A propriedade Desbassayns

A família Desbassayns

Madame Desbassayns.
De Segunda Providência a carrasco de escravos: a história de uma lenda

Alexis MIRANVILLE

Historiador


Madame Desbassayns.
De Segunda Providência a carrasco de escravos: a história de uma lenda

A biografia de Madame Desbassayns, falecida em Saint-Gilles-les-Hauts, a 4 de fevereiro de 1846, com mais de 90 anos, poderia resumir-se em poucas palavras. Filha única de um cultivador rico, casou-se com um colono também de grande fortuna, mas mais velho do que ela. Viúva aos 45 anos, deu por si a gerir uma exploração agrícola e uma família alargada, muitos membros da qual ocupariam cargos importantes tanto a nível local como nacional.

Mesmo que a sintetizemos assim, a sua biografia denota um estatuto social e um destino pouco comuns no século XIX, uma época em que a mulher era excluída da maioria dos domínios de atividade, então reservados aos homens, estando destinada à vocação de esposa, dona de casa e mãe educadora. A partir do momento em que toma as rédeas da propriedade, a Madame Desbassayns empenha-se em fazê-la crescer e prosperar, apesar da crise económica grave que se fazia sentir  . Na Reunião, contudo, ela não é tão conhecida pela sua história pessoal, mas mais pela lenda que se desenvolveu em torno da sua personagem.

Admirada e complacentemente dotada de todas as virtudes

Retrato de Madame Desbassayns. Jéhan de Villèle. 1990. Óleo em tela.
Coleção Museu Villèle

A longa existência de Madame Desbassayns, no entanto, não começou sob os melhores auspícios. Filha de Julien Gonneau, um cultivador dos Hauts de Saint-Paul, perde a mãe no próprio parto, a 3 de julho de 1755.
Não se sabe muito sobre quem a criou: Jeanne Raux, a tia materna, esposa do guarda Jean-Baptiste Hoareau, que se torna oficialmente seu tutor a 20 de maio de 1757 .

Ainda se sabe menos sobre a sua infância e a sua adolescência, a não ser que, segundo um dos seus netos, apelidado de Petit Gascon, «a sua educação foi perfeita e a sua instrução quase nula» .  Só «um pouco negligenciada», acrescenta o seu genro Jean-Baptiste de Villèle: leitura, escrita e cálculo, ensino dispensado pelo padre da paróquia e um militar reformado . Já adulta, escrevia pouco e mais ou menos de ouvido, mas aparentemente o suficiente para apoiar aquele com que se casaria a 28 de maio de 1770, quando ainda nem tinha feito 15 anos, Henri Paulin Panon Desbassayns, com 38 anos feitos.
Após a morte do marido, a 11 de outubro de 1800, parece descobrir-se nela uma personalidade própria e qualidades que suscitam a admiração de todos os seus próximos. Em agosto de 1813, aquando de uma curta estadia na Maurícia, foi recebida pelo novo governador-geral da Índia britânica, que estava de passagem na ilha e para quem «as suas maneiras refletem a elegância da alta sociedade associada à segurança que confere a prática dos negócios» .

Na Notice biographique que lhe dedica, em 1846, Jean-Baptiste de Villèle assinala que ela tinha «uma capacidade administrativa que faria inveja aos homens mais avisados». Já Petit Gascon compraz-se em notar que a sua avó «já há muito que tinha esquecido que era uma mulher, e era certo e sabido que tinha nela mais virilidade do que todos os homens que a rodeavam» . Nas suas memórias, lembra-se dela sempre vestida com uma «simples toilette de viúva»: uma saia preta, um corpete branco e, na cabeça, um lenço branco coberto por uma coifa de xadrez multicolor.

