Maiote. A sua representação em gravuras data de 1848.
Bobre
Johny Bily
2018
Calabaceira, madeira amarela, flor de choca, madeira de gaulette, folha de pandano, semente de conflore
O bobre é um instrumento tradicional herdado do período da escravatura. Originário de África e derivado do arco, composto por madeira dura e uma cabaça (caixa de ressonância), é frequentemente utilizado na música tradicional da Reunião e acompanha muitas vezes os moringueiros durante as suas danças.
Roulèr
Stéphane Grondin
2018
Madeira de carvalho, pele de vaca, metal
Pertencente à família dos membranófonos, o «roulèr» (anteriormente «rouleur») é um tambor tubular em forma de barril específico da Ilha da Reunião, pois, ao contrário dos outros tambores da região, que são principalmente tambores de armação, este é o único que repousa horizontalmente sobre um suporte denominado «santyé». Poderá ser o legado do tambor cónico (tambor vouve ou tambor longo), hoje desaparecido, mas outrora representado na Ilha da Reunião em representações iconográficas e semelhante ao atabaque de Madagáscar (que sobreviveu nas Seychelles sob o nome de tambor séga).
Escumadeira de açúcar
Primeira metade do século XIX
Metal
Este utensílio era frequentemente utilizado pelos escravos no âmbito do fabrico do açúcar. Trata-se de um grande coador com orifícios pequenos, frequentemente em cobre, dotado de um longo cabo de madeira, que os «escravos da caldeira» usavam para retirar a espuma que se formava na superfície das caldeiras durante as operações de purificação. Este objeto foi encontrado no local do museu durante uma obra de preservação do património na década de 1990.
[Anse des cascades]
Adolphe d’Hastrel de Rivedoux
1837
Aguarela
No primeiro plano, à direita, a aguarela representa um pescador, sentado no seu barco, a remendar a rede. Em segundo plano, à esquerda, uma família de escravos, dois dos quais, sentados em frente à sua pequena cabana, estão ocupados a cozinhar, enquanto um terceiro vai buscar água à Cascata. A falésia, a cascata, o curso de água e a presença do pescador são indícios que apontam para o mesmo local: a cena situa-se junto a cascatas, mais precisamente na Anse des Cascades, em Sainte-Rose. A cabana representada faz parte do acampamento da propriedade de Charles Lenoir, estabelecida nesta localidade.
Saint-André, Rivière du Mât
Xavier Le Juge de Segrais
Finais do século XIX
Aguarela
Aguarela rara que representa uma das primeiríssimas propriedades de produção de açúcar de (1816), situada nas imediações da Rivière du Mât. A aguarela mostra a inserção dos barracões de bagaço no planalto que domina o leito da Rivière du Mât, do qual partia um canal de abastecimento de água para a refinaria.
Pianoforte quadrado
Érard
1785
Madeira, marfim, metal
A Érard é uma fábrica francesa de instrumentos musicais, conhecida principalmente pelos seus pianos, mas também pelos seus cravos, pianofortes e harpas. O inventário após o falecimento de Ombline Panon-Desbassayns menciona um piano desse fabricante, datado da mesma época, facto que testemunha a importância atribuída à prática musical e que destaca a dimensão artística e cultural desta família burguesa. Este piano será apresentado no novo percurso museográfico do museu, a fim de ilustrar este aspeto do estilo de vida da família.