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Joseph Desbassayns (1780-1850)

Um artigo redigido pelo historiador Jean-François Géraud.

Joseph Desbassayns era o oitavo filho da prole, o sétimo a chegar à idade adulta, de Henri Paulin Panon Desbassayns (1732-1800) e de Marie-Anne Thérèse Ombline Gonneau-Montbrun (1755-1846).
Não é fácil contar a história de um homem que não alcançou qualquer notoriedade histórica durante a sua vida, sendo, aliás, filho de uma figura central e fascinante da história e da mitologia da ilha da Reunião: Madame Desbassayns. A mãe, polarizou, mais ou menos merecidamente, a atenção dos historiadores, retirando qualquer a visibilidade aos filhos. No entanto, foi uma mera proprietária que viveu de acordo com a tradição de finais do século XVIII, não sendo, de todo, audaciosa e inovadora.
À primeira vista, o filho Joseph era um plantador, um proprietário como tantos outros na ilha Bourbon, porém caiu no esquecimento, tal como o irmão Charles, ou até mais do que ele. Não há lugar de memória, tampouco rua, nem sequer um beco sem saída, nenhum elemento do relevo acidentado da Reunião, que tenha o seu nome.

[Retrato de Joseph Panon-Desbassayns (1780-1850)]. [Atribuído a] Louis Léopold Boilly.
[Entre 1790 e 1800]. Pintura sobre tela: óleo.
Coleção do Museu Léon Dierx, inv. 1911.08.01

Todavia, Joseph foi um autor obstinado e indubitavelmente promotor da modernização e da modernidade na ilha da Reunião. De facto, no início do século XIX, fez parte da geração empreendedora e destemida que extirpou a ilha da rotina sem perspetivas da cultura do café, em declínio, e do cravinho, que não encontrava comprador, conetando-a ao cultivo da cana e da produção de açúcar: é aquilo a que se chama a passagem ao açúcar da ilha.
O arranque da sua atividade de produtor de açúcar deu-se aquando à afinação de um método de cultura da cana-de-açúcar, que se expandiria na Reunião, no oceano Índico e nas colónias francesas, e que seria recomendado até finais do século XIX.
Este método consistia na rotação de culturas, na codificação da plantação da cana em covas e em especificidades ligadas à manutenção e ao corte da cana. Porém, o mais notável nesta metodologia é a padronização das ferramentas e os atos do escravos: todas as dimensões das alfaias foram descritas, as ações particularizadas ao milímetro, sendo que os Negros eram praticamente transformados em máquinas, num campo que se assemelhava a uma fábrica, numa espécie de prenunciação do taylorismo americano.
Além disso, o proprietário, ofuscado pela paixão do progresso e da produção, arruinar-se-ia devido à importação de máquinas (inglesas) e à compra de propriedades cujos benefícios não bastariam para saldar os custos de aquisição, de tal modo que, a partir dos anos 1830, Joseph Desbassayns viu-se obrigado a uma morosa liquidação de todos os seus bens.
O produtor de açúcar era também um homem doente, sofria de uma doença que na altura se chamava «le barbiers», que impossibilitava gradualmente a mobilidade das pernas. A partir de 1820, com apenas quarenta anos, incapacitado de caminhar, era transportado permanentemente numa cadeira, carregada para todos os lados por Bambaras robustos.
Recorrendo a todas as «mezinhas» que lhe propunham, acreditava ter encontrado a salvação no Mesmerismo ou magnetismo animal, charlatanice que estava na moda em finais do século XVIII e inícios do século XIX.
Ao nível político, era um conservador animado pela fidelidade desmesurada à Bandeira branca e aos Bourbons. Instalado em Paris em 1845, acompanhou a Inglaterra o rei Louis-Philippe, destituído do trono pela revolução de 1848. Ao nível social, Joseph era partidário da manutenção da escravatura, que ele esperava tornar aceitável mediante a construção de uma prisão modelo no seu estabelecimento, cobrindo de gravuras religiosas edificantes as paredes do hospital que acolhia os escravos enfermos, favorecendo a evangelização dos seus Negros.

Faleceu em Paris, para onde havia regressado em 17 de abril de 1850, e encontra-se sepultado no cemitério Père Lachaise. Atualmente, ilustra na perfeição a ambivalência da história da ilha da Reunião, dividida entre lealdades retrógradas, que a perificidade tornava intratáveis, e um desejo desenfreado de modernidade cujos objetivos não eram claramente definidos, nem os efeitos racionalmente avaliados.

Homenagem a Diana Ferrus (1953–2026), poetisa sul-africana

Nascida a 29 de agosto de 1953 em Worcester, na província do Cabo (União da África do Sul), e falecida em 30 de janeiro de 2026, Diana Ferrus foi uma das grandes vozes poéticas e morais da África do Sul contemporânea. Poetisa, escritora e ativista, consagrou a sua obra ao restabelecimento da dignidade das vozes reduzidas ao silêncio pela escravatura e pelo apartheid.

O seu nome permanece indissociável do de Sarah Baartman (a “Vénus Hotentote”). Em 1998, com A Poem for Sarah Baartman (I’ve Come to Take You Home), Diana Ferrus transformou a poesia em ato de justiça. Este texto desempenhou um papel determinante no repatriamento dos despojos de Sarah Baartman para África do Sul, contribuindo para reparar uma injustiça histórica e devolver a dignidade a uma mulher desumanizada pelo olhar colonial.

Através da sua obra, Diana Ferrus dedicou-se a restituir o nome e a memória às vítimas da escravatura. O seu poema My Name Is February presta homenagem aos escravos naufragados do navio negreiro São José, que soçobrou ao largo da Cidade do Cabo durante uma noite tempestuosa de dezembro de 1794 com cerca de 500 escravos a bordo. Na Cidade do Cabo, os escravos deportados perdiam a sua identidade à chegada, rebatizados com o nome do mês em que desembarcavam, símbolo de uma total espoliação do ser.

Em 20 de dezembro de 2023, esta memória partilhada foi apresentada no Museu Histórico de Villèle por ocasião da celebração da abolição da escravatura, à qual Diana Ferrus foi convidada, juntamente com uma delegação do Museu Iziko da Cidade do Cabo, no âmbito de uma parceria entre a Reunião e a África do Sul. O museu recebia, então, a exposição My Name Is February, tecendo um diálogo entre a história da escravatura da Cidade do Cabo e a da Reunião e do oceano Índico. A presença da poetisa neste lugar emblemático lembrou que a memória da escravatura liga os continentes e que a poesia pode tornar-se um espaço de reconhecimento e de restituição da dignidade.

Hoje, o Departamento da Reunião e o Museu Histórico de Villèle manifestam-lhe a sua gratidão.