Em 1817, além da imagem de dirigente empresarial, o visitante Auguste Billiard depara com a da «avozinha, rodeada por meia dúzia de filhos e netos» . Entre 1818 e 1820, a Madame Desbassayns acolhe um outro viajante de passagem, o primeiro-tenente da armada Théophile Frappaz, que lhe deixou um retrato muito elogioso: «Esta respeitável senhora goza da mais alta consideração em toda a ilha, não tanto pela sua grande fortuna, mas mais pelas suas estimáveis qualidades.» . Frappaz também dá a saber o que os escravos pensam dela: «Nunca esquecerei a expressão de satisfação e de amor que animava a fisionomia dos seus muitos escravos quando se lhes falava da sua boa senhora, que eles tratavam por mãe.»
Ninguém poderá duvidar da sinceridade do oficial da marinha e da veracidade dos testemunhos recolhidos, mas, tendo em conta o seu elevado estatuto social, os poucos dias passados no local e o problema da língua de comunicação, dificilmente se imagina que possa ter andado sozinho pela propriedade a falar livremente com os trabalhadores dos campos. Os seus contactos ter-se-ão muito provavelmente limitado aos escravos da casa ou a todos aqueles que se quis apresentar-lhe. Alguns serventes domésticos, por exemplo, eram muitas vezes mais próximos dos seus senhores do que dos seus irmãos de cor, e não correriam o risco de perder os parcos privilégios de que gozavam permitindo-se tecer a mais pequena crítica a respeito dos proprietários. Todas essas considerações suscitam sérias reservas, não acerca da boa-fé de Frappaz, mas sobre a fiabilidade das suas fontes e das respostas que obteve.

Seja como for, a Madame Desbassayns era, então, uma verdadeira lenda dourada, conhecida como Segunda Providência (Seconde Providence) — nome que ainda em vida da própria foi dado em sua homenagem a uma rua da cidade de Saint-Paul.

Na origem dessa lenda está o papel que ela desempenhou ao salvar Saint-Paul da destruição, aquando do ataque dos ingleses em 1809. Há que saber também que, em 1817, ela doou a sua propriedade de Bout de l’Étang às Irmãs de São José de Cluny para a criação, nessa mesma cidade, da primeira escola feminina, apesar de ser um estabelecimento unicamente destinado a crianças de famílias livres.

Após a sua morte, alimentando e consolidando a sua lenda dourada, a Madame Desbassayns foi dotada de todas as virtudes, que lhe configuravam uma imagem magnífica, por vezes, à custa de algumas liberdades com a verdade histórica. Foi também a partir daqui que surgiu a ideia falsa de que ela dirigia as suas imensas propriedades por si só. Na verdade, desde a morte do marido que ela contratara o futuro genro, Jean-Baptiste de Villèle (1780-1848), para administrar todos os seus bens. Em 1822, foi o filho Charles que se encarregou dessa tarefa, tornando-se o principal responsável pela reconversão açucareira da sua propriedade de Saint-Gilles-les-Hauts, apesar de ela, considerando-o demasiado entusiasta pela cana-de-açúcar, o refrear um pouco  e continuar a dedicar uma parte das suas terras ao cultivo de víveres, nomeadamente, milho.

Em 1809, apesar de ela ter contribuído para salvar Saint-Paul da destruição, o seu papel não teria sido tão glorioso como afirma Jean-Baptiste de Villèle no seu elogio fúnebre . Para ele, os Ingleses não concretizaram as suas ameaças porque a Madame Desbassayns tinha acolhido e tratado bem os seus oficiais anteriormente aprisionados, em reconhecimento «dos cuidados e das atenções de que eles tinham sido alvo». Na realidade, essa destruição não aconteceu porque o general Des Brulys, governador da ilha, vindo de Saint-Denis com reforços, não lançou um contra-ataque. A pedido de uma delegação de notáveis são-paulenses proprietários de bens na cidade, o general aceitou capitular, antes de se suicidar . Era casado com uma sobrinha da Madame Desbassayns, que tinha uma casa perto do seu quartel-general. Sem dúvida que não terá sido só por afeto que os Desbassayns rodearam sempre a sua viúva e os seus filhos «dos seus cuidados atentos». 

Uma quase-deificação que lhe valeu ser objeto de uma contralenda

Em 1841, a construção da Chapelle Pointue consolidou a sua imagem de grande benfeitora social. Hoje em dia, não é fácil medir a importância de que se revestia, naquela época, a criação de um local de culto católico. Independentemente da realidade ou da intensidade da sua fé, os colonos do século XIX recorriam constantemente aos serviços do padre, que os congregava para a missa dominical, para lhes dar notícias da ilha, da cidade ou do bairro. Era eles que os batizava, confessava, casava e enterrava. A sua vida quotidiana fazia-se ao ritmo do bater dos sinos e das festas do calendário litúrgico. As pessoas iam à igreja não só para rezar, mas também para se encontrarem, divertirem ou chorarem os mortos.

Era à luz dessas considerações que os habitantes dos Hauts de Saint-Gilles podiam apreciar o que a Madame Desbassayns lhes trazia com a sua capela. Na época, seria o equivalente à criação de um serviço público de proximidade, o que também justifica terem-lhe chamado Segunda Providência. Fosse intencionalmente ou não, de algum modo, Madame Desbassayns apaziguou assim as frustrações, as invejas e as inimizades daqueles às custas dos quais ela tinha feito crescer o seu domínio e a sua fortuna. Uma vez que a religião visava moralizar os costumes, muito em particular, os dos escravos, era também uma boa forma de tornar a mão-de-obra dócil e respeitosa para com a autoridade. Os efeitos pretendidos beneficiaram, acima de tudo, o domínio de Madame Desbassayns, que ela queria transmitir em plena prosperidade aos seus herdeiros. Tinha mais de 85 anos quando mandou construir a sua capela.

Seja como for, o nome e a lenda de Segunda Providência faziam dela quase uma santa, pelo que não será de espantar, pois, que se tenha tornado, uma contralenda, sobretudo quando a escravatura foi abolida e os seus horrores foram revelados. Essa contralenda parece ter nascido por volta de 1910, ou seja, mais de meio século após a sua morte, a partir de um rumor: na sua propriedade ter-se-ia utilizado sangue dos escravos para fazer argamassa. Esse burburinho espalhou-se quando os operários que trabalhavam nas obras da sua casa da Chaussée Royale descobriram que o cimento a unir as pedras da velha cozinha era avermelhado .

O contexto político e eleitoral da época era propenso à circulação de tais rumores. A partir de finais do século XIX, com a instauração de uma república laica e anticlerical na França, os Villèle tornam-se alvo do poder instalado, que os considerava inimigos do povo. Os descendentes e herdeiros de Madame Desbassayns eram partidários dos monarquistas clericais, que levavam a luta pela religião para o plano político. Em 1906, um ano após sair a lei da separação entre as igrejas e o Estado, Jean-Baptiste de Villèle (1852-1917) fundou o jornal La Croix du Dimanche para lutar contra os republicanos apresentados como os coveiros do catolicismo.

Foi igualmente nessa época que surgiram referências à cor da pele e à escravatura no discurso político, nomeadamente, quando o deputado Lucien Gasparin, de origem alforriada e eleito em 1906, passou para o lado dos maltratantes da aristocracia local. Então, assistiu-se a uma catadupa de jornais que repercutiam e empolavam sem discernimento as propostas ou as acusações de uns e de outros. Desse modo, na edição do Le Peuple de 20 de janeiro de 1909, o autor anónimo de uma carta do leitor denuncia os «aristocratas deste país que, ontem, chicotearam os nossos antepassados e que, hoje, já só sonham com uma coisa: a morte do pequeno e o regresso à escravatura». No seguinte dia 26 de janeiro, o mesmo jornal comentaria os resultados do escrutínio e o fraco número de votos obtidos por aquele que designa da seguinte forma: «O candidato republicano democrata Dager, o operário, o negro Dager.» Na sua edição de 11 de fevereiro de 1910, Le Nouveau Journal de l’île de La Réunion critica o comportamento do candidato Gasparin que, segundo diz, suscita «a questão da cor» e reaviva também «as paixões mal adormecidas».

Longe do mundo da política e dos seus partidários dos média, um outro fato atesta que Madame Desbassayns não deixou só boas recordações. Trata-se de um estudo surgido no boletim n.° 4-5 (1921-1922) da Academia da Ilha da Reunião, intitulado Locutions et proverbes créoles, em que, para ilustrar a definição da palavra cipèque (peste ), se cita Madame Desbassayns como uma «pessoa autoritária e cruel […], uma senhora muito má para os seus escravos».

Uma lenda negra que se desenvolveu sobretudo a partir da década de 1970

Lápide de Madame Desbassayns. Hubert Nugent.
Coleção Museu Villèle

Durante muito tempo, por se propagar oralmente ou ser referida em textos pouco lidos, a lenda negra de Madame Desbassayns não foi muito difundida entre a população. Assim, até ao fim da década de 1960, ela permaneceu totalmente desconhecida para muitas famílias de determinados bairros de Saint-Paul, parecendo não sair do esquecimento em que caíra desde a sua morte. Já em 1866, a trasladação das suas cinzas para a Chapelle Pointue passou completamente despercebida, e o mesmo se poderá dizer da comemoração do centenário do seu desaparecimento, em 1946, e da abolição da escravatura, em 1948. É verdade que nada disto é estudado nas escolas, onde os alunos continuam a aprender que os seus antepassados são os gauleses — não por se querer inculcar-lhes essa ideia à força, mas porque os manuais escolares adotados são os mesmos por toda a França.

Começa-se a falar novamente na Madame Desbassayns sobretudo na década de 1970, em testemunhos orais «transmitidos aos seus descendentes por ex-escravos», recolhidos entre 1976 e 1978 por um etnólogo  e dois estudantes de História  da Universidade da Reunião. Todos apresentam a personagem de uma mulher má e cruel, uma psicopata que teria passado boa parte dos seus dias a infligir misérias aos escravos e a cometer crimes sádicos: a incarnação do mal absoluto.

Os exageros e as inverosimilhanças históricas  contidas nestes depoimentos por si só bastam para pôr em causa a sua fiabilidade: os autores e denunciadores de um complô que ela mandou lançar para a Ravine à Malheur, os calabouços subterrâneos que ela fez inundar para matar os falíveis às dúzias, os homens que ela enterrou vivos, as mulheres que ela fez dar à luz em cima de um buraco, os bebés negros que ela deu a comer aos porcos, etc.
Enquanto todos os historiadores sublinham a fragilidade dos testemunhos obtidos nos inquéritos orais e a imperiosa necessidade de os multiplicar para se poder proceder aos cotejos ou confrontações indispensáveis, aqui nem sequer se dá nome completo ou, sequer, aproximado, das pessoas questionadas. Contámos apenas dez, nomeadamente, citadas ou designadas pelas iniciais. Apesar deste corpus tão limitado e, portanto, tão pouco representativo, as respostas transcritas são apresentadas como sendo a expressão do bom senso popular e da tradição oral.

Há que, contudo, não tirar quaisquer conclusões por ausência de recordações negativas de Madame Desbassayns na memória dos descendentes dos seus escravos. Após 1848, muitos deles apressaram-se a deixar o seu antigo domínio e nem todos deveriam manter uma boa imagem dela. Vários terão sofrido com a dura disciplina que lá se aplicava: uma organização rigorosa baseada numa vigilância mútua constante, repetidas ações de controlo e sanções que poderiam chegar à prisão ou ao acorrentamento.

Foi o filho, Charles, administrador do domínio a partir de 1822, que instaurou essa dura disciplina, apesar de continuar a ocupar-se das suas outras propriedades, de entre as quais, a de Sainte-Marie, onde residia
 . Em Saint-Gilles-les-Hauts, omnipresente até ao fim da vida, Madame Desbassayns era a única senhora do domínio, e alguns escravos detestavam-na tanto, que transmitiram esse sentimento aos seus descendentes. O próprio Jean-Baptiste de Villèle reconhecia que ela era muito severa . A lenda tem, então, a suas raízes na realidade.

A construção de um símbolo para a escravatura

Escultura de Madame Desbassayns. Marco Ah-Khiem. Basalto.
Coleção Museu Villèle

Se a lenda negra de Madame Desbassayns se desenvolveu facilmente após 1970, apesar dos exageros e inverosimilhanças das acusações levantadas, é porque o período propicia a sua difusão. A partir da década de 1960, assistiu-se à emergência de uma corrente política identitária que denunciava os limites da departamentalização — a via adotada em 1946 para descolonizar a Reunião — e, consequentemente, reivindicava um estatuto de autonomia . O desafio eleitoral era evidente: exaltava-se a memória dos sofrimentos passados infligidos pelo sistema servil e a colonização a que se atribuía a origem das desigualdades e discriminações do presente. Na década de 1960, a influência do marxismo sobre os historiadores tornou-se particularmente forte, manifestando-se na relevância que se dava aos fatores económicos e aos antagonismos sociais.

Nesse contexto, a história da Reunião reduzia-se praticamente à história da escravatura: começava com ela e estava intimamente associada à ideia de busca pelas raízes, do dever de preservar a memória e de prestar culto aos antepassados.

Desse modo, os testemunhos orais dos descendentes dos escravos eram elevados a documentos históricos privilegiados ou, até, sacralizados.

O grande número de obras ou artigos consagrados à escravatura revela bem o interesse dos investigadores e o entusiasmo do público por esta questão . A partir da década de 1970, Madame Desbassayns também foi alvo de estudos ou processos que reativaram a sua lenda negra de mulher autoritária desprovida de humanidade. Os contadores, cantores e outros artistas locais que falam dela consideram geralmente estar a expressar a realidade da sua personagem. Na verdade, seja voluntária ou inadvertidamente, alimentam, empolam e propagam a sua lenda. Atualmente, todas as mulheres que se critica, com ou sem razão, por imporem demasiada autoridade no exercício das suas funções de chefia veem-se sistematicamente comparadas à Madame Desbassayns.

Isso deve-se, em boa parte, a uma simplificação abusiva da sociedade esclavagista com os Negros, por um lado, continuamente acorrentados e maltratados, e os «Grands Blancs» (famílias brancas poderosas), por outro, ricos, forçosamente maus e cujo arquétipo imaginamos ser a Madame Desbassayns. Ora, sabe-se que ela nem sempre foi detentora da maior fortuna da ilha, tendo sido largamente ultrapassada a partir da década de 1830 por Gabriel Le Coat de Kervéguen (1800-1860), proprietário de mais escravos do que ela. Sabe-se também que, na sua época, todos os habitantes da Reunião que tinham meios — fossem eles brancos, mestiços ou negros —, possuíam escravos, por vezes, muito poucos, para trabalhar as suas terras ou para cuidar das tarefas domésticas. A sua designação implícita como bode expiatório leva a que as pessoas se esqueçam de todos os outros esclavagistas menos conhecidos do que ela e exonerem os seus descendentes de eventuais exações cometidas pelos seus antepassados.

É como se, à falta de um libertador — como Toussaint Louverture, no Haiti —, cristalizando ao seu redor todos os seus ressentimentos, Madame Desbassayns devesse reunir novamente os descendentes dos escravos da Reunião e perpetuar a memória da escravatura.

Segunda Providência ou torcionária de escravos?

É sempre possível descobrir elementos novos, mas, até hoje, não se descobriu qualquer argumento convincente a favor de uma ou outra destas duas teses. A análise crítica dos mais variados documentos que pudemos consultar revela que ela era filha do seu tempo, produto e protagonista de um determinado tipo de sociedade . A economia do seu domínio assentava sobre a escravatura, uma prática desumana e condenável, mas, na altura, legal e estritamente codificada.

Tal como qualquer dirigente empresarial, — que quer no passado quer no presente raramente é filantropo —, como administradora dos seus domínios ela pretendia tirar o melhor partido desse sistema e melhorar a sua eficácia. Cada uma das suas ações ou cada uma das facetas da sua personagem deu naturalmente lugar, nos séculos XIX e XX, a todos os tipos de interpretações e representações, as quais refletem as mentalidades e os valores das respetivas épocas e estão na origem da lenda arreigada no imaginário de muitos habitantes da Reunião.

Notas
[1] Jean Farchi, Petite histoire de l'île Bourbon, PUF, Paris, 1937, páginas 167 e 173: plantações destruídas em 1806 e 1807 por catástrofes climáticas, comércio marítimo paralisado pela guerra naval com os Ingleses, necessidade de encontrar uma cultura para substituir a do café, etc.

[2] Arquivos departamentais da Reunião (ADR), C 2742.

[3] Documento intitulado Pieux Souvenir, Arquivos do Bispado, quota 4B.

[4] Jean-Baptiste de Villèle, Notice biographique sur Madame Desbassayns, Museu histórico de Saint-Gilles-les-Hauts, 1992, página 4. Este militar reformado deve ser o seu tutor, Jean-Baptiste Hoareau.

[5] Boletim da Sociedade da História da Ilha Maurícia, volume 7, maio de 1999, página 43.

[6] Petit Gascon, Pieux Souvenir, Arquivos do Bispado, quota 4B.

[7] Auguste Billiard, Voyages aux Colonies Orientales, Éditions ARS Terres Créoles, Saint-Denis de La Réunion, 1990, página 57. Billiard nota ainda que ela é «um pouco encurvada pela idade e também por uma queda que ela deu há una anos, mas que não lhe reduziu a coragem e a atividade. (…)».

[8] Decary (Raymond), Les voyages du lieutenant de vaisseau Frappaz dans les mers des Indes, Tananarive, 1939, ADR, Bib 1534/I, página 167.

[9] Petit Gascon, Pieux Souvenir, op.cit.

[10] Jean-Baptiste de Villèle, Notice biographique..., op.cit., páginas 24-25.

[11] ADR, L 421.

[12] Arquivos privados, correspondência de 14 de abril de 1824.

[13] Selon Henri Cornu (1904-1993), autor de estudos, artigos e conferências sobre Madame Desbassayns.

[14] «Peste» no sentido de pessoa rabugenta ou insuportável. (N. da T.)

[15] Encyclopédie de La Réunion, Éditions Livres Réunion, Saint-Denis de La Réunion, volume 6, 1980, página 110.

[16] Brizou (J.) et Desprès (M.-R.), Madame Desbassayns, mythes et réalités, memórias de licença, Universidade da Provença, 1978, ADR, 8J 26

[17] A proibição do tráfico, em 1817, tinha dificultado o aprovisionamento da mão-de-obra.

[18] Charles Desbassayns, Notes des Objets à Observer comme Moyens de Contrôle et de Surveillance, in Recueil de documents et travaux inédits pour servir à l’histoire des îles françaises de l’Océan Indien, ADR, janeiro 1984.

[19] Jean-Baptiste de Villèle, Notice biographique, op. cit., páginas 44-45 e 47. Bonne avec (ses esclaves), mais sans faiblesse et leur procure tout le bien-être que comportait leur position (…) mais (elle) exigeait d’eux obéissance et soumission, dévouement à ses intérêts, attachement pour ses enfants.

[20] Jean-Claude Leloutre, La Réunion département français, Éditions Maspéro, Paris, 1968 ; Cercle Éliard Laude, Réunion 1969 une colonie française, Éditions Maspéro, Paris, 1969.

[21] Hubert Gerbeau, Les esclaves noirs pour une histoire du silence, Éditions Balland, Paris, 1970 ; Les Cahiers de La Réunion et de l'océan Indien, imprimerie R.E.I., Saint-Denis de La Réunion, N°1, novembro-dezembro de 1972.

[22] Alexis Miranville, Madame Desbassayns, le mythe, la légende et l’histoire, Océan Éditions-Museu historico de Villèle, 2012.

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Autor
Alexis MIRANVILLE

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